Feliz Ano Novo, Zé Rubem!

Feliz Ano Novo, Zé Rubem!

José Rubem Fonseca foi o camisa 10 durante os anos 1970. Manteve-se em campo até meados da década seguinte, quando se cansou. Não precisava provar mais nada: nem que sabia manejar as palavras, nem que sabia construir personagens ou boas tramas. Podia ter-se aposentado, mas continuou a insistir em criar — e criou. O talento continuava, mas o fôlego foi, aos poucos, perdendo força, mesmo sendo capaz de, em 2003, escrever o ótimo Diário de um Fescenino. É seu último grande voo, seu derradeiro salto para a eternidade. Seus grandes livros? O Caso Morel, A Coleira do cão, O Cobrador, Feliz Ano Novo, Bufo & Spalanzani e sua obra-prima, A Grande Arte. Todos, coincidentemente, entre 1965 e 1985.

Ok, ok. Uma exceção, talvez, para Agosto — mas eu disse talvez. Preciso pensar melhor sobre isso. O que quero dizer, com esse preâmbulo? Que não há livro melhor sobre o qual falar, nesta época do ano, do que Feliz Ano Novo — um clássico das histórias curtas na literatura brasileira. Em 1975, durante o governo Geisel, Fonseca expõe, com crueza e vigor estético, a oposição entre classes sociais. O livro não se resume a isso, mas o conto-título é o escancaramento da diferença entre os que dão as cartas e os descartados sociais. Há contos antológicos, como Nau Catrineta — sobre canibalismo —, o metalinguístico Intestino Grosso e o divertido e futurista O Campeonato, sobre potência sexual. 

A linguagem (o que define a literatura) é marcada pela oralidade, e em algumas histórias o vocabulário — por muitos considerado chulo, pornográfico — é expresso de forma rude, desleixada, bem a gosto da realidade periférica que, em muitos casos, é retratada. Há outras histórias em que a linguagem é mais bem elaborada, mais acadêmica, como o diálogo entre o entrevistador e o Autor, no citado Intestino Grosso. Rubem Fonseca é craque nisto: representar linguisticamente cada camada social presente no enredo. Ninguém conseguiu isso — ao menos não com tanta precisão — na literatura contemporânea. 

Mandrake The Magician - Magic - T-Shirt | TeePublic

Uma curiosidade: no conto Dia dos Namorados, a personagem central é um advogado de apelido Mandrake. Sim, tornou-se famoso: estrelou A Grande Arte, vários contos e uma pequena novela, intitulada Mandrake, a Bíblia e a Bengala, de 2005. No citado conto, ele mesmo narrador, diz “quando nasci me chamaram de Paulo, que é nome de papa, mas virei Mandrake, uma pessoa que não reza, e fala pouco, mas faz os gestos necessários.” Alguém ainda se lembra de Mandrake the Magician? Aquele que, nos gibis que estrelava, hipnotizava instantaneamente seus oponentes fazendo gestos? Às novas gerações: ao lado, na imagem. Pois é. Rubem Fonseca foi mágico por 20 anos. E para muitos ainda é.

Cacaso & meu xará: a poesia essencial

Cacaso & meu xará: a poesia essencial

Book coverNo início da década de 80, século passado, a Abril Cultural lançou uma coleção intitulada Literatura Comentada, que se propunha reunir os grandes nomes da produção literária brasileira — contemporâneos ou não — em edições cujos autores eram, também, pessoas ligadas às letras: professores e estudiosos, na maioria. Foi por meio dessas publicações que conheci, metonimicamente falando, os poetas Francisco Alvim e Cacaso, criadores de estilos distintos pertencentes a uma geração de jovens poetas que se tornaram referência da poesia jovem dos anos 1970. Aliás, esse era o título do volume de Literatura Comentada, que trazia também figuras como Ana Cristina César, Paulo Leminski, Chacal, Alice Ruiz e mais um bocado de poetas — além dos dois citados. A organização do volume ficou por conta de alguém tarimbadíssima na área: Heloísa Buarque de Holanda.

Elefante, volume de pouco mais de 140 páginas, foi publicado há 25 anos. Afeito aos minimalismos da palavras, Francisco Alvim é um herdeiro do epigrama (por aqui chamado poema-minuto, tão caro a Oswald no início do Modernismo). Há de tudo, ao menos um pouco: quotidiano, sensualidade, política, medo, esperanças perdidas e reencontradas, amor — e por aí vai. A linguagem? Da secura ao lirismo fingido, usando as palavras economicamente. Alguns poemas têm apenas um verso. Outros, apenas uma palavra.

Há algo de Dalton Trevisan, em Tetéia: “Quem te deu esse brinquinho?/Comprei lá na feira do Gaminha.” Embora não seja leitura fácil, assimilada de imediato, vale conhecer o universo do meu xará. E Cacaso? É outro caso à parte nessa nova poesia de 50 anos. Suas œuvres complètes são absolutamente essenciais a quem gosta de poesia. Cacaso é o Baudelaire brasileiro pós-moderno, é um mestre da ironia, ingrediente fundamental de um texto sem propósito definido. Aliás, para que definir?

Aí vai Salário Máximo: “De noite sou amante da empregada/De dia sou patrão da amante”. Poemas curtos, poemas longos, poemas sem tamanho: letras de canções, homenagens, ritual cotidiano, iconoclastia, homenagens, metalinguagem, e muito mais. Ou seja: se não tudo, quase. E ainda a fortuna crítica, com as vozes de Roberto Schwarz, a citada Heloísa Buarque de Holanda e o aqui mencionado Francisco Alvim. O poema-minuto, instaurado naquela geração que precisava da velocidade da mensagem, está presente. Cacaso foi um herói literário de seu tempo, e que nos deixou esta pérola, tão atual, no poema intitulado Palavra do $enhor: “No princípio era a Verba.”

Valeu, Cacaso! Valeu, Xará!

 

 

 

Liszt, Wakeman & meu primo

Liszt, Wakeman & meu primo

Se assim se pode dizer: o húngaro Franz Liszt foi o primeiro astro pop da música, uma espécie de Elvis Presley sem as costeletas e os barbitúricos. As mulheres na plateia não lhe jogavam calcinhas, mas é provável que tivessem vontade. Daí se firmou o termo lisztomania, cunhado pelo poeta romântico Henrich Heine que — dizia-se — cobrava uma boa grana por elogios musicais nos folhetins que escrevia. Liszt não quis pagar e se deu mal: Heine caluniou-o e ainda disse que as fãs do compositor só eram fãs porque recebiam buquês de rosa para gritarem freneticamente em seus concertos. Isso é papo para postagem futura.

Lisztomania (album) - WikipediaPor que falo de Liszt e da lisztoamnia? Porque ganhei, há poucos dias, de um querido primo, o elepê da trilha sonora do filme Lisztomania, de Ken Russel, o diretor norte-americano que trouxe ao mundo pérolas como Gothic e Crimes de Paixão — além, claro, de Tommy. Aliás, Lisztomania e Tommy são do mesmo ano, 1975, e estrelados pelo mesmo ator-roqueiro Roger Daltrey, vocalista da banda The Who. A trilha sonora é assinada pelo ás dos teclados progressivos: Rick Wakeman que, no filme, aparece banhado a ouro, como o deus nórdico Thor. É divertido, quase hilário. Além do áureo Wakeman, Ringo Starr — baterista dos Beatles — faz o papel do papa Gregório XVI, usando uma mitra cravejada de pedras preciosas. Sim, você leu direito. É uma festa.

O disco é ótimo — o filme, nem tanto. Há mais surrealismo do que o necessário, Daltrey não sabe atuar, alguns flash-backs são mal costurados, há muita devoção fálica e maluquice de provocar enxaqueca. Não há, contudo, muito o que reclamar: vale assistir porque é um filme difícil de encontrar. Eu assisti por acaso — numa madrugada insone, num canal Telecine. E o disco? Pois apesar da pressa com que foi feito (Rick Wakeman estava atolado de compromissos), é ótimo. Muita coisa de Liszt, de Richard Wagner e adaptações das obras de ambos, incluindo letras embutidas em temas instrumentais. Da lavra de Wakeman só uma faixa: Hibernation, que ele compôs em uma tarde.

Видео Lisztomania (1975) | OK.RU

Fica em segundo plano a brigaiada entre Rick Wakeman e os chefões da gravadora Universal. Bem, Rick Wakeman briga com todo o mundo, mas parece que na contenda com David Geffen ele tinha razão. Voltemos ao presente: encontrado num sebo de livros, foi arrematado por meu primo que, é bom que se diga, foi quem me apresentou o disco, no final dos anos 1970. Esse exemplar, agora, encontra-se em local seguro, junto a outros elepês. Ouço-o neste momento, com uma satisfação ainda maior do que ouvi pela primeira vez. Até onde me lembro, evidentemente.

Antes do sétimo dia, Macalé!

Antes do sétimo dia, Macalé!

Não se pode cobrar de um artista, em qualquer área de atuação, que ele se comprometa com alguma causa política. Quando ele o faz, entretanto, os efeitos colaterais são previsíveis — tanto positiva quanto negativamente. Há quem diga que a arte deve privilegiar a estética, e seu envolvimento com questões sociais e ideológicas não só a prejudica como a torna ineficaz. Isso é um erro. A arte pode — e talvez até deva — espelhar o que é o homem, e dissociar esse mesmo homem de seu ambiente sociopolítico é, para dizer o mínimo, mutilá-lo em seu propósito: viver. Claro que isso é apenas uma opinião, sujeita a pedradas e a afagos.

Por quer digo isso? Porque faz 5 dias que o genial compositor Jards Macalé nos deixou. Durante mais de 60 anos, ele fez o brasileiro saborear a mistura de música de qualidade + bom humor + ironia + humanidade. Ao lado de outros gênios da MPB, foi além do que era esperado: brindou fãs e detratores com o que havia de melhor na arte musical. Eis a questão: por que abordei, no primeiro parágrafo, o envolvimento social de um artista? Porque em 1973, nos estertores do governo Médici, Macalé fez o que era necessário: juntou um grupo de músicos e, em comemoração aos 25 anos da Declaração Universal dos direitos Humanos, trouxe ao mundo este disco, ao vivo:

O BANQUETE DOS MENDIGOS

Há quem diga que tudo não passou de uma piada, e que Macalé só queria faturar, já que estava quebrado, sem grana sequer para uma cervejinha, segundo as próprias palavras. Importa tanto isso? Um show em benefício próprio? Esta postagem vai por outro caminho, e mostra que, mesmo brotando do anedotário, vale a pena levar em conta o aspecto humanista do evento. Em 1974, quando lançado, o disco foi censurado e apreendido. Previsível: a truculência, levada ao extremo pelos militares, ainda estava na ordem do dia. Cinco anos depois, veio ao mundo, álbum duplo, gravado clandestinamente pelo baixista Bruce Henry do grupo de rock Soma, que participou do show. Quem foi a ponta-de-lança do evento? Jards Macalé, que convidou a rapaziada da capa do disco para um banquete, e o que se serviu foi uma reunião de cantores e compositores somente comparada, em termos de qualidade artística, ao evento Phono 73, sobre o qual escrevi há alguns anos. Leia AQUI, caso queira.

Os 50 anos do 'Banquete dos Mendigos', ato contra ditadura - 09/12/2023 - Ilustrada - Folha

Eu conhecia o disco desde o início dos anos 1980, já tinha ouvido mais de uma vez — na casa de um meu compadre que, muito tempo depois, presenteou-me. É disco raro, necessário, que expressa o questionamento do início do texto: qual o papel — também — do artista: comprometer-se com as demandas de seu tempo e lugar, posicionar-se politicamente, abster-se da individualidade, associar-se ao que considera legítimo e humanista. Jards Macalé foi um artista dessa espécie. Somos obrigados a viver com a sua ausência — mas temos a  sua memória e o que ele eternizou. Valeu, Macalé!

Muhammad, Bruce e Caetano Veloso

Sou fã de boxe. Sempre que possível, assistia aos combates de Eder Jofre pela tevê, quando a nobre arte ainda não era demonizada (com certa razão) pela medicina e pelos puritanos. Claro: também era fã de George Foreman e de Joe Frazier, mas o grande astro desse esporte era Cassius Marcellus Clay. Ou, como exigiu ser chamado após converter-se ao Islã, Muhammad Ali. Li O Rei do Mundo logo que veio a público, traduzido. É ótimo — até porque não se concentra no boxe per si, mas no seu engajamento político e religioso. Tudo o que envolveu o astro do boxe em sua jornada espiritual, e de como os wasps viram seu herói virar-lhe as costas. É um ótimo registro, se você aprecia o assunto.

Também sou fã de artes marciais — em especial o judô, o qual pratiquei quando adolescente, tendo como sensei o lendário José de Barros. Eram os anos 1970 e o judô, claro, levou-me à coreografada porradaria dos filmes de Bruce Lee e, mais tarde, ao blaxpoitation de Jim Kelly. Nunca li uma biografia de Bruce Lee, mas lerei, porque fã merece que a vida do ídolo seja exposta, principalmente quando sua morte é motivo de teorias da conspiração e conjeturas tão divertidas quanto essenciais ao mito. Os filmes que estrelou tinham enredos sofríveis e a carga dramática que Lee embutia em seus personagens era risível. Quem se importa, todavia? O que valia era a ação! Bruce é, junto a Fred Astaire e Gene Kelly, o maior bailarino do cinema.

Bruce Lee em 'O Voo do Dragão'

Lembro-me da série Kung Fu, cujos episódios — estrelados por David Carradine — iam ao ar no horário pós-telenovela da Globo, às 21h. Colecionei os números da revista Kung Fu, que vieram ao mundo pela Ebal, a partir de 1973. Assisti ao filme Operação Dragão um pouco mais tarde, e, vingado por conta da classificação indicativa (da época), fui ao cinema incontáveis vezes, para ver Bruce Lee, John Saxon, Jim Kelly e Bolo Yeung. Eram bons aqueles tempos, em que os filmes da artes marciais pareciam mais críveis, embora tão heroicos quanto os de Van Damme e Steven Seagal.

Eis a questão: o que Caetano Veloso, presente no título desta postagem, está fazendo aqui? Eu explico. Em 1977, quando eu ainda não me ligava à MPB, minha querida amiga Izinha — née Josemília — apresentou-me a canção Um Índio, contida no elepê Bicho. Não conhece? AQUI você ouve a versão original. Foi uma revelação, uma epifania. Na canção, Muhammad Ali e Bruce Lee, rimados com o romântico Peri e os Filhos de Gandhi, constam dos estribilho. É obra-prima. Anos mais tarde, já fã de Caetano e já professor de literatura brasileira, fiz um paralelo entre o compositor baiano e o poeta maranhense Gonçalves Dias. Isso, entretanto, é papo para outro dia.

Aretino, Linda & o sexo

A literatura erótica – e sua irmã mais ousada, a pornográfica — não é, sob qualquer hipótese, uma literatura menor. Quem aprecia as boas histórias, e também os bons poemas e dramas, sabe disso. Quem não aprecia também sabe — e por isso mesmo se opõe ao tema. Sexo é fundamento. Sem ele, meus seis ou sete leitores não existiriam, não poderiam discordar do que será lido nesta postagem. A propósito, sem o sexo eu também não existiria, de modo que o texto que se lê relaciona-se ao tema de forma quase hereditária.  Além de outras formas de se relacionar com ele, sexo também é bom de se ler.

Tenho lido sobre o assunto: penso em escrever um texto pornográfico — daqueles para valer, sem constrangimentos. A pornografia é o sexo sem vergonha de si mesmo, é a desnecessidade de afeto, que despreza jantares, presentes, alianças, futuro, jogos de poder. No meu livro de contos Todas Elas, Agora, de 2013, cheguei a ensaiar o tema, mas não produzi nada que não pudesse ser lido por um seminarista, embora eles possam negar isso e me enviar à eternidade infernal. Literatura pornográfica — ou sua irmã aristocrática, a erótica — é a libertação de grilhões tanto linguísticos quanto de enredo. 

Por que falo do assunto? Porque anteontem, 20 de abril, foi aniversário de Pietro Aretino, poeta pornográfico italiano que enriqueceu trocando sacanagem por diamantes. Sim, isso mesmo. Às senhoras nobres e assanhadas da Veneza e da Roma do século XVI enviava poemas licenciosos e, em troca, enchia os bolsos de preciosidades. Protégée dos Médicis — e do Papa Leone X —, era inatacável, de modo que se divertia sem que qualquer autoridade lhe perturbasse os modos. Ficou milionário comercializando luxúria. Seus sonetos luxuriosos são uma beleza de se ler.

Escrevo também porque hoje, 22 de abril, faz 23 anos que Linda Lovelace deixou este mundo, após um acidente automobilístico. A lendária atriz protagonizou — quem se lembra? — Deep Throat, ou Garganta Profunda, possivelmente o filme pornográfico mais icônico da história do cinema. Soube-se, alguns anos depois, que fora forçada pelo marido perverso, muitas vezes sob ameaça de tortura física, a participar dos filmes. Sofreu um bocado. Convertida à religião, algum tempo depois, tornou-se ativista antipornografia. Ei-la, abaixo:

Há um filme sobre sua vida, intitulado Lovelace, de 2013. Amanda Seyfried faz o papel principal, e o marido cruel e canalha fica por conta do sempre excelente Peter Sarsgaard. Vale checar, se houver interesse.

Jazz doméstico: Afonso Abreu Trio

Deixando as férias para trás: estamos de volta, com plural de modéstia e tudo o mais.

Iniciando 2025 com música. Escrever sobre amigos é sempre perigoso, já que o afeto mete o bedelho onde não deve. Mesmo assim, deve-se tentar. Ouvi — e reouvi — um disco que completará, em outubro, 25 anos: o tal jubileu de prata, seja lá o que isso queira dizer. O disco em questão é Palco Iluminado, de um trio de jazz capitaneado por Afonso Abreu, contrabaixista de primeira, na estrada há 60 anos. Os outros componentes do trio: o pianista Pedro Alcântara e o baterista, tão longevo quanto Afonso, Marco Antônio Grijó. Sim, é meu parente. O disco em questão foi gravado ao vivo, no Teatro Carlos Gomes, centro de Vitória, em 2000. O título é adequado. Eis a capa:

Grijó e Afonso entendem-se há 50 anos: uma parceria quer se iniciou no coração da década de 60 — século passado — e estendeu-se até os dias atuais, mesmo que sem a frequência de antes. Fizeram, e ainda são capazes de fazer, um um de primeiríssima, suingado, pulsante, absurdamente ajustado. Esse ajuste se deve também à presença do pianista, que mostra o caminho por onde todos devem ir. Pedro Alcântara exsuda talento: os dedos parecem multiplicar-se diante de Steinway e seus filhos. É o trio perfeito, a música perfeita.

Há pelo menos 3 performances antológicas: All Blues, de Miles Davis; Autumn Leaves, do húngaro Joseph Kosma, e O Morro não tem vez, da dupla Jobim-Vinicius. Marco Antônio Grijó, um tanto contido porque o repertório assim exigia, é a cozinha de luxo, sublinhando significativamente o que Pedro e Afonso dialogam entre si. A sempre difícil brubeckiana In Your own sweet way é um dos pontos altos do show, com o pianista alternando entre o fraseado lírico e a base percussiva. É uma beleza.

Afonso e Grijó foram mamíferos. O que isso quer dizer? AQUI você entenderá. AQUI também. O entendimento mútuo proporcionou uma adequação musical como pouco se vê, por aqui. Pedro adequou-se: foi o amálgama perfeito para que esse disco pudesse vir à superfície, de forma a apresentar a quem não (re)conhece o jazz feito no ES. Não um jazz com características específicas — música não é moqueca! —, mas a execução exemplar do gênero que foi levado a limites que realmente impressionam. Sim, e o palco se ilumina, porque o trio é jazz, é luz e é som. Aproveite.

De lambugem: All Blues em outra ocasião.

Jethro Tull revisitado (um prelúdio para Mick Abrahams)

Album Art Exchange - Stand Up by Jethro Tull - Album Cover ArtSe alguém perguntar — a quem gosta realmente de rock — qual a grande banda progressiva, é possível que se ouçam nomes como Yes, Pink Floyd, King Crimson e Genesis. São essas, evidentemente, e com justiça, as mais conhecidas, mais famosas. Rock progressivo é coisa de europeu, flerta com o jazz, com a música erudita, usa e abusa de sintetizadores, teclados, algumas letras são longas, os arranjos são complexos. É a parte adulta do rock: não é, em sua essência, feito para dançar nem  para servir de música de fundo. É som para se ouvir mesmo. Mas por que falo de rock? Porque acabei de ouvir Stand Up, o segundo álbum da ótima banda Jethro Tull. Está AQUI, caso queira ouvir.

Eu conheci o Jethro Tull em meados dos anos 1980, quando ouvi Thick as a brick por acidente, na casa de um amigo. Não dei muita bola, mas fiquei curioso — para dizer o mínimo — quando soube que o mesmo artista, no caso Ian Anderson, líder da banda, dava conta da flauta, do acordeão, do trompete, do saxofone e do violino. E ainda cantava, com uma voz que, se não tinha muito alcance, era marcante, singular. Apreciei e, algum tempo depois, ouvi This Was, o primeiro disco da banda. Se já apontava como destaque no rock progressivo, ainda havia uma vantagem: o guitarrista Mick Abrahams, que só tocou com o grupo neste disco. Consta que, por não viajar de avião, optou por deixar a rapaziada a ver navios.

A versão oficial é outra: diferenças criativas com Ian Anderson. Ok, então. O disco que ilustra a postagem, e que acabei de ouvir, é de 1969 — segundo álbum —, e Mick, sem alçar voo, deu lugar a Martin Barre, outra fera nas cordas, além de cuidar de muitos arranjos de canções. Há quem diga que foi o par perfeito para o líder da banda. Pode ser, mas eu ainda fico com Mick Abrahams; confesso, todavia, que Mr. Barre deu conta do recado. Ouça o disco e você perceberá isso. Há uma outra questão, que, a meu ver, valoriza o álbum: Ian Anderson, e ele mesmo afirma isso, bebeu na fonte jazzística de Ornette Coleman, de Charlie Parker e do alucinadamente criativo Rahsaan Roland Kirk.

Cinco Músicas para Conhecer: Jethro Tull sem flauta

Claro que ao ouvir o disco, mesmo en passant, qualquer um que aprecie a música vai perceber o quanto há de folk nas faixas. Jon Renbourn, do Pentagle, Bert Jansch e, claro, Bob Dylan são influências evidentes. Um tempo depois, já em fins dos anos 1990, comprei um cedê intitulado At Last, da banda de Mick Abrahams, meu guitar hero que, claro, será assunto de uma postagem só dele. Por enquanto, o Stand UP, do Jethro Tull, dá as cartas. Aprecie sem moderar-se.

Os Mamíferos revisitados

Inovar só tem relevância se a inovação tiver real valor. Falei o óbvio. Experimentalismos no vácuo valem quase nada – exceto, talvez, para seu autor, que imagina ter descoberto a importância do oxigênio. Sei que, após 1922 – quando Joyce decepou de vez o romance moderno -, não se fez nada de novo em literatura. Retomar, reinventar, reciclar: três verbos cujo prefixo expressa que o ineditismo passou longe. Por que falo isso, entretanto? Vou explicar. Em 2016 lancei um livro biográfico intitulado Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular. 337 páginas contando a história de 3 artistas e de seus entornos.

TBT: o início do rock no ES e a história da banda Os Mamíferos, nas décadas de 60 e 70A capa está aí, ao lado. Nela, os componentes do time: Mário Ruy (guitarra), Afonso Abreu (líder e contrabaixo) e Marco Antônio Grijó (bateria). Um trio, na verdade – que, em muitos casos, acrescia-se de um vocalista tão talentoso quanto polêmico: Aprígio Lyrio. Falei em inovação, no primeiro parágrafo. Fui específico ao afirmar que nada é novo em literatura. E na música? Creio que esse vaticínio se repita, mas é preciso levantar, no caso dOs Mamíferos, algumas bolas. Duas delas são inquestionáveis porque se baseiam na cronologia. Vou explicar também.

Caetano Veloso e Gilberto Gil são pilares da música popular brasileira. Ao lado de Chico Buarque, formam a Santíssima Trindade da MPB. A dupla baiana criou o Tropicalismo, estética que retomou a Antropofagia de Oswald de Andrade e passou a valorizar o Brasil conectando-o ao resto do mundo. Um dos elementos do movimento foi a fusão de gêneros, ritmos, melodias. Pois é: foram louvados a partir de 1967, quando tudo começou. E não é que Os Mamíferos, esse trio capixaba, já havia feito isso quase dois anos antes?

Filme sobre Os Mamíferos terá sessão especial e gratuita na Serra - Século Diário

Quer mais? Miles Davis oficializou o fusion através de um disco extraordinário cujo título é Bitches Brew, em 1969. Nele, o essencial jazzista estabeleceu a união entre o jazz e o rock, criando um mundo novo para os ouvintes de ambos os gêneros. Sim, sim. Os Mamíferos já faziam isso, afinal o trio, antes de se dedicar ao rock, já nadava pela maré do jazz há muito tempo. Para eles, a fusão foi natural. Falo sobre isso no livro, embora evite polêmicas. Elas são desnecessárias, principalmente quando o mais importante na música – e na arte! – é seu conteúdo, é aquilo que ele provoca em quem o consome. Saravá, Mamíferos!

*A foto, de 1969, mostra Mário Ruy (à esquerda, na guitarra); Marco Antônio Grijó (bateria) e Afonso Abreu, no baixo elétrico. Som de primeiríssima. Seria bom se vc tivesse ouvido, Miles!