João Ubaldo, aos 83

Talvez eu esteja exagerando, mas o romance brasileiro do século XX chegou a seu apogeu com dois autores: João Guimarães Rosa e Nelson Rodrigues. O primeiro aperfeiçoou o regionalismo, saindo do NE e rumando para o sertão mineiro, levando a linguagem – que é a matéria-prima da literatura – a consequências últimas. O outro não tem rivais quando os temas são a perversão humana, a vilania, o pecado, a hipocrisia e o sexo. São dois mestres inquestionáveis, a meu ver. E depois deles? Quem é o grande romancista brasileiro? Quem conseguiu a façanha de manter-se sempre no auge, enquanto escreveu?

O escritor João Ubaldo Ribeiro Foto: Leo Aversa

Eu escolho João Ubaldo Ribeiro. Ok, você dirá: ele é muito mais cronista que romancista. O citado Nelson Rodrigues também – mas o que é um romance senão um emaranhado de pequenas narrativas que, juntas, caracterizam uma longa história? Se duvida, leia, ao menos, dois de seus livros: Viva o povo brasileiro e O Sorriso do Lagarto. E olhe que estou deixando de lado a obra-prima Sargento Getúlio que, na verdade, mereceria uma postagem só para ela. A Casa dos budas ditosos é ótimo, mas não tem o vigor literário dos 3 citados neste parágrafo.

VIVA O POVO BRASILEIRO, POR JOÃO UBALDO RIBEIRO, EDITORPermitam-me a metonímia: ler João Ubaldo Ribeiro é usufruir daqueles prazeres que somente a boa literatura vira-página é capaz de proporcionar. Texto fluido, é quase uma maré que tem suas mansidões e seus destemperos, mas ainda assim oceânica, grandiosa. Em Viva o povo brasileiro, 330 anos de formação de um país que foge à história oficial – contada pelos dominantes -, e indo em busca do olhar anônimo, do homem comum (do brasileiro popular). Há humor, há seriedade, há tragédia, há intertextualidade. Sob a bênção de Jorge Amado, seu padrinho literário, o escritor criou o romance definitivo de um país de poucos grandes romancistas.

Livro: O Sorriso do Lagarto - João Ubaldo Ribeiro | Estante VirtualO Sorriso do Lagarto (que já foi filmado para a tevê) traz a mesma ligeireza narrativa, de vocábulos exatos, bem colocados para criar uma história em que sexo, ciência, humor e política misturam-se de forma a expor o que realmente somos: finitos, fúteis e ignorantes mesmo que nos camuflemos como cidadãos honestos e de boas intenções. Há triângulo amoroso, há cientista despudorado, há político canalha e há, claro, a figura feminina ambígua e perigosa. Elementos que, bem temperados por uma boa história, fazem do livro uma obra-prima.

Escolhi escrever sobre João Ubaldo Ribeiro porque hoje, 23/1, ele faria 83 anos, caso estivesse vivo. E não está?, alguém pode perguntar.

Filmes (re)vistos #7: Operação Dragão, 1973

Não se surpreenda: sou fã de Bruce Lee! Aliás, pouca gente de minha geração, que gosta de filmes de aventura, não o aprecia. Bruce Lee é o maior artista marcial que existiu e um dos três maiores bailarinos do cinema. Perde para Gene Kelly e para Fred Astaire – mas quem, neste mundo, não perde? Revi Operação Dragão semana passada, num canal fechado, e as lembranças de quando assisti ao filme pela primeira vez, no final dos anos 1970, encheram-me mais uma vez os olhos. É uma história bem contada – diferentemente da maioria dos filmes de artes marciais da época. Aliás, de qualquer época.

Estrelado por Bruce Lee, "Operação Dragão" vai ganhar reboot

Bruce é sensacional. Pula, voa (ou quase), estapeia, chuta, soca. Sem contar os uivos bem próprios dele, ao bater na malandragem. Não era grande coisa como ator, e nem precisava. O público – eu me incluo! – não estava ali para avaliar suas aptidões dramáticas, mas para vê-lo em ação em cenas coreografadas pelo próprio. Vê-lo lutar é como estar diante de um Nureyev oriental, descendo o malho em quem se opusesse a ele. E à justiça, claro, porque o herói está sempre do lado bom.

Operação Dragão é obra-prima do gênero. A história? Um grande campeonato de artes marciais, do outro lado do mundo, é o vetor para tráfico internacional de drogas. A personagem de Bruce vai até lá, bate em todo o mundo, mata o chefão e, evidentemente, desmonta o esquema. Está a serviço do governo paladino do mundo: o norte-americano. Bem, a película foi financiada pela Warner, que embutiu na história um de seus contratados: o sempre cínico John Saxon, bom de porrada também.

Jim Kelly acting alongside John Saxon discussing a lethal tournament held  on the deadly Han Islan | Enter the dragon, Jim kelly, Bruce lee

Não se pode esquecer de Jim Kelly, astro da Blaxploitation que, com a cabeleira black-power, dá um show particular. Ele e Saxon fazem uma grana extra apostando em si mesmos, nos confrontos com suas vítimas. É a parte bem humorada do filme – que, sinceramente, se você gosta de filmes de aventuras, com pancadaria estilizada, não deixe de assistir. Clássico do início ao fim.

AQUI, a sequência clássica do filme: “Tábuas não revidam!”

 

 

Mulheres #9: Sônia Braga

Eu tenho 60 anos, de modo que o programa Vila Sésamo, que estreou em 1972, pegou-me já interessado em jogar futebol com os amigos e ir à escola – para jogar futebol também. Lembro-me, entretanto, de assistir a alguns episódios, e a imagem luminosa de Sônia Braga – que ainda não habitava meus assuntos – era eclipsada por uma ave gigante e desengonçada chamada Garibaldo. Um tempo depois, em 1975, já com 13 anos, Vi Sônia em Gabriela – e aí eu já a via com outros olhos. Abaixo, como Ana Maria, da citada vila:

Bem melhor como Gabriela, a sensual criatura de Jorge Amado. Não me recordo de, em telenovelas, nenhuma outra personagem feminina que tenha chacoalhado a libido da juventude com tanta potência. Pele, cabelos, sorriso, anatomia – tudo isso aliado à ideia de uma ingenuidade regionalista que, confundida com ignorância e submissão, expressa a exploração sexual de uma mulher. À parte análises mais complexas, observa-se a beleza de Sônia Braga, no esplendor dos seus 25 anos. Bem, há Dona Flor também, não é, seu Jorge?

Sônia Braga

E quem há de esquecer Solange, a esposa aventureira de A Dama do Lotação? Ou a prostituta Maria, de Eu te Amo? Ou ainda a virginal Marcina, da telenovela Saramandaia, que, excitada sexualmente, pegava fogo. Não, não é metáfora. Pegava fogo mesmo, e provocava queimaduras no sortudo que estivesse por perto.

Em 1984 Sônia Braga foi o combustível de que a Playboy precisava para decolar. Já havia aparecido na revista 6 anos antes, num suplemento especial que, infelizmente, não conheço. Mas posso imaginar. As fotos abaixo, da edição de quase 40 anos atrás, mostram a beleza mestiça de uma mulher que se tornou símbolo de uma época.

Sônia Braga - Gatas Peladas - Mulheres Gatas Peladas e Nuas

Sonia Braga Nude Fakes | SexiezPix Web Porn

Sônia foi clicada por Antônio Guerreiro, fotógrafo com quem esteve casada por 9 anos. Em breve, uma postagem sobre as fotografias deste que soube viver bem: entre mulheres bonitas, fotografando-as, privando com elas. Mas isso é papo para outra oportunidade. Fique com o clique do ex-marido:

Sônia Braga envelheceu da melhor maneira: mantém o sorriso refulgente, o olhar luminoso, que parece expressar a sabedoria acumulada. Num país em que mulheres se recusam a envelhecer – nenhuma censura nisso! -, ela assumiu os cabelos brancos, as rugas, o tempo que passou. Continua bela, como antes – e como sempre.

Sônia Braga vê sociedade carente de empatia na pandemia: 'O mundo está  louco'

Basquetebol & encontrões

Trailer mostra Adam Sandler em drama esportivo - Pipoca ModernaFilmes sobre esporte são especialidade dos americanos. Ninguém faz como eles, principalmente quando eles mostram a si mesmos como figuras heroicas cujos esforços desembocam na fama, no sucesso e, claro, naquilo que eles mais prezam: a grana. Assisti a Arremessando Alto, filme da Netflix em que Adam Sandler brilha como um olheiro de basquete que odeia futebol. O futebol inventando pelos ingleses e praticado em toda a superfície terrestre, aquele que eles chamam de soccer.

Não chega a ser um grande filme, já que há certa previsibilidade no desfecho, mas vale pelas cenas em que o esporte mostra-se tão vibrante quanto as vidas dos personagens que a ele se dedicam. É um espetáculo visual: voos, enterradas, jumps, passes, acrobacias, competição. Sim, sim: há um vilão no filme, em contraposição ao herói judeu Sandler. O embate entre eles se dá por meio da contratação – ou não – de um espetacular jogador espanhol de basquete de rua, descoberto por nosso herói. Nosso, não, deles. E do Philadelphia 76ers, o orgulho da Pensilvânia.

HUSTLE (2022) Movie Trailer 2: Down-on-his-luck Basketball Scout Adam Sandler Discovers a Star in Jeremiah Zagar's Film | FilmBook

Se você aprecia o esporte, se gosta de basquetebol – como eu, que joguei, mas sem muitas pretensões -, e assina Netflix, não deixe de ver. Adam Sandler não consegue (ainda bem!) destituir-se por completo da aura humorística que o tornou famoso, mas bem que tentou. Está bem no papel de olheiro humilhado por um chefão babaca-filhote-de-papai. O craque espanhol não é ator – é jogador profissional. Joga no Utah jazz e seu nome é Juancho Hernangómez. Sim, se você acompanha basquete, deve se lembrar dele jogando no Denver Nuggets.

Muitas informações sobre os bastidores do basquete são veiculadas de forma direta, sem qualquer maquiagem. Vários astros da NBA (jogadores e técnicos) aparecem no filme, interpretando a si mesmos. É uma festa, patrocinada pelos produtores Adam Sandler e LeBron James. Se você nunca ouviu falar neste último, certamente não gosta de bola ao cesto. A propósito: o título, em inglês, é Hustle – algo como choque, encontrão. Mas pode designar também alguém que seja obstinado. Bem, o resto você verá, se quiser.

Filmes (re)vistos #6: Os 12 Macacos, 1996

Os 12 Macacos - Filme 1995 - AdoroCinemaComeço dizendo que Brad Pitt é um ladrão. Depois justifico. Em segundo lugar: Terry Gillian, o diretor, fez fama no grupo inglês de humor Monty Python, é um ator meio sem graça, mas, como diretor, é competente e, por vezes, genial. Assista a Brazil O Filme e depois conversamos. Bruce Willis e a inacreditavelmente bonita Madeleine Stowe estrelam a aventura futurista Os Doze Macacos, cheia de flash-backs e citações, com um pé nas maluquices cerebrais de Chris Marker, o cineasta francês autor de La Jetée (O Cais, em bom vernáculo) e outro pé nas maluquices do próprio Gillian. A propósito: Gillian não assistiu a La Jetée.

Zapeando a tevê, sem qualquer pretensão vespertina, peguei o comecinho, ainda nos créditos iniciais, de Os Doze Macacos. Um filme estranho, de narrativa séria com doses de humor ora refinado, ora escancarado como uma boca dentuça. Animei-me a rever, já que tinha assistido à película em VHS, numa época que, hoje, parece tão jurássica quanto os velhos lagartões de outrora. Bruce Willis, claro, é Bruce Willis, o homem que não se fragiliza, o herói ateniense, o paladino que enfrenta exércitos. Vai e volta no futuro como se isso fosse a coisa mais frugal que há.

O tema é atualíssimo: um vírus assola o planeta, modificando-o, eliminando os humanos – claro. O herói volta no tempo com o objetivo de entender como esse vírus atacou o planeta. No passado, ele, Willis, não passa de um maluco em quem a personagem de Madeleine Stowe, médica e pesquisadora, acredita. E a crença dela dá motor ao filme. No hospício, Willis contracena com Brad Pitt, que rouba a cena todas as vezes em que aparece – daí ser o ladrão mencionado na primeira frase desta postagem. A propósito, Madeleine Stowe é esse belezura aí, mais luminosa do que nunca:

Tudo bem: o papel de Pitt – um maluco de queimar dinheiro – proporciona atuações capazes de atrair toda a atenção, de magnetizar o público. Está brilhante, entretanto. Bruce Willis, sempre fazendo o papel de si mesmo, contracena bem. Tem o olhar vago dos viajantes no tempo, pasmos com o que os seres humanos fizeram ao lar de todos os seres vivos. Se você espera um final edificante, daqueles em que a indulgência dá lugar ao apocalipse, esqueça. Esqueça também se espera o apocalipse.

Se estiver zapeando – pode ser nesse próximo feriado -, e diante de você esse filme de o ar da graça, não vá ao próximo canal. Além de `Pitt, Willis e Stowe, há a chance sempre benéfica de ver Christopher Plummer em ação. Não perca, se puder.

 

Quem se modifica?

Imagem de Cartaz de Filmes (Movie Posters) por Ferreira | Cartazes ...Assisti há pouco, na tevê fechada, a uma entrevista com Woody Allen na qual ele afirma – dentre outros assuntos – que assistiu ao filme 2001 Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, 3 vezes, até gostar dele. Faço cá uma conta: considerando que Mr. Allen nasceu em 1935, e considerando ainda mais que ele assistiu à famosa película assim que foi lançada, em 1968, é possível dizer que o cineasta novaiorquino já era um homem maduro quando afirmou que a referida obra-prima da ficção-científica não caiu em suas graças. Woody Allen tinha, na ocasião, 33 anos e já havia escrito duas peças teatrais e um filme bem interessante, a comédia O que há, Tigresa?, sem contar os oito anos como comedienne.

Aonde quero chegar? Sempre digo a meus alunos que a Arte com A maiúsculo é aquela que, quanto mais amadurecemos intelectual e cronologicamente, mais somos capazes de perceber sua riqueza, de identificar elementos que, anteriormente, haviam-nos passado despercebidos. Ou seja: consumir uma sinfonia de Haydn aos 20 anos é diferente de consumi-la aos 40, desde que o ouvinte, claro, esteja disposto, nessa lacuna de 240 meses, a evoluir intelectualmente. Pode-se dizer, evidentemente, que a obra de Arte modificou-se – ao menos para esse consumidor. Bonito, não?

E quando acontece o contrário? O consumidor evolui e a obra de arte continua a mesma? Por exemplo: aos 17 anos é possível admirar, com todo aquele fervor adolescente, um determinado artista e sua produção, e alguns anos mais tarde, por conta do inevitável amadurecimento, perceber que esse artista continua a produzir conteúdo dirigido a indivíduos entre 12 e 17 anos. Não chega a ser um pecado, afinal pode ser essa a proposta desse artista. Mas qual será a decepção desse consumidor que espera evolução também por parte do ídolo a quem tanto admirava!

Capital Inicial apresenta novo álbum em Vitória

Só para ilustrar: dia desses encontrei um ex-aluno de quem fui professor no primeiro ano da década de 1990. Hoje tem 45, 46 anos, por aí. Num bate-papo amigável, ele trouxe à memória algo que vaticinei, quando ele, à época, dizia-se imenso fã da simpática banda pop Capital Inicial. Segundo ele, eu afirmei que, quando ele chegasse aos 30, o vocalista Dinho Ouro Preto e cia. seriam apenas memória: ele se lembraria de algumas canções, mas elas já não seriam mais parte de sua vida. Perguntei a ele se meu vaticínio se confirmara. Ele disse – senti certo desapontamento em sua resposta – que sim. Pois é. Modificamo-nos, com o tempo. A obra de arte também, a depender de nossa interpretação.

Seinfeld, Café, Carros

Jerry Seinfeld é judeu — e como bom judeu, sabe fazer negócio. Calma: isso é elogio, porque, além de judeu, ele é norte-americano. Quer elogio maior para alguém que combina esses dois ingredientes? Como co-autor, co-produtor e ator da série que levava seu nome, e que foi sucesso durante 9 temporadas, ganhou quase 500 milhões de dólares, a ponto de recusar 1/5 desse montante para fazer a décima temporada. Sabe como acumular grana — e é bom lembrar que isso não é pecado, a não ser que haja ilicitude, imoralidade e violência no processo.

Mas o que quero dizer é que, após o sucesso mastodôntico da sitcom Seinfeld, o gênio acumulador da comédia voltou aos palcos de stand-up (onde começou a carreira), produziu um desenho animado divertido, chamado Bee Movie, e resolveu inovar via internet: desde 2013, está à frente de Comedians in Cars Getting Coffee, um esquete de poucos minutos nos quais o comediante convida (quase sempre) outro comediante para, claro, fazer-nos rir. E para rirem juntos, afinal também são filhos de Deus.

Um amigo assistiu — por minha insistência — e me disse não ter achado graça. Comentou, citando outros judeus norte-americanos, que Jerry Lewis, Mel Brooks e Gene Wilder eram muito mais engraçados. Talvez até sejam, mas qual deles teve ousadia similar a criar um programa de humor neste formato inusitado, usando carros e cafeterias como ambientes para a comédia? E mais: uma comédia composta por apenas três personagens que, em última análise, ali estão para divertir um ao outro (uma das personagens é, claro, o automóvel). Nós somos os sortudos espectadores dessa conversa.

Jerry Seinfeld ama os carros. Tem uma coleção de valor incalculável, na qual sobressaem seus 47 porsches. Não sei se gosta tanto de café, mas os fãs da sitcom devem se lembrar de que um dos cenários preferidos do grupo era uma cafeteria, onde as 4 personagens (ele, George, Kramer e Elaine) se encontravam para fazer o show sobre nada. As temporadas de Comedians in Cars Getting Coffee estão disponíveis na Netflix. A propósito: na ilustração abaixo, no interior de um Corvette Sting Ray 1963, a companhia do comediante não é exatamente um humorista, mas, pelo jeito, a piada deve ter sido boa.

Jerry Seinfeld Says Netflix's Comedians in Cars Getting Coffee ...

 

Roberto, Erasmo e O Bofe

Hoje é dia 19 de abril e o cantor e compositor Roberto Carlos faz 79 anos. Na estrada desde 1961, esse conhecidíssimo senhor já não tem a potência de antes, mas consegue disputar público com duplas sertanejas, padres cantores e funkeiros iletrados. Mantém inatacada a fidelidade de seu público, praticamente não faz shows e tem a seu dispor um grupo de músicos de primeiríssima linha. Não sou fã, mas respeito o trabalho do distinto. E, mesmo não sendo fã, tenho alguns discos em que o talento dele é posto à prova. E passa de ano, com louvor.

Como este blogue, todavia, não suporta os clichês, resolvi falar de um disco especial: a trilha sonora de O Bofe, que não apresenta a voz afinada de Roberto Carlos. Por quê? Porque todas as canções são interpretadas por outras cantores: Jaques Wu, Osmar Milito, Elza Soares, Os Vips, Nelson Motta e mais alguns menos votados. É um disco bem feito, suingado, há algo de soul nele, há algo de rock – tudo misturado, claro. Aquilo que os críticos chamam de música romântica, marca registrada de Roberto, não predomina. Ah, não consta da discografia da dupla Roberto/Erasmo. Isso faz dele ainda mais especial. Se quiser ouvir o disco, CLIQUE AQUI.

Em frente ao coqueiro verde

Não há canção ruim neste elepê, e não falo apenas de gosto pessoal. Letras bem armadas, irônicas, ligeiras, debochadas. Os arranjos? São simplesmente elaborados por Waltel Branco, que trabalhou com Tim Maia, Marcos Valle, Flora Purim, Rosa Passos. Acha pouco? Então lá vai: Chico Hamilton, Dizzy Gillespie, Henry Mancini, Sergio Mendes e João Gilberto, além de ser um dos responsáveis pela trilha de A Pantera Cor de Rosa. Está bom, não? E quem produziu o disco foi Eustáquio Sena, que ficou conhecido como produtor do mais importante – segundo a crítica especializada – disco de música brasileira: Acabou Chorare, dos Novos Baianos. Eustáquio canta a faixa Perdido no Mundo.

Ficheiro:O bofe - nacional.jpg – Wikipédia, a enciclopédia livre

Tenho pouca recordação da telenovela. Lembro-me de Ziembinski vestido de mulher e de Claudio Marzo barbudão. A trilha vim a conhecer uns quinze anos depois, quando, já mais amadurecido, deixei de falar que telenovela é alienação e que suas trilhas sonoras prestam-se unicamente a vender bobagens que vão povoar lares incultos. E passei também a reconhecer o talento de Roberto Carlos, antes relegado a cafona, ultrapassado, chato. Merece os parabéns, também pelo aniversário.

Mulheres #8: Audrey Hepburn

Quando Audrey Kathleen Hepburn-Ruston morreu, há exatamente 27 anos, num dia 20 de janeiro, fiquei sabendo que ela era belga. Sempre imaginei que fosse norte-americana, daquelas mocinhas do interior, que acabam numa cidade grande e em vez de serem engolidas por ela, dão um nó no cosmopolitismo decadente. Começou a vida como bailarina e assim se manteve até chegar ao teatro. Para o cinema, foi um pulo – e que pulo! Logo na estreia, aos 24 anos, levou a estatueta do Oscar para casa, por ter atuado em A Princesa e o Plebeu, contracenando com o astro Gregory Peck.

Dia desses li que Audrey Hepburn era geniosa, mandona e tratava mal quem a contradissesse. É possível, mas o que deixa transparecer é justamente o contrário. A imagem quebradiça, mesmo com 1 e 70 de altura, é acompanhada pela voz meiga e o olhar de quem se assusta facilmente, de quem acorda sobressaltada. Pode ser que tudo seja o contrário do que se afirme, afinal o que seria de Hollywood sem isso? Assisti a Sabrina outro dia. Engoliu Bogart, cantando La Vie en Rose, durante o passeio de carro. O filme é ótimo, clássico de Billy Wilder, o gênio do cinema que, dizem, babava por ela.

 

Quem se interessa por Audrey Hepburn deve estar questionando: e Bonequinha de Luxo, cujo título original é Breakfast at Tiffany’s? Bem, primeiramente a personagem não é bissexual, como no livro homônimo de Truman Capote, base da película. Provavelmente os católicos e judeus frequentadores de cinema, e formadores de opinião, não compreendessem bem a questão. Depois: o papel da personagem central, a prostituta Holly Golightly, era destinado a Marilyn Monroe, mas acabou na pele e nas mãos de uma morena com menos sex appeal, mas que sugeria – mais uma vez – exatamente o contrário.

Dizem que nunca existiu uma mulher como Gilda, eternizada pela belíssima Rita Hayworth (em breve, neste blogue). É possível, mas nessa lista de mulheres incomparáveis faz-se necessário incluir o nome de Audrey Hepburn. Sem ser voluptuosa e calipígia, tinha a anatomia das mulheres que acabam de desabrochar. Sem falar no olhar que sugeria proteção e arrebatamento, timidez e desejo. Dependendo da situação, tudo isso. Duvida? Assista a My Fair Lady e depois conversamos. É uma das melhores comédias musicais já produzidas. Se você não gosta do gênero, assista pelo menos por conta da atriz principal. Ela sempre foi um ótimo motivo de se ir ao cinema.

Audrey morreu durante o sono. Estava fraca por conta de um câncer raro que lhe devorou o abdômen. Morreu antes de completar 64 anos, acompanhada pelos filhos e pelos amigos, que sempre lhe foram fiéis. Nunca deixou de representar o que se tornou em vida e nas telas: um ícone de beleza e de talento. Para alguns críticos, foi a mais talentosa de todas as atrizes, pela versatilidade, pela presença em cena, e pelo amor que a câmera sentia por ela. Fica para sempre – e justamente por ficar, está neste blogue, retomando a série Mulheres, que já teve Marilyn Monroe, Ornella Muti, Nastassja Kinski, Raquel Welch, Ava Gardner, Romy Schneider, Monica Bellucci.

A próxima será a brasileira Sonia Braga.

 

Jesus, humor e pernas que regeneram

Assisti ao filme A Primeira Tentação de Cristo, do grupo humorístico Porta dos Fundos. Eu já havia assistido a Se beber, não Ceie, do mesmo time. Este último não é grande coisa: algumas das piadas são previsíveis (algo que é mortal para o gênero) e Fábio Porchat é bem chatinho – ao menos no papel de Jesus entupido de goró. NA Primeira Tentação… ele está ótimo, não somente como homossexual , mas principalmente como Satanás: o que, para muita gente, é a mesma coisa. Mas não é exatamente sobre o filme que quero falar, e sim sobre a reação de muitos religiosos sobre algo cujo objetivo é apenas fazer rir, penso eu.

Um amigo narrou-me o fato: numa de suas madrugadas, insone, deparou-se com um televangelista de chapéu de cowboy, que, calmamente, afirmava a seu público uma propriedade que até hoje não vi num mamífero. Ele dizia que, quando marinheiro, fora vítima de um naufrágio, e, à deriva, no mar, um tubarão havia-lhe devorado uma das pernas. Deus, em sua misericórdia, fez a perna crescer de novo. Ainda segundo meu amigo, o tal pastor falava e uma turba de fiéis dava-lhe atenção como se estivesse diante do Nazareno em pessoa. Indignei-me com este absurdo: o uso da fé sobre pessoas que lamentavelmente não têm instrução necessária para saber a diferença entre um homem e um anelídeo. O que fez meu amigo? Em vez de atirar pedras no pastor ou na sua igreja, mudou de canal. Mas, e se pudesse atirar?

A produtora do Porta dos Fundos foi vítima da violência e da intolerância: coquetéis molotov foram lançados contra seus aposentos. Muita gente se sentiu ofendida – e com razão, se se levar em conta que sentir-se ofendido é algo subjetivo. Cada um sabe como lidar com a própria fé, seja elevando-a ao patamar de prioridade, seja mantendo com ela uma relação, digamos, mais amena, com menos fervor. Sentir-se ofendido dá direito à forra? Em minha opinião, sim, mas não posso afirmar que a produtora do Porta dos Fundos tenha dirigido o média metragem a um determinado grupo, ou a uma pessoa específica. Por exemplo, ao pastor da perna regenerada. Duvido! De modo que o mais eficaz protesto contra o filme é não assistir a ele. Pode-se, por exemplo, cancelar a assinatura da Netflix. Alguns têm dito que o fizeram.

Há coisa pior na tevê do que fazer piada sobre a fé. Fazer uso dela para enganar o próximo – principalmente quando esse próximo é desprovido de senso crítico – é algo que, a mim, parece ser mais nocivo. A simonia, uma prática medieval que consiste em comercializar a fé, deve ser avaliada como algo atualíssimo, na ordem do dia. Há muito mais gente honesta que desonesta no meio religioso – disso não tenho dúvidas, mas como se portar diante de um líder religioso que consegue, por meio da fé, vender seus produtos e, após a venda, garantir ao comprador um cantinho no Paraíso?

De volta ao filme: minha pergunta é simples: por que um Jesus gay ofende tanto? Um Jesus fornicador, agiota, bandalho, corrupto, bêbado seria menos deletério? O problema não é o humor em si, não é a piada, mas a questão sexual: um Jesus gay ofende mais – ponto final. Sexualizar a Santidade é perigoso. E contra essa postura – perdoem-me o trocadilho – até os deuses lutam em vão. Ainda penso que o debate é necessário, não necessariamente para que se chegue a uma conclusão, mas para que se possa pensar criticamente num assunto que quase sempre está imune à dialética. Eu, católico, achei o filme engraçado, boas tiradas, diálogos ligeiros. Enfim, há gosto para tudo. Intolerância também.