Cacaso & meu xará: a poesia essencial

Cacaso & meu xará: a poesia essencial

Book coverNo início da década de 80, século passado, a Abril Cultural lançou uma coleção intitulada Literatura Comentada, que se propunha reunir os grandes nomes da produção literária brasileira — contemporâneos ou não — em edições cujos autores eram, também, pessoas ligadas às letras: professores e estudiosos, na maioria. Foi por meio dessas publicações que conheci, metonimicamente falando, os poetas Francisco Alvim e Cacaso, criadores de estilos distintos pertencentes a uma geração de jovens poetas que se tornaram referência da poesia jovem dos anos 1970. Aliás, esse era o título do volume de Literatura Comentada, que trazia também figuras como Ana Cristina César, Paulo Leminski, Chacal, Alice Ruiz e mais um bocado de poetas — além dos dois citados. A organização do volume ficou por conta de alguém tarimbadíssima na área: Heloísa Buarque de Holanda.

Elefante, volume de pouco mais de 140 páginas, foi publicado há 25 anos. Afeito aos minimalismos da palavras, Francisco Alvim é um herdeiro do epigrama (por aqui chamado poema-minuto, tão caro a Oswald no início do Modernismo). Há de tudo, ao menos um pouco: quotidiano, sensualidade, política, medo, esperanças perdidas e reencontradas, amor — e por aí vai. A linguagem? Da secura ao lirismo fingido, usando as palavras economicamente. Alguns poemas têm apenas um verso. Outros, apenas uma palavra.

Há algo de Dalton Trevisan, em Tetéia: “Quem te deu esse brinquinho?/Comprei lá na feira do Gaminha.” Embora não seja leitura fácil, assimilada de imediato, vale conhecer o universo do meu xará. E Cacaso? É outro caso à parte nessa nova poesia de 50 anos. Suas œuvres complètes são absolutamente essenciais a quem gosta de poesia. Cacaso é o Baudelaire brasileiro pós-moderno, é um mestre da ironia, ingrediente fundamental de um texto sem propósito definido. Aliás, para que definir?

Aí vai Salário Máximo: “De noite sou amante da empregada/De dia sou patrão da amante”. Poemas curtos, poemas longos, poemas sem tamanho: letras de canções, homenagens, ritual cotidiano, iconoclastia, homenagens, metalinguagem, e muito mais. Ou seja: se não tudo, quase. E ainda a fortuna crítica, com as vozes de Roberto Schwarz, a citada Heloísa Buarque de Holanda e o aqui mencionado Francisco Alvim. O poema-minuto, instaurado naquela geração que precisava da velocidade da mensagem, está presente. Cacaso foi um herói literário de seu tempo, e que nos deixou esta pérola, tão atual, no poema intitulado Palavra do $enhor: “No princípio era a Verba.”

Valeu, Cacaso! Valeu, Xará!

 

 

 

Brendel e Levine concertando Ludwig

Brendel e Levine concertando Ludwig

O notável pianista Alfred Brendel deixou-nos há alguns meses. Foi, para muita gente, o maior intérprete das obras para piano de 3 grandes: Beethoven, Liszt e Schubert. Eu não sei dizer se é o maior — mas está entre os melhores que ouvi. James Levine é um californiano que mandou e desmandou em duas grandes companhias musicais: a Met Opera e a Sinfônica de Boston. São dois craques que, inseridos (cada um a seu modo, mas como convidados) na centenária Sinfônica de Chicago, fizeram história. Um dos resultados dessa história é um disco triplo da Philips, ilustrado ao lado.

Que fique claro: sobre o casamento Brendel-Beethoven, ao menos um fruto é fundamental: foi o pioneiro na gravação de todos os concertos do alemão para piano. Ninguém se aventurava, já que era empreitada que previa desgaste, muito trabalho e o tempo parecia andar lentamente. Sem contar que era necessária a presença de um maestro tão linha-dura quanto maleável, a depender da situação. James Levine era o cara certo. Quanto à Sinfônica de Chicago, bem, quase mil gravações e mais de 60 prêmios Grammy credenciam-na como adequada para acompanhar a dupla Brendel-Levine.

Alfred Brendel gravou os concertos para piano três vezes. Fez o mesmo com as sonatas. Era um apaixonado por Beethoven, a quem considerava o maior nome da música. E olhe que gravou Schubert, Schumann, Haydn, Mozart e Brahms. Deu colher de chá aos russos Balakirev, Stravinsky e a Mussorgsky — naquele ótimo cedê da One Music. Sinceramente? O que mais se aproxima, em qualidade, dos concertos de Beethoven é a caixa que a Decca lançou, há alguns anos, intitulada Piano Works. Sim, com a obra de Schubert. Claro que considero apenas o que conheço. É opinião para lá de limitada.

Há muito lirismo na interpretação de Alfred Brendel e na condução de James Levine — mas esse lirismo, segundo o próprio pianista, está na concepção de Beethoven. Ao pianista cabe expor as características da obra sem embutir muito sua subjetividade. Há muita seriedade também: alguns concertos trazem a marca grave do grande criador que era o velho Ludwig. Bem, alguém disse que escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura. Deixo para um possível leitor ouvir o que o trio Brendel-Beethoven-Levine tem a dizer. E esse leitor pode decidir se concorda ou não com Alfred. Eu, não.