Seinfeld: 3 livros

Jerry Seinfeld e Larry David, criadores da sitcom Seinfeld, não faziam ideia do sucesso que fariam ao escrever sobre o quotidiano de um comediante de stand-up comedy. Não imaginavam que o programa se tornaria um ícone pop nem que ficariam milionários com o resultado de uma ideia. Aliás, todos os cinco diretamente envolvidos — Jason Alexander, Julia Louis-Dreyfus e Michael Richards, inclusos — passaram a nadar em dólares, gozando de um prestígio que nenhum outro comediante, nos anos 1990, gozou. Bem, Julia já era bilionária — ou seria, quando o pai, o francês Gérard Louis-Dreyfus morresse. E morreu, em 2016.

Na esteira da sitcom, Jerry Seinfeld — que escrevia os diálogos com Larry David — resolveu reunir muitos dos textos que foram ao ar e publicou O Livro sobre Nada. É a premissa resumida e enganosa do programa: falar sobre o nada. Enganosa porque, de fato, fala-se do cotidiano do próprio Jerry e de seus amigos, um bando de egoístas cujo desprezo pela humanidade se esparramava por 25 minutos semanais. Ninguém prestava ali — e é aí que estava o charme da sitcom. Há passagens engraçadas no livro: quase todas elas já consumidas por quem é fã daquela turma. Eu, por exemplo.

Houve quem levou a sério a série sobre o nada. Houve quem resolveu, por molecagem ou não, olhar para a sitcom e conectá-la a Sócrates, Kierkegaard, Sartre, Platão, Wittgenstein, Aristóteles e Nietzsche. Sim, a fina-flor da filosofia ocidental. E mais: ética, moral, paradoxos, sofisma e virtude são explorados em 14 textos divertidíssimos, mas todos eles levados a sério. E mais: o livro é dedicado a Bob Sacamano. Quem curte a sitcom sabe quem é. Organizado por William Irwin, professor de Filosofia da King’s College, na Pensilvânia, o livro é um achado. É para ser lido devagar, porque faz o leitor lembrar-se de cada situação mencionada. Quem curte ver a filosofia falar sobre o nada vai apreciar. Eu, por exemplo.

Após o voluntário fechamento das portas, Jerry Seinfeld envolveu-se em outros projetos — a animação Bee Movie e o ótimo Comedians in Cars Getting Coffee, sobre o qual já escrevi. AQUI, caso haja interesse. Resolveu também biografar-se em Será que isso presta?: à sua maneira, por meio dos textos para stand-up comedy, de 1975 até meados da segunda década do século XXI. Percebe-se, na leitura, a evolução do comediante, seja em textos curtos ou naqueles que, no máximos, gastam duas páginas. A ideia continua a mesma: o nada, o cotidiano, os costumes. E, claro, o humor. Vai gargalhar? Não creio, mas o livro vai divertir e provocar uma certa nostalgia nos órfãos de Seinfeld. Eu, por exemplo. 

p.s. Escrevi sobre Larry David e a maldição de Seinfeld. AQUI, caso se interesse.

Pantoja, Stern: o melhor do Santa Jazz

Não sei se você — que agora lê — foi ao Santa Jazz, o festival de jazz de Santa Teresa, cidade da região serrana  do ES. Se foi, presenciou apresentações de excelência, música de altíssimo calibre, som de primeira. Se não foi, perdeu a oportunidade de assistir a shows inesquecíveis. Veja só: eu não fui, porque estava dentro de um estúdio comentando os shows, como se isso fosse privilégio absoluto. Não é. Privilégio absoluto é ver e ouvir ao vivo, e não numa moldura de plasma com definição de primeiro mundo. Enfim, mesmo assim, pude ouvir e ver o que o festival proporcionava de melhor.

E o que houve de melhor? Tendo em vista que o termo melhor é superlativo de bom, afirmo que todos os shows tiveram qualidade inequívoca — dois, contudo, foram melhores. Os dois foram apresentados ao público em noites distintas: Rique Pantoja e seu quarteto, e Mike Stern, o guitarrista a quem Miles Davis chamada de gênio. E devia ter razão. Vi Pantoja pela prima vez em 1985, no Free Jazz, homenageando, em companhia de  o enormíssimo maestro Moacir Santos. Stern eu ouvi quando comprei, em meados dos anos 1980, o disco duplo We Want Miles. Dois momentos em que o jazz entrou em minha vida e de lá não sai nem que me façam beber ácido.

Rique Pantoja é sensacional: pianista de primeira linha, fez-se acompanhar de um escrete: Danilo Sinna, no saxofone (alto e soprano); Felipe Alves, na bateria, e Rubem Farias, no contrabaixo. Um show cheio de pontos altíssimos em que o jazz e a bossa se fundiram, criando uma atmosfera rítmica e harmônica de causar inveja a qualquer jazzista tarimbado. Pantoja já era craque quando, em companhia do grande baterista Paschoal Meireles, do saxofonista Mauro Senise e do baixista Artur Maia, deram vida a uma das formações do Cama de Gato, um grupo de música instrumental que, nos anos 1980 e 1990, encheu muitos corações de alegria. Pantoja, a meu ver, era o pulmão do quarteto. Bem, muita gente diz que essa a função de um pianista. AQUI você assiste ao show dele no Santa Jazz.

Mike Stern é uma figura. Divertido, simpático, fã de música brasileira, genial nas cordas da guitarra. Miles Davis tinha razão — embora eu não tenha a dimensão do gênio. Nem na minha área sei o que vem a ser isso, mas desconfio de que ele e Rique Pantoja estejam nessa categoria. Acompanhado dos músicos Bob Franceschini, no sax; Rubem Farias, no contrabaixo, e do extraordinário baterista Dennis Chambers, Mike Stern fez um show inesquecível, vigoroso sem ser enfadonho; preciso sem ser burocrático. E ainda se faz acompanhar da esposa alemã, Leni Stern. Uma beleza, que você pode ouvir AQUI, (de 3:15:48 a 4:16:11). Sinceramente? Se eu fosse você, ouvia tudo.

Pois é: alguém disse que escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura — mas está valendo. A propósito: eu apareço fazendo comentários sobre as performances. Você pode pular, se quiser.