
Mês: julho 2018
Cyro, Elizeth, Chico (Fla-Flu)
Eu não conhecia Cyro Monteiro até Chico Buarque de Holanda me apresentar. Comigo foi quase sempre assim: uma referência faz brotar um punhado de outras. Chico me levou a Caetano, a Gil. Ambos me levaram ao Tropicalismo – que me levou a Gal Costa, a Torquato Neto e a Capinam; este último me fez conhecer Edu Lobo, que expôs Vinicius, Baden e Elis Regina a mim. E assim por diante, numa cadeia infinita de grandes nomes da música brasileira. Mas volto a Cyro Monteiro, que morreu num 13 de julho, há 45 anos. Não há muita coisa disponível dele, em cedê. Tenho o que todos que o apreciam têm: o disco da série Aplauso, uma compilação feita pela BMG há uns vinte anos. Não é suficiente, mas traz Se Acaso Você Chegasse, Falsa Baiana, Rugas, Pisei num Despacho e Apresenta-me Àquela Mulher. Só isso já basta para colocá-lo no panteão dos ótimos intérpretes. Em vinil, tenho Sr. Samba e o volume 2 de A Bossa Eterna de Elizeth e Cyro.
Certo, certo: pouca gente aprecia essas gravações antigas desses intérpretes (para muitos) obscuros. Sei disso. Há gravações mais nítidas, mais audíveis a ouvidos desacostumados: é o caso desse medley abaixo, acompanhado pela maior cantora brasileira, Elizeth Cardoso. Essa gravação, de 1969, é a junção de grandes sambas: Nega do cabelo duro, Ando cheio de conversa, Cansei de Pedir, Ta-hi (Taí), Não quero mais amar a ninguém, Se a saudade me apertar, Adeus Batucada e Arrasta a Sandália. E aproveite para ouvir Tem de Rebolar. Uma maravilha contida no disco mencionado da dupla! Observe que na foto Cyro se faz acompanhar por seu instrumento inseparável: uma caixinha de fósforos, com a qual fazia a percussão.

Há uma história sensacional envolvendo Cyro Monteiro e o compositor carioca Chico Buarque: Cyro era flamenguista feroz; Chico, um tricolor voraz. Quando a primeira filha de Chico e Marieta Severo nasceu, Cyro enviou a ela, à pequena Sílvia, uma camisa do Flamengo. Chico respondeu a provocação da forma mais conveniente e bem-humorada possível: escreveu um samba, cujo título é Ilmo. Sr. Cyro Monteiro ou Receita para virar casaca de neném. Eis a letra (para mim, obra-prima):

Norman Lindsay: imagens, tesão, delírio
Você conhece Norman Alfred William Lindsay – ou simplesmente Norman Lindsay? Não? Pois ele é o autor de O Pudim Mágico, um conto clássico da literatura australiana, no qual um pudim dotado de pernas e braços sempre se refaz quando comido. É protegido, quando ameaçado, por 3 amigos: um pinguim, uma koala e um marinheiro. Foi publicado há exatamente 100 anos, e continua divertindo. Há uma animação que nele se baseia, com o extraordinário John Cleese no papel principal: o do pudim. AQUI, o trailler. Mas não é sobre isso que quero falar – e sim sobre seu autor e os desenhos e pinturas que ele produziu. Sim, Norman Lindsay era um pintor de primeira, além de desenhista, escritor, escultor, gravurista, editor, ilustrador. Nas horas vagas, lutava boxe. Eis do que ele era capaz, numa pintura a óleo de 1919:

Norman Lindsay viveu 90 anos, e dedicou boa parte de sua arte à transgressão. A despeito de qualquer tipo de censura ou contrariando normas estabelecidas pela moral, criou situações em que o lúgubre, o fantástico e o sexo se misturavam a uma atmosfera de deleite pervertido. Não, não encare a palavra pervertido como algo condenável. A perversão, aqui, é absolutamente necessária à obra de arte. Ainda bem! O quadro abaixo, intitulado Bacchanalian Revels, de 1940, dá o tom de como se cria beleza a partir da amoralidade. É sempre bom saber que a arte se presta esse papel.


Acima, Début, de 1920, uma referência indireta à nova ordem que se instaurava na Europa – e por que não dizer, no Ocidente? O pequeno sátiro endiabrado levando pela mão a jovem virgem a um destino cruel e pernicioso. Lindsay sabia o que pintava e nunca se opôs a interpretações políticas de seus quadros, embora negasse qualquer intenção que não fosse o próprio prazer de pintar. Abaixo, uma pintura de 1940: Incantation. Poucos pintores retrataram a nudez tão gravemente. Pode checar na pintura logo após: Love on Earth, de 1940: tesão, medo, felicidade, Inferno e Paraíso.



A Canção do Fauno, de 1921, acima, foi a pintura que me fez buscar a obra de Norman Lindsay. Um amigo me apresentou, afirmando que queria aquele tipo de ilustração na capa de um de seus livros. Um espetáculo sensorial, movimentado, visual, quase sonoro. Talvez essa tenha sido a intenção do artista. Abaixo, The Challenge, uma obra-prima sem data e sem homens. O desafio é a exposição da nudez e o confronto entre belezas de cores de pele distintas. Outro espetáculo visual.



The Invitation e Os Piratas são duas pérolas do erotismo. Em ambas as telas o confronto entre a masculinidade opressora e a potência sedutora de feminilidade. Esse tema é recorrente tanto nas pinturas de Norman Lindsay quanto em sua literatura. É o caso de seu romance Redheap, livro banido da comunidade intelectual australiana por quase 30 anos. Amor lascivo, tesão aberto, perversões. O que há de tão errado nisso hoje em dia? Há 50 anos se dizia que havia. Se você não conhece a literatura de Norman Lindsay, não se acanhe. Aproveite as imagens.