O tri aos 8 anos

Em 1970, mês de junho, eu era um menino de oito anos. De costas para a tevê, enquanto o escrete brasileiro enfrentava a Checoslováquia — era o primeiro jogo do Brasil na Copa do México, em 1970 —, eu desenhava, dentro das minhas limitações, o Superman numa folha em branco. O gol de Petrás, atacante checo, fez minha mãe exasperar-se: não pelo gol do adversário, mas pela imagem do jogador benzendo-se catolicamente na lateral do campo, comemorando o tento. “Comunista não se benze!”, esbravejou. Essa é minha primeira lembrança da Copa 70, o torneio no qual o time brasileiro tornou-se campeão. Já atento ao jogo, vi o Brasil pulverizar os comunas.

A partir daí acompanhei os jogos ao lado do meu pai, fã de futebol, com quem aprendi sobre o assunto — do Cruzeiro de Tostão à mortal linha de ataque do Botafogo; dos passes de Gérson à patada  atômica de Rivellino. E, claro, sobre o maior de todos os craques: o rei Pelé. Entre um jogo e outro, eu aprendia. Superman saiu de campo, e o futebol passou a jogar. Mas por que esse momento saudosista, neste texto? Porque assisti, via Netflix, à minissérie Brasil 70: A Saga do Tri. Cheguei a emocionar-me: voltar no tempo por meio de boas lembranças é um privilégio.

Bem, e a minissérie? É ótima, mesmo que os detratores afirmem que Pelé é interpretado por alguém 15cm mais alto. E daí? Rodrigo Santoro como João Saldanha? E daí, novamente? São detalhes — ou seja, não têm muita importância. O que vale é o feito: havia uma dívida do cinema brasileiro com o futebol doméstico. Apesar do ótimo Boleiros e do documentário Isto é Pelé, faltava uma obra capaz de mostrar o que representou a seleção brasileira principal num momento politicamente tão conturbado. Havelange é retratado como ele realmente era. E o sanguinário ditador Emílio Garrastazu, que aparece apenas como voz?

Gostei da minissérie — e gostei muito. Os lances de gol, com a câmera acompanhando a trajetória da bola até seu destino final são um achado. Aplausos para os diretores Paulo Morelli, Quico Meirelles e Pedro Morelli. E os jogadores? Pelé e Rivellino têm sósias. Zagallo e suas superstições dão o toque de humor. Saldanha enfrentando os milicos é um ótimo contraponto, e as cenas nos vestiários são absolutamente verossímeis, revelando as tensões, os receios e o trauma de 1950. Lamentei não haver imagens dos dois gols de Tostão contra o Peru, nas quartas de final, mas tudo bem. Vale assistir. Se você que lê é um sessentão — daí pra frente! —, e se apreciar o ludopédio, vai se emocionar também. Voltei a meus 8 anos, e isso foi bom.

Este aqui é Bobby Timmons

Este aqui é Bobby Timmons

Bobby Timmons morreu no dia 1º de março, há 42 anos. É um dos grandes pianistas de um gênero, o jazz, cujo instrumento — o piano — é sempre estimado. É algo ancestral: lembra a música clássica, o homem diante das teclas, o som puro e de rara beleza. Timmons, por sua vez, é menos celebrado. Thelonious Monk, Duke Ellington, Bud Powell e Bill Evans estão no panteão, bem acomodados. Por mim, Bobby Timmons faria companhia a eles, principalmente porque — mais uma vez em minha opinião — sua mão direita tem pouquíssimos rivais, no jazz. Sem falar no suingue e na precisão com que marca a melodia. Neste momento em que escrevo, como uma homenagem, ouço This Here is Bobby Timmons (capa ao lado).

Se você curte jazz, conhece pelo menos um dos temas imortais de Timmons: Moanin’, que deu origem a um dos grandes discos do baterista Art Blakey. É, aliás, o título do disco, em que os mensageiros do jazz — incluindo Bobby Timmons — faziam a festa. O disco e o tema são clássicos: referências inevitáveis em qualquer coletânea de quinteto ou sexteto. Não conhece? Eis:

Play

Bobby Timmons se mostra, absoluto, a partir dos 7:02, num solo que dura quase 4 minutos de raríssima beleza e talento. É o dono da música, a qual, dizem, compôs num único dia. Observe que titãs do calibre de Lee Morgan e Benny Golson, estáticos, ouvem o som celestial. Art Blakey, dono da bola e do time, dá um risinho de admiração plena. Timmons é o gênio da raça.

Timmons gravou com grandes craques: além de ter feito parte dos Jazz Messengers, de Blakey, tocou com Chet Baker, com os saxofonistas Dexter Gordon, Johhny Griffin, Sonny Stitt e Hank Mobley. Fez um impressionante duo com o guitarrista Kenny Burrell em dois discaços — Blue Lights, em dois volumes. No início de carreira, tocou com os exigentes irmãos Adderley, Nat e Cannonball, e a estupefação tomou conta dos dois. Sabiam que aquele pianista era uma pérola.

Bobby Timmons DVDs - Blue SoundsA faixa This Here, que se combina ao título do disco, é um primor. Alegre, precisa, suingada: é a antessala de um subgênero que Bobby Timmons ajudou a criar: o soul jazz, e foi um sucesso comercial de que pouca gente, no jazz, usufruiu. Talvez Brubeck; talvez Miles. Se não conhece, tecle AQUI. Acompanhado pelo baixista Sam Jones e com Jimmy Cobb nos couros, é um dos ótimo discos de trio de jazz que conheço. A propósito, ouça o disco inteiro. É melhor, e faz justiça a esse enormíssimo pianista. Saravá, Bobby!

 

Antes do sétimo dia, Macalé!

Antes do sétimo dia, Macalé!

Não se pode cobrar de um artista, em qualquer área de atuação, que ele se comprometa com alguma causa política. Quando ele o faz, entretanto, os efeitos colaterais são previsíveis — tanto positiva quanto negativamente. Há quem diga que a arte deve privilegiar a estética, e seu envolvimento com questões sociais e ideológicas não só a prejudica como a torna ineficaz. Isso é um erro. A arte pode — e talvez até deva — espelhar o que é o homem, e dissociar esse mesmo homem de seu ambiente sociopolítico é, para dizer o mínimo, mutilá-lo em seu propósito: viver. Claro que isso é apenas uma opinião, sujeita a pedradas e a afagos.

Por quer digo isso? Porque faz 5 dias que o genial compositor Jards Macalé nos deixou. Durante mais de 60 anos, ele fez o brasileiro saborear a mistura de música de qualidade + bom humor + ironia + humanidade. Ao lado de outros gênios da MPB, foi além do que era esperado: brindou fãs e detratores com o que havia de melhor na arte musical. Eis a questão: por que abordei, no primeiro parágrafo, o envolvimento social de um artista? Porque em 1973, nos estertores do governo Médici, Macalé fez o que era necessário: juntou um grupo de músicos e, em comemoração aos 25 anos da Declaração Universal dos direitos Humanos, trouxe ao mundo este disco, ao vivo:

O BANQUETE DOS MENDIGOS

Há quem diga que tudo não passou de uma piada, e que Macalé só queria faturar, já que estava quebrado, sem grana sequer para uma cervejinha, segundo as próprias palavras. Importa tanto isso? Um show em benefício próprio? Esta postagem vai por outro caminho, e mostra que, mesmo brotando do anedotário, vale a pena levar em conta o aspecto humanista do evento. Em 1974, quando lançado, o disco foi censurado e apreendido. Previsível: a truculência, levada ao extremo pelos militares, ainda estava na ordem do dia. Cinco anos depois, veio ao mundo, álbum duplo, gravado clandestinamente pelo baixista Bruce Henry do grupo de rock Soma, que participou do show. Quem foi a ponta-de-lança do evento? Jards Macalé, que convidou a rapaziada da capa do disco para um banquete, e o que se serviu foi uma reunião de cantores e compositores somente comparada, em termos de qualidade artística, ao evento Phono 73, sobre o qual escrevi há alguns anos. Leia AQUI, caso queira.

Os 50 anos do 'Banquete dos Mendigos', ato contra ditadura - 09/12/2023 - Ilustrada - Folha

Eu conhecia o disco desde o início dos anos 1980, já tinha ouvido mais de uma vez — na casa de um meu compadre que, muito tempo depois, presenteou-me. É disco raro, necessário, que expressa o questionamento do início do texto: qual o papel — também — do artista: comprometer-se com as demandas de seu tempo e lugar, posicionar-se politicamente, abster-se da individualidade, associar-se ao que considera legítimo e humanista. Jards Macalé foi um artista dessa espécie. Somos obrigados a viver com a sua ausência — mas temos a  sua memória e o que ele eternizou. Valeu, Macalé!

Castro, Jobim: textos curtos demais

Volto a Antônio Carlos Jobim — e também a Ruy Castro. Já escrevi sobre os dois, aqui, neste blogue que poucos leem. Há alguns anos imaginei que meus leitores fossem seis ou sete. Hoje já solto fogos quando alguém aparece por estas cercanias. Desabafos à parte, vamos a Tom & Ruy. Acabo de ler O Ouvidor do Brasil — 99 vezes Tom Jobim, do jornalista-escritor-biógrafo-imortal Ruy Castro. Li de uma tacada: 220 páginas com 99 crônicas – todas elas curtas – que versam sobre o maestro. Falei errado: nem todas versam. Algumas apenas citam. Lendo a introdução, o cronista foi sincero: “Em alguns [textos] a presença de tom poderá parecer de passagem.” É verdade.

Tom Jobim é realmente um craque. Uso o presente do indicativo porque obra e autor, aqui, mostram-se confundidos, metonímicos: sua obra não morre, de modo que o criador mantém-se entre os vivos. Ruy Castro também é craque, e já mostrou isso escrevendo sobre Bossa Nova, sobre Garrincha, Nelson Rodrigues, Carmen Miranda. Escreveu sobre Ipanema, sobre o samba-canção e sobre alguns selecionados artistas do século XX. Escreveu sobre filmes, sobre música e sobre literatura. É homem de repertório farto.

Em O Ouvidor do Brasil há um problema — que não se encontra em nenhum outro livro de Ruy Castro (talvez em Ela é Carioca, mas isso merece uma postagem única). O texto curto não lhe faz bem. Ele é bom quando tem tempo para escrever, quando mergulha fundo naquilo que elegeu como assunto e como obsessão. É preciso, para esse mergulho, muito fôlego — e ele tem isso de sobra. E quando é obrigado a vir à tona, para respirar e tomar sol? Os textos, publicados entre 2007 e 2023, na Folha de São Paulo, obrigaram-no a sintetizar algo que não merecia síntese. Pode ser que muitos tenham apreciado sua capacidade de falar muito com poucas palavras. Eu, não.

Ao final de boa parte das pequenas crônicas, fiquei com aquela sensação de que o autor teria feito um trabalho muito melhor caso tivesse mais duas páginas — apenas duas, não mais que isso. A linguagem de Ruy Castro se mantém clara, irônica, bem armada, por vezes mordaz. É sua vantagem e nosso privilégio. Limitá-la (e tenho certeza de que a responsabilidade é do veículo, a Folha) é um pecado. Mesmo assim, merece ser lido — afinal, quantas oportunidades temos de ver um craque falar do outro?

Chico, o mensageiro

O extraordinário Art Blakey é, para muitos apreciadores do jazz, o melhor baterista do gênero. Eu prefiro Louis Hayes e Max Roach, mas não é isso que interessa. Um dos grandes feitos de Mr. Blakey foi ter levado o jazz a quem não o conhecia — ou, ao menos, a quem não tinha informações suficientes sobre o que era aquela música. Criou os Jazz Messengers em 1955, com o auxílio luxuoso do não menos extraordinário Horace Silver, pianista de primeira.

Mas não é sobre o jazz que quero falar — e sim sobre o mensageiro. Ou seja, aquele que leva a informação e a dissemina. Vou explicar direito. Em 2024, ano corrente, Chico Buarque de Holanda completou 80 anos. Homenagens em redes sociais, tevês, jornais impressos ou não. Depoimentos de amigos, de críticos, de produtores musicais e de irmãos de armas. Por falar em irmãos, a família manifestou-se: como não admirar seu mais ilustre membro? É minha vez de agradecer. E falo com tranquilidade: obrigado, mensageiro! Vou explicar direito mais uma vez.

Em dezembro de 1978 eu era um rapaz de 16 anos que ouvia rock (obrigações adolescentes), disco music (influência da época) e as big bands norte-americanas, das quais meu pai era fã. Nesse mesmo dezembro, Chico Buarque — de quem eu apenas ouvira falar — lançou o disco Chico Buarque, o famoso disco da samambaia, em cujos sulcos brilhavam Cálice, Até o Fim, Trocando em Miúdos, Tanto Mar, a tristíssima Pedaço de Mim, a censurada Apesar de Você e outras. No outro ano, em seus primórdios — últimos dias de janeiro —, coloquei o disco na vitrola e a epifania veio à tona. Sim, foi um momento epifânico, revelador. A ponto de eu ignorar, quatro anos depois, a música de minha geração, o BRock.

Mantive-me na MPB, ao contrário da maioria dos amigos, que foram na onda de Paralamas, Titãs, Plebe Rude, Legião Urbana, Camisa de Vênus e mais algumas tantas. Para mim, uma estrofe de Chico valia mais do que tudo o que Renato Russo e Herbert Vianna escreveram. Ainda vale. E o mensageiro? Bem, Chico me levou a Caetano, a Gil e a Vinícius, de imediato. Depois, a Edu Lobo, a Toquinho, a Francis Hime, ao MPB4 e aos sambistas da velha guarda. Merece medalha, merece homenagem, merece agradecimento. Sem Chico Buarque, eu estaria ouvindo o quê? Dinho Ouro Preto? Humberto Gessinger? Valeu, Xará, pelo livramento!

Ave, Luiz Guilherme!

Luiz Guilherme Santos Neves não está mais entre nós. Ou continua conosco, sim, na memória — que é lugar de eternidade e devoção. Foi amigo de meu pai; depois, meu. Aprendi — ou penso que aprendi — a escrever lendo seus livros, tentando imitar a elegância que Impunha às palavras, às frases, aos parágrafos. O ritmo, então, era algo natural e inimitável: tanto na fala quanto na escrita. Historiador de primeiríssima, criou histórias fundamentadas na História, com agá maiúsculo, misturando a ficção com aquilo que se pretendia verdadeiro e real. Fundiu os dois e deu nó em nossas cabeças de leitor.

Tive o privilégio não somente de ler seus livros, mas de estudá-los a fundo, lê-los e relê-los com o prazer de, na leitura seguinte, perceber o ineditismo que me fugira, anteriormente. O vestibular da UFES proporcionou-me esse trabalho. Li e reli A Nau Decapitada, As Chamas na Missa e O Capitão do Fim, três obras-primas – sendo esta última minha preferida. Coisa de gênio iluminado, que iluminava com as palavras. Trazer luz a quem lê é prerrogativa de poucos. Luiz era um deles. Li suas crônicas na extinta Revista Você, editada por seu irmão Reinaldo. Mantive-as sob mira quando foram destacadas para o site Tertúlia, de Pedro Nunes. AQUI, o conteúdo de A Certos Respeitos, sua coluna.

Aliás, acima estamos: Luiz, o citado (e também escritor) Pedro Nunes e eu, participando do extinto Café Literário, do Sesc. Bons tempos, 2007, Pedro Nunes mediando um debate sobre narrativas. Quando lancei Histórias Curtas para Mariana M, em 2009, pedi que Luiz Guilherme Santos Neves o lesse. Com a generosidade de sempre, não somente leu como me ligou, dois dias após ter iniciado a leitura, com uma enxurrada de elogios os quais eu deveria ter gravado, para mostrar a todos. Escreveu a orelha do livro que, numa segunda edição — recente, 2023 —, foi mantida. Fico imaginando: e se Luiz não tivesse apreciado a história, do romance? Não sei se eu publicaria. Palavra de honra.

Em 2019, assim que veio a lume meu romance Fama Volat, fui até sua casa. Lá, conversamos sobre livros policiais, sobre literatura em geral e, claro, sobre projetos literários que sempre estavam em seu radar. A cidade de Vitória e o estado do ES eram sua mira, seu grande amor histórico, a base para sua escritura. Luiz partiu mas não partiu. Seus livros estão aí, para quem quiser ler e aprender. Claro que ter podido privar com ele, ouvir o que dizia, testemunhar seu humor e suas opiniões foi muito melhor. Não esqueço. Abaixo, em nosso encontro, com sua esposa e minha ex-professora de Literatura Portuguesa Therezinha Santos Neves. Uma figura notável também.

Obrigado por tudo, meu amigo. Sei que agradeço por muitos. Ave, Luiz!

Blank & eu: pergunta e paradoxo

A Gazeta | Polícia prende homem que confessou assassinato do poeta Sérgio BlankNeste mês de abril, ano corrente, entrevistei – no meu podcast Vitrine Literária com Francisco Grijó – duas personagens por quem tenho imenso respeito: o poeta e romancista Caê Guimarães e o pesquisador e professor Vitor Cei. O assunto: a poesia de Sérgio Blank, esse senhor ao lado, artista maiúsculo, um dos grandes de sua geração. Sérgio teria feito 60 anos neste mês, caso não tivesse sido acometido de uma tragédia que o fez não estar mais entre nós. Faz falta, sim: em presença e em palavras.

Caso meus seis ou sete leitores queiram saber o que se disse sobre Sérgio Blank e sobre sua produção literária, basta acessar o conteúdo, seja no Spotify, seja no Youtube. Não é, contudo, sobre isso que quero falar, mas sim sobre um livro organizado por esse poeta, intitulado por que você escreve? Sim, com minúsculas. Por uma coincidência, eu e Caê estamos no livro, expondo depoimentos dos motivos que nos levaram a esse triste porém irresistível destino.

O livro, metalinguístico em sua gênese, quer uma resposta – e essa resposta é dada pelos inquiridos da vez, cujos nomes é possível ler (com lupa) na capa, à esquerda. Eis a questão: por que se escreve? Minha resposta foi tão lacônica quanto honesta (e paradoxal): escrevo porque gosto, porque me diverte. E – verdade seja dita – imaginei que minha relação com as mulheres fosse ser facilitada. Engano. As garotas da minha geração, ao menos na época em que comecei a escrever, gostavam de músicos. Escritores eram gente esquisita.

É uma pergunta que não faço a quem eu entrevisto em meu podcast. Não sei se haverá resposta que mereça ser ouvida, ser partilhada. É algo, penso eu, pessoal e intransferível. É a angústia e o prazer, ambas subjetivos, intrínsecos, que só dizem respeito a quem produz literatura. Respostas de jornalistas e de todos os pensadores que lidam com a palavra escrita têm um objetivo: informar, e ainda bem que existe a palavra destinada a isso. Quanto a nós, romancistas, poetas, cronistas, contistas, dramaturgos, bem, digo que, de fato, não interessa por que se escreve – mas o que se produz. Isso, sim, vale a leitura.

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*Copie e cole os links no seu navegador para assistir às duas partes do bate-papo:

PARTE 1

https://www.folhavitoria.com.br/videos/folha-vitoria/vitrine-literaria/lTQbYrPG6Zo

PARTE 2

https://www.folhavitoria.com.br/videos/folha-vitoria/vitrine-literaria/5mQtBCIkXWU

Sem Jeff, sem música

Jeff Beck nasceu pronto – mas por que digo isso? Porque aos 20 anos substituiu Eric Clapton como guitarrista dos Yardbirds. Se você gosta de rock, entendeu o porquê. Caso não, lá vai: somente um guitarrista pronto, sem necessidade de nada que se acrescente a seu talento ou performance, seria capaz de substituir um dos maiores guitarristas de todas as épocas. Jeff nunca teve – é o que me parece – o reconhecimento pleno. É um dos ases do gênero, mas sua popularidade (se é que precisou de uma) sempre esteve na corda-bamba. E daí? Quem curte a grande música sabe quem ele é – e ponto.

Aos 78 anos, morre Jeff Beck, um dos mais influentes guitarristas da  história - ISTOÉ Independente

Em 1986, ganhei, não me lembro de quem, o elepê Wired, gravado dez anos antes do meu privilégio de ouvi-lo. Ouvinte de jazz, lembro-me de ter estranhado a gravação de Goobye Pork Pie Hat, escrita por Charles Mingus, o grande orquestrador, band-leader e maior contrabaixista do jazz. Você pode ouvir AQUI. Não consegui, exceto por algumas passagens bem breves, encontrar semelhanças com o original jazzístico. Só isso – que não é, nem de longe, um detalhe – já me fez apreciar aquele de quem eu compraria, quase imediatamente (creio que poucos dias depois), outro elepê: Blow by Blow, um clássico em que as homenagens ao jazz continuam: há uma faixa, escrita por Stevie Wonder, intitulada Thelonius. Ah, claro: o próprio Stevie participa da faixa, nos teclados.

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Por falar em teclado, Jeff e Max Middleton, tecladista, compuseram You Know What I Mean, Air Blower e Scatterbrain. Middleton, sozinho, escreveu Freeway Jam. A propósito: se você gosta dos Beatles, vai apreciar She’s a Woman: uma beleza de execução. A guitarra fala, literalmente. Bem, ouça o disco, por inteiro, AQUI. Vai gostar.

Antes de escrever este texto, fiquei pensando quantos discos dele eu possuía. Não são muitos: Truth, Wired, Blow by Blow, Flash, Crazy Legs e Emotion & Commotion (do qual não gosto), que foi lançado no dia em que completei 48 anos, num 13 de abril. Jeff Beck morreu anteontem, dia 10 de janeiro, aos 78 anos, vítima de meningite. Continuava na ativa, mantendo agenda de shows (inclusive em companhia do ator-músico Johnny Depp) e, algo tristemente irônico, cuidando da saúde. Uma tristeza para o rock; outra para a música.

A eternidade do ídolo

Retomando uma antiga demanda: aproveitando que estamos em tempos de Copa do Mundo, vou falar sobre algo que não seja cultura e arte. Bem, o esporte – especificamente o futebol – preenche a lacuna que alguns de meus 6 ou 7 leitores dizem existir. Talvez estejam certos. Pela terceira ou quarta vez, aqui neste blogue, falo de um de meus ídolos: Pelé, a quem vi jogar nos últimos 5 anos de carreira. Da carreira dele, bem entendido. A foto abaixo traz Pelé aos 18 anos, ao lado do maior jogador (ou um  dos maiores) que a Argentina produziu: Alfredo Di Stéfano.

Pelé e Di Stefano. Os reis se encontraram apenas uma vez, há 60 anos - UOL  Esporte

Num jogo em homenagem ao espanhol Miguel Muñoz – o primeiro capitão do Real Madri a levantar a taça da Liga dos Campeões -, o time espanhol levou a melhor: 5 a 3. Consta que o argentino não marcou gols, enquanto o ainda menino Pelé fez o dele. O que mais me chamou a atenção foi o fato de que, no ano anterior, Pelé havia-se tornado famoso por conta da Copa da Suécia, mas o time do Santos, uma máquina demolidora de gols, só se tornaria (re)conhecido mundialmente no início dos anos 1960 – e justamente por conta daquele que mais tarde seria eternizado como rei.

Leio que Pelé não está bem de saúde. Há, de parte de muitos, aquela sensação de que os ídolos são inatingíveis, que não se sujeitam àquilo que nós – os outros – temos como quotidiano, de comum e banal. Lembro-me de um amigo, fã de boxe como eu, que se recusava a reconhecer Muhammad Ali (ou Cassius Clay, como querem alguns) como alguém capaz de se ajoelhar diante da doença. Muhammad foi-se, mas ficou – e eternizado na memória como um homem saudável que destroçava seus oponentes.

Creio que com Pelé, e com alguns outros ídolos de qualquer esporte, acontecerá o mesmo. A imagem do menino ao lado de Di Stéfano ficará, memorial, para muitos. Para mim, que passei a apreciar o futebol por conta da Copa de 1970, Pelé era aquele que, na foto emblemática e conhecida em todo o mundo, representava a alegria da vitória, o prazer de jogar futebol e, como a cena retratada, tornar-se o ídolo eterno.

Curiosidades das Copas: fazer gol em duas finais, um feito de poucos |  LANCE!

AQUI o filme Isto é Pelé, de 1971. AQUI o filme oficial da FIFA – Copa do Mundo de 1970. AQUI o filme O Rei Pelé, de 1962. AQUI, Pelé Eterno, de 2004. AQUI, o documentário Um Rei desconhecido.

55 anos sem JC

JC, claro, não é Jesus Cristo; tampouco se refere ao pernambucano Jornal do Commercio, com m duplo e sem acento agudo no e. Na verdade, são as iniciais de um dos maiores músicos de jazz de todos os tempos (e para muita gente, o maior): John Coltrane que, no dia 17 de julho, há 55 anos, morreu de câncer hepático – aos 40 anos. Se há uma perda que a música lamente há tanto tempo, tenha certeza: é essa. Muito se falou sobre Coltrane. Muito se teorizou, avaliou, escreveu, estudou. É reverenciado com merecimento: até uma igreja para louvá-lo existe. Nada que eu escreva sobre ele será inédito ou original. Ao lado de Charlie Parker, é o mais celebrado nome do jazz.

Em 2018, escrevi sobre o álbum perdido – ou seja: mais um disco seminal, uma obra de primeira, com o quarteto que trouxe ao mundo o sensacional A Love Supreme, um disco espiritualizado, místico, ao mesmo tempo que excessivamente cerebral, quase matemático. É seu ponto máximo, para muitos. Meu primeiro contato com o gênio deu-se por conta de outro músico: Duke Ellington, o maior dos compositores no gênero. O disco Duke Ellington & John Coltrane é absurdamente bom: sete faixas em que tudo está no lugar certo, e traz – provavelmente – a melhor gravação de In a Sentimental Mood que há. Duvida? É só checar clicando no título!

Li uma entrevista de Alice Coltrane, sua viúva, em que ela afirmou que JC estacionara em um ponto sem retorno. A busca espiritual havia-se tornado uma obsessão, a beatitude chegara a um limite incompreensível – mesmo para ela, companheira de casa e estúdio. É a fase mística da carreira, com pelo menos um disco excepcional (embora complexo): Ascension, publicado um ano antes de sua morte. E o quarteto está lá: McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones. Sim, há mais gente.

Tenho 68 discos de John Coltrane – entre cedês e elepês. Difícil dizer de qual gosto mais. Caso fosse necessário escolher um, eu apostaria em Olé, disco de 1961 com apenas 3 faixas (4 em cedê: To Her Ladyship como faixa-bônus). É um monumento, o apogeu criativo tanto na confecção quanto na execução. Coltrane ao lado de dois gigantes: Freddie Hubbard, no trompete, e Eric Dolphy, na flauta. E McCoy Tyner, o pianista, quase rouba a cena. Se duvida (novamente), clique no título do disco. Escolhi Olé, mas poderia ter escolhido Giant Steps, My Favourite Things, Ballads, Live in Seattle, Soultrane, Coltrane plays the Blues e por aí vai. Melhor parar por aqui.