Cravos, Chico, Festa (e a versão original)

Hoje é dia 25 de abril – e os portugueses estão em festa desde então. Há 47 anos Portugal, por meio da Revolução dos Cravos, mostrava-se frente a frente ao processo democrático. Segundo consta, uma garçonete lisboeta chamada Celeste Caeiro, iniciou a distribuição de cravos durante o conflito. Muitas dessas flores chegaram aos soldados que, simbolicamente, acoplavam-nas às espingardas.

Não vou explicar como e por quê se deu a revolução que pôs fim ao salazarismo em Portugal. Este espaço é insuficiente para tal narrativa. AQUI você encontra tudo. O que quero dizer é que meu xará, Chico Buarque, homenageou o país e o movimento na canção Tanto Mar. A segunda versão dessa canção é conhecida: está no disco Chico Buarque, de 1978. A primeira, original, feita em 1975, está aqui:

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Observe a atualização das formas verbais utilizadas em uma e outra versões. O resto é com você, leitor.

Um P.S. No disco Chico e Bethânia, de 1975, a canção Tanto Mar teve a letra censurada – por motivos óbvios, de modo que apenas a melodia (violão, flauta, palmas etc) pôde ser veiculada. Há também uma belíssima – mesmo! – interpretação da cantora portuguesa Eugênia de Melo e Castro dessa canção. Wagner Tiso acompanha a moça. Vale ouvir!

 

 

 

 

Imagens do Tri (saudosismo aos 8 anos)

Creio que escrever sobre futebol – e ainda mais comemorar algo relativo a ele – esteja um pouco fora da ordem do dia. É provável e possível. Pandemia, desgoverno, racismo e fake news são assuntos mais atuais. Deixo temporariamente de lado para ilustrar os 50 anos do tricampeonato mundial no México – na verdade, a primeira Copa do Mundo de que me lembro, quando tinha oito anos. A partir de então, acompanhei todas as outras, mas torci pela seleção brasileira nos torneios de 1974, 1978. Depois, nunca mais. Qualquer dia conto os motivos, se houver interesse.

Mas eis o que eu queria dizer: as imagens da Copa no México são repetidas à exaustão. Poucos desconhecem os lances mais emblemáticos, como este, abaixo:

Sim, é o drible de corpo que Pelé impôs ao goleiro uruguaio, na semifinal. Ladislao Mazurkiewicz, filho de poloneses, era um dos melhores arqueiros do mundo. Foi humilhado pelo jogador mais ofensivo do futebol, mas contou com a sorte. A bola, ao final da jogada, não entrou. Não sei se você – que está lendo – sabe, mas essa jogada inspirou um romance intitulado O Drible, do mineiro Sérgio Rodrigues. Vale ler.

Outra imagem, também repetida: o cabeceio do mesmo Pelé, contra o gol inglês, defendido espetacularmente pelo melhor goleiro da época, Gordon Banks. O interessante é que por 50 anos deu-se, justificadamente, muito valor à defesa, tida como a mais difícil das copas, daí eu privilegiar o instantâneo do cabeceio, da impulsão.

Pois é. Gerson, o melhor meia que vi jogar, fez apenas 1 gol naquela copa – e justamente na final, contra a Itália. Um chute poderoso, de canhota, que venceu o goleiro Albertosi. Ok, ok: o time da Itália estava cansado, afinal participara, poucos dias antes, do chamado Jogo do Século, ao vencer, na semifinal, a Alemanha por 5 a 4. Sinceramente? Se a Itália tivesse dormido uma semana, mesmo descansada não venceria o Brasil. Eis o chute de Gerson, visto num ângulo pouco difundido:

Agora imagine um centroavante que só tenha feito 2 gols: ambos contra o Peru, partida em que o Brasil venceu por 4 a 2. Pois é: Tostão, camisa 9, era ponta-de-lança no grande Cruzeiro do início dos anos 1970. Fez vários gols nas Eliminatórias, e no México, além dos gols citados, foi fundamental nos jogos contra o Uruguai e contra a Inglaterra. Um gênio absoluto no gramado.

A Copa de 1970 foi meu début. A partir de então, passei a apreciar o futebol, acompanhei a Copa de 1974, com 12 anos e lendo exemplares da revista Placar. Assisti à potência argentina em 1978 até chegar em 1982 quando, por questões políticas, passei a torcer contra. Uma bobagem que fica para a próxima, coisa de universitário de 20 anos que considerava futebol alienação. Repito: bobagem. Por quanto, eis mais algumas imagens:

Sim, há 50 anos.

Eric aos 75

Era o ano de 1979 e eu iniciara minha coleção de Gigantes do Jazz, que a Abril Cultural tinha acabado de lançar. Os discos e os encartes eram comprados em bancas de jornal e eu ainda não conhecia bem o jazz, embora reconhecesse minha inclinação para o gênero. Sem contar a inestimável influência de meu querido primo, e também baterista, Marco Antônio Grijó. Sem ele, talvez, o jazz tivesse passado despercebido por mim. Mas aonde quero chegar? A série Gigantes do Jazz apresentou-me Ella Fitzgerald, que por sua vez me apresentou Sunshine of Your Love. Sim, eu cometia a heresia de, aos 17 anos, desconhecer Eric Clapton. Ouvia falar, mas, sabe Deus por quê, não acompanhava sua produção.

A gravação de Ella conta com a participação da orquestra do pianista e leader Tommy Flanagan. É uma gravação de 1969, com 4’25”. Notável, extraordinária. Ella Fitzgerald tem brilho eterno. E quanto a Eric Clapton? A referida canção foi apresentada ao mundo pelo supergrupo Cream, do qual Eric era o guitarrista, em 1968. Os outros componentes, ambos definitivos em seus instrumentos, eram Ginger Baker (bateria) e Jack Bruce (contrabaixo). Quem escreveu, entretanto, a canção? Foi escrita a 6 mãos: Clapton, Jack Bruce e o poeta Pete Brown, que também era roqueiro, mas era bom mesmo com as palavras. Pois não é que o jazz me levou ao hardrock do Cream e, felizmente, apresentou-me Eric Clapton? Então, hoje, dia 30 de março, aniversário deste que é um dos maiores guitarristas de todos os tempos, vai meu presente e minha homenagem:

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Assim como sou grato a meu primo, pelo jazz, sou grato a Ella, por Eric. Acho que é assim mesmo que a vida é. E, de preferência, ouvindo Eric Clapton e o Brilho do Sol do seu Amor.

p. .s : Se alguém se interessar pela versão citada de Ella Fitzgerald, é só clicar AQUI.

Bach, Brandenburgo

Hoje, dia 21 de março, é dia de Bach – ou melhor, há 334 anos, nascia uma das maiores – senão a maior – personalidades artísticas de todas as épocas: Johann Sebastian Bach. Para mim, maior que Shakespeare, Cervantes, Michelangelo, Dante, Nijinsky, Rembrandt. Sim, é bobagem comparar, mas diverte. Em homenagem ao Kantor, aí vai o que, para muitos, é sua maior obra: os Concertos de Brandenburgo, escritas em 1721 para o Margrave de Brandenburgo, que, segundo consta, sequer agradeceu a generosidade. Não sei, mas deve ser o som celestial, aquele que se ouvirá ao lado do Criador. É música criativa, contrapontística – barroca em sua essência -, viva e alegre, multi-instrumental. Extraordinária, resumindo.

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O quase cinquentão Abbey Road

George Martin, produtor e orquestrador que gozou da intimidade dos Beatles, dizia aos quatro cantos que Abbey Road, disco de 1969, era a obra-prima do quarteto que revolucionou a música pop. Quase sempre se usa a expressão pop com certo desprezo hipócrita, como se o termo impusesse à música – como um todo, melodia e texto – depreciações inevitáveis. Besteira. Abbey Road, gozando sua ideologia pop-rock, é um disco de primeira, dos melhores já feitos e, no meu caso, concordo com George Martin: é o melhor dos Beatles. Aliás, há umas poucas postagens, afirmei que é um dos melhores discos de rock que conheço.

Sei que há quem afirme que Sgt. Pepper’s é melhor. É avaliação subjetiva, claro, assim como a minha e de George, mas, mesmo as subjetividades são (ou devem ser) justificadas. Primeiro: Harrison mostra os dedos (e a voz) afiados em dois temas que se tornaram clássicos: Something e Here Comes the Sun estão na ponta da língua de qualquer cinquentão de bom-gosto. Eu, por exemplo. A musicalidade de Something é algo fora do comum – e repare que os recursos para se chegar a ela são simples, quase primários. Mas tente fazer para ver se você consegue.

E por falar em riqueza melódica, que tal ouvir Golden Slumbers, Oh! Darling, Come Together e o tema do serial killer Maxwell’s Silver Hammer? Quer uma execução progressiva? Há também. Experimente I Want You (She’s So Heavy), mas não exija dos rapazes que eles antecipem o virtuosismo de um Robert Fripp ou as sinuosas reviravoltas de Greg Lake. O negócio deles era outro: entreter com arte. Ou seja: preocupando-se com a própria produção e um olho cravado na aceitação popular. Fizeram, sim, a melhor música popular.

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Eis os rapazes após a foto famosa, em que marcham na faixa de pedestre – em Londres. Mas aí você quer saber por que escolhi justamente esse disco para uma postagem. Simples. Abbey Road veio ao mundo em 26 de setembro de 1969. Claro, claro. Alguma coisa tinha de fazer dessa quarta-feira, o dia mais insosso da semana, uma data especial.

Prince e Harrison (nem tão) suavemente chorando

Vivo estivesse, Prince teria feito 60 anos neste mês de junho. Um artista completo, de quem Miles Davis, um de meus ídolos, disse ser o Duke Ellington dos anos 1980. Miles podia ser um tanto polêmico quando queria, mas, nesse caso específico, creio que nem sequer tenha exagerado. Prince, guitar hero, gênio excêntrico, chegou-me da forma que deve ter chegado à grande maioria de seus hoje fãs: Purple Rain, o álbum duplo de 1984, em companhia da banda The Revolution. Um discaço que possuo até hoje, bolacha, carregado de rhythm & blues, de precisão artística, de pop rock de qualidade inequívoca.

Esta postagem tem dois lados, como um bom vinil: há 50 anos vinha ao mundo The White Album, também duplo, da mais importante banda pop que existiu ou existirá: The Beatles. Não é sobre ela que quero falar, mas sobre um de seus quatro integrantes – George Harrison -, aquele que escreveu a de início subestimada While My Guitar Gently Weeps, canção genial de origem filosófica, em sétimo lugar no lado A, com Eric Clapton dando uma canja mesmo sem a aquiescência inicial dos dois ególatras Lennon e McCartney.

E agora, juntando tudo: em 2004, durante a cerimônia do Rock and Roll Hall of Fame, Prince homenageia George Harrison em companhia de Tom Petty, Jeff Lyne, Steve Winwood e Dhani Harrison, filho de George e inacreditavelmente parecido com o pai. A canção While My Guitar Gently Weeps nunca foi tão bem tratada – nem por seu dono. Nem por Clapton. Se você duvida, assista ao vídeo abaixo:

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Veja tudo, mas, se quiser checar do que Prince é capaz, ouça a partir de 3:28. Sim, O Príncipe é um dos melhores. Naquele grupo, por exemplo, não tinha rivais, e olhe que Marc Mann, grande guitarrista, está lá, fazendo um solo muito parecido com o de Clapton da gravação original. Prince sai das sombras, aparece nos 3 minutos finais de apresentação, e rouba a festa. Vale ouvir, sim.