Pois é: estou de volta, após um abril sabático. Fui cobrado por alguns de meus 6 ou 7 leitores — um deles fez-me uma provocação, sem nada que, aparentemente, a motivasse: quem foi o grande parceiro de Chico Buarque? E deu-me opções: Vinicius, Edu Lobo, Ruy Guerra ou Tom Jobim. Na hora me veio à cabeça um quinto parceiro: para mim o melhor. Sei que qualquer comparação serve a nada. Ou talvez sirva para provocar polêmica. É questão de gosto pessoal, de modo que resolvi escrever sobre a dulpa Chico Buarque-Francis Hime, xarás entre si. E meus também.
Está certo: com Ruy Guerra Chico fez Calabar; com Edu, os discos A Dança da Meia-lua, O Grande Circo Místico e O Corsário do Rei. Com Vinicius, fez as canções Valsinha, Samba de Orly, Olha Maria e Desalento, e a parceria com Tom Jobim gerou, entre outras, Eu te amo, Olha Maria, Sabiá e a ótima Retrato em branco e preto. Só pérolas. E com Francis Hime? Bem, só para começar, criaram a clássica Atrás da Porta — que Elis imortalizou — , o genial choro-canção Meu Caro Amigo e a celebradíssima Vai Passar. Só isso já seria motivo para consagração, mas fizeram também o hino da separação, Trocando em Miúdos, a ultrapoética A Noiva da Cidade, a cínica Amor Barato e a deliciosa e ambiental Passaredo. Está bom para você?

Algumas gemas musicais da dupla Chico Buarque não gravou — ao menos não em seus discos oficiais: Pássara, O Rei de Ramos, Luíza, Quadrilha, Embarcação, Maravilha e Desembolada (cuja letra é um primor). Todas foram gravadas por Francis Hime, e às vezes com a participação luxuosa do xará. Por que escolhi Francis Hime como o parceiro ideal? Primeiro porque o refinamento musical e a sofisticação harmônica de Hime proporciona — e talvez provoque — uma pegada mais poética na linguagem do parceiro. Tom também conseguia isso, mas Francis Hime fez melhor.
Em segundo lugar, porque Francis Hime esteve junto a Chico Buarque na década mais criativa de ambos: os anos 1970. Eu já afirmei — e repito! — que Chico não criou suas melhores canções por conta da ditadura, mas apesar dela. Foi seu momento mais inventivo justamente porque foi eleito, em certa medida, a falar por todos aqueles que, emudecidos pela truculência da censura, viam no compositor uma espécie de herói. Chico sempre negou esse papel de paladino. Hime, a seu lado, não era escudeiro — mas um parceiro que o compreendia musicalmente e que gerou melodias que imortalizaram muitas letras do compositor carioca. Parceria é isso. Não desmerecendo as outras, claro.

Chicos, Francis e Franciscos primorosos.
Um presente nesse domingo bom, mas previsível.
O comentário sobre as referidas parcerias e a poesia de Chico Buarque pode se estender um pouco mais?
É uma boa proposta.
Principalmente se for falar da parceria Chico-Edu.
Boa ideia, Rita.