A casa de Ahmet

Ahmet Ertegün foi patrão de Pelé, do Led Zepellin, de Ray Charles, de Aretha Franklin e dos Rolling Stones. Está bom para você? Foi chefão, junto com Herb Abramson, da Atlantic Records e do NY Cosmos, compôs várias canções, entre elas o clássico Mess Around, imortalizado pelo citado Ray Charles. Apaixonado por arte moderna, era um colecionador de marca — aquele que consegue, com seu prestígio, embutir valor em obras pouco conhecidas para, mais tarde, ganhar mais dinheiro ainda. Já era rico quando chegou aos EUA. O pai, embaixador da Turquia naquele país, amava a música — assim como a mãe, que levou os filhos a ouvir o que valia a pena.

Sua primeira paixão foi o jazz — que o levou ao ao rhythm and blues e, depois, ao rock, cujo apogeu presenciou e, de certa forma, colaborou para que existisse. O documentário mostra isso. Entrevistas com Mick Jagger, Keith Richards e Robert Plant — que se tornaram amigos pessoais dele — expressam, através do bom humor e com doses cavalares de gratidão, o que Ahmet Ertegun foi capaz de fazer. Não só por eles, mas pela música e por sua difusão.

A gravadora Atlantic é um braço da Warner Music Group, um colosso de produção musical. O jazz, especificamente, ficava sob o guarda-chuva de Nesuhi, irmão mais velho de Ahmet, e também alucinado por música. Foi ele o responsável por virem à superfície discos fundamentais de Charles Mingus, Ornette Coleman e John Coltrane. O dedo de Midas, entretanto, era de Ahmet, cujos olhos viam que o futuro pertencia à juventude e, portanto, ao rock.

Há quem torça o nariz — eu, por exemplo — para o cast da Atlantic, hoje. AQUI você entende o por quê. A questão mais importante é histórica, é o legado, a transformação. O que Ahmet Ertegun construiu não foi somente uma gravadora poderosa e fundamental — mas realmente uma casa, que abrigava filhos distintos, com visões tão distintas quanto. E que fizeram do século que passou, e ainda deste, o registro sonoro do que eles representaram. Só para constar: Ahmet não está mais entre os vivos. Morreu há 18 anos, após uma queda num show dos Stones, quando entrou em coma.

Morre Ahmet Ertegun, Midas da Atlantic Records

AQUI, o documentário na íntegra, sob a direção de Susan Steinberg. Caso queira saber mais.

O universo de Sagan

Li e reli, nestes dias pré-Carnaval, para um absoluto deleite, alguns contos de Philip K. Dick, o volume 5 da Caixinha Preta, que contém, inclusive, a pequena obra-prima Nós Recordamos para você por atacado, que rendeu, há algumas décadas, o excelente longa de aventura O Vingador do Futuro. Entretenimento e ciência, numa linguagem compreensível a qualquer pessoa com um mínimo de senso. Imaginei-me tentando escrever ficção científica e, claro, concluo que tropeçaria num item fundamental: o referencial científico, o qual ignoro como um cego ignora as cores. Não se iludam os meus 6 ou 7 leitores: se algum dia vier à superfície algum texto – curto que seja –, de minha autoria, contendo elementos ficcionais e científicos, podem apostar: é plágio, e merecerei tanto o cárcere quanto o desprezo daqueles que, ao menos por enquanto, têm-me em conta. Estamos conversados.

Não sou íntimo do cientificismo, mas reconheço seu absoluto valor – incluindo aí sua capacidade de ilustrar a arte, de reforçá-la, de torná-la veículo para a comunicação e para a educação. Assisti, quase trinta anos após sua exibição de estreia no Brasil, a todos os episódios de Cosmos, o extraordinário documentário estrelado e coproduzido pelo astrofísico norte-americano Carl Sagan. É acachapante, para dizer o mínimo. Como tentar resumir quase 800 minutos de imagens e texto que transformam a inacessível – ao menos teoricamente – ciência em algo quotidiano? Repito: é difícil, pelo menos para mim. Carl Sagan fez um trabalho social. Mandou às favas a mística de que ciência é coisa para iniciados, cheia de códigos e vocabulários específicos que apenas físicos, astrônomos, biólogos e bioquímicos são capazes de compreender.

Clube de Astronomia exibe episódio de “Cosmos” nesta sexta (12/5) | Instituto de Física

O que me impressionou no documentário foi sua assombrosa atemporalidade, principalmente no que diz respeito à relação homem/planeta, seja ela direcionada ao âmbito ecológico-ambiental, seja ela fincada na questão científica de que é preciso compreender o processo histórico para se chegar a conclusões que hoje facilitam a vida de todos. Embora todo o documentário seja uma apologia à informação, é interessante perceber que Carl Sagan não dedicou capítulos – um só que fosse – à inevitabilidade da internet. Talvez nem ele mesmo pudesse imaginar o que aconteceria dez anos depois. Está tudo lá: desde a história dos grandes homens que fizeram a ciência até as probabilidades quanto à inteligência extraterrestre; dos microrganismos até a mitologia hindu, da biblioteca de Alexandria aos limites da eternidade, passando por teorias e conceitos herméticos como quarta dimensão, anos-luz, velocidades inimagináveis, questões sobre espaço-tempo e diálogos entre cetáceos. Até o Google, muito antes de ser criado, está lá.

Amazon.com.br eBooks Kindle: Cosmos, Sagan, Carl, Druyan, Ann, Geiger, PauloFalo por mim: a ciência seduz quando é bem traduzida, quando se torna comum (nunca banal), quando suas portas e janelas estão tão escancaradas que é possível vislumbrar o que há em seu interior. E qual o óbvio papel dos professores nessa empreitada? Penso que eles existem para tornar a ciência viável, para expor sua sedução e ajudar na sua compreensão. Não há por que distanciá-la do indivíduo ordinário – no bom sentido –, que não domina conceitos e, por triste consequência, ignora conteúdos essenciais. Essa é sua tarefa e – talvez – seu martírio. Quem, a não ser aqueles poucos, interessa-se pela compreensão de funcionamentos, ligações, movimentos, temperaturas, moléculas, vácuo? E quando mostram interesse? São chamados nerds, habitantes de uma outra dimensão. Mas isso é outro papo.

Carl Sagan foi pelo caminho oposto. Cosmos é uma aula saborosa e dinâmica que, mesmo atrasado 30 anos, usufruo como se tudo fosse uma grande novidade. E é provável que seja mesmo.

Desafio do IPSIS #2

O IPSIS LITTERIS comemora sua 150ª postagem.

150 postagens sobre música, literatura, cinema, quadrinhos, esporte, política, arte, comportamento – e tudo priorizando o leitor adulto. Em outras palavras, é um blogue pouco lido, mas isso não chega a ser um problema. Vamos em frente assim mesmo, sendo mais ignorado do que reconhecido. Quando este blogue chegou a 100 postagens, propus um desafio, que consistia NISSO. Houve um ganhador, cujo nome é Vítor Sarmento, e que nunca veio buscar o prêmio. Aliás, desapareceu deste blogue, embora eu tenha comunicado a ele, nos comentários, que o sucesso bateu à sua porta. Ao que me consta, hoje, após tanto tempo, o prêmio prescreveu. Talvez não.

Comemorando a tal 150ª postagem, aí vai a segunda edição do DESAFIO DO IPSIS. Três perguntas. Quem acertar as três respostas – é necessário que sejam as três! – ganhará UM (e apenas um) dos prêmios abaixo, a escolher:

1) o blu-ray do filme Vinícius de Moraes, de Miguel Faria Jr, devidamente lacrado e selado.

2) 4 livros: um exemplar do livro Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular (biografia) + um exemplar de Fama Volat (romance) + um exemplar de Todas Elas, Agora (contos) + um exemplar de Licantropo (contos). Todos, evidentemente, de minha autoria. 

                         

3) Um voucher no  valor de 100 reais na loja Amigos do Vinil, situada no Shopping Praia da Costa. Fica em frente à C&A. Caso você, vencedor do desafio, não seja adepto do vinil, há, nessa mesma loja, camisas, livros e cedês à disposição. O voucher vale para tudo.

A imagem pode conter: 1 pessoa, sapatos e área interna

DESAFIO

1) Um músico de jazz, conhecido por ser um gentleman que não destinava a ninguém uma crítica, foi abordado por dois amigos, também músicos, que resolveram lhe perguntar qual sua opinião sobre Hitler. Imaginaram, claro, que tal músico/gentleman não teria como falar de Hitler sem criticá-lo. Equivocaram-se. A resposta, elegantíssima, foi: “Indiscutivelmente, Hitler foi o melhor em sua especialidade”. Qual o nome desse músico e qual o instrumento que ele tocava?

2) Chico Buarque de Holanda é um dos grandes compositores da MPB. Para muitos, o maior. Durante muito tempo, principalmente entre 1968 e 1975, sofreu ataques frontais da censura, o que, em muitos casos, obrigou-o a modificar letras de algumas canções. Na lista a seguir, duas canções NÃO sofreram modificações (por conta dos censores) em seus versos. Quais? O Meu Amor, Tanto Mar, Jorge Maravilha, Bárbara, Vence na Vida Quem Diz Sim, Gota D’Água.

3) A ilustração/foto abaixo apresenta a famosa entrevista de alguns integrantes do famoso tabloide O Pasquim com o jornalista Carlos Castelo Branco, identificado com o número 6. Identifique os senhores marcados com os números 1, 2, 3, 4 e 5.

Não, não é fácil. A validade para as respostas do desafio vigora até dia 11/05/2020. Ou seja: quem quiser responder terá 7 dias para fazê-lo.

Na contramão: jazz e Netflix

Em tempos de Covid-19 e isolamento, trabalho remotamente – seja como professor, seja como gestor cultural. Vamos em frente. Há, porém, a diversão: brincar com as filhas, cozinhar, ouvir música, ler e assistir a filmes no Netflix. Já mencionei neste blogue, quando falei sobre um documentário sobre o grande Quincy Jones. Está AQUI, disponível, para quem curte música, de forma geral, e jazz, em particular. Quincy é um dos maiores músicos do mundo.

Mas por que citei Netflix e, de quebra, dei a entender que vou, mais uma vez, falar de jazz? Porque nesta semana em que estamos assisti a dois documentários sobre dois dos maiores nomes do jazz: Miles Davis e John Coltrane. Mesmo não sendo um ouvinte do gênero, tenho certeza de que você já ouviu esses dois nomes. Para algumas pessoas, nunca ter ouvido falar neles é como ignorar que existiram, por exemplo, Shakespeare, Mozart, Dante Alighieri. Pode até ser exagero, mas sem esses monumentos – porque é isso que realmente são -, o jazz teria menos vida. Sua biografia não seria tão grandiosa.

Netflix Documentary “Miles Davis: Birth of Cool” Review (2020) – Chain of  Arts

Sobre Miles: o documentário Miles Davis: Birth of the Cool, de Stanley Nelson, é uma beleza estrutural. Se mostra o óbvio (Miles mudou o jazz pelo menos 3 vezes), apresenta-nos um Miles frágil em alguns momentos, principalmente quando ele mesmo não acreditava em sua própria capacidade de reerguer-se, devastado pela heroína e sem fôlego para tocar seu instrumento. Mostra a relação de Miles com as mulheres – não era tão durão com elas quanto se dizia -, com o boxe, com os carrões, com a fama e, claro, com os músicos que sob sua égide formaram pelo menos dois dos melhores grandes quintetos de todo o jazz. Coltrane estava no primeiro. Miles fica como a grande ponta-de-lança do jazz, o inovador. Sem ele, o jazz ficava mais morno.

Uma curiosidade: há um disco de Miles Davis chamado Birth of the Cool, uma obra-prima que inaugura justamente a tendência cool. Miles acompanhado de oito músicos e gravado entre 1949 e 1950. Um discaço com gente do calibre de Max Roach, Gerry Mulligan, Lee Konitz, John Lewis e J. J. Johnson. Esse disco é solenemente ignorado no filme. Não pergunte por quê.

Prime Video: Chasing Trane: The John Coltrane Documentary

Sobre Coltrane: o documentário Chasing Trane: The John Coltrane Documentary, de John Scheinfeld, é outra maravilha que precisa ser checada por quem gosta de jazz. John Coltrane é, para muitos, o maior sax tenor do gênero. Deve ser mesmo. O filme mostra como o artista vai-se formando, passando, inclusive, pelo Miles Davis Quintet, depois formando seu próprio time (com McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones), até entregar-se às drogas e delas desvencilhar-se por amor à música.

Encontrou sua voz e aprimorou-a, conectando-a ao amor ao próximo e ao louvor a Deus – não, nada a ver com gospel song ou fanatismos religiosos. É algo que extrapola isso. Ouça A Love Supreme e você entenderá. É um retrato emocionado de quem soube emocionar através da música, de quem soube dialogar usando todas as vozes possíveis para tornar este mundo um lugar melhor. Não é fácil traduzir em palavras. Acho melhor você ouvir. O documentário mostra a trajetória desse gênio em apenas 22 anos de jazz. Morreu aos 40, imortalizado.

Quincy para sempre

Para quem acha que Netflix é apenas entretenimento, aí vai a contradição: o documentário Quincy, sobre um dos maiores – senão o maior – produtores musicais de toda a indústria do disco. Seu nome completo: Quincy Delight Jones – ou Quincy Jones, para quem é fã de boa música. Trompetista de finíssimo trato, arranjador maiúsculo, compositor de primeiríssima e produtor de pelo menos dois dos maiores artistas do século XX: Michael Jackson e Frank Sinatra. Quer mais? Foi ele quem encabeçou alguns dos grandes momentos de nossa época: a gravação de We Are the World, em janeiro de 1985. Sob sua regência, 45 cantores e cantores entoaram um hino cujo objetivo era arrecadar fundos para o combate à fome na África.

E o outro momento? O show de inauguração do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, talvez o mais emblemático e atual ícone do movimento negro nas Américas. Quincy Jones, à frente do projeto, foi o responsável por arregimentar figuras fundamentais e representativas para a sociedade afro-americana. sem ele, o ex-secretário de estado Colin Powell e a apresentadora e atriz Oprah Winfrey teriam assistido ao evento pela tevê. Isso fica, aliás, claro no documentário. Quincy Jones era um furacão, um líder absoluto para quem os grandes astros não se atreviam a dizer não.

A maioria dos excelentes discos de Quincy Jones não são aqueles em que ele mete a boca no trompete. As pérolas que ele deixou para quem gosta de boa música mostram o que ele conseguia fazer como arranjador e orquestrador. Um dos maiores, em qualquer gênero – o que, aliás, era o que ele apreciava fazer: capaz de misturas tão efervescentes quanto inusitadas, o maestro criava universos que dialogavam com todos os gostos. Da balada ao jazz, do rock ao erudito.

Um exemplo? O disco abaixo, gravado há 53 anos, é uma reunião de temas que, aparentemente, nada têm em comum: da dupla Jagger/ Richards ao grande compositor Burt Bacharach, do clássico Blues in The Night, de Arlen/Mercer, a duas canções do brasileiro Luiz Bonfá (de quem Quincy era fã), passando pelo poderoso jazz de Cannonball Adderley e pelo ultraclássico Mack the Knife, tudo isso está AQUI, brilhando com sua luz acesa. Não deixe de ouvir.

Se puder, assista ao documentário. É nele que se descobre o homem Quincy, tão próximo do artista quanto possível. Fala-se das suas relações familiares, das ex-mulheres (curiosamente, a atriz Nastassja Kinski, mãe de uma de suas filhas, aparece por 2 segundos apenas), do trato com grandes artistas, do namoro com o hip hop, da consciência do que era (e ainda é) ser um negro nos Estados Unidos. Quincy Jones firmou-se por sua arte. É um exemplo que fica para sempre, de um artista que levou às últimas consequências seu talento, sua força e seu objetivo: apresentar a nós o que é a música.

A melhor noite de 67

Nos últimos dias tenho falado a meus alunos sobre Tropicalismo, o movimento musical cujas características e personagens já foram abordados em questões do ENEM. Há pouco mais de um ano, aqui mesmo, neste blogue, escrevi sobre o assunto. Retomo-o, afirmando – e digo isso a meus alunos – que não se chega ao Tropicalismo sem passar pela Bossa Nova, pelo samba, pela Jovem Guarda, pelo rock e pela Antropofagia de Oswald de Andrade. E, claro, pelos festivais da canção, que apresentaram, em fins dos anos 1960, o que de melhor se produzia (e produziu) em termos de canção. Foram os festivais que nos proporcionaram conhecer Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil – e um sem-número de outros compositores que, hoje, habitam o panteão da música popular nacional. Abaixo, Caetano canta Alegria Alegria, acompanhado pelos Beat Boys.

Recomendo a eles que assistam ao documentário Uma Noite em 67. É possível assistir a ele, na íntegra, AQUI. Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, esse doc, de 2010, traz imagens inéditas não somente de cenas de palco, mas há algumas pérolas brotando dos bastidores do evento. Isso sem contar nos comentários, quase 50 anos depois, de gente que, de uma forma ou de outra, esteve envolvido no processo. Jurados, maestros, críticos e, claro, os compositores e cantores que se apresentaram nessa noite tão absolutamente singular. E ainda há a cena completa de Sérgio Ricardo quebrando o violão e arremessando-o para a plateia.

O livro é ainda melhor: traz as entrevistas completas com aqueles que estiveram no Teatro Paramount, local do Festival da Record, capitaneado por Paulo Machado de Carvalho (um dos entrevistados do livro). Aliás, é ele quem revela ter ido buscar Gilberto Gil no hotel, já que o compositor baiano recusava-se, dominado pelo pavor de um palco de festival, a apresentar sua obra-prima Domingo no Parque, que abocanhou o segundo prêmio e ainda serviu de embrião para o movimento tropicalista. Outro embrião é Alegria Alegria, de Caetano Veloso. Também revelou que Roberto Carlos (que não é entrevistado no livro) pediu para nunca mais participar de festivais.

O livro é tão saboroso quanto necessário. É um relatório, uma súmula do que foi o maior dos festivais. Depoimentos de Nelson Motta, Júlio Medaglia, Chico de Assis e Ferreira Gullar abrilhantam as páginas. É o documento de uma época em que os compositores tinham realmente que possuir talento para eternizar-se, e os 5 primeiros colocados (Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso e Roberto Carlos, em ordem decrescente) tinham isso de sobra. Eram os melhores naquele tempo e continuam os melhores atualmente, 51 anos depois. Quem pode lhes substituir?

Dirceu, que era baterista, toca berimbau. Gilberto Gil canta Domingo no Parque.

Roberto Carlos canta o samba Maria, Carnaval e Cinzas

Chico Buarque e sua Roda-Viva, acompanhado pelo MPB4

Marília Medalha, ao microfone, acompanhando Edu Lobo, ao violão. A campeã Ponteio é aclamada.

Phono 73: o que (ainda) há de melhor

Não sei se existe um festival, em terras brasileiras, que tenha sido mais representativo que o famoso Phono 73, realizado no Palácio de Convenções do Anhembi, em SP, nos dias 11, 12 e 13 de maio do referido ano. Quando digo mais representativo, claro que aludo ao fato de que, historicamente, essa reunião de grandes artistas influenciou gerações subsequentes, formou opiniões e apontou caminhos. A atual gravadora Universal chamava-se Phonogram, a multinacional holandesa que reunia grandes nomes da MPB, à época. Alguns eram mais conhecidos: Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Toquinho, Ronnie Von, Jair Rodrigues, Elis Regina, Vinicius de Moraes, Raul Seixas, Erasmo Carlos, Jorge Ben, Maria Bethânia, Wanderléa, Hermeto Paschoal e Wilson Simonal. Outros fariam história: Sérgio Sampaio, Luiz Melodia, Jorge Mautner e Odair José. Havia mais.

Imagem relacionadaNão se pode negar – nem se queria, acredito – que a tonalidade política do festival era clara. Em tempos de horror militar (no pós-apogeu do sangrento governo Médici), um aglomerado como esse não poderia ter outra denominação que não fosse reunião de comunistas. O diretor de marketing da empresa, Armando Pittigliani, sabia que tinha ouro nas mãos, mas reconhecia, naturalmente, o perigo explícito nesse tipo de evento. Uma de suas boas sacadas foi reunir todo o grupo numa grande fotografia em cujo pé se inscrevia: Só nos falta Roberto. É bom lembrar que Roberto Carlos recusou-se a participar – tinha seus motivos, e um deles era a aversão a contestações. O que, aliás, era o grande mote do festival. Uma contestação que ia da política à estética, passando pelo comportamento e pela linguagem.

Uma pena que o devedê dure tão pouco: mirrados 35 minutos, uma sobra do que foi o festival, mas, ainda assim, é o registro de imagens únicas, como as de Chico e Gil tentando entoar a emblemática canção Cálice, que só pôde ser gravada cinco anos depois, no famoso disco da samambaia, de Chico. Com os microfones cortados por ordens militares, Chico e Gil criam frases desconexas ao som da melodia. Outra imagem impressionante ficou por conta de Caetano Veloso: ao som de Asa Branca, ele dança como se estivesse possuído; depois se arremessa ao chão, grunhe e canta e geme.

Sérgio Sampaio, ao som de Eu quero é botar meu bloco na rua, simula um coito sexual com um parceiro imaginário. É um registro do que era a época: o desbunde que se misturava à atitude política. Gal canta Comadre Sebastiana; Toquinho, Vinícius e o copo entoam Meu pai Oxalá. Elis Regina foi vaiada – embora não se ouçam as vaias – por conta de ter, anteriormente, se apresentado nas Olimpíadas do Exército. Apesar disso, cantou Cabaré, de João Bosco e Aldir Blanc, e terminou ovacionada e perdoada por um público que reconhecia nela a maior cantora. O áudio digitalizado desse festival teve lançamento anterior: em 1997. As imagens, entretanto, não estavam disponíveis até 2005, quando foi lançada a caixa com os cedês e com o devedê. O título completo da obra é Phono 73 – O canto de um povo. Não sei se o povo teve algo a ver com aquilo, mas deveria ter tido.

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AQUI você assiste ao que existe de registro desse grande encontro.

AQUI e AQUI você ouve o disco duplo.

Tommy, The Who

No próximo 13 de julho comemora-se o Dia Mundial do Rock, algo estabelecido há 32 anos. Ótimo. A relevância do rock é inequívoca, embora muita gente – incluindo eu – acredite que seja música adolescente feita para adolescentes. O rock não se estabelece na alma adulta – ou seja, não conheço adultos que, em sua maturidade, tenham ouvido o gênero pela primeira vez e tenham absorvido sua estética e seu propósito. Pode ser que algum de meus seis ou sete leitores conheça. O rock nos pega lá na adolescência, quando estamos mais suscetíveis à rebeldia, ao estardalhaço, à contestação. Embora não seja meu gênero de preferência, tenho apreço por alguns artistas e, evidentemente, por algumas bandas. Elvis Presley, Joe Cocker, Jimi Hendrix, Allman Brothers e The Who estão no panteão, no primeiríssimo time. Claro, claro: a subjetividade estabelecendo as normas desta postagem.

Para homenagear este dia tão importante, trago AQUI o documentário The Who: Sensation: the story of the who’s tommy. Sim, em minúsculas, mesmo sendo o álbum em questão uma das obras-primas do rock em qualquer época. Para quem é fã, é um documento e tanto. É a chance de compreender por que algumas canções do disco nasceram desta ou daquela forma. Tenho todas as versões possíveis de Tommy: a orquestrada, a trilha do filme, o álbum original de estúdio e a releitura da peça da Broadway. Pergunto-me quase sempre: será que existiu algum baterista mais técnico e mais nevrálgico do que Keith Moon? Algum baixista de rock rivaliza com John Entwistle? E quanto às inventividades textuais e musicais de Pete Townshend? Sinceramente? Não vejo nada que se assemelhe. Sim, repito: é apenas uma opinião.

Ouvi Tommy pela primeira vez em 1976, quando veio a público a trilha do filme – ao qual assisti, no finado Cine Paz, no mesmo ano. Eu tinha quatorze anos, e não entendi a profundidade messiânica da personagem, nem os delírios e exageros de Ken Russell, o diretor. Mas a música ficou naquele adolescente que dava os primeiros passos no rock, ouvindo Dark Side of The Moon e The Six wives of Henry VIII, de Rick Wakeman, discos emprestados de um querido primo três anos mais velho. Ah, sim, como esquecer a beleza fulminante de Ann-Magret, mãe da personagem central, o menino cego, surdo e mudo Tommy? Mas o que interessa aqui é o álbum. Tommy é uma ópera-rock: a primeira que existiu enquanto conceito e prática. A grandiosidade operística está lá, marcada pela eletrificação dos instrumentos e pela abordagem dramática.

A tendência de um documentário como esse é ser elogioso, condescendente. Não é o caso. Pormenores da vida pessoal de Townshend – principalmente a infância, tortuosa, vítima de abusos – são expostos de tal sorte que torna-se possível compreender por que alguns temas foram direcionados a John Entwistle, co-autor quando o chefão se sentia emocionalmente incapacitado. Há histórias saborosas, irônicas, tristes, sobre algumas das canções. É só checar – assim como não se pode perder a fala de Keith Moon a alguns segundos do fim. Justo ele, que só aparece falando no início e no fim do documentário. Assista ao filme: as palavras, aqui, são um tanto desnecessárias.

Kurt Vonnegut, o humanista

Leio que Unstuck in Time, documentário de Robert Weide sobre a vida e a obra de Kurt Vonnegut, está em fase de pós-produção. Vonnegut é um dos meus ídolos literários, uma de minhas obsessões no que se refere à criação, às palavras. Lembro-me de caçar seus livros como aves rarae em sebos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Isso logo após ter conseguido, como que por milagre, edições mal traduzidas – feitas pela antiga Artenova, quem se lembra? – compradas na antiga Livraria Capixaba, sita à Nestor Gomes. Foram bons tempos, em que se podia garimpar obras de autores pouco conhecidos sem ser bombardeado por best-sellers destinados ao público adolescente. Hoje a internet ajuda muito.

Minto se disser que li todos os seus livros. Faltam-me dois: Happy Birthday, Wanda June, comédia escrita em 1971, e Canary in a Cathouse, livro de contos escrito 10 anos antes. Os outros? Ao todo 31, lidos e relidos (ao menos alguns) com o mesmo prazer de uma primeira vez, com o mesmo pasmo e satisfação diante de um parágrafo ou página que eu levaria algumas encarnações para conseguir escrever. Sempre achei Vonnegut necessário, essencial, principalmente àqueles que apreciam o humanismo expresso em palavras, sem qualquer blefe aparente, sem a demagogia fácil, que pode brotar por diversas razões – todas elas escusas. Vonnegut foi um humanista dentro e fora das páginas: praticou o respeito pelo semelhante, embora o cineasta Robert Weide tenha revelado facetas cruéis de um escritor que, sendo humanista, ainda é humano. Era também ateu, membro de uma organização como a AHA, a Associação Humanista Americana, cujo lema é Bondade sem um deus. É sério.

Muitos de seus livros trazem a marca humanista, sejam eles marcados por um desbragado senso de humor, sejam eles estruturados a partir de uma ironia dolorosa diante da realidade. Uma ironia que não faz rir, ao menos não na frente dos outros. É provável que seu humanismo tenha se consolidado a partir de duas experiências: ter sido soldado durante a Segunda Guerra e ter adotado os três sobrinhos, filhos da irmã e cunhado falecidos no mesmo ano. O próprio Vonnegut afirmava que as experiências pessoais são a melhor matéria literária. Seus textos podem – e devem – ser lidos baseados na crença de que o ser humano, por pior que seja, ainda vale a pena.

Pode até ser que você, sexto ou sétimo leitor, não me pergunte, mas vou citar os livros de Vonnegut de que mais gosto. Vale para preencher a postagem, assim como vale para um possível curioso que leve a sério o que digo. Leia Almoço dos Campeões, Bem Vindo à Casa dos Macacos, Bode Vermelho, Cama de Gato, Galápagos e, claro, Matadouro 5. São clássicos, embora eu considere clássica praticamente toda a obra desse senhor. Todos esses livros citados podem ser encontrados em traduções satisfatórias, mas se você lê na língua de Vonnegut a coisa fica melhor, tenha certeza. Aliás, não é só o documentário que abriu a postagem que revela o namoro entre Vonnegut e o cinema. Matadouro 5 e Almoço dos Campeões vieram às telas. Há muitos outros, os quais não vi. Gostaria de ter visto o filme baseado em seu romance Pastelão – ou Solitário Nunca Mais (tradução). Jerry Lewis trabalha nele.

Kurt Vonnegut morreu há dez anos, de complicações cerebrais por conta de uma queda. Estava com 84 anos. Alguns de seus livros, publicados postumamente, são a prova de que ele viverá para sempre – ao menos para quem aprecia literatura de verdade.