2 filmes de Francisco

Raramente escrevo sobre religião e sobre suas variáveis — incluindo nelas as figuras icônicas e fundamentais para quem tem fé, principalmente se esse quem for católico. Embora respeite grandes pensadores religiosos (Calvino, Lutero, Jesus), gosto mesmo é do meu xará Francisco, que originalmente se chamava Giovanni di Pietro di Bernardone. Trocou de nome; eu, não. Aliás, como ele morreu aos 44 anos, posso afirmar que fui Francisco por mais tempo. Isso, todavia, é detalhe. Nasceu num 5 de julho, há 845 anos, permanece vivo em filosofia, em gesto e em palavras. Era para ser seguido por todos.

Resenha: Irmão Sol, Irmã Lua :: DVDMagazine: 24 ANOS ON-LINEPor que me lembrei do santo xará? Porque buscando assistir a filmes menos atuais, deparei-me com uma película que muito me impressionou (quando assisti, há uns 45 anos — menos pela história que pelo visual: Irmão Sol Irmã Lua, do italiano Franco Zeffirelli. O pôster ao lado não apresentou o filme no Brasil, mas imagino a reação dos carolas diante da beleza atlética do futuro santo nu à imagem do Cristo não-crucificado, liberto da escravidão dos pertences pessoais, incluindo as próprias roupas. Francisco se desnuda para dedicar-se a auxiliar os menos favorecidos.

É a súmula do paradoxo: a igreja, os comerciantes e a nobreza de um lado, ostentando, rindo e acumulando. De outro lado, a pobreza extrema da maioria, a fome, a miséria, a doença e a morte. Francisco faz sua opção. É altamente poético em algumas partes, sem errar a mão: nem no cinema nem na poesia. Revi com prazer. Outro filme: Francesco, de Liliana Cavani, cineasta italiana que deu ao mundo a obra-prima O Porteiro da Noite (em breve, por aqui). Sim, ela conseguiu o que parecia improvável: fez o então galã Mickey Rourke encarnar o rebelde contracultural. A direção é segura — quem gosta de cinema sabe que é preciso pulso hábil e firme para usar bem os flash-backs.

Rourke vinha do estrondoso sucesso voyeurístico-fetichista Nove e meia semanas de Amor e do chato Barfly, em que viveu o poeta bebum Charles Bukowski. Em Francesco, talvez até pela importância histórica da personagem, ele se saiu bem melhor. São dois filmes diferentes entre si — que trazem a mesma personagem carregada de boas intenções, humildade e contradizendo o stablishment social e eclesiástico. Cavani contou a história; Zeffirelli expôs a emoção. São dois bons filmes que merecem ser vistos por quem se incomoda com a desigualdade, tão necessária à injustiça quanto ao poder. 

AQUI, com legendas em inglês.

Wakeman, Henry VIII & as esposas

Há 535 anos nascia Henrique VIII, chefão do trono inglês por quase 4 décadas. Casou-se seis vezes, brigou com o Papa Clemente II e se tornou o manda-chuva da Igreja Anglicana, meteu a mão na grana do poder católico e reprimiu quem o contradizia — com a morte, inclusive. O sujeito não era fácil: para muitos, o pior caráter que já pisou em solo inglês. Pior até que o carniceiro Jack the ripper. Mencionei que ele teve seis esposas. Entre 1509 e 1547 — quando morreu —, teve também várias amantes: uma satiríase sem precedentes na história inglesa. Mas por que falo dele? Primeiro porque hoje é dia 28 de junho (seu nascimento), mas principalmente porque estou ouvindo The Six Wives of Henry VIII, do tecladista Rick Wakeman. Você pode ouvir AQUI, caso queira.

O disco é de 1973, pouco tempo depois de ter deixado as fileiras da banda de rock progressivo Yes. Aliás, a ideia progressiva foi mantida, com largos e intensos solos de teclado e uma bateria nervosa, como a do ótimo Alan White. E toneladas de sintetizadores fazendo a festa, sob a batuta de Mr. Wakeman. É um discaço, que teve origem na ideia de que cada esposa do monarca inglês era diferente uma da outra. O que tinham em comum: a cama, as ordens e a fúria de Henrique VIII. É um disco conceitual.

Diz-se que Rick Wakeman estudou cada uma delas: seus gostos, personalidades, medos, anseios, caracteres, corpo, voz. E fez o que quis com isso. De seu ponto de vista, encontrou nas mulheres e nos temas uma identidade própria, um retrato musical cheio de nuances rítmicas e melódicas. Todas as faixas são boas: para muita gente, é o melhor disco dele. Não sei dizer, mas me regozijo ao ouvi-lo desde a primeira vez, em 1976. É rock progressivo de primeiríssima, sem guitarras estridentes, e muito estilo.

Rick Wakeman nos cuenta sobre sus inicios y su próximos proyectosSe Rick Wakeman ou Henry VIII tinham uma preferida, não sei. Eu aprecio, dentre as seis, Katherine Howard. A música, claro. AQUI você a ouve. O citado Alan White dá seu recado, como poucos bateristas no rock o fizeram. Se você, caro sexto ou sétimo leitor, não curte música mas gosta de filmes, aí vai: assista a A Outra, de Justin Chadwick. As belezuras Natalie Portman e Scarlett Johansson brilham ao lado de um Eric Bana meio sem jeito para o papel. É bonito demais para interpretar um rei rabugento, gordo e calvo. Eu ficaria bem melhor no papel.

Bônus: AQUI um texto que escrevi sobre Rick Wakeman e Liszt.

Bônus: AQUI você lê uma entrevista bacana, de 2024.

 

O tri aos 8 anos

Em 1970, mês de junho, eu era um menino de oito anos. De costas para a tevê, enquanto o escrete brasileiro enfrentava a Checoslováquia — era o primeiro jogo do Brasil na Copa do México, em 1970 —, eu desenhava, dentro das minhas limitações, o Superman numa folha em branco. O gol de Petrás, atacante checo, fez minha mãe exasperar-se: não pelo gol do adversário, mas pela imagem do jogador benzendo-se catolicamente na lateral do campo, comemorando o tento. “Comunista não se benze!”, esbravejou. Essa é minha primeira lembrança da Copa 70, o torneio no qual o time brasileiro tornou-se campeão. Já atento ao jogo, vi o Brasil pulverizar os comunas.

A partir daí acompanhei os jogos ao lado do meu pai, fã de futebol, com quem aprendi sobre o assunto — do Cruzeiro de Tostão à mortal linha de ataque do Botafogo; dos passes de Gérson à patada  atômica de Rivellino. E, claro, sobre o maior de todos os craques: o rei Pelé. Entre um jogo e outro, eu aprendia. Superman saiu de campo, e o futebol passou a jogar. Mas por que esse momento saudosista, neste texto? Porque assisti, via Netflix, à minissérie Brasil 70: A Saga do Tri. Cheguei a emocionar-me: voltar no tempo por meio de boas lembranças é um privilégio.

Bem, e a minissérie? É ótima, mesmo que os detratores afirmem que Pelé é interpretado por alguém 15cm mais alto. E daí? Rodrigo Santoro como João Saldanha? E daí, novamente? São detalhes — ou seja, não têm muita importância. O que vale é o feito: havia uma dívida do cinema brasileiro com o futebol doméstico. Apesar do ótimo Boleiros e do documentário Isto é Pelé, faltava uma obra capaz de mostrar o que representou a seleção brasileira principal num momento politicamente tão conturbado. Havelange é retratado como ele realmente era. E o sanguinário ditador Emílio Garrastazu, que aparece apenas como voz?

Gostei da minissérie — e gostei muito. Os lances de gol, com a câmera acompanhando a trajetória da bola até seu destino final são um achado. Aplausos para os diretores Paulo Morelli, Quico Meirelles e Pedro Morelli. E os jogadores? Pelé e Rivellino têm sósias. Zagallo e suas superstições dão o toque de humor. Saldanha enfrentando os milicos é um ótimo contraponto, e as cenas nos vestiários são absolutamente verossímeis, revelando as tensões, os receios e o trauma de 1950. Lamentei não haver imagens dos dois gols de Tostão contra o Peru, nas quartas de final, mas tudo bem. Vale assistir. Se você que lê é um sessentão — daí pra frente! —, e se apreciar o ludopédio, vai se emocionar também. Voltei a meus 8 anos, e isso foi bom.

Ciment & Kubrick

Michel Ciment évoque Stanley Kubrick, le «dernier grand homme de spectacle du cinéma moderne» | INAMichel Ciment é um dos maiores críticos de cinema no mundo. Ou foi, porque morreu há 3 anos, mas o que registrou na Positif — um contraponto à Cahiers du Cinéma —– sobre Orson Welles, no início dos anos 1950, tornou-o uma celebridade na área. Um craque respeitado entre seus pares e admirado por quem aprecia o cinema. Acabei de ler seu ótimo livro Kubrick, publicado pela Ubu Editora. Michel Ciment é esse senhor ao lado, cujo trabalho acerca do diretor norte-americano é, para mim, o que há de melhor sobre o autor de 2001, Uma Odisseia no Espaço e Laranja Mecânica.

O que há de tão interessante, e de tão inovador, sobre um autor de cujos filmes quase tudo já foi dito? Bem, não creio que Ciment quisesse ser original, mas foi: conectou os filmes de Kubrick de uma forma que eu nunca havia visto (nem pensado). Mostrou as intratextualidades, as autocitações, os elementos comuns a vários de seus próprios filmes e, de quebra, mostrou que o grande diretor norte-americano muitas vezes negava, no filme que então preparava, o filme feito anteriormente. Em outras palavras: era um inquieto que insistia em negar-se, e ir adiante, mas olhando para trás, era um processo considerado natural. Era um inovador.

Ao menos 5 filmes do mestre são dissecados: 2001, O Iluminado, Laranja Mecânica, Barry Lyndon e Nascido para Matar. Há deliciosos — e esclarecedores — depoimentos de gente que trabalhou com Stanley Kubrick: as atrizes Shelley Duvall e Marisa Berenson; os atores Jack Nicholson e Malcolm McDowell; a roteirista Diane Johnson e o assistente Andrew Birkin, sem falar em John Alcott, diretor de fotografia que trabalhou com ele em vários filmes, e que afirmou, em 1980: “Se Kubrick não fosse diretor, seria o melhor diretor de fotografia do mundo.” Devia saber o que estava falando.

Michel Ciment é um fã da psicanálise — e, claro, de Freud, a quem cita inúmeras vezes. O cinema de Kubrick, simbólico e complexo, seria um prato cheio para o pensador vienense. E é usando a invenção dele que Ciment nos oferece belos textos sobre Lolita e De olhos bem fechados, duas pérolas que, avaliadas pelos olhos (bem abertos) da psicanálise, mostraram-me aquilo que não percebi vendo e revendo esses filmes. Acho que é hora de parar de falar. Se você gosta de cinema e aprecia textos inteligentes sobre essa arte, vai apreciar o que diz Michel Ciment. Aproveite!

Caso queira ler um texto meu sobre Laranja Mecânica, clique AQUI.

Solaris: Andrei & Stanislaw

Solaris: Andrei & Stanislaw

Numa lista (minha) sobre os grandes filmes de ficção científica a que assisti, Solaris estaria no top 3. Fácil. Calma: não falo da película com George Clooney e com aquela belezura da Natascha McElhone. Falo do filme de Andrei Tarkovsky, de 1972, uma obra-prima a que (re)assisti no último fim de semana, após ter (re)lido o clássico de Stanislaw Lem, no qual o filme se baseou. Solaris é sobre tudo: arte, ciência, suspense, fantasia, ética, moral, história de amor, filosofia. Tarkovsky justifica a fama: é um dos mais importantes cineastas de qualquer época — e não somente entre russos, criando filmes que extrapolam a ideia de que cinema existe primordialmente para contar histórias e entreter. Solaris foi a resposta russa a 2001, de Kubrick.

Livro e filme merecem um olhar adulto. O livro, claro, detalha e evoca a ciência de forma implacável, trazendo proposições que, apesar de fantasiosas, fazem sentido no campo científico. O vocabulário narrativo é de uma criatividade impressionante, com expressões que faziam sentido em sua proposta e que caracterizavam bem o confronto entre homem e oceano — uma criatura coloidal capaz de interagir com os humanos manipulando memórias, desejos, traumas, ações. Em outras palavras: a viagem ao Cosmo é menos importante que a viagem a si mesmo — daí se perceber que artefatos como foguetes e naves espaciais são elementos secundários. Quase não estão à mostra.

O romancista polonês Stanislaw Lem, um dos mais populares escritores de ficção científica do mundo, não apreciou o filme. Afirmou que o desfecho — no livro, o protagonista resolve encarar o Oceano, entregando-se à estéril aventura de desvendá-lo e compreendê-lo — buscou uma ideia filosófica demais, sugerindo que o planeta oceânico vencera a batalha criando uma ilha em sua superfície aquática, das qual não se podia fugir. Sabia, evidentemente, que o cinema, ao condensar a literatura, comete pecados geralmente perdoáveis, mas Lem desejava que, ao menos, o epílogo fosse outro, mais próximo da narrativa que criara.

Assisti a Solaris no cineclube da Ufes, no início dos anos 1980. Achei chato. Acostumado à velocidade dos filmes norte-americanos — uma exceção para o citado 2001 —, não encontrei no filme o que deveria encontrar. Era muito cedo, claro. Revi tantos anos depois e, menos imaturo, consigo ver ainda melhor, sem os embaçamentos que juventude infelizmente impõe. Esta é a beleza da arte: o tempo passa e nos modificamos — obra e consumidor. O livro de Lem e o filme de Tarkovsky eram outros. É possível que, lido e visto daqui a 5 anos, as coisas mudem e vislumbre o que, agora, não consegui perceber. Espero que sim. 

Se você não assistiu ao filme, clique AQUI.

AQUI uma produção televisiva soviética de 1968. Para muitos críticos, é mais fiel ao livro original de Lem do que a versão de Tarkovsky. Está em russo. Se você domina o idioma, divirta-se. Eu não consegui me divertir.

Eurípides encontra Chico & Paulo

Eurípides encontra Chico & Paulo

O texto Gota d’Água é uma leitura pós-moderna e urbana do texto clássico de Eurípides, uma adequação (com diferenças em relação à tragédia clássica) intertextualizada, transformada em drama em versos. Joana, a Medéia brasileira que, abandonada pelo amante Jasão, muito mais novo que ela, e com quem tivera dois filhos, torna-se uma mulher angustiada e oprimida pela situação amorosa e social. Jasão, autor do samba de (então) sucesso Gota d’Água, vai casar-se com Alma, a filha do poderoso Creonte, proprietário do conjunto residencial e explorador de todo aquele povo oprimido da Vila do Meio-Dia. Além de perder seu amante, Joana, encurralada pela engrenagem social, será expulsa por Creonte, com seus dois filhos. Tendo falhado o plano de vingança — de envenenar a noiva no dia do casamento —, ela acabará por envenenar os dois filhos e a si própria.

Bem, essa é a ideia central do drama em versos criado pela dupla Chico Buarque e Paulo Pontes. Este último, um craque da dramaturgia. Chico, genial como compositor, colabora — também — com o traço musical, compondo algumas pérolas interpretadas pelos atores e atrizes. É caso da triste Basta Um Dia e da eletrizante Flor da Idade (um trabalho intertextual drummondino). Paulo Pontes teve a ideia da singularidade estrutural: embora seja pertencente ao gênero dramático, o texto se preocupa fundamentalmente com a linguagem e com sua disposição, já que é estruturado em versos de todas as metrificações possíveis — mesmo havendo predominância dos versos alexandrinos e decassílabos. Outro elemento de destaque é a elaboração das rimas (soantes sempre) revelando o aspecto musical do texto.

O italiano Gianni Rato dirigiu a primeira montagem da peça — e com Bibi Ferreira no papel de Joana. Ela canta no palco e canta no disco, este uma obra rara encontrada somente em sebos. Claro: Bibi não era cantora de excelência, mas também não era bissexta. Uma atriz completa, que encarnou toda a dor e a fúria da mulher rejeitada que resolve dar o troco, mas que tropeça no próprio exagero sentimental. Assisti à peça em 1981, quando foi encenada no Carlos Gomes. Já não era Roberto Bonfim que interpretava Jasão. Até onde me lembro era Adriano Reis.

Um espetáculo de beleza e potência, no qual se discutia desde a força capitalista — que resume o homem a um objeto insosso e vulnerabilíssimo — até a decomposição da mulher que envelhece, e cujo valor decai à medida que ela não vê chances de essa condição se alterar. Mestre da linguagem ligeira, Chico Buarque mistura tudo: do erudito ao pop, para agradar a gregos e curitibanos. Está faltando alguém montar uma atualização da peça — mas sem mexer no texto. Sequer uma linha.

Liszt, Wakeman & meu primo

Liszt, Wakeman & meu primo

Se assim se pode dizer: o húngaro Franz Liszt foi o primeiro astro pop da música, uma espécie de Elvis Presley sem as costeletas e os barbitúricos. As mulheres na plateia não lhe jogavam calcinhas, mas é provável que tivessem vontade. Daí se firmou o termo lisztomania, cunhado pelo poeta romântico Henrich Heine que — dizia-se — cobrava uma boa grana por elogios musicais nos folhetins que escrevia. Liszt não quis pagar e se deu mal: Heine caluniou-o e ainda disse que as fãs do compositor só eram fãs porque recebiam buquês de rosa para gritarem freneticamente em seus concertos. Isso é papo para postagem futura.

Lisztomania (album) - WikipediaPor que falo de Liszt e da lisztoamnia? Porque ganhei, há poucos dias, de um querido primo, o elepê da trilha sonora do filme Lisztomania, de Ken Russel, o diretor norte-americano que trouxe ao mundo pérolas como Gothic e Crimes de Paixão — além, claro, de Tommy. Aliás, Lisztomania e Tommy são do mesmo ano, 1975, e estrelados pelo mesmo ator-roqueiro Roger Daltrey, vocalista da banda The Who. A trilha sonora é assinada pelo ás dos teclados progressivos: Rick Wakeman que, no filme, aparece banhado a ouro, como o deus nórdico Thor. É divertido, quase hilário. Além do áureo Wakeman, Ringo Starr — baterista dos Beatles — faz o papel do papa Gregório XVI, usando uma mitra cravejada de pedras preciosas. Sim, você leu direito. É uma festa.

O disco é ótimo — o filme, nem tanto. Há mais surrealismo do que o necessário, Daltrey não sabe atuar, alguns flash-backs são mal costurados, há muita devoção fálica e maluquice de provocar enxaqueca. Não há, contudo, muito o que reclamar: vale assistir porque é um filme difícil de encontrar. Eu assisti por acaso — numa madrugada insone, num canal Telecine. E o disco? Pois apesar da pressa com que foi feito (Rick Wakeman estava atolado de compromissos), é ótimo. Muita coisa de Liszt, de Richard Wagner e adaptações das obras de ambos, incluindo letras embutidas em temas instrumentais. Da lavra de Wakeman só uma faixa: Hibernation, que ele compôs em uma tarde.

Видео Lisztomania (1975) | OK.RU

Fica em segundo plano a brigaiada entre Rick Wakeman e os chefões da gravadora Universal. Bem, Rick Wakeman briga com todo o mundo, mas parece que na contenda com David Geffen ele tinha razão. Voltemos ao presente: encontrado num sebo de livros, foi arrematado por meu primo que, é bom que se diga, foi quem me apresentou o disco, no final dos anos 1970. Esse exemplar, agora, encontra-se em local seguro, junto a outros elepês. Ouço-o neste momento, com uma satisfação ainda maior do que ouvi pela primeira vez. Até onde me lembro, evidentemente.

Vida Boêmia: Lush Life, o filme

Filmes sobre jazz geralmente satisfazem tanto o espectador comum quanto o aficcionado por música — mais ainda, claro, aquele que considera o jazz um ritmo essencial, o que é meu caso. Bird, de Clint Eastwood, e ‘Round Midnight, de Bertrand Tavernier, são filmes que versam sobre artistas autodestrutivos que, sem a música, teriam pulado da ponte mais cedo, sem que o mundo tomasse deles pleno conhecimento. As vidas conturbadas de Charlie Parker e Bud Powell, respectivamente reproduzidas nos filmes citados, oscilaram entre a genialidade absoluta e o desespero existencial, o que sobrecarregou as películas de uma dramaticidade angustiante.

Não é o caso de Vida Boêmia, de Michael Elias, um diretor tão apaixonado por jazz quanto Eastwood. Seu filme (originalmente feito para a tevê) também não é impactante do ponto de vista estrutural, mas a história não desagrada ao espectador mais exigente, que se vê diante de uma dupla de músicos — um saxofonista e um trompetista — que têm amor ao jazz na mesma proporção que amam viver. Ironicamente, um deles está condenado à morte por conta de um tumor cerebral. O outro, para celebrar-lhe a vida que resta, resolve fazer uma grande festa em que todos os músicos de jazz de NY comparecem — todos, sem exceção, o que causa um enorme problema para os night clubs da cidade.

Forrest Withaker — que já havia encarnado Parker no filme Bird cinco anos antes — interpreta o trompetista por cuja porta a morte quer entrar, mas ele se recusa a atender, de imediato. Antes, quer o jazz, e quer executá-lo tendo em mãos um trompete que pertencera a Clifford Brown, comprado numa loja de penhores por 2.500 dólares por um talentoso garoto aspirante a músico. Assim é o jazz: quem faz leva-o a consequências últimas. E por falar em amor a ele, uma outra história — periférica — é retratada na película: a dificuldade de se relacionar com um artista. A mulher do canastra Jeff Goldblum (o saxofonista garanhão) é uma professora que quer ter uma vida normal ao lado do marido, quer desvencilhar-se da lush life que o companheiro leva. Não é possível. Assim é o jazz.

A propósito: revi esse filme anteontem, na tevê. Busquei na internet o devedê ou o blu-ray que, acredito, não foram lançado por aqui, mas aí vai, ao lado, seu rosto. E o link, no Youtube, com legendas en español. A propósito 2: John Coltrane lançou, em 1957 — dez anos antes de morrer —, o álbum Lush Life, hard bop da melhor qualidade com um time grandioso de músicos: Don Byrd (trompete), Red Garland (piano), Earl May (baixo), Paul Chambers (baixo), Albert Heath (bateria), Art Taylor (bateria) e Louis Hayes (bateria). Não, não estão tocando todos juntos, como na tal festa do filme. O tema Lush Life foi composto por Billy Strayhorn e já foi interpretado por uma multidão de músicos. Clique AQUI para ouvi-la pelos dedos do extraordinário pianista Phineas Newborn.

Landis, a diversão

Considero John Landis um craque. Falei isso há 40 e poucos anos, quando assisti a dois de seus filmes, em edições piratas para videocassete. Quais filmes? Clube dos cafajestes — sobre o qual já escrevi — e Os Irmãos Caras-de-pau (terrível título em português para o ótimo The Blues Brothers). Eis uma questão: comédias são vistas pelos intelectuais como filmes menores, que não provocam reflexões, que não nos trazem ferramentas para encarar a realidade, que não dinamitam nossas frágeis e provectas convicções. Já ouvi psicanalista dizer que o filme bom nos angustia.

Depois disso, procurei não perder qualquer filme no qual estivesse envolvido. Aliás, faço cá uma confissão: passei a valorizar a figura do diretor a partir de John Landis. Tudo bem, eu era um garoto de 20 anos, para quem o cinema era somente diversão. No caso de Landis, o verbo divertir é amplificado, levado ao extremo — mas sempre contando uma ótima história. Afinal, não é disso que se faz o cinema? De boas histórias? John Landis aprecia homenagens: fã de Frank Capra, fez o ótimo Trocando as Bolas; entusiasta dos filmes de Lon Chaney, fez o divertido Um Lobisomem Americano em Londres. Sente-se um devedor dos grandes nomes do cinema — à frente ou não das câmeras.

John Landis: «Aujourd'hui, un tiers de mes films ne pourraient plus exister» – Libération

Landis veio do cinema independente, assim como vários grandes nomes do cinema. Não teve o status de um Coppola, de um Kubrick ou de um Scorsese — nem a popularidade e a influência de um Spielberg. Talvez porque tenha feito questão de ir por outro caminho, encarando o espectador como alguém que deixou o conforto do lar para, na sala escura, e por duas horas, refestelar-se com atuações divertidas e histórias bem armadas. Ok, antes que se ressalve: Landis fez Os Três Amigos e Oscar – minha filha quer casar. Neste último, a ousadia chegou ao limite: Stallone como gangster sem dar sopapos em ninguém. Pois é: não são bons filmes. Divertem pouco.

Escrevo sobre John Landis porque, zapeando como um desocupado diante da tevê, deparei-me com The Blues Brothers 2000. Sem o brilho do alucinado John Belushi, mas com um John Goodman inspiradíssimo, e uma ótima trilha sonora, o filme cumpre o que promete, que é justamente o mote desta postagem. Landis é, sim, um craque nas telas, mas muita gente só o conhece porque ele dirigiu o absurdamente famoso videoclipe Thriller, com Michael Jackson dançando e virando bicho. É divertido também — mas John Landis fez muito mais que isso. 

O poeta da violência, aos 100 anos

Se Sam Peckinpah estivesse vivo, teria feito cem anos ontem, 21 de fevereiro. É um dos grandes do cinema, a meu ver. Claro, claro: intelectual que se preza aprecia os cinema europeu, iraniano, paquistanês, e agora, o coreano. Eu ainda acho que o cinema norte-americano produziu o que de melhor houve entre 1940 e 1970. Não sou papalvo. É evidente que reconheço o valor de Antonioni, de Truffaut, de David Lean, de Saura, de Buñuel — e de mais um batalhão de cineastas que ajudaram a moldar o século XX. Há, entretanto, os norte-americanos, tão demonizados pela intelligentsia, e vistos como vendilhões da sétima arte.

E Sam Peckinpah? Bem, esse senhor dirigiu 4 filmaços, para dizer o mínimo. Sob o domínio do medo, Meu ódio será tua herança, Os Implacáveis e Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia. Violento e brutal, o cineasta implementou uma marca fílmica muito pessoal, realista, abusando — no bom sentido — da sensação de angústia e claustrofobia a que os personagens eram submetidos. Irônico, apresentou ao espectador o mundo não como ele é, mas como ele é concebido pela falta de escrúpulo, pela ganância e — enviando as boas intenções às favas — pelo ódio que o ser humano nutre por outro. Embora Meu ódio será tua herança seja considerado sua obra-prima, gosto mais de Sob o domínio do medo.

Tesouros da Sétima Arte – “Sob o Domínio do Medo”, de Sam Peckinpah

Peckinpah foi, num certo sentido, um rebelde. Era neto de um cacique paiute — talvez daí seu pendor para os faroestes. A mencionada violência não é, em momento algum, louvada: ela é apenas consequência (e muitas vezes reação) das relações humanas. Ok, há um certo exagero: banhos de sangue em Meu ódio será tua herança, a multiplicação de cadáveres em Alfredo Garcia, o estupro e a matança em Sob o domínio do medo. À época, causou furor, vômitos e protestos. Se comparada com os filmes de hoje, a violência é quase pueril. Eu disse quase.

Houve uma geração — hoje, senhores de 80 anos — que salvou Hollywood: Coppola, Cimino, Spielberg, De Palma, Lucas, Scorsese, Altman e, claro, Peckinpah. Quase todos sofreram nas mãos dos produtores, mas alguns sofreram mais. Pat Garret e Billy the Kid penou nas mãos de Gordon Carroll, o manda-chuva que tentava mostrar, em vão — claro! —, como Sam devia trabalhar. E olhe que Peckinpah, oriundo da tevê, era especialista em westerns! Conseguiu até fazer Bob Dylan atuar! O cinema norte-americano, hoje, tem lampejos de genialidade, mas vive certo marasmo mesmo gerando milhões nas bilheterias. Falta um Sam Peckinpah para chacoalhar a indústria.