2 filmes de Francisco

Raramente escrevo sobre religião e sobre suas variáveis — incluindo nelas as figuras icônicas e fundamentais para quem tem fé, principalmente se esse quem for católico. Embora respeite grandes pensadores religiosos (Calvino, Lutero, Jesus), gosto mesmo é do meu xará Francisco, que originalmente se chamava Giovanni di Pietro di Bernardone. Trocou de nome; eu, não. Aliás, como ele morreu aos 44 anos, posso afirmar que fui Francisco por mais tempo. Isso, todavia, é detalhe. Nasceu num 5 de julho, há 845 anos, permanece vivo em filosofia, em gesto e em palavras. Era para ser seguido por todos.

Resenha: Irmão Sol, Irmã Lua :: DVDMagazine: 24 ANOS ON-LINEPor que me lembrei do santo xará? Porque buscando assistir a filmes menos atuais, deparei-me com uma película que muito me impressionou (quando assisti, há uns 45 anos — menos pela história que pelo visual: Irmão Sol Irmã Lua, do italiano Franco Zeffirelli. O pôster ao lado não apresentou o filme no Brasil, mas imagino a reação dos carolas diante da beleza atlética do futuro santo nu à imagem do Cristo não-crucificado, liberto da escravidão dos pertences pessoais, incluindo as próprias roupas. Francisco se desnuda para dedicar-se a auxiliar os menos favorecidos.

É a súmula do paradoxo: a igreja, os comerciantes e a nobreza de um lado, ostentando, rindo e acumulando. De outro lado, a pobreza extrema da maioria, a fome, a miséria, a doença e a morte. Francisco faz sua opção. É altamente poético em algumas partes, sem errar a mão: nem no cinema nem na poesia. Revi com prazer. Outro filme: Francesco, de Liliana Cavani, cineasta italiana que deu ao mundo a obra-prima O Porteiro da Noite (em breve, por aqui). Sim, ela conseguiu o que parecia improvável: fez o então galã Mickey Rourke encarnar o rebelde contracultural. A direção é segura — quem gosta de cinema sabe que é preciso pulso hábil e firme para usar bem os flash-backs.

Rourke vinha do estrondoso sucesso voyeurístico-fetichista Nove e meia semanas de Amor e do chato Barfly, em que viveu o poeta bebum Charles Bukowski. Em Francesco, talvez até pela importância histórica da personagem, ele se saiu bem melhor. São dois filmes diferentes entre si — que trazem a mesma personagem carregada de boas intenções, humildade e contradizendo o stablishment social e eclesiástico. Cavani contou a história; Zeffirelli expôs a emoção. São dois bons filmes que merecem ser vistos por quem se incomoda com a desigualdade, tão necessária à injustiça quanto ao poder. 

AQUI, com legendas em inglês.

O tri aos 8 anos

Em 1970, mês de junho, eu era um menino de oito anos. De costas para a tevê, enquanto o escrete brasileiro enfrentava a Checoslováquia — era o primeiro jogo do Brasil na Copa do México, em 1970 —, eu desenhava, dentro das minhas limitações, o Superman numa folha em branco. O gol de Petrás, atacante checo, fez minha mãe exasperar-se: não pelo gol do adversário, mas pela imagem do jogador benzendo-se catolicamente na lateral do campo, comemorando o tento. “Comunista não se benze!”, esbravejou. Essa é minha primeira lembrança da Copa 70, o torneio no qual o time brasileiro tornou-se campeão. Já atento ao jogo, vi o Brasil pulverizar os comunas.

A partir daí acompanhei os jogos ao lado do meu pai, fã de futebol, com quem aprendi sobre o assunto — do Cruzeiro de Tostão à mortal linha de ataque do Botafogo; dos passes de Gérson à patada  atômica de Rivellino. E, claro, sobre o maior de todos os craques: o rei Pelé. Entre um jogo e outro, eu aprendia. Superman saiu de campo, e o futebol passou a jogar. Mas por que esse momento saudosista, neste texto? Porque assisti, via Netflix, à minissérie Brasil 70: A Saga do Tri. Cheguei a emocionar-me: voltar no tempo por meio de boas lembranças é um privilégio.

Bem, e a minissérie? É ótima, mesmo que os detratores afirmem que Pelé é interpretado por alguém 15cm mais alto. E daí? Rodrigo Santoro como João Saldanha? E daí, novamente? São detalhes — ou seja, não têm muita importância. O que vale é o feito: havia uma dívida do cinema brasileiro com o futebol doméstico. Apesar do ótimo Boleiros e do documentário Isto é Pelé, faltava uma obra capaz de mostrar o que representou a seleção brasileira principal num momento politicamente tão conturbado. Havelange é retratado como ele realmente era. E o sanguinário ditador Emílio Garrastazu, que aparece apenas como voz?

Gostei da minissérie — e gostei muito. Os lances de gol, com a câmera acompanhando a trajetória da bola até seu destino final são um achado. Aplausos para os diretores Paulo Morelli, Quico Meirelles e Pedro Morelli. E os jogadores? Pelé e Rivellino têm sósias. Zagallo e suas superstições dão o toque de humor. Saldanha enfrentando os milicos é um ótimo contraponto, e as cenas nos vestiários são absolutamente verossímeis, revelando as tensões, os receios e o trauma de 1950. Lamentei não haver imagens dos dois gols de Tostão contra o Peru, nas quartas de final, mas tudo bem. Vale assistir. Se você que lê é um sessentão — daí pra frente! —, e se apreciar o ludopédio, vai se emocionar também. Voltei a meus 8 anos, e isso foi bom.

Muhammad, Bruce e Caetano Veloso

Sou fã de boxe. Sempre que possível, assistia aos combates de Eder Jofre pela tevê, quando a nobre arte ainda não era demonizada (com certa razão) pela medicina e pelos puritanos. Claro: também era fã de George Foreman e de Joe Frazier, mas o grande astro desse esporte era Cassius Marcellus Clay. Ou, como exigiu ser chamado após converter-se ao Islã, Muhammad Ali. Li O Rei do Mundo logo que veio a público, traduzido. É ótimo — até porque não se concentra no boxe per si, mas no seu engajamento político e religioso. Tudo o que envolveu o astro do boxe em sua jornada espiritual, e de como os wasps viram seu herói virar-lhe as costas. É um ótimo registro, se você aprecia o assunto.

Também sou fã de artes marciais — em especial o judô, o qual pratiquei quando adolescente, tendo como sensei o lendário José de Barros. Eram os anos 1970 e o judô, claro, levou-me à coreografada porradaria dos filmes de Bruce Lee e, mais tarde, ao blaxpoitation de Jim Kelly. Nunca li uma biografia de Bruce Lee, mas lerei, porque fã merece que a vida do ídolo seja exposta, principalmente quando sua morte é motivo de teorias da conspiração e conjeturas tão divertidas quanto essenciais ao mito. Os filmes que estrelou tinham enredos sofríveis e a carga dramática que Lee embutia em seus personagens era risível. Quem se importa, todavia? O que valia era a ação! Bruce é, junto a Fred Astaire e Gene Kelly, o maior bailarino do cinema.

Bruce Lee em 'O Voo do Dragão'

Lembro-me da série Kung Fu, cujos episódios — estrelados por David Carradine — iam ao ar no horário pós-telenovela da Globo, às 21h. Colecionei os números da revista Kung Fu, que vieram ao mundo pela Ebal, a partir de 1973. Assisti ao filme Operação Dragão um pouco mais tarde, e, vingado por conta da classificação indicativa (da época), fui ao cinema incontáveis vezes, para ver Bruce Lee, John Saxon, Jim Kelly e Bolo Yeung. Eram bons aqueles tempos, em que os filmes da artes marciais pareciam mais críveis, embora tão heroicos quanto os de Van Damme e Steven Seagal.

Eis a questão: o que Caetano Veloso, presente no título desta postagem, está fazendo aqui? Eu explico. Em 1977, quando eu ainda não me ligava à MPB, minha querida amiga Izinha — née Josemília — apresentou-me a canção Um Índio, contida no elepê Bicho. Não conhece? AQUI você ouve a versão original. Foi uma revelação, uma epifania. Na canção, Muhammad Ali e Bruce Lee, rimados com o romântico Peri e os Filhos de Gandhi, constam dos estribilho. É obra-prima. Anos mais tarde, já fã de Caetano e já professor de literatura brasileira, fiz um paralelo entre o compositor baiano e o poeta maranhense Gonçalves Dias. Isso, entretanto, é papo para outro dia.

Seinfeld: 3 livros

Jerry Seinfeld e Larry David, criadores da sitcom Seinfeld, não faziam ideia do sucesso que fariam ao escrever sobre o quotidiano de um comediante de stand-up comedy. Não imaginavam que o programa se tornaria um ícone pop nem que ficariam milionários com o resultado de uma ideia. Aliás, todos os cinco diretamente envolvidos — Jason Alexander, Julia Louis-Dreyfus e Michael Richards, inclusos — passaram a nadar em dólares, gozando de um prestígio que nenhum outro comediante, nos anos 1990, gozou. Bem, Julia já era bilionária — ou seria, quando o pai, o francês Gérard Louis-Dreyfus morresse. E morreu, em 2016.

Na esteira da sitcom, Jerry Seinfeld — que escrevia os diálogos com Larry David — resolveu reunir muitos dos textos que foram ao ar e publicou O Livro sobre Nada. É a premissa resumida e enganosa do programa: falar sobre o nada. Enganosa porque, de fato, fala-se do cotidiano do próprio Jerry e de seus amigos, um bando de egoístas cujo desprezo pela humanidade se esparramava por 25 minutos semanais. Ninguém prestava ali — e é aí que estava o charme da sitcom. Há passagens engraçadas no livro: quase todas elas já consumidas por quem é fã daquela turma. Eu, por exemplo.

Houve quem levou a sério a série sobre o nada. Houve quem resolveu, por molecagem ou não, olhar para a sitcom e conectá-la a Sócrates, Kierkegaard, Sartre, Platão, Wittgenstein, Aristóteles e Nietzsche. Sim, a fina-flor da filosofia ocidental. E mais: ética, moral, paradoxos, sofisma e virtude são explorados em 14 textos divertidíssimos, mas todos eles levados a sério. E mais: o livro é dedicado a Bob Sacamano. Quem curte a sitcom sabe quem é. Organizado por William Irwin, professor de Filosofia da King’s College, na Pensilvânia, o livro é um achado. É para ser lido devagar, porque faz o leitor lembrar-se de cada situação mencionada. Quem curte ver a filosofia falar sobre o nada vai apreciar. Eu, por exemplo.

Após o voluntário fechamento das portas, Jerry Seinfeld envolveu-se em outros projetos — a animação Bee Movie e o ótimo Comedians in Cars Getting Coffee, sobre o qual já escrevi. AQUI, caso haja interesse. Resolveu também biografar-se em Será que isso presta?: à sua maneira, por meio dos textos para stand-up comedy, de 1975 até meados da segunda década do século XXI. Percebe-se, na leitura, a evolução do comediante, seja em textos curtos ou naqueles que, no máximos, gastam duas páginas. A ideia continua a mesma: o nada, o cotidiano, os costumes. E, claro, o humor. Vai gargalhar? Não creio, mas o livro vai divertir e provocar uma certa nostalgia nos órfãos de Seinfeld. Eu, por exemplo. 

p.s. Escrevi sobre Larry David e a maldição de Seinfeld. AQUI, caso se interesse.

Pantoja, Stern: o melhor do Santa Jazz

Não sei se você — que agora lê — foi ao Santa Jazz, o festival de jazz de Santa Teresa, cidade da região serrana  do ES. Se foi, presenciou apresentações de excelência, música de altíssimo calibre, som de primeira. Se não foi, perdeu a oportunidade de assistir a shows inesquecíveis. Veja só: eu não fui, porque estava dentro de um estúdio comentando os shows, como se isso fosse privilégio absoluto. Não é. Privilégio absoluto é ver e ouvir ao vivo, e não numa moldura de plasma com definição de primeiro mundo. Enfim, mesmo assim, pude ouvir e ver o que o festival proporcionava de melhor.

E o que houve de melhor? Tendo em vista que o termo melhor é superlativo de bom, afirmo que todos os shows tiveram qualidade inequívoca — dois, contudo, foram melhores. Os dois foram apresentados ao público em noites distintas: Rique Pantoja e seu quarteto, e Mike Stern, o guitarrista a quem Miles Davis chamada de gênio. E devia ter razão. Vi Pantoja pela prima vez em 1985, no Free Jazz, homenageando, em companhia de  o enormíssimo maestro Moacir Santos. Stern eu ouvi quando comprei, em meados dos anos 1980, o disco duplo We Want Miles. Dois momentos em que o jazz entrou em minha vida e de lá não sai nem que me façam beber ácido.

Rique Pantoja é sensacional: pianista de primeira linha, fez-se acompanhar de um escrete: Danilo Sinna, no saxofone (alto e soprano); Felipe Alves, na bateria, e Rubem Farias, no contrabaixo. Um show cheio de pontos altíssimos em que o jazz e a bossa se fundiram, criando uma atmosfera rítmica e harmônica de causar inveja a qualquer jazzista tarimbado. Pantoja já era craque quando, em companhia do grande baterista Paschoal Meireles, do saxofonista Mauro Senise e do baixista Artur Maia, deram vida a uma das formações do Cama de Gato, um grupo de música instrumental que, nos anos 1980 e 1990, encheu muitos corações de alegria. Pantoja, a meu ver, era o pulmão do quarteto. Bem, muita gente diz que essa a função de um pianista. AQUI você assiste ao show dele no Santa Jazz.

Mike Stern é uma figura. Divertido, simpático, fã de música brasileira, genial nas cordas da guitarra. Miles Davis tinha razão — embora eu não tenha a dimensão do gênio. Nem na minha área sei o que vem a ser isso, mas desconfio de que ele e Rique Pantoja estejam nessa categoria. Acompanhado dos músicos Bob Franceschini, no sax; Rubem Farias, no contrabaixo, e do extraordinário baterista Dennis Chambers, Mike Stern fez um show inesquecível, vigoroso sem ser enfadonho; preciso sem ser burocrático. E ainda se faz acompanhar da esposa alemã, Leni Stern. Uma beleza, que você pode ouvir AQUI, (de 3:15:48 a 4:16:11). Sinceramente? Se eu fosse você, ouvia tudo.

Pois é: alguém disse que escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura — mas está valendo. A propósito: eu apareço fazendo comentários sobre as performances. Você pode pular, se quiser.

Vida Boêmia: Lush Life, o filme

Filmes sobre jazz geralmente satisfazem tanto o espectador comum quanto o aficcionado por música — mais ainda, claro, aquele que considera o jazz um ritmo essencial, o que é meu caso. Bird, de Clint Eastwood, e ‘Round Midnight, de Bertrand Tavernier, são filmes que versam sobre artistas autodestrutivos que, sem a música, teriam pulado da ponte mais cedo, sem que o mundo tomasse deles pleno conhecimento. As vidas conturbadas de Charlie Parker e Bud Powell, respectivamente reproduzidas nos filmes citados, oscilaram entre a genialidade absoluta e o desespero existencial, o que sobrecarregou as películas de uma dramaticidade angustiante.

Não é o caso de Vida Boêmia, de Michael Elias, um diretor tão apaixonado por jazz quanto Eastwood. Seu filme (originalmente feito para a tevê) também não é impactante do ponto de vista estrutural, mas a história não desagrada ao espectador mais exigente, que se vê diante de uma dupla de músicos — um saxofonista e um trompetista — que têm amor ao jazz na mesma proporção que amam viver. Ironicamente, um deles está condenado à morte por conta de um tumor cerebral. O outro, para celebrar-lhe a vida que resta, resolve fazer uma grande festa em que todos os músicos de jazz de NY comparecem — todos, sem exceção, o que causa um enorme problema para os night clubs da cidade.

Forrest Withaker — que já havia encarnado Parker no filme Bird cinco anos antes — interpreta o trompetista por cuja porta a morte quer entrar, mas ele se recusa a atender, de imediato. Antes, quer o jazz, e quer executá-lo tendo em mãos um trompete que pertencera a Clifford Brown, comprado numa loja de penhores por 2.500 dólares por um talentoso garoto aspirante a músico. Assim é o jazz: quem faz leva-o a consequências últimas. E por falar em amor a ele, uma outra história — periférica — é retratada na película: a dificuldade de se relacionar com um artista. A mulher do canastra Jeff Goldblum (o saxofonista garanhão) é uma professora que quer ter uma vida normal ao lado do marido, quer desvencilhar-se da lush life que o companheiro leva. Não é possível. Assim é o jazz.

A propósito: revi esse filme anteontem, na tevê. Busquei na internet o devedê ou o blu-ray que, acredito, não foram lançado por aqui, mas aí vai, ao lado, seu rosto. E o link, no Youtube, com legendas en español. A propósito 2: John Coltrane lançou, em 1957 — dez anos antes de morrer —, o álbum Lush Life, hard bop da melhor qualidade com um time grandioso de músicos: Don Byrd (trompete), Red Garland (piano), Earl May (baixo), Paul Chambers (baixo), Albert Heath (bateria), Art Taylor (bateria) e Louis Hayes (bateria). Não, não estão tocando todos juntos, como na tal festa do filme. O tema Lush Life foi composto por Billy Strayhorn e já foi interpretado por uma multidão de músicos. Clique AQUI para ouvi-la pelos dedos do extraordinário pianista Phineas Newborn.

Maldição, Seinfeld, Larry David

Dizia-se que a Maldição de Seinfeld era implacável, até que Julia Louis-Dreyfus estrelou Veep e foi um sucesso absoluto. Se você não faz ideia do que estou falando, aí vai: Seinfeld foi um fenômeno da TV: uma sitcom que revolucionou a linguagem do humor, apresentou quatro personagens inesquecíveis que, por serem inesquecíveis, caíram na armadilha da personagem única. Ou seja: os atores não conseguiam encarnar outras personagens porque estavam inexoravelmente presos àquelas que fizeram deles figuras icônicas. Durante alguns anos amargaram ora fracassos, ora tentativas frustradas de ir adiante. Como eu disse, Julia Louis-Dreyfus quebrou a corrente.

A sitcom baixou as cortinas no apogeu. Conta-se que Jerry Seinfeld recusou uma proposta de 110 milhões de dólares para continuar o trabalho. Fez bem. Não quis experimentar a decadência — que significa perder a audiência e ser lembrado justamente pela última impressão. Estão todos milionários. Julia um pouco mais, já que é herdeira de Gérard Louis-Dreyfus, o bilionário francês do setor de energia. E ficou mais rica ainda ao protagonizar o ótimo Veep, em que interpreta a vice-presidente dos EUA. Jerry Seinfeld, o chefão, saiu interpretando a si mesmo em várias oportunidades, fez animação e criou um ótimo esquete sobre carros, café e humoristas: AQUI.

Seinfeld (TV Series 1989–1998) - IMDb

Jason Alexander e Michael Richards tiveram também sua parte na maldição. Jason acabou fazendo aparições especiais – e provavelmente se divertindo nisso — em filmes, séries e comerciais de tevê, mas não emplacou um grande sucesso. Richards experimentou a fúria justificada da opinião pública ao mostrar que, a depender do estímulo, muita gente se mostra racista. Deu-se mal, mas continua na memória coletiva como o alucinado Cosmo Kramer, detentor do título de melhor personagem de sitcom já criado.

Reapareceram, os 4, em Curb Your Enthusiasm — ou Segura a Onda, no Brasil —, escrito e estrelado pelo co-autor de Seinfeld, Larry David. Consta que a personagem George Costanza baseia-se nele, Larry. Segura a Onda é bom, cheio de referências a Seinfeld e a seus personagens. Larry David é um tanto previsível em sua escrotidão, chatice e intolerância. Judeu, debocha dos seus; calvo, debocha deles também. É inteligente, milionário e faz o papel de si mesmo. A série fica melhor ainda quando entram em ação outros comediantes, como Richard Lewis, Jeff Garlin, J. B. Smoove, Bob Einstein e a ótima Susie Essman. Vira festa — e sem maldições.

Curb Your Enthusiasm' Season 12 Review: Old Reliable and Never Better | Arts | The Harvard Crimson

Gianfrancesco aos 110

Revi, faz alguns dias, pela tevê, ao ótimo Eles não usam black-tie, filme de Leon Hirzman. Temática sócio-política de primeira, com interpretações inesquecíveis de Fernanda Montenegro, Carlos Alberto Riccelli e do autor da peça em que o filme se baseou — o italiano de sangue e brasileiro por opção Gianfrancesco Guarnieri. Aliás, escrevo este texto porque hoje, dia 6 de agosto, o citado ítalo-brasileiro faria 110 anos. Filho de pais músicos, dedicou-se ao teatro e à literatura — tornando-se um dramaturgo que sabia fazer a ação (ou drama) e as palavras funcionarem bem.

Não assisti à peça, que, até onde se sabe, foi o que tirou o grupo Teatro de Arena da forca. Sucesso estrondoso quando lançada, em 1958 — antes da euforia da vitória na Copa do Mundo de futebol, na Suécia —, a peça fez grana suficiente para manter o grupo em atividade, e aproveitou para estabelecer novas diretrizes para o teatro brasileiro, do qual Gianfrancesco Guarnieri foi figura fundamental. Sinceramente? Para mim, no teatro brasileiro do século XX existem três grandes figuras: Nelson Rodrigues, Augusto Boal e este de quem vos falo. Um ou dois de meus sete leitores dirá: E Fernanda Montenegro, Sérgio Britto, Paulo Autran, José Celso, Oswald de Andrade, Ariano Suassuna?

Guarnieri veio da Itália e fez história nas artes cênicas

Sintam-se à vontade para criar sua própria lista. Pois bem, voltemos a Gianfrancesco e ao texto Eles não usam black-tie, que gira em torno da relação entre operários e patronato, e cuja consequência inevitável é uma greve. Ao mesmo tempo, a relação pai e filho vai pela mesma via de confronto, já que o pai — na peça interpretada pelo russo Eugênio Kusnet, e no filme, por Guarnieri — entra em rota de colisão com o filho fura-greve (na peça, interpretado por Guarnieri; no filme, por Carlos Alberto Riccelli). O filho, Tião, criado num ambiente distante da periferia, é um desajustado que aspira à ascensão social. O pai, Otávio, crê na força operária e na necessidade de lutar por melhores salários e melhores condições de trabalho.

O amor, entretanto, é o sentimento base do texto. Amor do pai pelo filho; do filho pela noiva; da mãe por todos. É a ideia comunitária que une a todos e faz com que todos se amem mutuamente, na comunidade. É um texto extraordinariamente bem escrito — e a primeira peça escrita por esse autor não menos extraordinário. Guarnieri continuou a escrever para teatro: Gimba, A Semente, O filho do Cão; sua produção pós-1964 é essencial para quem quer compreender o Brasil da repressão. Só que Arena Conta Zumbi e Arena Conta Tiradentes ficam para depois.

3 loiras e o afrodisíaco perverso

O diretor norte-americano Jay Roach ganhou dinheiro fazendo comédias que agradaram adolescentes e adultos. Exemplos? Os três filmes da série Austin Powers e aqueles em que o genro Ben Stiller é obrigado a enfrentar o sogro Robert De Niro. São bons para rir, mesmo abusando do pastelão em alguns momentos. Jay Roach fez, também, filmes que adultos podem consumir sem medo de não se divertir: o ótimo Trumbo, de 2015, e O Escândalo, de 2019. É justamente nesse último que aparecem as 3 loiras do título.

Bombshell (2019) - IMDb

As três belezuras acima são as peças centrais de Bombshell, que significa, em termos gerais, bombástica. No Brasil, O Escândalo. Bombshell também foi um termo criado por Hollywood para definir mulher muito atraente – e geralmente loira. Da esquerda para a direita: Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie. É claro que você conhece as três. Assim como conhece o tema da película: o assédio sexual que, ao fim e ao cabo, tem a ver com poder. É obra biográfica, quase documental, já que é baseadíssima num fato ocorrido.

O macho opressor, em questão, é Roger Alies, CEO da Fox News, interpretado pelo sempre ótimo John Lithgow. É o canalha que usa o poder para abusar das mulheres, objetificando-as independentemente de serem ou não competentes, de manterem a audiência e de trabalharem mais do que deviam. O cinema precisa disto: tocar numa ferida que, mesmo exposta, em muitos casos torna-se invisível porque, também em muitas situações, o trabalho feminino não é observado. Intoxicadas, as mulheres reagem, e a reação, claro, gera uma boa grana. Mais do que merecidíssima.

Atores de O Escândalo: elenco completo do filme

Hollywood já havia experimentado o assédio inverso. Muita gente se lembra dos maus bocados que Michael Douglas passou nas mãos de Demi Moore, em Assédio Sexual, filme de Barry Levinson, feito há 30 anos. Jay Roach optou por contar uma história sobre o poder na mídia, principalmente na tevê, ambiente que seduz os americanos. O exercício do poder pode ser perverso e corrompido – mas há um preço para isso, embora nem sempre seja pago. O recém-falecido secretário de estado norte-americano Henry Kissinger dizia que o poder era o afrodisíaco definitivo. Talvez tenha razão, mas esse filme – ainda bem! – o contradiz.

Beleza, mercado, Sabrina Sato*

Sou fã da sitcom Seinfeld, extinta em 1999, e reprisada em veículo streamin’. Tão fã que possuo os devedês com as temporadas completas, sem pôr nem tirar. Num dos episódios, revisitado para que esta crônica ganhasse vida, o personagem central envolve-se com uma mulher cuja beleza permite que todas as regras sejam burladas. Por exemplo, ao ser multado por excesso de velocidade, o protagonista Jerry, após desdenhar do vigilante rodoviário que o repreende, sugere que a bela namorada vá pedir a ele que cancele a multa – e é prontamente atendida. Por ser bonita, ela consegue lugares em restaurantes concorridos e ingressos em cinemas cuja lotação está esgotada. Tudo se torna possível para ela. A beleza, mais que um cartão de visitas, é uma gazua que viola todas as fechaduras.

As 10 melhores namoradas de Seinfeld na série (que não são Elaine)

Dia desses comentei com alguns amigos sobre as bond girls, aquelas deliciosas coadjuvantes de filmes de James Bond. Citei Barbara Bach e Ursula Andress como minhas preferidas. Ambas belíssimas, embora a suíça Andress não possua, no quesito beleza, rivais à altura. Um de meus amigos, um eficientíssimo professor de Matemática, desconhecendo-as por inteiro, ousou afirmar que, hoje, por estarem envelhecidas, a beleza desfez-se a ponto de apagar, também, a memória daqueles que as admiravam. Nesse ponto ele errou, mas acertou no vaticínio: a beleza ajusta-se, com certa obviedade, à juventude. Não à toa os emplastros antirrugas e as cirurgias plásticas estejam na ordem do dia, trazendo felicidade – mesmo que momentânea – a sofridas senhoras cinquentonas.

E por falar em tevê – e em beleza –, assisti, num canal fechado, ao documentário About Face: Supermodelos Antes e Agora, que trata de um assunto no mínimo curioso: o que é feito de uma modelo quando ela envelhece e a mercadoria que ela comercializa vai desvalorizando até que o mercado – inclemente em suas leis – transforma-a em inutilidade? Algumas delas, segundo se narra no documentário, encontraram refúgio no cinema ou se tornaram mulheres de negócios, mas guardam, ao menos aparentemente, a melancolia de um tempo presente no qual são consideradas produtos secundários dispostos em prateleiras pouco visitadas.

Sabrina Sato aparece com biquíni fio-dental em balançoÉ claro que esse assunto pode ser estendido à mulher comum – e, nesses tempos atualíssimos, ao homem também. A beleza, essa commodity que cria a própria urgência em seu comércio, é uma senhora tão tirana quanto traiçoeira, e sem qualquer vestígio de compaixão. É uma Lucrecia Borgia, uma Ilse Koch. Dia desses, folheando despreocupadamente uma revista de variedades, dessas que habitam consultórios dentários, li que a bela comediante Sabrina Sato prefere ser chamada de burra a ser chamada de gorda.

Não é de se estranhar: a inteligência, algo descartável quando comparada à beleza, não é tão fundamental. Ao menos num país – ou estaria todo o mundo envolvido nessa aceitável perversão? – que rotula os feios, gordos, banguelas, calvos e baixotes de amaldiçoados e condenam ao Tártaro os mal vestidos, os cafonas, os démodés. Não há Paraíso para quem não possa olhar-se no espelho e admirar a si mesmo, para quem não possa orgulhar-se dos bíceps, dos lábios, dos olhos claros, do porte atlético, do traseiro torneado, das coxas malhadas. Talvez eu esteja exagerando, afinal há um grupo – não muito populoso – que ainda privilegia o que se diz e o que se pensa, mas qual sua função e sua serventia?

Enfim, há quem diga que a beleza tem caráter subjetivo – e que, por isso, não pode ser enquadrada em parâmetros ou rotulada como um produto. Quase todos discordam disso – incluindo eu e meu amigo matemático, citado lá no primeiro parágrafo. Segundo ele, um racional discípulo da simetria, a beleza pode ser equacionada. Afirmou que Sabrina Sato é tão valiosa quanto um teorema, e quase tão sedutora quanto o Binômio de Newton.

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*Crônica incluída Doxa – volume 2, em breve nas livrarias.