Reinaldo Santos Neves observa-nos do píncaro. Estacionado, movimenta sua literatura de forma diversificada, absoluta, como se somente ele tivesse permissão para criar textos tão distintos. Para quem sabe do que falo, aí vai: o que Kitty, Jose e Sueli têm em comum a não ser o fato de terem brotado da fértil criação do criador? Quem são elas? Se você não sabe, procure: é um conselho dos bons. Não vai se arrepender. Uma dessas citadas senhoras — Jose — é a musa de Muito Soneto por Nada: cinquenta poemas que, segundo seu próprio autor, foram escritos entre 1988 e 1991, mas publicados em 1998.
São sonetos sem divisão estrófica e possuem um tema fundamental: a forma como o texto literário se constrói a partir da ideia fixa entre criador e criatura. Fazendo uso de uma linguagem ora mais acadêmica, ora coloquial, passando pela intertextualidade e pela ironia, Santos Neves cria mais que sonetos — cria um romance que, se não narrado de forma convencional, dá-nos uma visão de início, meio e fim de uma história de amor na qual somente um ama. Eis o óbvio destino daquele que cria. É lícito afirmar que a Pós-Modernidade se nutre de elementos intraculturais como cinema, publicidade, quadrinhos etc.
Reinaldo Santos Neves se utiliza desses elementos para compor não somente sua musa-personagem Jose, mas também servem de apoio para a criação de todo um ambiente em torno da situação amorosa. Referências como o documentário Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio, ou o filme Hannah e Suas Irmãs, de Woody Allen, constituem esse universo pós-moderno de que faz uso o autor. Franz Kafka, Hieronimus Bosch, o poeta norte-americano e. e. cummings, Federico Fellini, o escritor capixaba Renato Pacheco (na pele de seu personagem Fernão Ferreiro), os músicos de jazz Charles Mingus e Joe Pass, o lendário herói suíço Guilherme Tell são presenças que servem para criar a atmosfera pós-moderna dos poemas. O jazz, a Coca-cola (apresentada com maiúscula como ênfase ao símbolo consumista), o IRA, a pizza, Tântalo, o Santo Graal — todos elementos que perpassam o texto como adereços que compõem a poesia.
Reinaldo é um craque. Até para, ironicamente, ludibriar o leitor. Sua verdadeira musa não é Jose — e sim a própria literatura. Essa, sim, é esticada, comprimida, posta ao avesso e em pedaços, para depois refazê-la e, mais uma vez, ciclicamente, recomeçá-la. Jose, inatingível, apenas observa o que faz o criador. Se você não conhece Muito Soneto por Nada, corra atrás. Ainda há tempo.
Porque sou do tamanho do que leio, e não da minha estatura, aprendi com Reinaldo Santos Neves que não existe essa história de autoria, pois o que é de
um é de todos, e toda a literatura produzida na história tem uma só e única autora: a própria humanidade.
Essa é a visão generosa de quem cria textos que ficam para sempre – diferentemente da maioria de nós.
Reinaldo certa vez me disse que o destino do homem é tornar-se literatura. Eu iria além: Reinaldo criou a literatura e deu-lhe um destino: para sempre.
Reinaldo é absolutamente completo em qualquer gênero. Absurdamente bom em tudo que escreve. Sempre é uma imensa satisfação enorme encontrar e reencontrar a sua obra
E a cada reencontro – pelo menos é assim, comigo -, aparecem novidades que criam o ineditismo da leitura.
Quem primeiro me falou sobre os poemas de Reinaldo foi o editor Gustavo Felicíssimo. Ele ficou deslumbrado com o livro.
Tudo que Reinaldo produz é de grande qualidade.
“ Um escrito da cabeça aos sapatos” com disse Carlinhos Oliveira.
Minha admiração é imensa.
A literatura o consumiu absolutamente com seu próprio consentimento, é um amor de perdição. Por onde se navega na escrita de Reinaldo Santos Neves se depara com a paixão, o sexo, o cinema, a música, a politica, a cidade e logicamente a própria história. Tudo isso é usado conscientemente para compor, constituir, construir o edifício literário que pode ser lido e visto em várias camadas e andares. Clássico e contemporâneo seu estilo próprio é uma assinatura eternamente grafada em nossas mentes e corações, nós os capixabas, os americanos, os latinenses.
Há uma diferença fundamental entre o romancista — assim como o contista ou o poeta — e o crítico literário de feição mais cerebral. As distinções são muitas, é evidente, mas, para mim, a mais decisiva reside no grau de exposição. O escritor de ficção ou de poesia se despe, deliberadamente, de seu pudor; oferece-se ao leitor em estado de vulnerabilidade, colocando em jogo sua sensibilidade, suas obsessões e seus riscos. É justamente essa disposição para a exposição — para estar à beira do precipício do juízo público — que distingue o grande escritor. Quanto mais sensível e mais exposto, mais belo e perturbador tende a ser o texto.
O crítico literário, por sua vez, ocupa outra posição. Ele é o leitor que internaliza essa sensibilidade extrema e a devolve ao público sob a forma de análise, mediação e reflexão. Seu trabalho não é o da confissão, mas o da elaboração intelectual; não o do risco existencial, mas o da decantação crítica.
Quando li Sueli: romance confesso, vivi também uma experiência que antecedeu o texto: enfrentei uma longa fila e encontrei um autor silencioso, quase constrangido, que parecia sofrer diante da necessidade de encarar o leitor para escrever uma dedicatória. A leitura do romance, contudo, produziu em mim um impacto que ultrapassou qualquer curiosidade sobre a eventual realidade biográfica de um sofrimento amoroso. O que mais me marcou foi a composição do enredo, a arquitetura da escrita, o jogo de referências, a retórica cuidadosamente construída — muito mais do que a hipótese de uma dor pessoal que tivesse ensejado o livro.
Nesse sentido, tem inteira razão nosso mestre Francisco Grijó, sempre crítico e afiado, ao afirmar que a verdadeira musa de Reinaldo Santos Neves sempre foi a literatura. É ela — e não uma figura concreta — que ele eleva aos píncaros quando decide escrever, transformando a experiência sensível em forma, linguagem e obra.
Sueli inaugurou a pós-modernidade por aqui. O tom confessional, pouco explorado em terras capixabas, chegou e foi ao apogeu.
O professor Reinaldo dos Santos Neves é um artista das letras , um pintor impressionista , sua obra fala no nosso amago . um presente para nós escritores e poetas
Sim, Grijó! Reinaldo é um craque da literaura. E eu ainda acrescentaria que ele é também um curinga, porque joga bem, ou desfila, em várias posições.
Tenho uma profunda admiração pelo seu texto. Morte em V., seu livro mais recente, é um deleite.
Nunca será demais ler e recomendar a leitura da obra de Rei (essa era a forma carinhosa como seu pai o chamava).
Raríssimas foram as vezes em que li artigo de blog com status de ensaio. Esse é um: numa síntese, aborda, em todos os gêneros, o “ corpus” da obra reinaldiana: as referências tantas, as ironias, a fala até onde cala, etc. Ali Suely; ali Jose; ali Kitty. Ah, mulheres, mulheres…
Ah, só faltou versar a respeito justamente de ensaio, como aquele da revista Letra nº 1, em que RSN, também a demonstrar mestria e erudição, aborda mui equivocada tradução de T.S.Eliot, justo no notável poema “ The Waste Land”.
Ah, e só faltou citar, ao menos de passagem, o seu Mapa da Literatura no ES, um tesouro ! Mas a culpa não é do articulista=blogueiro, não ! A culpa é do varão escrivão varado em noites e dias a redigir como se, sob ordem de um Deus [ “ Vai, e escreve ! “] estivesse a registar o fim do mundo, enfim, uma grande história.
Ao fim, de pleno concordamos com o artigo de F. Grijó e com o autor enfocado: tudo deva redundar, ou girar no entorno, de uma grande mulher, a Literatura. (MT)
Sim, Reinaldo é um poeta de excelência. Um tradutor tão bom quanto. Lembro-me bem (eu tinha 19 anos e entrava no curso de Letras) quando adquiri a primeira edição da Revista Letra. Capa azul, pormas seus e de Marvilla. Textos ótimos de meus mestres Busatto, Renato e José Augusto. Sem contar a colaboração sempre erudita e precisa de Oscar. Reinaldo é gênio – e se fazia acompanhar de seus pares.
Reinaldo é Rei, Reinaldo é Santo, Reinaldo é neve. Por ele, tudo ! (MT)
Sim, para Reinaldo Santos Neves a literatura é ela mesma razão de viver. E escrever. Ao engendrar em sua prosa ficcional ou em seus versos trama, personagens, conflitos no espaço/tempo da criação, quase tal qual Orfeu, sua literatura segue adiante sem olhar para trás, levando consigo imaginação, poesia, invenção, histórias, muitas histórias, fantasia, desejo… Personagens e acontecimentos são urdidos com a mestria de quem conhece e vive, na plenitude de sua beleza, o “amor literário”.
Excelente! A verdadeira musa de Reinaldo Santos Neves é a literatura.
Temos conspirado para uma nova edição de MUITO SONETO POR NADA, vai sair em 2026. Esse não pode ser o mais difícil livro de se encontrar desse magnífico escritor brasileiro nascido e residente no Espírito Santo.