Bella & Alfredo: os mestres em ação

Sendo eu professor – e de Literatura –, faz sentido eu preferir comentar sobre essa espécie tão, digamos, desprezada. Eu explico o motivo do peremptório adjetivo: como a leitura tem-se tornado algo secundário, é também natural que a literatura pegue carona nesse desprezo. E alguns dos vetores literários (no caso, professores) são, grosso modo, vistos como indivíduos que falam para surdos ou, pelo menos, para a massa desinteressada em quem foi Guimarães Rosa ou o que vem a ser uma hipérbole. A da linguagem; não a da geometria que fique claro. Voltemos aos professores. Já ouviram falar de Alfredo Bosi? E de Bella Jozef? Não? Então, prepare-se. A propósito: são estes dois abaixo:

Alfredo Bosi é meu ídolo — desde que assisti, no início dos anos 1980 (eu, estudante de Letras e tentando me firmar como professor), a uma palestra de sua lavra, na USP. O tema, se minha memória não me faz tropeçar, era sobre a narrativa de Brás Cubas, a revolução machadiana. A clareza com que expunha seu ponto de vista e a facilidade em dissecar as ironias do velho escritor causaram-me um grande impacto. Foi uma epifania: se eu tinha dúvidas sobre levar adiante a profissão, a coisa se dissipou como fumaça infértil. A partir dali, quis ler tudo o que ele produzira — e num certo sentido, obtive êxito. Leio seus livros até hoje, e me divirto como se a leitura fosse inédita.

Terminei a releitura de alguns estudos de seu Céu, Inferno. Obra essencial, subintitulada Ensaios de Crítica Literária e Ideológica. Se você espera uma linguagem carregada de hermetismos, inversões gramaticais e referências obscuras que dificultam a compreensão do leitor médio — eu, no caso —, esqueça. Alfredo Bosi é de uma clareza invejável, dono e senhor de um estilo que privilegia a comunicação direta aos interessados no assunto. Os ensaios sobre Giovanni Verga e Luigi Pirandello são absolutos. Machado, João Cabral, Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda estão lá, entre tantos outros.

1986 – Página: 110 – O Sebo Cultural – Venda de livros, cd's e lp's novos e usadosE quanto a Bella Jozef? Conhecida e reconhecida como uma autoridade em literatura ibero-americana, em A máscara e o enigma, publicado há 40 anos pela Francisco Alves, a autora vai além. Aborda os temas crítica, modernidade, semiologia, cultura de massas, arte (em geral) e vanguarda. É uma fera na análise precisa, arguta, de observações que injetam discussão ampla em ensaios curtíssimos. É um volume necessário a quem se interessa por literatura e pelas vertentes que dela brotem — isso sem falar das várias abordagens que tendem a ampliar o significado literário. Livro essencial, sim, a professores e a estudiosos do tema. Afinal, espera-se, continuem leitores.

O clássico História da Literatura Hispano-Americana, e os essenciais O Espaço Reconquistado e Romance Hispano-Americano são obras de interesse específico — isso é inegável. Como apreciar a literatura, de modo geral, sem levar a conta a expressiva originalidade de uma literatura feita na América Espanhola? Para muitos críticos — Bella incluída —, não há nada melhor nos últimos 150 anos. É possível que tenham razão, mas, no fim e ao cabo, cada um lê como quer, e como pode.

2 filmes de Francisco

Raramente escrevo sobre religião e sobre suas variáveis incluindo nelas as figuras icônicas e fundamentais para quem tem fé, principalmente se esse quem for católico. Embora respeite grandes pensadores religiosos (Calvino, Lutero, Jesus), gosto mesmo é do meu xará Francisco, que originalmente se chamava Giovanni di Pietro di Bernardone. Trocou de nome; eu, não. Aliás, como ele morreu aos 44 anos, posso afirmar que fui Francisco por mais tempo. Isso, todavia, é detalhe. Nasceu num 5 de julho, há 845 anos, permanece vivo em filosofia, em gesto e em palavras. Era para ser seguido por todos.

Resenha: Irmão Sol, Irmã Lua :: DVDMagazine: 24 ANOS ON-LINEPor que me lembrei do santo xará? Porque buscando assistir a filmes menos atuais, deparei-me com uma película que muito me impressionou (quando assisti, há uns 45 anos  menos pela história que pelo visual: Irmão Sol Irmã Lua, do italiano Franco Zeffirelli. O pôster ao lado não apresentou o filme no Brasil, mas imagino a reação dos carolas diante da beleza atlética do futuro santo nu à imagem do Cristo não-crucificado, liberto da escravidão dos pertences pessoais, incluindo as próprias roupas. Francisco se desnuda para dedicar-se a auxiliar os menos favorecidos.

É a súmula do paradoxo: a igreja, os comerciantes e a nobreza de um lado, ostentando, rindo e acumulando. De outro lado, a pobreza extrema da maioria, a fome, a miséria, a doença e a morte. Francisco faz sua opção. É altamente poético em algumas partes, sem errar a mão: nem no cinema nem na poesia. Revi com prazer. Outro filme: Francesco, de Liliana Cavani, cineasta italiana que deu ao mundo a obra-prima O Porteiro da Noite (em breve, por aqui). Sim, ela conseguiu o que parecia improvável: fez o então galã Mickey Rourke encarnar o rebelde contracultural. A direção é segura quem gosta de cinema sabe que é preciso pulso hábil e firme para usar bem os flash-backs.

Rourke vinha do estrondoso sucesso voyeurístico-fetichista Nove e meia semanas de Amor e do chato Barfly, em que viveu o poeta bebum Charles Bukowski. Em Francesco, talvez até pela importância histórica da personagem, ele se saiu bem melhor. São dois filmes diferentes entre si — que trazem a mesma personagem carregada de boas intenções, humildade e contradizendo o stablishment social e eclesiástico. Cavani contou a história; Zeffirelli expôs a emoção. São dois bons filmes que merecem ser vistos por quem se incomoda com a desigualdade, tão necessária à injustiça quanto ao poder. 

AQUI, com legendas em inglês.

Wakeman, Henry VIII & as esposas

Há 535 anos nascia Henrique VIII, chefão do trono inglês por quase 4 décadas. Casou-se seis vezes, brigou com o Papa Clemente II e se tornou o manda-chuva da Igreja Anglicana, meteu a mão na grana do poder católico e reprimiu quem o contradizia com a morte, inclusive. O sujeito não era fácil: para muitos, o pior caráter que já pisou em solo inglês. Pior até que o carniceiro Jack the ripper. Mencionei que ele teve seis esposas. Entre 1509 e 1547 quando morreu , teve também várias amantes: uma satiríase sem precedentes na história inglesa. Mas por que falo dele? Primeiro porque hoje é dia 28 de junho (seu nascimento), mas principalmente porque estou ouvindo The Six Wives of Henry VIII, do tecladista Rick Wakeman. Você pode ouvir AQUI, caso queira.

O disco é de 1973, pouco tempo depois de ter deixado as fileiras da banda de rock progressivo Yes. Aliás, a ideia progressiva foi mantida, com largos e intensos solos de teclado e uma bateria nervosa, como a do ótimo Alan White. E toneladas de sintetizadores fazendo a festa, sob a batuta de Mr. Wakeman. É um discaço, que teve origem na ideia de que cada esposa do monarca inglês era diferente uma da outra. O que tinham em comum: a cama, as ordens e a fúria de Henrique VIII. É um disco conceitual.

Diz-se que Rick Wakeman estudou cada uma delas: seus gostos, personalidades, medos, anseios, caracteres, corpo, voz. E fez o que quis com isso. De seu ponto de vista, encontrou nas mulheres e nos temas uma identidade própria, um retrato musical cheio de nuances rítmicas e melódicas. Todas as faixas são boas: para muita gente, é o melhor disco dele. Não sei dizer, mas me regozijo ao ouvi-lo desde a primeira vez, em 1976. É rock progressivo de primeiríssima, sem guitarras estridentes, e muito estilo.

Rick Wakeman nos cuenta sobre sus inicios y su próximos proyectosSe Rick Wakeman ou Henry VIII tinham uma preferida, não sei. Eu aprecio, dentre as seis, Katherine Howard. A música, claro. AQUI você a ouve. O citado Alan White dá seu recado, como poucos bateristas no rock o fizeram. Se você, caro sexto ou sétimo leitor, não curte música mas gosta de filmes, aí vai: assista a A Outra, de Justin Chadwick. As belezuras Natalie Portman e Scarlett Johansson brilham ao lado de um Eric Bana meio sem jeito para o papel. É bonito demais para interpretar um rei rabugento, gordo e calvo. Eu ficaria bem melhor no papel.

Bônus: AQUI um texto que escrevi sobre Rick Wakeman e Liszt.

Bônus: AQUI você lê uma entrevista bacana, de 2024.

 

O tri aos 8 anos

Em 1970, mês de junho, eu era um menino de oito anos. De costas para a tevê, enquanto o escrete brasileiro enfrentava a Checoslováquia era o primeiro jogo do Brasil na Copa do México, em 1970 , eu desenhava, dentro das minhas limitações, o Superman numa folha em branco. O gol de Petrás, atacante checo, fez minha mãe exasperar-se: não pelo gol do adversário, mas pela imagem do jogador benzendo-se catolicamente na lateral do campo, comemorando o tento. “Comunista não se benze!”, esbravejou. Essa é minha primeira lembrança da Copa 70, o torneio no qual o time brasileiro tornou-se campeão. Já atento ao jogo, vi o Brasil pulverizar os comunas.

A partir daí acompanhei os jogos ao lado do meu pai, fã de futebol, com quem aprendi sobre o assunto do Cruzeiro de Tostão à mortal linha de ataque do Botafogo; dos passes de Gérson à patada  atômica de Rivellino. E, claro, sobre o maior de todos os craques: o rei Pelé. Entre um jogo e outro, eu aprendia. Superman saiu de campo, e o futebol passou a jogar. Mas por que esse momento saudosista, neste texto? Porque assisti, via Netflix, à minissérie Brasil 70: A Saga do Tri. Cheguei a emocionar-me: voltar no tempo por meio de boas lembranças é um privilégio.

Bem, e a minissérie? É ótima, mesmo que os detratores afirmem que Pelé é interpretado por alguém 15cm mais alto. E daí? Rodrigo Santoro como João Saldanha? E daí, novamente? São detalhes ou seja, não têm muita importância. O que vale é o feito: havia uma dívida do cinema brasileiro com o futebol doméstico. Apesar do ótimo Boleiros e do documentário Isto é Pelé, faltava uma obra capaz de mostrar o que representou a seleção brasileira principal num momento politicamente tão conturbado. Havelange é retratado como ele realmente era. E o sanguinário ditador Emílio Garrastazu, que aparece apenas como voz?

Gostei da minissérie e gostei muito. Os lances de gol, com a câmera acompanhando a trajetória da bola até seu destino final são um achado. Aplausos para os diretores Paulo Morelli, Quico Meirelles e Pedro Morelli. E os jogadores? Pelé e Rivellino têm sósias. Zagallo e suas superstições dão o toque de humor. Saldanha enfrentando os milicos é um ótimo contraponto, e as cenas nos vestiários são absolutamente verossímeis, revelando as tensões, os receios e o trauma de 1950. Lamentei não haver imagens dos dois gols de Tostão contra o Peru, nas quartas de final, mas tudo bem. Vale assistir. Se você que lê é um sessentão daí pra frente! , e se apreciar o ludopédio, vai se emocionar também. Voltei a meus 8 anos, e isso foi bom.

Ciment & Kubrick

Michel Ciment évoque Stanley Kubrick, le «dernier grand homme de spectacle du cinéma moderne» | INAMichel Ciment é um dos maiores críticos de cinema no mundo. Ou foi, porque morreu há 3 anos, mas o que registrou na Positif um contraponto à Cahiers du Cinéma – sobre Orson Welles, no início dos anos 1950, tornou-o uma celebridade na área. Um craque respeitado entre seus pares e admirado por quem aprecia o cinema. Acabei de ler seu ótimo livro Kubrick, publicado pela Ubu Editora. Michel Ciment é esse senhor ao lado, cujo trabalho acerca do diretor norte-americano é, para mim, o que há de melhor sobre o autor de 2001, Uma Odisseia no Espaço e Laranja Mecânica.

O que há de tão interessante, e de tão inovador, sobre um autor de cujos filmes quase tudo já foi dito? Bem, não creio que Ciment quisesse ser original, mas foi: conectou os filmes de Kubrick de uma forma que eu nunca havia visto (nem pensado). Mostrou as intratextualidades, as autocitações, os elementos comuns a vários de seus próprios filmes e, de quebra, mostrou que o grande diretor norte-americano muitas vezes negava, no filme que então preparava, o filme feito anteriormente. Em outras palavras: era um inquieto que insistia em negar-se, e ir adiante, mas olhando para trás, era um processo considerado natural. Era um inovador.

Ao menos 5 filmes do mestre são dissecados: 2001, O Iluminado, Laranja Mecânica, Barry Lyndon e Nascido para Matar. Há deliciosos e esclarecedores depoimentos de gente que trabalhou com Stanley Kubrick: as atrizes Shelley Duvall e Marisa Berenson; os atores Jack Nicholson e Malcolm McDowell; a roteirista Diane Johnson e o assistente Andrew Birkin, sem falar em John Alcott, diretor de fotografia que trabalhou com ele em vários filmes, e que afirmou, em 1980: “Se Kubrick não fosse diretor, seria o melhor diretor de fotografia do mundo.” Devia saber o que estava falando.

Michel Ciment é um fã da psicanálise — e, claro, de Freud, a quem cita inúmeras vezes. O cinema de Kubrick, simbólico e complexo, seria um prato cheio para o pensador vienense. E é usando a invenção dele que Ciment nos oferece belos textos sobre Lolita e De olhos bem fechados, duas pérolas que, avaliadas pelos olhos (bem abertos) da psicanálise, mostraram-me aquilo que não percebi vendo e revendo esses filmes. Acho que é hora de parar de falar. Se você gosta de cinema e aprecia textos inteligentes sobre essa arte, vai apreciar o que diz Michel Ciment. Aproveite!

Caso queira ler um texto meu sobre Laranja Mecânica, clique AQUI.

Meus xarás em ação: a melhor parceria

Meus xarás em ação: a melhor parceria

Pois é: estou de volta, após um abril sabático. Fui cobrado por alguns de meus 6 ou 7 leitores um deles fez-me uma provocação, sem nada que, aparentemente, a motivasse: quem foi o grande parceiro de Chico Buarque? E deu-me opções: Vinicius, Edu Lobo, Ruy Guerra ou Tom Jobim. Na hora me veio à cabeça um quinto parceiro: para mim o melhor. Sei que qualquer comparação serve a nada. Ou talvez sirva para provocar polêmica. É questão de gosto pessoal, de modo que resolvi escrever sobre a dulpa Chico Buarque-Francis Hime, xarás entre si. E meus também.

Está certo: com Ruy Guerra Chico fez Calabar; com Edu, os discos A Dança da Meia-lua, O Grande Circo Místico e O Corsário do Rei. Com Vinicius, fez as canções Valsinha, Samba de Orly, Olha Maria e Desalento, e a parceria com Tom Jobim gerou, entre outras, Eu te amo, Olha Maria, Sabiá e a ótima Retrato em branco e preto. Só pérolas. E com Francis Hime? Bem, só para começar, criaram a clássica Atrás da Porta que Elis imortalizou , o genial choro-canção Meu Caro Amigo e a celebradíssima Vai Passar. Só isso já seria motivo para consagração, mas fizeram também o hino da separação, Trocando em Miúdos, a ultrapoética A Noiva da Cidade, a cínica Amor Barato e a deliciosa e ambiental Passaredo. Está bom para você?

Algumas gemas musicais da dupla Chico Buarque não gravou ao menos não em seus discos oficiais: Pássara, O Rei de Ramos, Luíza, Quadrilha, Embarcação, Maravilha e Desembolada (cuja letra é um primor). Todas foram gravadas por Francis Hime, e às vezes com a participação luxuosa do xará. Por que escolhi Francis Hime como o parceiro ideal? Primeiro porque o refinamento musical e a sofisticação harmônica de Hime proporciona — e talvez provoque — uma pegada mais poética na linguagem do parceiro. Tom também conseguia isso, mas Francis Hime fez melhor. 

Em segundo lugar, porque Francis Hime esteve junto a Chico Buarque na década mais criativa de ambos: os anos 1970. Eu já afirmei — e repito! — que Chico não criou suas melhores canções por conta da ditadura, mas apesar dela. Foi seu momento mais inventivo justamente porque foi eleito, em certa medida, a falar por todos aqueles que, emudecidos pela truculência da censura, viam no compositor uma espécie de herói. Chico sempre negou esse papel de paladino. Hime, a seu lado, não era escudeiro — mas um parceiro que o compreendia musicalmente e que gerou melodias que imortalizaram muitas letras do compositor carioca. Parceria é isso. Não desmerecendo as outras, claro.

 

Solaris: Andrei & Stanislaw

Solaris: Andrei & Stanislaw

Numa lista (minha) sobre os grandes filmes de ficção científica a que assisti, Solaris estaria no top 3. Fácil. Calma: não falo da película com George Clooney e com aquela belezura da Natascha McElhone. Falo do filme de Andrei Tarkovsky, de 1972, uma obra-prima a que (re)assisti no último fim de semana, após ter (re)lido o clássico de Stanislaw Lem, no qual o filme se baseou. Solaris é sobre tudo: arte, ciência, suspense, fantasia, ética, moral, história de amor, filosofia. Tarkovsky justifica a fama: é um dos mais importantes cineastas de qualquer época e não somente entre russos, criando filmes que extrapolam a ideia de que cinema existe primordialmente para contar histórias e entreter. Solaris foi a resposta russa a 2001, de Kubrick.

Livro e filme merecem um olhar adulto. O livro, claro, detalha e evoca a ciência de forma implacável, trazendo proposições que, apesar de fantasiosas, fazem sentido no campo científico. O vocabulário narrativo é de uma criatividade impressionante, com expressões que faziam sentido em sua proposta e que caracterizavam bem o confronto entre homem e oceano — uma criatura coloidal capaz de interagir com os humanos manipulando memórias, desejos, traumas, ações. Em outras palavras: a viagem ao Cosmo é menos importante que a viagem a si mesmo — daí se perceber que artefatos como foguetes e naves espaciais são elementos secundários. Quase não estão à mostra.

O romancista polonês Stanislaw Lem, um dos mais populares escritores de ficção científica do mundo, não apreciou o filme. Afirmou que o desfecho no livro, o protagonista resolve encarar o Oceano, entregando-se à estéril aventura de desvendá-lo e compreendê-lo buscou uma ideia filosófica demais, sugerindo que o planeta oceânico vencera a batalha criando uma ilha em sua superfície aquática, das qual não se podia fugir. Sabia, evidentemente, que o cinema, ao condensar a literatura, comete pecados geralmente perdoáveis, mas Lem desejava que, ao menos, o epílogo fosse outro, mais próximo da narrativa que criara.

Assisti a Solaris no cineclube da Ufes, no início dos anos 1980. Achei chato. Acostumado à velocidade dos filmes norte-americanos — uma exceção para o citado 2001 —, não encontrei no filme o que deveria encontrar. Era muito cedo, claro. Revi tantos anos depois e, menos imaturo, consigo ver ainda melhor, sem os embaçamentos que juventude infelizmente impõe. Esta é a beleza da arte: o tempo passa e nos modificamos — obra e consumidor. O livro de Lem e o filme de Tarkovsky eram outros. É possível que, lido e visto daqui a 5 anos, as coisas mudem e vislumbre o que, agora, não consegui perceber. Espero que sim. 

Se você não assistiu ao filme, clique AQUI.

AQUI uma produção televisiva soviética de 1968. Para muitos críticos, é mais fiel ao livro original de Lem do que a versão de Tarkovsky. Está em russo. Se você domina o idioma, divirta-se. Eu não consegui me divertir.

Este aqui é Bobby Timmons

Este aqui é Bobby Timmons

Bobby Timmons morreu no dia 1º de março, há 42 anos. É um dos grandes pianistas de um gênero, o jazz, cujo instrumento o piano é sempre estimado. É algo ancestral: lembra a música clássica, o homem diante das teclas, o som puro e de rara beleza. Timmons, por sua vez, é menos celebrado. Thelonious Monk, Duke Ellington, Bud Powell e Bill Evans estão no panteão, bem acomodados. Por mim, Bobby Timmons faria companhia a eles, principalmente porque mais uma vez em minha opinião sua mão direita tem pouquíssimos rivais, no jazz. Sem falar no suingue e na precisão com que marca a melodia. Neste momento em que escrevo, como uma homenagem, ouço This Here is Bobby Timmons (capa ao lado).

Se você curte jazz, conhece pelo menos um dos temas imortais de Timmons: Moanin’, que deu origem a um dos grandes discos do baterista Art Blakey. É, aliás, o título do disco, em que os mensageiros do jazz incluindo Bobby Timmons faziam a festa. O disco e o tema são clássicos: referências inevitáveis em qualquer coletânea de quinteto ou sexteto. Não conhece? Eis:

Play

Bobby Timmons se mostra, absoluto, a partir dos 7:02, num solo que dura quase 4 minutos de raríssima beleza e talento. É o dono da música, a qual, dizem, compôs num único dia. Observe que titãs do calibre de Lee Morgan e Benny Golson, estáticos, ouvem o som celestial. Art Blakey, dono da bola e do time, dá um risinho de admiração plena. Timmons é o gênio da raça.

Timmons gravou com grandes craques: além de ter feito parte dos Jazz Messengers, de Blakey, tocou com Chet Baker, com os saxofonistas Dexter Gordon, Johhny Griffin, Sonny Stitt e Hank Mobley. Fez um impressionante duo com o guitarrista Kenny Burrell em dois discaços Blue Lights, em dois volumes. No início de carreira, tocou com os exigentes irmãos Adderley, Nat e Cannonball, e a estupefação tomou conta dos dois. Sabiam que aquele pianista era uma pérola.

Bobby Timmons DVDs - Blue SoundsA faixa This Here, que se combina ao título do disco, é um primor. Alegre, precisa, suingada: é a antessala de um subgênero que Bobby Timmons ajudou a criar: o soul jazz, e foi um sucesso comercial de que pouca gente, no jazz, usufruiu. Talvez Brubeck; talvez Miles. Se não conhece, tecle AQUI. Acompanhado pelo baixista Sam Jones e com Jimmy Cobb nos couros, é um dos ótimo discos de trio de jazz que conheço. A propósito, ouça o disco inteiro. É melhor, e faz justiça a esse enormíssimo pianista. Saravá, Bobby!

 

Machado & a infidelidade

Machado & a infidelidade

Joaquim Maria Machado de Assis apreciava triângulos amorosos. Talvez fosse tendência realista, coisa de nicho de época, em que a figura feminina estava sempre disposta a sair ou a entrar pela tangente matrimonial. Os europeus já haviam trabalhado o tema: Balzac, Flaubert, Verga, Dostoievski e Eça passeavam pelo tema como se fosse uma estrada pavimentada, abusando das estripulias maledicentes, e sempre sensuais, do mulherio. Joaquim Maria foi no durame: os contos A Cartomante, Noite de Almirante, A Causa Secreta e Missa do Galo são exemplos clássicos. Há outros. Sem falar nos romances Quincas Borba, Esaú e Jacó e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Bem, Dom Casmurro virou clichê.

Ficheiro:Machado de Assis 1904.jpg – Wikipédia, a enciclopédia livreMachado foi chamado de misógino por teóricos de segunda linha. Não compreenderam que suas mulheres eram uma clara oposição àquelas mocinhas que um suposto insosso Romantismo produziu e que foram, com o tempo, transformando-se em realistas. Lembram-se da alencariana Aurélia, em Senhora? Sim, aquela que comprou o marido por vingança e desejo. Pois o casamento com doses de conveniência social já havia brotado no machadiano A mão e a Luva. Quem leu leu – mas não se deve reler. É o mais fraco Machado.

A ideia triangular foi explorada em Iaiá Garcia, que por sua vez tinha como influência as inseguranças amorosas masculinas. O Romantismo limitou Joaquim Maria, que desejava dar saltos olímpicos, queria planar como uma ave andina. Foi encontrar a si mesmo a partir do início da década de 1880, quando, exasperado, esbofeteou os românticos com Brás Cubas e suas memórias post mortem: principalmente seu rival e amigo Alencar. Faça-se justiça: Alencar era, no Romantismo, muito melhor que Machado. Um tempo depois, o amigo aposentou-se e se mantém na memória como o melhor no gênero: rival dos Alexandres Dumas, père et fils.

Dom Casmurro - Edição Exclusiva Amazon | Amazon.com.brDona Carolina Augusta Xavier de Novais, cônjuge do autor, incentivava-o a criar mulheres fortes, voluntariosas e independentes (até certo ponto). Ajudou-o a escrever, já que era culta de berço, lia em inglês e francês, além de ter apresentado a Machado o Tristram Shandy, do padre anglicano Laurence Sterne. Há quem diga que o brasileiro plagiou o irlandês. É possível. Enfim, é papo para outra postagem. Voltando ao tema: esqueça aquela estranha ideia de que mulheres adúlteras existiam porque era assim a sociedade e o mundo. Bobagem teórica. O que ele queria, de fato, era enterrar o Romantismo. E ajudou no sepultamento.

Eurípides encontra Chico & Paulo

Eurípides encontra Chico & Paulo

O texto Gota d’Água é uma leitura pós-moderna e urbana do texto clássico de Eurípides, uma adequação (com diferenças em relação à tragédia clássica) intertextualizada, transformada em drama em versos. Joana, a Medéia brasileira que, abandonada pelo amante Jasão, muito mais novo que ela, e com quem tivera dois filhos, torna-se uma mulher angustiada e oprimida pela situação amorosa e social. Jasão, autor do samba de (então) sucesso Gota d’Água, vai casar-se com Alma, a filha do poderoso Creonte, proprietário do conjunto residencial e explorador de todo aquele povo oprimido da Vila do Meio-Dia. Além de perder seu amante, Joana, encurralada pela engrenagem social, será expulsa por Creonte, com seus dois filhos. Tendo falhado o plano de vingança — de envenenar a noiva no dia do casamento —, ela acabará por envenenar os dois filhos e a si própria.

Bem, essa é a ideia central do drama em versos criado pela dupla Chico Buarque e Paulo Pontes. Este último, um craque da dramaturgia. Chico, genial como compositor, colabora também com o traço musical, compondo algumas pérolas interpretadas pelos atores e atrizes. É caso da triste Basta Um Dia e da eletrizante Flor da Idade (um trabalho intertextual drummondino). Paulo Pontes teve a ideia da singularidade estrutural: embora seja pertencente ao gênero dramático, o texto se preocupa fundamentalmente com a linguagem e com sua disposição, já que é estruturado em versos de todas as metrificações possíveis — mesmo havendo predominância dos versos alexandrinos e decassílabos. Outro elemento de destaque é a elaboração das rimas (soantes sempre) revelando o aspecto musical do texto.

O italiano Gianni Rato dirigiu a primeira montagem da peça e com Bibi Ferreira no papel de Joana. Ela canta no palco e canta no disco, este uma obra rara encontrada somente em sebos. Claro: Bibi não era cantora de excelência, mas também não era bissexta. Uma atriz completa, que encarnou toda a dor e a fúria da mulher rejeitada que resolve dar o troco, mas que tropeça no próprio exagero sentimental. Assisti à peça em 1981, quando foi encenada no Carlos Gomes. Já não era Roberto Bonfim que interpretava Jasão. Até onde me lembro era Adriano Reis.

Um espetáculo de beleza e potência, no qual se discutia desde a força capitalista que resume o homem a um objeto insosso e vulnerabilíssimo até a decomposição da mulher que envelhece, e cujo valor decai à medida que ela não vê chances de essa condição se alterar. Mestre da linguagem ligeira, Chico Buarque mistura tudo: do erudito ao pop, para agradar a gregos e curitibanos. Está faltando alguém montar uma atualização da peça — mas sem mexer no texto. Sequer uma linha.