Brendel e Levine concertando Ludwig

Brendel e Levine concertando Ludwig

O notável pianista Alfred Brendel deixou-nos há alguns meses. Foi, para muita gente, o maior intérprete das obras para piano de 3 grandes: Beethoven, Liszt e Schubert. Eu não sei dizer se é o maior — mas está entre os melhores que ouvi. James Levine é um californiano que mandou e desmandou em duas grandes companhias musicais: a Met Opera e a Sinfônica de Boston. São dois craques que, inseridos (cada um a seu modo, mas como convidados) na centenária Sinfônica de Chicago, fizeram história. Um dos resultados dessa história é um disco triplo da Philips, ilustrado ao lado.

Que fique claro: sobre o casamento Brendel-Beethoven, ao menos um fruto é fundamental: foi o pioneiro na gravação de todos os concertos do alemão para piano. Ninguém se aventurava, já que era empreitada que previa desgaste, muito trabalho e o tempo parecia andar lentamente. Sem contar que era necessária a presença de um maestro tão linha-dura quanto maleável, a depender da situação. James Levine era o cara certo. Quanto à Sinfônica de Chicago, bem, quase mil gravações e mais de 60 prêmios Grammy credenciam-na como adequada para acompanhar a dupla Brendel-Levine.

Alfred Brendel gravou os concertos para piano três vezes. Fez o mesmo com as sonatas. Era um apaixonado por Beethoven, a quem considerava o maior nome da música. E olhe que gravou Schubert, Schumann, Haydn, Mozart e Brahms. Deu colher de chá aos russos Balakirev, Stravinsky e a Mussorgsky — naquele ótimo cedê da One Music. Sinceramente? O que mais se aproxima, em qualidade, dos concertos de Beethoven é a caixa que a Decca lançou, há alguns anos, intitulada Piano Works. Sim, com a obra de Schubert. Claro que considero apenas o que conheço. É opinião para lá de limitada.

Há muito lirismo na interpretação de Alfred Brendel e na condução de James Levine — mas esse lirismo, segundo o próprio pianista, está na concepção de Beethoven. Ao pianista cabe expor as características da obra sem embutir muito sua subjetividade. Há muita seriedade também: alguns concertos trazem a marca grave do grande criador que era o velho Ludwig. Bem, alguém disse que escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura. Deixo para um possível leitor ouvir o que o trio Brendel-Beethoven-Levine tem a dizer. E esse leitor pode decidir se concorda ou não com Alfred. Eu, não.

Liszt, Wakeman & meu primo

Liszt, Wakeman & meu primo

Se assim se pode dizer: o húngaro Franz Liszt foi o primeiro astro pop da música, uma espécie de Elvis Presley sem as costeletas e os barbitúricos. As mulheres na plateia não lhe jogavam calcinhas, mas é provável que tivessem vontade. Daí se firmou o termo lisztomania, cunhado pelo poeta romântico Henrich Heine que — dizia-se — cobrava uma boa grana por elogios musicais nos folhetins que escrevia. Liszt não quis pagar e se deu mal: Heine caluniou-o e ainda disse que as fãs do compositor só eram fãs porque recebiam buquês de rosa para gritarem freneticamente em seus concertos. Isso é papo para postagem futura.

Lisztomania (album) - WikipediaPor que falo de Liszt e da lisztoamnia? Porque ganhei, há poucos dias, de um querido primo, o elepê da trilha sonora do filme Lisztomania, de Ken Russel, o diretor norte-americano que trouxe ao mundo pérolas como Gothic e Crimes de Paixão — além, claro, de Tommy. Aliás, Lisztomania e Tommy são do mesmo ano, 1975, e estrelados pelo mesmo ator-roqueiro Roger Daltrey, vocalista da banda The Who. A trilha sonora é assinada pelo ás dos teclados progressivos: Rick Wakeman que, no filme, aparece banhado a ouro, como o deus nórdico Thor. É divertido, quase hilário. Além do áureo Wakeman, Ringo Starr — baterista dos Beatles — faz o papel do papa Gregório XVI, usando uma mitra cravejada de pedras preciosas. Sim, você leu direito. É uma festa.

O disco é ótimo — o filme, nem tanto. Há mais surrealismo do que o necessário, Daltrey não sabe atuar, alguns flash-backs são mal costurados, há muita devoção fálica e maluquice de provocar enxaqueca. Não há, contudo, muito o que reclamar: vale assistir porque é um filme difícil de encontrar. Eu assisti por acaso — numa madrugada insone, num canal Telecine. E o disco? Pois apesar da pressa com que foi feito (Rick Wakeman estava atolado de compromissos), é ótimo. Muita coisa de Liszt, de Richard Wagner e adaptações das obras de ambos, incluindo letras embutidas em temas instrumentais. Da lavra de Wakeman só uma faixa: Hibernation, que ele compôs em uma tarde.

Видео Lisztomania (1975) | OK.RU

Fica em segundo plano a brigaiada entre Rick Wakeman e os chefões da gravadora Universal. Bem, Rick Wakeman briga com todo o mundo, mas parece que na contenda com David Geffen ele tinha razão. Voltemos ao presente: encontrado num sebo de livros, foi arrematado por meu primo que, é bom que se diga, foi quem me apresentou o disco, no final dos anos 1970. Esse exemplar, agora, encontra-se em local seguro, junto a outros elepês. Ouço-o neste momento, com uma satisfação ainda maior do que ouvi pela primeira vez. Até onde me lembro, evidentemente.

A infância de Jesus

Hector Berlioz é o maior nome do romantismo francês. Na música, evidentemente. É o que Victor Hugo representa para a literatura: o gênio puro, o artista máximo de uma época. Ouvi, durante a manhã de sábado, o oratório L’Enfance du Christ, obra superlativa de todo o romantismo europeu. Charles Munch, maestro linha-dura, foi diretor musical da Boston Symphony por 13 anos, e em 1956, gravou essa peça musical de pouco mais de 90 minutos. Obra-prima, levada às alturas por Cesar Valletti — narrador e centurião romano —, Maria (Florence Kopleff), José (Gérard Sousay) e Giorgio Tozzi, que acumula as funções de Herodes, Polydorus e um anônimo pai de família.

Berlioz não era grande coisa como instrumentista. Mal sabia tocar violino, piano ou cello. Seu instrumento, de fato, era a orquestra, como um todo. Ninguém o superou, em qualquer época: é o pai orquestral de Wagner e de Strauss, que, pode-se afirmar, não foram além dele. Em L’Enfance du Christ, porém, está comedido, afinal é um ofertório, e arroubos orquestrais não são bem vindos. Sua influência é inegável, embora — e isso é realmente curioso — não tenha deixado discípulos. Não há registro de alunos de Berlioz.

Abordar a infância de Jesus não é algo corriqueiro. Preferem-se, claro, a vida milagreira, as peregrinações, a crucificação e, lógico, o que o distingue dos outros seres humanos: a ressureição. O que chama a atenção é a narração: direta, sem floreios. Cesar Valletti, tenor que brilhou como Don Otavio, na mozartiana Don Giovanni, abrilhanta o oratório com uma clareza de fazer inveja a um professor de francês. E olhe que Valletti era romano! A estrela, porém, é Giorgio Tozzi, que interpreta Herodes, em sua angústia cheia de terror e urgência. Hector Berlioz, um autêntico antirreligião, sentiu-se à vontade com o tema.

A novaiorquina Florence Kopleff faz uma Maria um tanto tímida, mas nem por isso distante da beleza e do gozo que essa figura gera nos católicos. Vale ouvi-la com cuidado, observando o frescor de sua voz límpida. Fui buscar no YouTube as imagens dessa gravação. Não há, após quase 70 anos. Há, entretanto, esta AQUI, com o Coral Monteverdi e John Eliot Gardiner mandando ver. Dizem que há uma gravação estupenda com o belga Philippe Herreweghe, mas eu não conheço. Certamente é coisa fina, mas eu gostaria mesmo era de ter testemunhado o trabalho de Munch.

A propósito: o disco em questão é duplo, e traz as obra Les nuits d’eté — que ficará para uma postagem futura.

Beethoven, Bach: 2 livros

Beethoven: Solomon, Maynard: 9780028724607: Amazon.com: BooksMais livros, mais música.

Maynard Solomon é um craque, um ás. Escreve para quem conhece o assunto com profundidade; escreve para quem é leigo e se interessa por aquilo que ele fala: música clássica. Conheço poucos com essa habilidade, porque ambos – o conhecedor e o ignorante interessado -, para ele, têm a mesma importância, já que se nutrem da mesma matéria, cada um a seu modo. E de qual matéria eu falo? De Ludwig van Beethoven, um dos mais importantes nomes da música em qualquer época. Para muitos, o maior. 

Acabei de ler a biografia do grande homem escrita por Solomon. É um assombro. Um trabalho cirúrgico sobre a amplidão de uma obra sem limites: as influências, a vaidade, a surdez, a bajulação, a saúde débil. O Beethoven despótico, o incompreendido, o arrogante. O Beethoven absolutamente genial que, quando queria, era incomparável, senhor absoluto do elemento musical. Claro: há um capítulo sobre o tema amoroso e, evidentemente, a Amada Imortal dá o ar da graça. Há também os relatos absolutamente saborosos das circunstâncias que levaram o gênio a compor determinadas peças musicais. É de não querer parar de ler.

I48 variações sobre Bach | Amazon.com.brniciei, neste mesmo dia em que escrevo este texto, a releitura de 48 variações sobre Bach, de Franz Rueb. Li-o quando veio a público, há 21 anos. É biografia estilosa, diferente de tudo o que já li (ou reli), traduzido numa narrativa incomum. Rueb é suíço, dedica-se à música desde a adolescência e ele mesmo sabia que ouvir Bach aos dezoito anos é diferente de ouvi-lo 40 anos depois. Essa é a premissa: Bach varia, modifica-se para melhor, sempre. E essa variação estende-se à própria concepção do Kantor.

Há o Bach religioso, luterano; há o Bach iluminista, algébrico, pensador. Franz Rueb analisa os dois de forma descontraída, com linguagem acessível – um tanto distinta daquela de Solomon – e simples. As Variações Goldberg, mote para o livro, são, originalmente, um exercício para teclado: repetições necessárias com sutis modificações. O livro é isso. Bach, único, torna-se variável em vida, obra, realizações, sentimentos, pessoas. Nada mais óbvio, nada mais inventivo. Vale a leitura.

Alejo Carpentier: música & letras

Alejo Carpentier - Portal da LiteraturaFiquei alguns anos me preparando para escrever sobre aquele que considero o maior escritor latino-americano: o cubano Alejo Carpentier. Bem, afirmar que ele é o maior é juízo de valor e, portanto, subjetivo. Um querido amigo disse que ser o maior num país que produziu Lezama Lima e Cabrera Infante não é fácil. Concordo: mantenho a afirmação, entretanto. Carpentier tem a elegância e a erudição necessárias aos grandes escritores – sem deixar, claro, que tais elementos o afastem de leitores menos exigentes, mas que apreciam a arte literária. Antes que me apedrejem: escritores inteligentes escrevem para leitores inteligentes.

Fiz referência a ele ao escrever sobre Antonio Vivaldi, numa postagem recente. Concerto Barroco é uma obra-prima, que se aproxima de uma outra, intitulada A Sagração da Primavera, dois livros que nascem da música e vivem por ela. Isso sem contar El Acoso, que ganhou tradução como O Cerco, e que versa sobre política e, claro, música. Alejo Carpentier era um sujeito de muitas caras (no ótimo sentido): era jornalista apaixonado por arquitetura, música e pintura. Lia partituras e versava sobre pintores expressionistas com propriedade.

E era um escritor extraordinário, cujo barroquismo da linguagem pode parecer, de imediato, difícil (e um tanto fastidioso). Seus livros (li alguns) não me assombraram inicialmente – com exceção para o citado Concerto Barroco -, e me obrigaram, não sem paciência, a esperar os enredos ganharem ritmo. Aconteceu com A Sagração da Primavera, uma história de amor entre um cubano revolucionário e uma bailarina russa. Aconteceu com O Cerco, narrativa curta cuja base é a Eroica, terceira sinfonia de Beethoven.

Carpentier escreveu La Musica en Cuba. Não conheço a obra, mas imagino que sua pesquisa deva ter a profundidade necessária ao esclarecimento pleno dessa específica arte. Em O Músico em mim, um retrato extraordinário da relação entre o romancista e a música, Alejo Carpentier expõe seu conhecimento vastíssimo sobre a música clássica do século passado, mas isso é papo para uma outra postagem. Fique com A Sagração da Primavera, com Concerto Barroco e com O Cerco. Ou, ao menos, um deles.

Pe. Toninho, estações, top 5 etc.

“Qual o top 5 da música clássica?”, perguntou-me um aluno. Evidentemente queria uma resposta plena de subjetividade, queria ter acesso a meu gosto pessoal. Falei, com tranquilidade, que Bach, Beethoven, Mozart, Handel e Vivaldi eram os que mais me impressionavam. Fiz questão de ressaltar que meu conhecimento de música erudita é tão limitado quanto meu conhecimento de qualquer gênero musical. Esse recato singelo – permitam-me o pleonasmo! – não pareceu ter qualquer efeito sobre ele. Bem, desses 5, três são barrocos: o que mostra minha predileção. já escrevi sobre ISSO.

Listas, e eu também já disse isso, são feitas para divertir: seja quem lê, seja quem as profere. Não significam parâmetro, exceto para seu cultor. Lembro-me de ter lido Concerto Barroco, do extraordinário escritor cubano Alejo Carpentier. No livro, narrativa curta, um dos personagens é o padre ruivo – também conhecido por Antonio Vivaldi. O epíteto se justifica: era padre mesmo, mas isso não o impediu de fazer a melhor música italiana da época. E olhe que conviveu com três titãs: Corelli, Albinoni e Domenico Scarlatti – só para citar os conterrâneos.

Vivaldi morreu num dia 28 de julho, há 282 anos. Sua música comprova a teoria de que a grande arte só é grande de verdade se vencer o tempo. Atemporal, serve a quem valorizar a sensibilidade, a quem tiver ouvidos para o que é a absoluta beleza. Sua música sacra é incomparável, suas cantatas não devem nada às de Bach, o grande ás na categoria. Tenho todas as sonatas e a maioria dos motetos – tudo em cedê, quando ainda se compravam discos digitais. Hoje o streaming disponibiliza tudo. Está mais fácil, de modo que não se justifica continuar ouvindo Jota Quest.

Os concertos para violino intitulados As Quatro Estações são o que mais se conhece de Antonio Vivaldi. São provavelmente a peça musical mais conhecida da música clássica, junto à introdução de Quinta Sinfonia, do velho Ludwig. Não se deixe enganar pela popularidade: as estações são concertos magníficos, absolutamente perfeitos em sua criação, e fazem parte da Opus 8, intitulada Il Cimento dell’armonia e dell’inventione. É uma declaração de amor à natureza, à musica, à poesia. Tudo de que a arte realmente necessita. Aliás, além de oxigênio e glicose, tudo de que nós – humanos – necessitamos.

Barrocos fundamentais

Alguém disse – e eu acredito – que a música barroca é o apogeu da criação na arte. Principalmente a música barroca alemã, capitaneada pela maior personalidade da música: Johann Sebastian Bach. O barroco musical italiano não fica muito atrás, e, caso quem está lendo duvide, ouça o disco abaixo. É uma coletânea da folia barroca, na qual brilham 4 italianos, um francês e um alemão. No dna deste último descansava a herança do citado Johann. Essa coletânea é simplesmente a melhor compilação de música barroca (reunida em apenas um disco) que conheço. Eis a capa:

Quem são os italianos? Corelli, Geminiani, Scarlatti e Vivaldi. O francês é Marin Marais e o alemão, o filho mais criativo de Bach: Carl Philipp Emanuel. O Quarteto Purcell – formado por Robert Wooley (cravo e órgão), Richard Boothby (violoncelo) e por duas Catherines nos violinos: Weiss e Mackintosh – é de uma extraordinária competência. A exatidão da execução é tanta que parece ter sido corrigida (como se houvesse necessidade!) por programas de computador. Coisa assombrosa, ao mesmo tempo que edificante e tremendamente emotiva. Eis o time:

Primary

A música barroca está em primeiro lugar, no que se refere às minhas preferências. A polifonia, o uso do baixo contínuo – que só fui compreender muito tempo depois de ouvir exaustivamente – e a inventividade de tantos sons combinados me fizeram admirar, primeiramente, J. S. Bach. Depois, fui a seus pares: os seis senhores que compuseram as variações que geraram esse disco excepcional. Confesso que minha predileção, dentre as seis gravações, está centrada no meu xará, Francesco Geminiani e seu Concerto Grosso La Folia (after Corelli). Infelizmente essa gravação não é com o Quarteto Purcell.

Caso se interesse, aí vão os links para se ouvir: AQUI, 12 Variationen über Die Folie D’Espagne, de C. P. E. Bach. AQUI, Trio Sonata in D Minor (Variations on “La Folia”), de Vivaldi. AQUI, Folia From Toccata No 7 (Primo Tono), de Scarlatti. AQUI: Les Folies d’Espagne, de Marais. E, finalmente, AQUI, a genial Sonata In D Minor Op 5 No 12, de Corelli. Sinceramente? Eu ouviria todas, na sequência que quiser – não deixe de ouvir, contudo.

A única antologia, por enquanto

Vamos ao óbvio: só se deve enumerar um artigo se houver outros exemplares dele. Se for único, não faz sentido chamá-lo “primeiro”. Sim, falei algo dispensável, implícito em qualquer discurso. A editora Paz  e Terra, entretanto, pensa diferentemente. Aliás, sendo honesto: o problema não é da editora brasileira, mas da própria revista mundialmente conhecida e respeitada: The New York Review of Books. Vou explicar: em 1997, adquiri um livro que saía do forno: a edição brasileira de uma reunião de artigos publicados, por 30 anos, do citado veículo.

Se você que está lendo se interessa por cultura, arte, política, sociologia e uns nacos de filosofia vai apreciar a seleção de artigos feita por Robert Silvers, Barbara Epstein e Rea Hederman. Algumas perguntas iniciais devem ser feitas. Quem escreve? Sobre o que e sobre quem se escreve? Como se escreve? Esta última pergunta é fácil de responder: escreve-se bem. Alguns textos são absurdamente bem escritos – chega a dar inveja, ao menos a mim. As duas primeiras perguntas podem ser respondidas ao mesmo tempo.

Para se ter uma breve ideia: o crítico de arte Robert Hughes escreve sobre Andy Warhol; o poeta Wystan Auden versa sobre enxaquecas, enquanto o polêmico Gore Vidal fala sobre aviação em A Paixão de Voar. É um prazer saborear cada parágrafo da entrevista que o maestro Robert Craft faz com o sempre genial Igor Stravinski: o assunto é Beethoven e suas sinfonias. Richard Ellmann, claro, fala sobre Joyce, e meu texto preferido, Balzac aos trinta anos, é escrito pelo brilhante crítico inglês V. S. Pritchett.

Falei em preferência textual, mas é difícil escolher, dentre 23 artigos, qual o mais interessante. Eu não conheço uma revista literária com tamanha envergadura intelectual, capaz de abraçar tanto talento pontuando ideias que interessam não somente aos iniciados, mas a qualquer um que enxergue na boa leitura prazer e benefícios. Em tempos de boçalidade escrita e falada, de superficialidade de ideias, de enaltecimento dos medíocres, o New York Review of Books é um foco necessário de resistência.

Charpentier, o marginal

Os maldosos dizem que o maior feito de Marc-Antoine Charpentier foi colaborar com o grande dramaturgo Moliére em Les Facheux, ópera em que o escritor francês trabalhou como libretista. Música barroca de primeiríssima, embora, em sua época, tenha sido quase um marginal, porque Luís XIV o considerava “demasiadamente italiano”. Ouvir este disco abaixo, Litanies de La Vierge, ou pequenas orações em devoção à Virgem Maria, mostra que, italiano ou francês, sua música é universal, estimulante e carregada de beleza.

Dia desses, ouvi um rapper afirmar que escutar música clássica é esnobismo. A afirmação parece-me tão preconceituosa quanto dizer que o rap só tem valor porque é fundamentado em seu contrário – ou seja, a modéstia. É uma discussão tão inf´értil quanto desnecessária. A afirmação dele, entretanto, fez-me pensar: estaria a música clássica, hoje, numa posição marginal? Ainda há espaço para ela no coração da massa juvenil, como há para o rap, para o funk, para a canção sertaneja, para a música religiosa e, com menos prestígio, para o rock?

A Deutsche Grammophon, a mais antiga gravadora do mundo, está mal das pernas há muito tempo, mesmo antes de os downloads – piratas ou não – se intensificarem e se tornarem a ordem do dia. Marginal, a música clássica, em crise, não sabia o que fazer. Manter-se no referido esnobismo ou, carregada de autoindulgência, capitular diante do mercado? Os grandes int´érpretes, as sinfônicas e filarmônicas mais respeitadas, os maestros e solistas – todos, relegados ao mundo restrito do pedantismo, devem simplesmente desaparecer porque a maioria os considera elitizados?

Sébastien Daucé : la musique baroque, "une question de fascination"

Charpentier era marginal, mas continuou seu trabalho. Fez música que, hoje, é respeitada, cultuada, admirada como um autêntico barroco de estirpe nobre. Caso possam – e se interessem por música clássica -, não deixem de ouvi-lo: ainda mais pela batuta de Sebastién Daucé (este aí, acima), maestro francês fundador do Ensemble Correspondences, formado por ex-alunos do Conservatoire National Supérieur de Musique de Lyon, um dos mais prestigiados conservatórios do mundo. Aproveite!!!

Bach, Brandenburgo

Hoje, dia 21 de março, é dia de Bach – ou melhor, há 334 anos, nascia uma das maiores – senão a maior – personalidades artísticas de todas as épocas: Johann Sebastian Bach. Para mim, maior que Shakespeare, Cervantes, Michelangelo, Dante, Nijinsky, Rembrandt. Sim, é bobagem comparar, mas diverte. Em homenagem ao Kantor, aí vai o que, para muitos, é sua maior obra: os Concertos de Brandenburgo, escritas em 1721 para o Margrave de Brandenburgo, que, segundo consta, sequer agradeceu a generosidade. Não sei, mas deve ser o som celestial, aquele que se ouvirá ao lado do Criador. É música criativa, contrapontística – barroca em sua essência -, viva e alegre, multi-instrumental. Extraordinária, resumindo.

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