Solaris: Andrei & Stanislaw

Numa lista (minha) sobre os grandes filmes de ficção científica a que assisti, Solaris estaria no top 3. Fácil. Calma: não falo da película com George Clooney e com aquela belezura da Natascha McElhone. Falo do filme de Andrei Tarkovsky, de 1972, uma obra-prima a que (re)assisti no último fim de semana, após ter (re)lido o clássico de Stanislaw Lem, no qual o filme se baseou. Solaris é sobre tudo: arte, ciência, suspense, fantasia, ética, moral, história de amor, filosofia. Tarkovsky justifica a fama: é um dos mais importantes cineastas de qualquer época — e não somente entre russos, criando filmes que extrapolam a ideia de que cinema existe primordialmente para contar histórias e entreter. Solaris foi a resposta russa a 2001, de Kubrick.

Livro e filme merecem um olhar adulto. O livro, claro, detalha e evoca a ciência de forma implacável, trazendo proposições que, apesar de fantasiosas, fazem sentido no campo científico. O vocabulário narrativo é de uma criatividade impressionante, com expressões que faziam sentido em sua proposta e que caracterizavam bem o confronto entre homem e oceano — uma criatura coloidal capaz de interagir com os humanos manipulando memórias, desejos, traumas, ações. Em outras palavras: a viagem ao Cosmo é menos importante que a viagem a si mesmo — daí se perceber que artefatos como foguetes e naves espaciais são elementos secundários. Quase não estão à mostra.

O romancista polonês Stanislaw Lem, um dos mais populares escritores de ficção científica do mundo, não apreciou o filme. Afirmou que o desfecho — no livro, o protagonista resolve encarar o Oceano, entregando-se à estéril aventura de desvendá-lo e compreendê-lo — buscou uma ideia filosófica demais, sugerindo que o planeta oceânico vencera a batalha criando uma ilha em sua superfície aquática, das qual não se podia fugir. Sabia, evidentemente, que o cinema, ao condensar a literatura, comete pecados geralmente perdoáveis, mas Lem desejava que, ao menos, o epílogo fosse outro, mais próximo da narrativa que criara.

Assisti a Solaris no cineclube da Ufes, no início dos anos 1980. Achei chato. Acostumado à velocidade dos filmes norte-americanos — uma exceção para o citado 2001 —, não encontrei no filme o que deveria encontrar. Era muito cedo, claro. Revi tantos anos depois e, menos imaturo, consigo ver ainda melhor, sem os embaçamentos que juventude infelizmente impõe. Esta é a beleza da arte: o tempo passa e nos modificamos — obra e consumidor. O livro de Lem e o filme de Tarkovsky eram outros. É possível que, lido e visto daqui a 5 anos, as coisas mudem e vislumbre o que, agora, não consegui perceber. Espero que sim. 

Se você não assistiu ao filme, clique AQUI.

AQUI uma produção televisiva soviética de 1968. Para muitos críticos, é mais fiel ao livro original de Lem do que a versão de Tarkovsky. Está em russo. Se você domina o idioma, divirta-se. Eu não consegui me divertir.

6 opiniões sobre “Solaris: Andrei & Stanislaw”

  • 9 de março de 2026 em 15:40
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    Solaris foi uma das minhas inspirações para o meu livro de ficção científica. Curiosamente, nunca terminei de ver o filme (só o do Clooney 😕), por razões que nem lembro. Melhor, era imaturo demais para compreender por inteiro a complexidade e grandiosidade da obra, que se revelaram a mim por textos, resenhas e podcasts depois. Irei assitir completamente o de Tarkovsky no momento oportuno. Abs!

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    • 9 de março de 2026 em 19:58
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      Sou um fã incondicional do cinema lento. Tarkovski em O Espelho, parece que fotografa o tempo e o vento. Era um admirador de Nietzsche e dos pré-socŕaticos: água terra fogo ar.
      Quando vi O Sacrifício fiquei deslumbrado. Cinema é também não entendimento.

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      • 9 de março de 2026 em 22:27
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        Gostei bastante de “O Sacrifício” e também de “Stalker”.
        Tarkovsky era um poeta, um narrador incomum no cinema.

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    • 9 de março de 2026 em 22:28
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      O filme com o Clooney é mal costurado, e se vale da presença de um superstar. Somente isso.
      Veja o Tarkovsky. Vai apreciar.

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  • 15 de março de 2026 em 15:08
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    Passei pela coisa semelhante de não gostar de assistir o filme pela primeira vez. Com o tempo, comecei a ter pensamentos como “aquela ideia foi boa”, “a proposta de tal conceito do filme é interessante”, e quando revi, acabei descobrindo a obra prima. O fato desse filme ter me colocado em contato pela primeira vez com a música de Bach BWV 639 também me marcou bastante, sempre associo essa música ao filme.
    A forma no qual o filme mergulha na melancolia contemporânea e na melancolia do protagonista é uma das grandes belezas do filme.

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    • 15 de março de 2026 em 22:23
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      A lentidão premeditada do filme provoca essa exposição melancólica, que é aguçada pela música barroca luterana.
      O que achei genial: os cenários curvos trazendo a ideia de que o universo, a luz e o espaço têm medidas distintas.

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