2 filmes de Francisco

Raramente escrevo sobre religião e sobre suas variáveis — incluindo nelas as figuras icônicas e fundamentais para quem tem fé, principalmente se esse quem for católico. Embora respeite grandes pensadores religiosos (Calvino, Lutero, Jesus), gosto mesmo é do meu xará Francisco, que originalmente se chamava Giovanni di Pietro di Bernardone. Trocou de nome; eu, não. Aliás, como ele morreu aos 44 anos, posso afirmar que fui Francisco por mais tempo. Isso, todavia, é detalhe. Nasceu num 5 de julho, há 845 anos, permanece vivo em filosofia, em gesto e em palavras. Era para ser seguido por todos.

Resenha: Irmão Sol, Irmã Lua :: DVDMagazine: 24 ANOS ON-LINEPor que me lembrei do santo xará? Porque buscando assistir a filmes menos atuais, deparei-me com uma película que muito me impressionou (quando assisti, há uns 45 anos — menos pela história que pelo visual: Irmão Sol Irmã Lua, do italiano Franco Zeffirelli. O pôster ao lado não apresentou o filme no Brasil, mas imagino a reação dos carolas diante da beleza atlética do futuro santo nu à imagem do Cristo não-crucificado, liberto da escravidão dos pertences pessoais, incluindo as próprias roupas. Francisco se desnuda para dedicar-se a auxiliar os menos favorecidos.

É a súmula do paradoxo: a igreja, os comerciantes e a nobreza de um lado, ostentando, rindo e acumulando. De outro lado, a pobreza extrema da maioria, a fome, a miséria, a doença e a morte. Francisco faz sua opção. É altamente poético em algumas partes, sem errar a mão: nem no cinema nem na poesia. Revi com prazer. Outro filme: Francesco, de Liliana Cavani, cineasta italiana que deu ao mundo a obra-prima O Porteiro da Noite (em breve, por aqui). Sim, ela conseguiu o que parecia improvável: fez o então galã Mickey Rourke encarnar o rebelde contracultural. A direção é segura — quem gosta de cinema sabe que é preciso pulso hábil e firme para usar bem os flash-backs.

Rourke vinha do estrondoso sucesso voyeurístico-fetichista Nove e meia semanas de Amor e do chato Barfly, em que viveu o poeta bebum Charles Bukowski. Em Francesco, talvez até pela importância histórica da personagem, ele se saiu bem melhor. São dois filmes diferentes entre si — que trazem a mesma personagem carregada de boas intenções, humildade e contradizendo o stablishment social e eclesiástico. Cavani contou a história; Zeffirelli expôs a emoção. São dois bons filmes que merecem ser vistos por quem se incomoda com a desigualdade, tão necessária à injustiça quanto ao poder. 

AQUI, com legendas em inglês.

Wakeman, Henry VIII & as esposas

Há 535 anos nascia Henrique VIII, chefão do trono inglês por quase 4 décadas. Casou-se seis vezes, brigou com o Papa Clemente II e se tornou o manda-chuva da Igreja Anglicana, meteu a mão na grana do poder católico e reprimiu quem o contradizia — com a morte, inclusive. O sujeito não era fácil: para muitos, o pior caráter que já pisou em solo inglês. Pior até que o carniceiro Jack the ripper. Mencionei que ele teve seis esposas. Entre 1509 e 1547 — quando morreu —, teve também várias amantes: uma satiríase sem precedentes na história inglesa. Mas por que falo dele? Primeiro porque hoje é dia 28 de junho (seu nascimento), mas principalmente porque estou ouvindo The Six Wives of Henry VIII, do tecladista Rick Wakeman. Você pode ouvir AQUI, caso queira.

O disco é de 1973, pouco tempo depois de ter deixado as fileiras da banda de rock progressivo Yes. Aliás, a ideia progressiva foi mantida, com largos e intensos solos de teclado e uma bateria nervosa, como a do ótimo Alan White. E toneladas de sintetizadores fazendo a festa, sob a batuta de Mr. Wakeman. É um discaço, que teve origem na ideia de que cada esposa do monarca inglês era diferente uma da outra. O que tinham em comum: a cama, as ordens e a fúria de Henrique VIII. É um disco conceitual.

Diz-se que Rick Wakeman estudou cada uma delas: seus gostos, personalidades, medos, anseios, caracteres, corpo, voz. E fez o que quis com isso. De seu ponto de vista, encontrou nas mulheres e nos temas uma identidade própria, um retrato musical cheio de nuances rítmicas e melódicas. Todas as faixas são boas: para muita gente, é o melhor disco dele. Não sei dizer, mas me regozijo ao ouvi-lo desde a primeira vez, em 1976. É rock progressivo de primeiríssima, sem guitarras estridentes, e muito estilo.

Rick Wakeman nos cuenta sobre sus inicios y su próximos proyectosSe Rick Wakeman ou Henry VIII tinham uma preferida, não sei. Eu aprecio, dentre as seis, Katherine Howard. A música, claro. AQUI você a ouve. O citado Alan White dá seu recado, como poucos bateristas no rock o fizeram. Se você, caro sexto ou sétimo leitor, não curte música mas gosta de filmes, aí vai: assista a A Outra, de Justin Chadwick. As belezuras Natalie Portman e Scarlett Johansson brilham ao lado de um Eric Bana meio sem jeito para o papel. É bonito demais para interpretar um rei rabugento, gordo e calvo. Eu ficaria bem melhor no papel.

Bônus: AQUI um texto que escrevi sobre Rick Wakeman e Liszt.

Bônus: AQUI você lê uma entrevista bacana, de 2024.

 

O tri aos 8 anos

Em 1970, mês de junho, eu era um menino de oito anos. De costas para a tevê, enquanto o escrete brasileiro enfrentava a Checoslováquia — era o primeiro jogo do Brasil na Copa do México, em 1970 —, eu desenhava, dentro das minhas limitações, o Superman numa folha em branco. O gol de Petrás, atacante checo, fez minha mãe exasperar-se: não pelo gol do adversário, mas pela imagem do jogador benzendo-se catolicamente na lateral do campo, comemorando o tento. “Comunista não se benze!”, esbravejou. Essa é minha primeira lembrança da Copa 70, o torneio no qual o time brasileiro tornou-se campeão. Já atento ao jogo, vi o Brasil pulverizar os comunas.

A partir daí acompanhei os jogos ao lado do meu pai, fã de futebol, com quem aprendi sobre o assunto — do Cruzeiro de Tostão à mortal linha de ataque do Botafogo; dos passes de Gérson à patada  atômica de Rivellino. E, claro, sobre o maior de todos os craques: o rei Pelé. Entre um jogo e outro, eu aprendia. Superman saiu de campo, e o futebol passou a jogar. Mas por que esse momento saudosista, neste texto? Porque assisti, via Netflix, à minissérie Brasil 70: A Saga do Tri. Cheguei a emocionar-me: voltar no tempo por meio de boas lembranças é um privilégio.

Bem, e a minissérie? É ótima, mesmo que os detratores afirmem que Pelé é interpretado por alguém 15cm mais alto. E daí? Rodrigo Santoro como João Saldanha? E daí, novamente? São detalhes — ou seja, não têm muita importância. O que vale é o feito: havia uma dívida do cinema brasileiro com o futebol doméstico. Apesar do ótimo Boleiros e do documentário Isto é Pelé, faltava uma obra capaz de mostrar o que representou a seleção brasileira principal num momento politicamente tão conturbado. Havelange é retratado como ele realmente era. E o sanguinário ditador Emílio Garrastazu, que aparece apenas como voz?

Gostei da minissérie — e gostei muito. Os lances de gol, com a câmera acompanhando a trajetória da bola até seu destino final são um achado. Aplausos para os diretores Paulo Morelli, Quico Meirelles e Pedro Morelli. E os jogadores? Pelé e Rivellino têm sósias. Zagallo e suas superstições dão o toque de humor. Saldanha enfrentando os milicos é um ótimo contraponto, e as cenas nos vestiários são absolutamente verossímeis, revelando as tensões, os receios e o trauma de 1950. Lamentei não haver imagens dos dois gols de Tostão contra o Peru, nas quartas de final, mas tudo bem. Vale assistir. Se você que lê é um sessentão — daí pra frente! —, e se apreciar o ludopédio, vai se emocionar também. Voltei a meus 8 anos, e isso foi bom.

Ciment & Kubrick

Michel Ciment évoque Stanley Kubrick, le «dernier grand homme de spectacle du cinéma moderne» | INAMichel Ciment é um dos maiores críticos de cinema no mundo. Ou foi, porque morreu há 3 anos, mas o que registrou na Positif — um contraponto à Cahiers du Cinéma —– sobre Orson Welles, no início dos anos 1950, tornou-o uma celebridade na área. Um craque respeitado entre seus pares e admirado por quem aprecia o cinema. Acabei de ler seu ótimo livro Kubrick, publicado pela Ubu Editora. Michel Ciment é esse senhor ao lado, cujo trabalho acerca do diretor norte-americano é, para mim, o que há de melhor sobre o autor de 2001, Uma Odisseia no Espaço e Laranja Mecânica.

O que há de tão interessante, e de tão inovador, sobre um autor de cujos filmes quase tudo já foi dito? Bem, não creio que Ciment quisesse ser original, mas foi: conectou os filmes de Kubrick de uma forma que eu nunca havia visto (nem pensado). Mostrou as intratextualidades, as autocitações, os elementos comuns a vários de seus próprios filmes e, de quebra, mostrou que o grande diretor norte-americano muitas vezes negava, no filme que então preparava, o filme feito anteriormente. Em outras palavras: era um inquieto que insistia em negar-se, e ir adiante, mas olhando para trás, era um processo considerado natural. Era um inovador.

Ao menos 5 filmes do mestre são dissecados: 2001, O Iluminado, Laranja Mecânica, Barry Lyndon e Nascido para Matar. Há deliciosos — e esclarecedores — depoimentos de gente que trabalhou com Stanley Kubrick: as atrizes Shelley Duvall e Marisa Berenson; os atores Jack Nicholson e Malcolm McDowell; a roteirista Diane Johnson e o assistente Andrew Birkin, sem falar em John Alcott, diretor de fotografia que trabalhou com ele em vários filmes, e que afirmou, em 1980: “Se Kubrick não fosse diretor, seria o melhor diretor de fotografia do mundo.” Devia saber o que estava falando.

Michel Ciment é um fã da psicanálise — e, claro, de Freud, a quem cita inúmeras vezes. O cinema de Kubrick, simbólico e complexo, seria um prato cheio para o pensador vienense. E é usando a invenção dele que Ciment nos oferece belos textos sobre Lolita e De olhos bem fechados, duas pérolas que, avaliadas pelos olhos (bem abertos) da psicanálise, mostraram-me aquilo que não percebi vendo e revendo esses filmes. Acho que é hora de parar de falar. Se você gosta de cinema e aprecia textos inteligentes sobre essa arte, vai apreciar o que diz Michel Ciment. Aproveite!

Caso queira ler um texto meu sobre Laranja Mecânica, clique AQUI.

Solaris: Andrei & Stanislaw

Solaris: Andrei & Stanislaw

Numa lista (minha) sobre os grandes filmes de ficção científica a que assisti, Solaris estaria no top 3. Fácil. Calma: não falo da película com George Clooney e com aquela belezura da Natascha McElhone. Falo do filme de Andrei Tarkovsky, de 1972, uma obra-prima a que (re)assisti no último fim de semana, após ter (re)lido o clássico de Stanislaw Lem, no qual o filme se baseou. Solaris é sobre tudo: arte, ciência, suspense, fantasia, ética, moral, história de amor, filosofia. Tarkovsky justifica a fama: é um dos mais importantes cineastas de qualquer época — e não somente entre russos, criando filmes que extrapolam a ideia de que cinema existe primordialmente para contar histórias e entreter. Solaris foi a resposta russa a 2001, de Kubrick.

Livro e filme merecem um olhar adulto. O livro, claro, detalha e evoca a ciência de forma implacável, trazendo proposições que, apesar de fantasiosas, fazem sentido no campo científico. O vocabulário narrativo é de uma criatividade impressionante, com expressões que faziam sentido em sua proposta e que caracterizavam bem o confronto entre homem e oceano — uma criatura coloidal capaz de interagir com os humanos manipulando memórias, desejos, traumas, ações. Em outras palavras: a viagem ao Cosmo é menos importante que a viagem a si mesmo — daí se perceber que artefatos como foguetes e naves espaciais são elementos secundários. Quase não estão à mostra.

O romancista polonês Stanislaw Lem, um dos mais populares escritores de ficção científica do mundo, não apreciou o filme. Afirmou que o desfecho — no livro, o protagonista resolve encarar o Oceano, entregando-se à estéril aventura de desvendá-lo e compreendê-lo — buscou uma ideia filosófica demais, sugerindo que o planeta oceânico vencera a batalha criando uma ilha em sua superfície aquática, das qual não se podia fugir. Sabia, evidentemente, que o cinema, ao condensar a literatura, comete pecados geralmente perdoáveis, mas Lem desejava que, ao menos, o epílogo fosse outro, mais próximo da narrativa que criara.

Assisti a Solaris no cineclube da Ufes, no início dos anos 1980. Achei chato. Acostumado à velocidade dos filmes norte-americanos — uma exceção para o citado 2001 —, não encontrei no filme o que deveria encontrar. Era muito cedo, claro. Revi tantos anos depois e, menos imaturo, consigo ver ainda melhor, sem os embaçamentos que juventude infelizmente impõe. Esta é a beleza da arte: o tempo passa e nos modificamos — obra e consumidor. O livro de Lem e o filme de Tarkovsky eram outros. É possível que, lido e visto daqui a 5 anos, as coisas mudem e vislumbre o que, agora, não consegui perceber. Espero que sim. 

Se você não assistiu ao filme, clique AQUI.

AQUI uma produção televisiva soviética de 1968. Para muitos críticos, é mais fiel ao livro original de Lem do que a versão de Tarkovsky. Está em russo. Se você domina o idioma, divirta-se. Eu não consegui me divertir.

Liszt, Wakeman & meu primo

Liszt, Wakeman & meu primo

Se assim se pode dizer: o húngaro Franz Liszt foi o primeiro astro pop da música, uma espécie de Elvis Presley sem as costeletas e os barbitúricos. As mulheres na plateia não lhe jogavam calcinhas, mas é provável que tivessem vontade. Daí se firmou o termo lisztomania, cunhado pelo poeta romântico Henrich Heine que — dizia-se — cobrava uma boa grana por elogios musicais nos folhetins que escrevia. Liszt não quis pagar e se deu mal: Heine caluniou-o e ainda disse que as fãs do compositor só eram fãs porque recebiam buquês de rosa para gritarem freneticamente em seus concertos. Isso é papo para postagem futura.

Lisztomania (album) - WikipediaPor que falo de Liszt e da lisztoamnia? Porque ganhei, há poucos dias, de um querido primo, o elepê da trilha sonora do filme Lisztomania, de Ken Russel, o diretor norte-americano que trouxe ao mundo pérolas como Gothic e Crimes de Paixão — além, claro, de Tommy. Aliás, Lisztomania e Tommy são do mesmo ano, 1975, e estrelados pelo mesmo ator-roqueiro Roger Daltrey, vocalista da banda The Who. A trilha sonora é assinada pelo ás dos teclados progressivos: Rick Wakeman que, no filme, aparece banhado a ouro, como o deus nórdico Thor. É divertido, quase hilário. Além do áureo Wakeman, Ringo Starr — baterista dos Beatles — faz o papel do papa Gregório XVI, usando uma mitra cravejada de pedras preciosas. Sim, você leu direito. É uma festa.

O disco é ótimo — o filme, nem tanto. Há mais surrealismo do que o necessário, Daltrey não sabe atuar, alguns flash-backs são mal costurados, há muita devoção fálica e maluquice de provocar enxaqueca. Não há, contudo, muito o que reclamar: vale assistir porque é um filme difícil de encontrar. Eu assisti por acaso — numa madrugada insone, num canal Telecine. E o disco? Pois apesar da pressa com que foi feito (Rick Wakeman estava atolado de compromissos), é ótimo. Muita coisa de Liszt, de Richard Wagner e adaptações das obras de ambos, incluindo letras embutidas em temas instrumentais. Da lavra de Wakeman só uma faixa: Hibernation, que ele compôs em uma tarde.

Видео Lisztomania (1975) | OK.RU

Fica em segundo plano a brigaiada entre Rick Wakeman e os chefões da gravadora Universal. Bem, Rick Wakeman briga com todo o mundo, mas parece que na contenda com David Geffen ele tinha razão. Voltemos ao presente: encontrado num sebo de livros, foi arrematado por meu primo que, é bom que se diga, foi quem me apresentou o disco, no final dos anos 1970. Esse exemplar, agora, encontra-se em local seguro, junto a outros elepês. Ouço-o neste momento, com uma satisfação ainda maior do que ouvi pela primeira vez. Até onde me lembro, evidentemente.

Melhores filmes: a quem interessa uma lista?

Pois é: fiquei em tempo sem postar, mas não consigo me segurar muito. Espero que meus escassos leitores tenham sentido falta. Tenho acessado a Folha de São Paulo e, nos últimos meses, leio, nesse veículo, algumas listas dos melhores filmes de todos os tempos. Geralmente demandam cineastas — Scorsese, Oliver Stone, Francis Coppola, Walter Salles, Del Toro — e alguns atores, como De Niro e Di Caprio. Enfim, deve haver outros, mas minha memória falha. Eis a questão: qualquer lista brota da subjetividade e, portanto, está sujeita tanto a aplausos quanto a porretadas. Sem ter muito o que fazer, fui na onda, e fiz também minha lista. De onde vem a ideia de que ela interessa a alguém?, pergunta-me um de meus seis ou sete leitores.

Ei-la, sem uma ordem de preferência:

  1. A Laranja Mecânica, Stanley Kubrick
  2. Asas do Desejo, Win Wenders
  3. A Batalha de Argel, Gillo Pontecorvo
  4. O Poderoso Chefão, Francis Coppola
  5. O Vento será tua herança, Stanley Kramer
  6. O dia em que a Terra parou, Robert Wise
  7. Interestelar, Christopher Nolan
  8. A Felicidade não se compra, Frank Capra
  9. O Anjo Exterminador, Luís Buñuel
  10. O jardim dos Finzi-Continis, Vittorio De Sica

Imagens de Pessoa em duvida sem royalties | DepositPhotos

10 filmes? Os que vieram à cabeça, de imediato. Sem pensar muito, sem avaliar as consequências de ter deixado de lado algumas obras-primas. O cinema norte-americano aparece 6 vezes. Os outros  referem-se a filmes europeus — alemão, italiano, espanhol. Deixar cineastas como François Truffaut, Federico Fellini, Werner Herzog, Charlie Chaplin, Martin Scorsese, Roberto Rossellini, Akira Kurosawa e Carlos Saura de fora parece ser ousadia demais. Ou burrice demais. Enfim, resumir os melhores filmes em apenas 10 é tarefa inacabada.

Qualquer leitor que — por acaso ou não — leia esta postagem, vai apontar inconsistências. Pode manifestar-se, caso queira. Em tempo: não sei quem é o sujeito da ilustração acima,  mas espero que, ao menos, goste de cinema.

Muhammad, Bruce e Caetano Veloso

Sou fã de boxe. Sempre que possível, assistia aos combates de Eder Jofre pela tevê, quando a nobre arte ainda não era demonizada (com certa razão) pela medicina e pelos puritanos. Claro: também era fã de George Foreman e de Joe Frazier, mas o grande astro desse esporte era Cassius Marcellus Clay. Ou, como exigiu ser chamado após converter-se ao Islã, Muhammad Ali. Li O Rei do Mundo logo que veio a público, traduzido. É ótimo — até porque não se concentra no boxe per si, mas no seu engajamento político e religioso. Tudo o que envolveu o astro do boxe em sua jornada espiritual, e de como os wasps viram seu herói virar-lhe as costas. É um ótimo registro, se você aprecia o assunto.

Também sou fã de artes marciais — em especial o judô, o qual pratiquei quando adolescente, tendo como sensei o lendário José de Barros. Eram os anos 1970 e o judô, claro, levou-me à coreografada porradaria dos filmes de Bruce Lee e, mais tarde, ao blaxpoitation de Jim Kelly. Nunca li uma biografia de Bruce Lee, mas lerei, porque fã merece que a vida do ídolo seja exposta, principalmente quando sua morte é motivo de teorias da conspiração e conjeturas tão divertidas quanto essenciais ao mito. Os filmes que estrelou tinham enredos sofríveis e a carga dramática que Lee embutia em seus personagens era risível. Quem se importa, todavia? O que valia era a ação! Bruce é, junto a Fred Astaire e Gene Kelly, o maior bailarino do cinema.

Bruce Lee em 'O Voo do Dragão'

Lembro-me da série Kung Fu, cujos episódios — estrelados por David Carradine — iam ao ar no horário pós-telenovela da Globo, às 21h. Colecionei os números da revista Kung Fu, que vieram ao mundo pela Ebal, a partir de 1973. Assisti ao filme Operação Dragão um pouco mais tarde, e, vingado por conta da classificação indicativa (da época), fui ao cinema incontáveis vezes, para ver Bruce Lee, John Saxon, Jim Kelly e Bolo Yeung. Eram bons aqueles tempos, em que os filmes da artes marciais pareciam mais críveis, embora tão heroicos quanto os de Van Damme e Steven Seagal.

Eis a questão: o que Caetano Veloso, presente no título desta postagem, está fazendo aqui? Eu explico. Em 1977, quando eu ainda não me ligava à MPB, minha querida amiga Izinha — née Josemília — apresentou-me a canção Um Índio, contida no elepê Bicho. Não conhece? AQUI você ouve a versão original. Foi uma revelação, uma epifania. Na canção, Muhammad Ali e Bruce Lee, rimados com o romântico Peri e os Filhos de Gandhi, constam dos estribilho. É obra-prima. Anos mais tarde, já fã de Caetano e já professor de literatura brasileira, fiz um paralelo entre o compositor baiano e o poeta maranhense Gonçalves Dias. Isso, entretanto, é papo para outro dia.

Filmes (re)vistos #11: Interestelar, 2014

Assisti, mais uma vez, ao já clássico Interestelar, do inglês Christopher Nolan. É filme para ser revisto por quem não domina a ciência como um estudioso da área — física, astronomia — e aproveita, desse modo, para tentar, mesmo que superficialmente, compreender aspectos técnicos acerca de buracos negros, velocidade da luz, gravidade, espaço-tempo e buracos de minhoca. Se não compreende, não importa: a diversão fala mais alto. Há, claro, o aspecto que me chamou a atenção e que me faz rever o filme, sempre que possível: a relação pai/filha. E dentro desse aspecto, a ideia de que somente o amor e a gravidade são ferramentas capazes de atravessar as dimensões.

Tudo no filme funciona: desde a tragédia provocada pela burrice humana, que despreza a fragilidade que ela própria causou ao ambiente, até os toques de bom humor na relação entre ser humano e robô. O retorno a uma sociedade agrária faz com que o mundo esqueça os exércitos, a ciência e o entretenimento. O que vale é produzir alimentos para amenizar o desespero provocado pelo iminente fim do mundo. Vale, por isso, tentar encontrar um novo lar para os habitantes da Terra condenada, que sufoca por conta da estranha e densa poeira cotidiana provocada pela irresponsabilidade dos homens.

Interestelar é, no fundo — e no raso também —, uma história de amor e preservação. É o pai que, ao perceber o interesse da filha de 10 anos por ciência, estimula-a a buscar respostas, a avaliar as possibilidades, a enxergar o que não está evidente. É ele quem terraplena o terreno inicial pelo qual ela vai transitar até chegar, com o próprio talento e esforço, à resposta que salvará a humanidade. É o amor que ele sente por ela — e que é recíproco — que estabelece a comunicação dimensional, o diálogo que ultrapassa qualquer barreira temporal. Não há como não se emocionar quando pai e filha se encontram.

Gosto de filmes de ficção científica. Escrevi sobre o meu preferido: O dia em que a Terra parou, de Robert Wise, feito há 74 anos. AQUI você pode ler, caso queira. É um filmaço: aventura, filosofia, pacifismo e pavor de que uma sociedade mais avançada faça conosco o que fazemos com os animais. Há uma refilmagem, de 2008, com Keanu Reeves e Jennifer Connelly que é melhor deixar pra lá. E por falar em mulher bonita, em Interestelar há a presença de Anne Hataway — que é, claro, uma belezura de aplaudir. Se você não gosta de ficção científica, assista ao filme para vê-la, ao menos.

Vida Boêmia: Lush Life, o filme

Filmes sobre jazz geralmente satisfazem tanto o espectador comum quanto o aficcionado por música — mais ainda, claro, aquele que considera o jazz um ritmo essencial, o que é meu caso. Bird, de Clint Eastwood, e ‘Round Midnight, de Bertrand Tavernier, são filmes que versam sobre artistas autodestrutivos que, sem a música, teriam pulado da ponte mais cedo, sem que o mundo tomasse deles pleno conhecimento. As vidas conturbadas de Charlie Parker e Bud Powell, respectivamente reproduzidas nos filmes citados, oscilaram entre a genialidade absoluta e o desespero existencial, o que sobrecarregou as películas de uma dramaticidade angustiante.

Não é o caso de Vida Boêmia, de Michael Elias, um diretor tão apaixonado por jazz quanto Eastwood. Seu filme (originalmente feito para a tevê) também não é impactante do ponto de vista estrutural, mas a história não desagrada ao espectador mais exigente, que se vê diante de uma dupla de músicos — um saxofonista e um trompetista — que têm amor ao jazz na mesma proporção que amam viver. Ironicamente, um deles está condenado à morte por conta de um tumor cerebral. O outro, para celebrar-lhe a vida que resta, resolve fazer uma grande festa em que todos os músicos de jazz de NY comparecem — todos, sem exceção, o que causa um enorme problema para os night clubs da cidade.

Forrest Withaker — que já havia encarnado Parker no filme Bird cinco anos antes — interpreta o trompetista por cuja porta a morte quer entrar, mas ele se recusa a atender, de imediato. Antes, quer o jazz, e quer executá-lo tendo em mãos um trompete que pertencera a Clifford Brown, comprado numa loja de penhores por 2.500 dólares por um talentoso garoto aspirante a músico. Assim é o jazz: quem faz leva-o a consequências últimas. E por falar em amor a ele, uma outra história — periférica — é retratada na película: a dificuldade de se relacionar com um artista. A mulher do canastra Jeff Goldblum (o saxofonista garanhão) é uma professora que quer ter uma vida normal ao lado do marido, quer desvencilhar-se da lush life que o companheiro leva. Não é possível. Assim é o jazz.

A propósito: revi esse filme anteontem, na tevê. Busquei na internet o devedê ou o blu-ray que, acredito, não foram lançado por aqui, mas aí vai, ao lado, seu rosto. E o link, no Youtube, com legendas en español. A propósito 2: John Coltrane lançou, em 1957 — dez anos antes de morrer —, o álbum Lush Life, hard bop da melhor qualidade com um time grandioso de músicos: Don Byrd (trompete), Red Garland (piano), Earl May (baixo), Paul Chambers (baixo), Albert Heath (bateria), Art Taylor (bateria) e Louis Hayes (bateria). Não, não estão tocando todos juntos, como na tal festa do filme. O tema Lush Life foi composto por Billy Strayhorn e já foi interpretado por uma multidão de músicos. Clique AQUI para ouvi-la pelos dedos do extraordinário pianista Phineas Newborn.