Li e reli, nestes dias pré-Carnaval, para um absoluto deleite, alguns contos de Philip K. Dick, o volume 5 da Caixinha Preta, que contém, inclusive, a pequena obra-prima Nós Recordamos para você por atacado, que rendeu, há algumas décadas, o excelente longa de aventura O Vingador do Futuro. Entretenimento e ciência, numa linguagem compreensível a qualquer pessoa com um mínimo de senso. Imaginei-me tentando escrever ficção científica e, claro, concluo que tropeçaria num item fundamental: o referencial científico, o qual ignoro como um cego ignora as cores. Não se iludam os meus 6 ou 7 leitores: se algum dia vier à superfície algum texto – curto que seja –, de minha autoria, contendo elementos ficcionais e científicos, podem apostar: é plágio, e merecerei tanto o cárcere quanto o desprezo daqueles que, ao menos por enquanto, têm-me em conta. Estamos conversados.
Não sou íntimo do cientificismo, mas reconheço seu absoluto valor – incluindo aí sua capacidade de ilustrar a arte, de reforçá-la, de torná-la veículo para a comunicação e para a educação. Assisti, quase trinta anos após sua exibição de estreia no Brasil, a todos os episódios de Cosmos, o extraordinário documentário estrelado e coproduzido pelo astrofísico norte-americano Carl Sagan. É acachapante, para dizer o mínimo. Como tentar resumir quase 800 minutos de imagens e texto que transformam a inacessível – ao menos teoricamente – ciência em algo quotidiano? Repito: é difícil, pelo menos para mim. Carl Sagan fez um trabalho social. Mandou às favas a mística de que ciência é coisa para iniciados, cheia de códigos e vocabulários específicos que apenas físicos, astrônomos, biólogos e bioquímicos são capazes de compreender.

O que me impressionou no documentário foi sua assombrosa atemporalidade, principalmente no que diz respeito à relação homem/planeta, seja ela direcionada ao âmbito ecológico-ambiental, seja ela fincada na questão científica de que é preciso compreender o processo histórico para se chegar a conclusões que hoje facilitam a vida de todos. Embora todo o documentário seja uma apologia à informação, é interessante perceber que Carl Sagan não dedicou capítulos – um só que fosse – à inevitabilidade da internet. Talvez nem ele mesmo pudesse imaginar o que aconteceria dez anos depois. Está tudo lá: desde a história dos grandes homens que fizeram a ciência até as probabilidades quanto à inteligência extraterrestre; dos microrganismos até a mitologia hindu, da biblioteca de Alexandria aos limites da eternidade, passando por teorias e conceitos herméticos como quarta dimensão, anos-luz, velocidades inimagináveis, questões sobre espaço-tempo e diálogos entre cetáceos. Até o Google, muito antes de ser criado, está lá.
Falo por mim: a ciência seduz quando é bem traduzida, quando se torna comum (nunca banal), quando suas portas e janelas estão tão escancaradas que é possível vislumbrar o que há em seu interior. E qual o óbvio papel dos professores nessa empreitada? Penso que eles existem para tornar a ciência viável, para expor sua sedução e ajudar na sua compreensão. Não há por que distanciá-la do indivíduo ordinário – no bom sentido –, que não domina conceitos e, por triste consequência, ignora conteúdos essenciais. Essa é sua tarefa e – talvez – seu martírio. Quem, a não ser aqueles poucos, interessa-se pela compreensão de funcionamentos, ligações, movimentos, temperaturas, moléculas, vácuo? E quando mostram interesse? São chamados nerds, habitantes de uma outra dimensão. Mas isso é outro papo.
Carl Sagan foi pelo caminho oposto. Cosmos é uma aula saborosa e dinâmica que, mesmo atrasado 30 anos, usufruo como se tudo fosse uma grande novidade. E é provável que seja mesmo.
Entrando para acompanhá-lo neste seu blog, Francisco. Também gosto muito do Carl Sagan. Mas quem me fascinou muito foi o Stephen Hawcking com A Brief History of Time e a quem eu tive a graça de ver em pessoa em 2006. Na verdade, eu tirava minha graduação de turismo, aqui na Bélgica e os estudantes do curso tiveram de estar presentes numa conferença em que ele estava. E numa ida pra buscar algo dei-me com ele na sua famosa cadeira de rodas e com sua enfermeira assistente. Eu fiquei tão abobado (se há outra palavra, desconheço) ao vê-lo na elevador, e ainda trocar uns “Stephen….!” “good morning”… A cena do momento guardo detalhada e com carinho.
Creio que minha reação seria a mesma, camarada.
Sorte sua.
Eu tentei ler Uma Breve História do Tempo, mas não tive uma compreensão satisfatória.
Li Pálido Ponto Azul, do Sagan, é fiquei maravilhado.
Não vi ainda. Mas após este artigo certamente irei assistir a dita série. Acabei vendo a mais recente. Igualmente nos apequena diante das dimensões cósmicas.O chamado Horizonte Cósmico!
Maravilha, meu caro causídico.
Anotado.
Horizonte Cósmico.
Procuro me ver nesse horizonte. Essa série foi objeto de estudo e uma das fontes inspiradoras para um novo texto que acabo de escrever. Guardadas as proporções, espero que aprecie “quasEares”, uma forma de agradecimento a figuras ilustres como Carl Seagan e outros nomes que procuram tornar a ciência tão saborosa quanto a arte é para mim.
Opa!
Estou na espera.
Taí uma boa ideia .
Vou ver.
recomendo a leitura de outra obra do autor: O Mundo Assombrado pelos Demônios. Um livro que explica o método científico e nos ensina a ter uma visão mais cética do mundo e seus mistérios. Pelos capítulos iremos encontrar histórias e explicações sobre vida extraterrestre, alucinações, visões verdadeiras e falsas, terapias, discos voadores, imagens geométricas em plantações entre outros diversos assuntos.
Concordo plenamente meu amigo, por mais exata que seja a ciência, quando bem traduzida e inserida em nosso cotidiano, jamais perde seu encanto. Basta admirar a própria matemática, onde vários de seus axiomas possuem raízes na filosofia.
Excelente texto.
É vero, meu caro.
Vc mesmo já me fez ver elementos de linguagem científica de uma forma didática.
Eu agradeço.
Carl Sagan é um grande herói da Ciência para mim. Li quatro livros dele, incluindo o magnífico Cosmos (também vi integralmente a série) e O Mundo Assombrado pelos Demônios. Suas obras são verdadeiros antídotos contra o obscurantismo, que teima em resistir à luz da Ciência. Não que seja ateu, mas a irracionalidade de alguns religiosos sem discernimento leva a caminhos absurdos e muitas vezes nocivos ao indivíduo e à sociedade.
Por isso, meu caro escritor de ficção científica, vc enveredou por esse caminho.
Pretendi escrever sobre seu livro, aqui.
E sobre os quadrinhos tb.
Nem sei se mereço tamanha consideração por causa daquele despretensioso livro. Mas valeu a intenção. Grande abraço!
Se foi vc que escreveu, merece.
Não é um Dostoievski, mas eu o escrevi com muito entusiasmo e alegria. Fico lisonjeado com a consideração. Abraços!