Antes do sétimo dia, Macalé!

Não se pode cobrar de um artista, em qualquer área de atuação, que ele se comprometa com alguma causa política. Quando ele o faz, entretanto, os efeitos colaterais são previsíveis — tanto positiva quanto negativamente. Há quem diga que a arte deve privilegiar a estética, e seu envolvimento com questões sociais e ideológicas não só a prejudica como a torna ineficaz. Isso é um erro. A arte pode — e talvez até deva — espelhar o que é o homem, e dissociar esse mesmo homem de seu ambiente sociopolítico é, para dizer o mínimo, mutilá-lo em seu propósito: viver. Claro que isso é apenas uma opinião, sujeita a pedradas e a afagos.

Por quer digo isso? Porque faz 5 dias que o genial compositor Jards Macalé nos deixou. Durante mais de 60 anos, ele fez o brasileiro saborear a mistura de música de qualidade + bom humor + ironia + humanidade. Ao lado de outros gênios da MPB, foi além do que era esperado: brindou fãs e detratores com o que havia de melhor na arte musical. Eis a questão: por que abordei, no primeiro parágrafo, o envolvimento social de um artista? Porque em 1973, nos estertores do governo Médici, Macalé fez o que era necessário: juntou um grupo de músicos e, em comemoração aos 25 anos da Declaração Universal dos direitos Humanos, trouxe ao mundo este disco, ao vivo:

O BANQUETE DOS MENDIGOS

Há quem diga que tudo não passou de uma piada, e que Macalé só queria faturar, já que estava quebrado, sem grana sequer para uma cervejinha, segundo as próprias palavras. Importa tanto isso? Um show em benefício próprio? Esta postagem vai por outro caminho, e mostra que, mesmo brotando do anedotário, vale a pena levar em conta o aspecto humanista do evento. Em 1974, quando lançado, o disco foi censurado e apreendido. Previsível: a truculência, levada ao extremo pelos militares, ainda estava na ordem do dia. Cinco anos depois, veio ao mundo, álbum duplo, gravado clandestinamente pelo baixista Bruce Henry do grupo de rock Soma, que participou do show. Quem foi a ponta-de-lança do evento? Jards Macalé, que convidou a rapaziada da capa do disco para um banquete, e o que se serviu foi uma reunião de cantores e compositores somente comparada, em termos de qualidade artística, ao evento Phono 73, sobre o qual escrevi há alguns anos. Leia AQUI, caso queira.

Os 50 anos do 'Banquete dos Mendigos', ato contra ditadura - 09/12/2023 - Ilustrada - Folha

Eu conhecia o disco desde o início dos anos 1980, já tinha ouvido mais de uma vez — na casa de um meu compadre que, muito tempo depois, presenteou-me. É disco raro, necessário, que expressa o questionamento do início do texto: qual o papel — também — do artista: comprometer-se com as demandas de seu tempo e lugar, posicionar-se politicamente, abster-se da individualidade, associar-se ao que considera legítimo e humanista. Jards Macalé foi um artista dessa espécie. Somos obrigados a viver com a sua ausência — mas temos a  sua memória e o que ele eternizou. Valeu, Macalé!

2 opiniões sobre “Antes do sétimo dia, Macalé!”

  • 21 de novembro de 2025 em 12:30
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    Acho o saudosismo um tanto quanto chato. Ele caminha de mãos dadas com quem não reconhece a genialidade de um artista – ou até mesmo um jogador de futebol – e só o considera genial, ídolo, acima da média quando o mesmo sai de cena, seja por decisão própria, do público ou da natureza.

    Posto isso, e ao mesmo deixando isso de lado, creio que hoje não seria possível gravar um disco com um time desse calibre de “O Banquete…” . Além de ser um formato que hoje não tem apelo comercial – onde vigora os duetos, no máximo -, essa força musical não passou por uma transição geracional. O público ainda valoriza essa galera, disso não tenho dúvida, mas digo em termos de produção mesmo. Claro, claro, ainda tem gente muito boa produzindo, mas sem força comercial (ou espaço comercial). Não surgiram novos Chicos, Paulinos, Jorges capazes não só de produzir música de qualidade, mas também de penetrar nas mídias, grandes festivais e eventos.

    Dizem que o agro tem um dedo nisso…

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    • 21 de novembro de 2025 em 13:13
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      Não é saudosismo, mas uma homenagem a um artista que, vivo ou morto, tem seu lugar na MPB.
      Sem contar que é um registro sobre um disco pouco conhecido pelas novas gerações.

      Sobre haver um evento desse porte nos dias de hoje, não tenho nem como imaginar. Os tempos são outros, as circunstâncias razoavelmente distintas. O que é possível garantir é que não há artistas hoje, no Brasil, que tenham a qualidade musical daquele que participaram do Banquete.

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