Descanse, Sean!

Vc se divertiu um bocado, não?!
Blog do Grijó
Descanse, Sean!

Vc se divertiu um bocado, não?!
Quem é o maior cantor popular norte-americano? Eu diria Sinatra, meu xará. Além de ser tecnicamente perfeito, é meu preferido – o que faz com que meu julgamento seja, evidentemente, questionável. Sinceramente? Acho que poucos questionarão. Bem, há outros que mereceriam o posto: Johnny Hartman, Louis Armstrong, Nat King Cole, Sammy Davis, Jr., Tony Bennett. Há, entretanto, um outro que, para muitos, é o maior de todos, inclusive para o próprio Sinatra: Bing Crosby.
Calma: deixei os vocalistas rock de fora, até porque o rock é um gênero que não exige que o cantor seja realmente grande coisa. Claro: exceção para um dos maiores cantores em qualquer gênero: Elvis Presley. Mas por que estou fazendo toda essa introdução? Porque hoje, 14 de outubro, faz 43 anos que o mundo perdeu Bing Crosby. Há alguns meses adquiri, em vinil, a caixa com 4 discos desse extraordinário cantor: Bing Crosby and Friends. Ei-la:

É uma grande festa. Uma compilação de grandes gravações em duetos e trios. Gente do quilate de Rosemary Clooney, Nat King Cole, Peggy Lee, Judy Garland, Maurice Chevalier e mais um punhado de craques – o filho Gary Crosby incluído. Há uma gravação de Surry with the Fringe on Top, com Hellen O’Connel que é uma beleza. Ah, claro, nem tudo é dueto. Crosby canta How are Things in Glocca Morra e That Old gang of Mine sozinho. Duas pérolas.
E se você tem dúvidas quanto a comparações com aqueles senhores citados no primeiro parágrafo, ouça e veja ISTO. Faz parte de uma das melhores comédias musicais já feitas, Robin Hood de Chicago. Estão lá Frank Sinatra, Sammy Davis e Dean Martin, todos contracenando com Bing Crosby. Ainda prefiro meu xará, mas o protagonista desta postagem – preciso confessar – é melhor. A propósito: com Louis Armstrong, Bing Crosby faz um dueto que ninguém deveria desconhecer. Se puder, aproveite!

A morte de João Cabral de Melo Neto chegou à maioridade. Há 21 anos morria aquele que, em minha opinião nem sempre levada a sério, é o maior poeta brasileiro de todas as épocas. Deixa Gregório, Castro Alves, Bilac, Augusto dos Anjos, Vinícius, Cecília e Drummond para trás, empatados em 2º lugar. Enfim, é opinião. Não vou tecer comentários sobre ele porque, para muitos, qualquer frase acerca desse enormíssimo poeta poderia ganhar ares didáticos. Este blogue não é para isso. Então, vão aí 3 poemas escolhidos, dentre tantos extraordinariamente bem escritos. Escolhi-os baseando-me (repito) no gosto pessoal. Coincidentemente, estão todos contidos no livro A Educação Pela Pedra, de 1966.
A propósito: deixei de fora Morte e Vida Severina. Além de longo, e por isso seria complicado reproduzi-lo aqui, seria covardia com qualquer outro poema – do próprio João, inclusive. O primeiro: solidariedade, coletivismo. O segundo: realidades que se contrapõem. O terceiro: uma aula improvável de metalinguagem. Ave, João!
“Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.”
(Tecendo a Manhã)
“Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, frequentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma”.
(A Educação pela Pedra)
“Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.”
(Catar Feijão)
Meu querido amigo – admirador e conhecedor profundo do rock – Alfonso Favalessa, professor da área exata, enviou-me uma mensagem na qual Geddy Lee, baixista e líder da banda canadense Rush, afirma, com todos os fonemas, que Who’s Next, álbum de 1971 da banda The Who, é o melhor disco de rock de todos os tempos. Você encontra a entrevista AQUI. Eu não sou daqueles especialistas no rock cujas opiniões definem o gênero. Longe disso. Meu amigo Favalessa é.
Já escrevi sobre o Who aqui, neste blogue. Foi lá no começo, em 2017. Repito um dado que considero fundamental: Keith Moon e John Entwistle são, a meu ver, o maior baterista e o maior baixista do rock. Sim, respectivamente. E digo mais: Pete Townshend é o melhor compositor que há, no gênero. Melhor que Dylan, melhor que as duplas Lennon/McCartney e Jagger/Richards. Claro que é opinião pessoal, e minha opinião vem com um aval poderoso: Geddy Lee concorda comigo. Isso está na entrevista também.
Sei que é difícil dizer qual o melhor disco de rock que existe. Além da infinidade de grandes discos, muitos deles concentram-se em determinadas épocas, e sob determinadas perspectivas culturais. Como comprovar que Chuck Berry é melhor que Tony Iomi? Ao comparar essas duas lendas, claro, a subjetividade prevalecerá. Aproveitei para (re)ouvir Who’s Next. Sinceramente? Não há canção ruim. Ao contrário: com exceção da curtinha Love Ain’t for Keeping, todas – rigorosamente todas! – são obras-primas.
Tenho Who’s Next em vinil e em cedê, que traz faixas adicionais, gravadas naquele mesmo ano, mas não durante a enxurrada de gravações que deram origem ao disco original. Naked Eye, Pure and Easy e Water são ótimas, mas a razão de não terem entrado na seleção em vinil é óbvia. Não estavam no mesmo nível. Geddy Lee deve saber disso, assim como Favalessa. Ouvindo mais uma vez – como agora faço – fico na dúvida quanto a meu julgamento. Mas qual, você pergunta. Até o momento, eu considerava Abbey Road, dos Beatles, e Electric Ladyland, de Hendrix, os melhores discos de rock que conheci. Acho melhor reavaliar. Obrigado, Geddy!
A propósito: se você quer saber as histórias acerca do álbum, clique AQUI.