Bobby Timmons morreu no dia 1º de março, há 42 anos. É um dos grandes pianistas de um gênero, o jazz, cujo instrumento — o piano — é sempre estimado. É algo ancestral: lembra a música clássica, o homem diante das teclas, o som puro e de rara beleza. Timmons, por sua vez, é menos celebrado. Thelonious Monk, Duke Ellington, Bud Powell e Bill Evans estão no panteão, bem acomodados. Por mim, Bobby Timmons faria companhia a eles, principalmente porque — mais uma vez em minha opinião — sua mão direita tem pouquíssimos rivais, no jazz. Sem falar no suingue e na precisão com que marca a melodia. Neste momento em que escrevo, como uma homenagem, ouço This Here is Bobby Timmons (capa ao lado).
Se você curte jazz, conhece pelo menos um dos temas imortais de Timmons: Moanin’, que deu origem a um dos grandes discos do baterista Art Blakey. É, aliás, o título do disco, em que os mensageiros do jazz — incluindo Bobby Timmons — faziam a festa. O disco e o tema são clássicos: referências inevitáveis em qualquer coletânea de quinteto ou sexteto. Não conhece? Eis:
Bobby Timmons se mostra, absoluto, a partir dos 7:02, num solo que dura quase 4 minutos de raríssima beleza e talento. É o dono da música, a qual, dizem, compôs num único dia. Observe que titãs do calibre de Lee Morgan e Benny Golson, estáticos, ouvem o som celestial. Art Blakey, dono da bola e do time, dá um risinho de admiração plena. Timmons é o gênio da raça.
Timmons gravou com grandes craques: além de ter feito parte dos Jazz Messengers, de Blakey, tocou com Chet Baker, com os saxofonistas Dexter Gordon, Johhny Griffin, Sonny Stitt e Hank Mobley. Fez um impressionante duo com o guitarrista Kenny Burrell em dois discaços — Blue Lights, em dois volumes. No início de carreira, tocou com os exigentes irmãos Adderley, Nat e Cannonball, e a estupefação tomou conta dos dois. Sabiam que aquele pianista era uma pérola.
A faixa This Here, que se combina ao título do disco, é um primor. Alegre, precisa, suingada: é a antessala de um subgênero que Bobby Timmons ajudou a criar: o soul jazz, e foi um sucesso comercial de que pouca gente, no jazz, usufruiu. Talvez Brubeck; talvez Miles. Se não conhece, tecle AQUI. Acompanhado pelo baixista Sam Jones e com Jimmy Cobb nos couros, é um dos ótimo discos de trio de jazz que conheço. A propósito, ouça o disco inteiro. É melhor, e faz justiça a esse enormíssimo pianista. Saravá, Bobby!


Mas meu disco preferido não é obra de estúdio – e sim ao vivo, ao lado de Buddy Miles, ex-baterista da banda de Jimi Hendrix. Na cratera do vulcão Diamond Head, no Havaí, durante o Sunshine Festival, em 1972. É um som absoluto, musculoso, lisérgico, com a força sonora que faz jus ao local onde é produzida. É como lava fumegante descendo sobre a cabeça de quem ouve. Não, não estou exagerando. Mas não espere a barulheira nem os exibicionismos do heavy metal. É som de verdade, e com destaque para a pegada funky em