Sérgio Mendes é um músico de primeira. Estrelou, como pianista, pelo menos dois discos que constariam de qualquer antologia mundial de música instrumental: Bossa Nova York, de 1964, no qual brilhavam também Tom Jobim, Art Farmer e Phil Woods. O outro, gravado um ano antes, chama-se Você ainda não ouviu nada!, do Sérgio Mendes & Bossa Rio, de cuja formação constavam Edison Machado, possivelmente o melhor baterista brasileiro em qualquer época, e o craque no trombone Raul de Souza. Sérgio, além de cuidar das teclas, cuidou dos arranjos – mas, calma: não foi só ele. O citado Jobim e o lendário Moacir Santos também participaram dessa obra-prima. Esse disco fica para depois.
Sérgio Mendes é famoso – mas sua fama, justificada pela qualidade de seu trabalho, era resumida a ouvintes de 50 e 60 anos, cuja exigência musical passava longe de modismos. Eu disse “era resumida”. Hoje não é mais. Há alguns anos, quando a população abaixo dos 30 anos enviou-o ao quase anonimato, Sérgio Mendes fez como o gato: deu o pulo que mudou o cenário. Aliou-se ao poderoso rapper will.i.am (sim, com minúsculas), que fez os holofotes darem a guinada necessária. Mr. Mendes pôde, então, experimentar o gostinho de ser conhecido por menores de 25 anos. É uma grande vantagem, ao menos em termos de mercado. Não se discute que a indústria do entretenimento fez a opção por uma fatia etária que, em muitos casos, não se preocupa muito com a qualidade do que consome. Conheço fãs de Seu Jorge que nunca ouviram falar de Franz Schubert, mas sabem, hoje, quem é Sérgio Mendes. Ponto para ele.

Retorno ao primeiro disco citado, que é o motivo desta postagem – e que estou ouvindo, neste momento. Bossa Nova York é um clássico do Sergio Mendes Trio, formado por Sebastião Neto, no contrabaixo, e Chico Batera, na bateria – além, claro, do líder pianista que dá nome ao grupo. É um disco de jazz-samba, algo que vai um pouco além da Bossa Nova, num andamento mais ligeiro, mas com a mesma precisão técnica. O título refere-se ao fato de o disco ter sido gravado nos estúdios da Atlantic, naquela cidade. O que me deixa pasmo é que os músicos estrangeiros – Art Farmer, Phil Woods e Hubert Laws – não conheciam o trio até entrarem no estúdio. Tinham contato com Tom Jobim, já conhecido nos EUA, em 1964, data da gravação.

Aliás, de Tom, há gravações antológicas de Só Danço Samba e Inútil Paisagem, isso sem falar em Garota de Ipanema, Vivo Sonhando e O Morro não tem vez. De Carlos Lyra, duas obras-primas: Maria Moita e Primavera. De Baden, um tema de derreter os mais corações mais empedrados: Consolação. Todo o disco é bom. Aliás, ótimo. No fim da postagem, há um link para você ouvi-lo, se quiser. Só para constar: aliado a Carlinhos Brown, Sérgio Mendes fez a canção – candidata ao Oscar – do extraordinário desenho Rio, de 2011. Gostei demais do filme. Meu vizinho, um adolescente aos 16, também. Se eu lhe perguntar quem é Sérgio Mendes, é possível que ele, após um exercício de memória, diga: Não é aquele velhote parceiro do Mr. Brown? Vou responder – triste – que é. A propósito: se você quer conhecer a biografia desse grande músico, vá ao site dele. Se for ao Wikipedia , vá em inglês. Os norte-americanos respeitam sua música muito mais que os brasileiros. Um dos motivos pelos quais ele quis ficar lá.
AQUI você ouve o disco inteiro.
I Juca Pirama é um clássico do Romantismo brasileiro. Um poema narrativo sobre índios guerreiros, em que a ideia de heroísmo não só ilustrava o ideal pós-independência como valorizava o nativo histórico brasileiro, desfazendo – ou tentando desfazer – a ideia de que o europeu é superior. Mas não é sobre literatura esta postagem. Falo de música, de música de qualidade, de jazz. E de Marcelo Coelho, um dos grandes instrumentistas cujo show pude testemunhar. Aliás, chamá-lo instrumentista é reduzir sua importância e sua realização. Marcelo é professor, pesquisador, compositor.
Tenho alguns discos de Marcelo. Um deles, Colagens, é essencial, jazz puro, calibrado, adulto. Certo, certo: quem ouviu disse que não é música fácil, não é para qualquer ouvido. É um erro. É um disco para ser consumido por todos os que se interessam por música, mesmo que não tenham intimidade com o jazz, com a polifonia, com o próprio jazz modal a que me referi. Uma confissão: meu conhecimento sobre teoria musical é nulo. Gosto de música, mas ignoro o processo de se chegar a ela. Minha área, como se sabe, é outra – e é justamente essa outra que Marcelo Coelho resolveu invadir, com tanta propriedade e com outro olhar. Estou lendo devagar o livro cuja ilustração está à direita do visor. Leio devagar porque assim se faz com as grandes obras: deve-se sorvê-las com o paladar puro, sem a contaminação que, para muitos, é inevitável. Eu tento evitar. Ave, Marcelo!


Há 21 anos, um querido amigo presenteou-me com Notícia de um Sequestro, de Gabriel García Márquez, colombiano que levou um merecido Nobel em 1982. García Márquez não está entre meus preferidos, na América Espanhola, mas é grande, sabe narrar, é versátil – embora tenha escrito vários livros que, num certo sentido, são o mesmo. Enfim, isso é outra história. Notícia de um Sequestro destoa dos mais conhecidos textos do autor. Primeiro porque não é ficção; segundo, porque o próprio título entrega: é uma reportagem, fundamentada num fato tão verídico quanto terrível – o sequestro de Maruja Pachón e Beatriz Villamizar, duas figuras que realmente existem e que foram sequestradas pelo cartel de Medelín a mando do famosíssimo imperador do tráfico Pablo Escobar.
O norte-americano Robert Wise montou Citzen Kane, o clássico de Orson Welles, apreciado pelos cinéfilos. Assinou Punhos de Campeão, um aclamado filme sobre o boxe. Poderia ter morrido feliz e realizado, mas optou por fazer de Julie Andrews uma noviça que cantava My Favourite Things – tema que John Coltrane imortalizaria, mas isso é outra história – em volta de um grupo de lourinhos suíços que temiam o pai de coração gelado. Alguns anos antes havia concebido, em parceria com Jerome Robbins, o grande musical West Side Story, cujo título português, Amor Sublime Amor, é sua única falha. Wise – que era realmente sábio – foi além. Além do sideral, do visto ao nu do olho, e concebeu duas pedras lapidadas da ficção científica. Uma delas, menos luminosa, é O Enigma de Andrômeda, a que assisti por volta de 73, no extinto Cine Odeon. Aos onze anos não tive a compreensão exata do filme, claro. Vi depois, em VHS, já com trinta e poucos, tela menor e cheio de boas lembranças. A outra pedra luminosa é, em modesta visão, o mais perfeito filme de ficção científica já feito: O Dia em que a Terra Parou, feito em 1951, onze anos antes do nascimento de muitos dos que leem esse testemunho – eu incluído. Mas é preciso justificar por que acho isso.

A vantagem de ser
Eis a questão: onde ficam os discos produzidos de 1980 até os dias de hoje? Vagam pelo limbo da seleção mais criteriosa, aquela que leva em conta o conteúdo adulto e que exige de seu consumidor um mínimo de sensibilidade artística? E quanto aos artistas que, atualmente, fazem tanto sucesso entre a garotada? Onde estão Tiaguinho, Emicida, Los Hermanos, Ivete Sangalo, Pe. Fábio de Melo, Jota Quest, Anitta, Pablo Vittar? Onde? No topo das paradas, com a agenda cheia, forrando a conta bancária (honestamente, é bom que se diga), falando exatamente aquilo que seu fã quer ouvir – e nunca contrariando-o, nunca exigindo dele que vá além, que descubra novos rumos, que se desdiga na primeira esquina.