Carson McCullers revisitada

Gosta de ver Marlon Brando em ação?  E Elizabeth Taylor, tão bela que chega a doer os olhos? E os dois juntos, num filme dirigido por John Huston? Pois é: essa situação existe, e se chama – no Brasil – O Pecado de todos nós, um ótimo filme cuja temática gira entre homossexualidade reprimida, frustração no casamento e militarismo. No original, o título é Reflexo num olho dourado, e é baseado no romance homônimo de uma escritora pouco celebrada no Brasil, Carson McCullers. Uma cena congelada do filme:

Reflections in a Golden Eye: a “hothouse tale” of desire and simmering  violence | Library of America

Não é, entretanto, sobre a película que quero falar, mas sobre Carson McCullers, essa extraordinária escritora que morreu há exatos 55 anos, e que escreveu ao menos duas obras-primas: A Balada do Café Triste e O Coração é um caçador solitário, ambas lidas por este que vos fala no final dos anos 1980, quando eu ainda não tinha a certeza de se havia ou não melhor literatura, no século XX, do que a norte-americana. Hoje, tenho: não há, mas isso é apenas uma opinião. Ei-la:

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Livro: O Coração é um Caçador Solitário - Carson Mccullers | Estante VirtualSou fã da criatividade na estrutura textual – desde que não desprivilegie a história. Em O Coração…, cada capítulo traz o ponto de vista de um personagem diferente, embora o centro de tudo seja a personagem central: um homem surdo-mudo cujo nome é marcado pela ironia: John Singer. É visto como símbolo da beatitude numa cidade do interior, em que alguns selecionados moradores têm suas vidas expostas com habilidade ímpar pelo talento de McCullers. Um livro imenso, um texto que deveria ser obrigatório a todos aqueles que amam (ou dizem amar) a literatura. Há um filme – a que não assisti – baseado nele.

A Balada Do Cafe Triste - 9788525010261 - Livros na Amazon BrasilA Balada do Café Triste é um volume de contos. Na verdade, o conto-título é uma noveleta cujo tema é um triângulo amoroso composto por 3 figuras marginais: um anão, uma esposa abandonada e seu ex-marido, que retorna à cidadezinha para perturbar a vida de todos. Contos como Wunderkind, O Transeunte e Um Dilema Doméstico são pequenas obras-primas de leitura fácil, justamente porque deve ter dado um trabalho danado escrevê-las. Se puder, leia tudo – e de uma tacada. Para ficar, na memória, com o gosto de Carson McCullers durante um bom tempo. AQUI você lê a noveleta no original.

P.S. Há também um filme baseado nesse livro. Vanessa Redgrave brilha nele. Ao contrário do filme O Coração é um caçador solitário, esse eu vi.

Minha lista (devida)

Listas divertem – e somente isso. Divertem quem lê e quem a produz. Aquele que lê adora discordar, criticar, mandar às favas. Embora concorde com alguns pontos, prefere apontar, de fato, aquilo de que discorda. Comigo é assim. Deve ser assim com você também, prezado(a) leitor(a). Há algumas semanas, postei uma lista de discos escolhida por vários jornalistas espalhados pelo Brasil. Comentei-a, AQUI. Se quiser lê-la antes de ler a minha, fique à vontade.

Ressalto: não entraram na lista música instrumental ou clássica. Você perceberá também que nenhum dos discos envolvidos tem menos de 40 anos. Sim, é preferência minha. E não há somente MPB, como se pode observar. Canção do Amor demais é um disco de bossa nova, assim como Chega de Saudade. Entraram, contudo, na lista. Não sou tão purista quanto pareço. Ei-la:

ÓPERA DO MALANDRO – Teatro em Escala1. Ópera do Malandro, Chico Buarque. O disco duplo é a perfeição, da escolha dos intérpretes à confecção das canções. Algumas delas obras-primas, como Geni e o Zepelim, O Meu Amor, O Malandro e Uma Canção Desnaturada. E a ópera, que fecha o disco, é de fazer inveja a muitos escritores tarimbados. Arranjos do craque Francis Hime. Chico Buarque é o maior nome da MPB.

Alucinação de Belchior dialogando com a nossa época | LOID2. Alucinação, Belchior. Um disco em que brilham canções que ficarão para sempre – e olhe que nasceram entre 1973 e 1975! Exemplos? Como Nossos Pais, Apenas um rapaz latino-americano, A Palo Seco e Velha Roupa Colorida. Belchior é um dos melhores letristas do gênero, e este disco, em que quase todos os integrantes eram ligados ao rock, é seu apogeu.

Caetano Veloso – Bicho, 40 anos – linksonoro3. Bicho, Caetano Veloso. Todos os discos de Caetano entre 1969 e 1982 são ótimos, de modo que escolher este – de 1977 – não foi tarefa fácil. O que destaca? O Caetano absolutamente maduro e criativo. Canções como Tigresa, Gente, Um Índio, O Leãozinho e Alguém Cantando provam isso. Todas sensacionais: letra e música. Escolhi por conta delas.

Edu & Tom - Tom & Edu4. Tom & Edu, Edu Lobo/Tom Jobim. Junte Beckenbauer e Cruyff no mesmo time. Mal comparando, é mais ou menos isso. Dois maestros juntos, divertindo-se, cantando e tocando canções que eles mesmos eternizaram. Destaque para Vento Bravo, Chovendo na roseira, Pra dizer adeus e Luíza. Aliás, destaque para tudo, porque o disco é antológico!

Canção do Amor Demais – Wikipédia, a enciclopédia livre5. Canção do Amor Demais, Elizete Cardoso. Os fãs de Elis que me perdoem, mas Elizete é a maior cantora brasileira. Opinião particular – é óbvio. Agora imagine essa senhora sendo acompanhada por Tom Jobim e João Gilberto, pais da Bossa Nova! E imagine-a cantando canções de Tom & Vinicius! Se você aprecia o gênero, vais achar esse disco a obra-prima entre as obras-primas. Arranjado por Tom, todas as faixas são excepcionais. Bem, afinal é Elizete cantando.

Chega de Saudade - João Gilberto - LETRAS.MUS.BR6. Chega de Saudade, João Gilberto. Pois é: disco icônico, fundamental, do qual – confesso! – só fui realmente gostar após tê-lo ouvido na vida madura, nos meus quarenta e poucos. Sim, é revolucionário, criou um outro modo de se cantar samba, e gerou uma filharada que se mantém até hoje. Claro que algumas letras são bobinhas, infantis, mas o que conta é como se canta e como se toca. É um mundo que se abre, em 1959. Se você pensa que esse mundo fechou, erra.

Há 45 anos, Jards Macalé reunia | Podcast | Rádio Brasil de Fato7. Banquete dos Mendigos, Jards Macalé. Um disco-manifesto, comemorando os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Emblemático, representou a reunião de vários nomes: Chico Buarque, Gal Costa, Johnny Alf, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Jorge Mautner, Raul Seixas, Gonzaguinha, Milton Nascimento, Toninho Horta e, claro, Jards Macalé. Muita gente boa junta: difícil não sair algo fenomenal.

Refavela: como o álbum de Gil revolucionou a MPB nos anos 708. Refavela, Gilberto Gil. Por que não discos extraordinários como Refazenda, Um Banda Um, Nightingale ou Dia Dorim Noite Neon? Bem, primeiro porque Refavela também é extraordinário. Em segundo lugar, porque foi o primeiro disco de Gil que comprei, em 1979, dois anos depois de ele ter sido lançado. A relação é pessoalíssima. Não precisaria nem citar que Balafon, Sandra, No Norte da Saudade e a faixa-título são primores textuais.

Antologia - MPB 4 - Álbum - VAGALUME9. Antologia, MPB4. Gosto de todos os discos do MPB4, sem exceção. Nunca fizeram nada que me desagradasse. Os fãs do quarteto – se é que lerão esta postagem – vão torcer o nariz, afinal, como uma antologia pode ser o melhor disco? Pois é. Mas juntar pot-pourri de Ismael Silva, Ataulfo Alves, Chico Buarque, Tom Jobim, Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, Monsueto, Dorival Caymmi e Baden Powell não é pouca coisa. E a afinação do quarteto é coisa de outro mundo. Discaço!

Milton Nascimento, LP Duplo Clube Da Esquina 2- Série Clássicos Em Vinil  [Disco de Vinil]: Amazon.com.br: CD e Vinil10. Clube da Esquina 2, Milton Nascimento. Sim: acho o número 2 melhor. Gosto daquele que ficou em primeirão, no juízo dos jornalistas. Prefiro este porque Canção Amiga, Casamiento de Negros, Credo, Paixão e Fé, Maria Maria e Tanto estão nele. E, claro: Canción por la unidad de Latino America, em companhia de Chico Buarque, com um show de Wagner Tiso. Política e arte nas alturas.

Se quiser enviar a sua lista, sinta-se convidado(a) a fazê-lo.

Clarice entrevista

Clarice Lispector é um quindim na boca da crítica. Um pastel de Belém, um yoku moku, um baklava. É querida – não sem justiça – por um sem-número de acadêmicos que consomem suas palavras como se elas tivessem brotado do Evangelho. Enfim, há quem discorde. Eu, por exemplo. Reconheço que essa senhora sabia escrever, respeito-a como criadora, mas, para mim, é chatinha. Faltam-lhe bom humor, sarcasmo, ironia. É séria demais, atendo-se a emaranhados psicológicos e fluxos de consciência um tanto gratuitos. Claro que é apenas uma opinião. Como diz uma amiga evangélica, ao saber que será repreendida: “Lá vem cajado!”

Apesar de tudo, aprecio bastante um de seus livros (na verdade não é seu, mas organizado para que fosse) que, distante da ficção, mostram uma outra Clarice: a jornalista, a entrevistadora, a sensível e certeira inquiridora. Ao dizer sensível, quero afirmar, e afirmo, que a célebre escritora conseguiu, em conversas pouco protocolares, obter de seu entrevistado(a) aquilo que existe de mais interior, de mais suavemente escondido, aquilo de que jornalistas do senso comum passam longe. As entrevistas, publicadas pela antiga revista Manchete, foram feitas em pouco menos de 1 ano e meio.

Entrevistas | Amazon.com.brSão 42 entrevistados: gente da literatura, da música, das artes (cênicas e plásticas) e do esporte. Engana-se quem imagina que ela se sinta mais à vontade com seus pares – escritores, poetas e dramaturgos. As melhores entrevistas, a meu ver, foram feitas com o escultor Mário Cravo, com a atriz Tônia Carrero e com o pintor Iberê Camargo. Claro que isso é apenas opinião. Há pérolas proferidas por Antônio Callado, por Jece Valadão (num breve papo), pelo sempre ótimo cronista José Carlos de Oliveira. E por aí vai.

Há um certo romantismo nas questões levantadas por Clarice. Algo de quase ingênuo, de quase simplório, mas que obtém respostas singulares: algumas delas surpreendentes, como quando pergunta ao escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues sobre sentir-se realizado como escritor. A resposta: “Eu me considero inversamente um fracassado. Não me realizei e nem acho que alguém se realize. O único sujeito realizado é o Napoleão de hospício, que não tem Waterloo nem Santa Helena.” É isso aí, Nelson! Obrigado, Mme. Lispector!

Guy, o cara

Guy Ritchie | Moviepilot.deGuy Ritchie fará 53 anos amanhã, dia 10 de setembro. Não, não é só ex-marido de Madonna, como muita gente acha. É um cineasta de primeira, que dirigiu três filmaços dignos de entrar em qualquer lista em que o sarcasmo, o deboche e a iconoclastia sejam prerrogativas. Quais são eles? Pela cronologia, Jogos, trapaças e dois canos fumegantes, de 1998; Snacth – Porcos e diamantes, de 2000; e Rocknrolla, de 2008. Sem trocadilhos, Guy é “o cara”, que parece divertir-se ao contar histórias – afinal, em dois desses três filmes ele foi o roteirista. Pois é: sabe escrever.

Como a maioria das pessoas, assisti aos três filmes separadamente, em épocas distintas. Já tomei providências para assistir a eles, em sequência. Comprei os blu-rays, os quais devem chegar em poucos dias, para o deleite solitário de quem quer ver rock and roll em forma de película. Sim, o que Guy Ritchie faz, em minha humilde opinião, é música em forma de cinema. E música veloz, com mudanças de andamento, de vocalização grave, com a marcação paquidérmica da bateria, com guitarras gritando alto.

Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes | Uma Dose de Cinema

Meu preferido é justamente o primeiro: o arrebatador Jogos, Trapaças e dois canos fumegantes. Carregado de humor – um dos pontos fortes de Guy Ritchie -, o filme é uma homenagem às tramas norte-americanas que aliam gangsterismo a marginais um tanto ingênuos, mas ambiciosos porque a contravenção pode compensar, desde que bem pensada. Os dois ex-atletas Jason Stathan e Vinnie jones estão nele, assim como também se fazem presentes em Snatch – Porcos e diamantes. Bem, mas nesse quem brilha é Brad Pitt, boxeador cigano de um soco só. Ah, claro: Dennis Farina e Alan Ford fazem parte da grande festa.

Rocknrolla é o rock per si. Da trilha sonora à trama, envolvendo um cantor punk e drogadíssimo cujo pai adotivo é um gângster envolvido com bandidagem russa e com políticos corruptos. É outra festa, da qual fazem parte escroques, parasitas, mafiosos e, claro, advogados. A velocidade narrativa, os recursos fílmicos e as personagens cínicas fazem do filme um clássico recente, mesmo sendo o tema algo tão batido quanto um solo dos Ramones. E Mark Strong, Gerard Butler, Idris Elba, Tom Hardy e Toby Kebbell ainda não tinham sucesso mundial. Vale ver e rever, tenha certeza!

Músicos pintores #1: Miles Davis

Não é incomum um artista, já sacralizado em seu ofício, aventurar-se numa outra arte, nunca antes visitada por ele. E menos incomum ainda é ver gente ligada à música conectar-se à pintura, como se essa conexão fosse visível e compreendida por gente comum, desligada da criação artística. Ron Wood, dos Stones; Dee Dee Ramone, dos Ramones, Joni Mitchell e Bob Dylan deram pinceladas que foram celebradas, ora por seus fãs, ora por gente especializada no assunto. O primeiro desses aventureiros merece destaque, a meu ver: Miles Davis. Veja só o que o jazzista produziu:

Miles já havia transformado uma de suas telas em capas de disco. Amandla é um exemplo. Não consigo, e isso pode ser uma falha minha, conectar seus quadros ao jazz, como se audição e visão se misturassem numa sinestesia óbvia. Nos quadros de Miles Davis, há alguma coisa de Basquiat, e não somente algo que se conecte à negritude ou à marginalidade. O exercício da abstração, aliado ao senso de expressão subjetiva, sugere influências de Kandinsky e da arte tribal africana. AQUI você fica sabendo mais.

Miles Davis levava a pintura a sério. Ele mesmo dizia que a pintura era a música que podia ser vista, enquanto a música era a pintura absorvida pela audição. Essa ideia não é de fácil percepção, até porque o próprio músico dedicou-se à pintura por considerar sua carreira como músico terminada. Ou seja: é possível que seus quadros exprimam justamente essa angústia – mas isso, a meu ver, nada significa para quem se depara com eles. O que interessa é o que vemos; não o que o pintor quer exprimir. Estou falando o óbvio.

Jo Gelbard, pintora e professora, orientou Miles, aceitando o desafio de fazê-lo libertar-se de fantasmas que habitavam seu passado. Chegaram a criar juntos, de forma colaborativa. Ela mesma afirmava que “tentava fazer Miles ocupar a mente com elementos positivos quando não estava produzindo música.” AQUI está uma entrevista interessantíssima com ela. Tiveram um envolvimento amoroso que foi bom para ambos, tendo a pintura como leitmotiv e como consequência. Bom para os dois; bom para nós.