Pantoja, Stern: o melhor do Santa Jazz

Não sei se você — que agora lê — foi ao Santa Jazz, o festival de jazz de Santa Teresa, cidade da região serrana  do ES. Se foi, presenciou apresentações de excelência, música de altíssimo calibre, som de primeira. Se não foi, perdeu a oportunidade de assistir a shows inesquecíveis. Veja só: eu não fui, porque estava dentro de um estúdio comentando os shows, como se isso fosse privilégio absoluto. Não é. Privilégio absoluto é ver e ouvir ao vivo, e não numa moldura de plasma com definição de primeiro mundo. Enfim, mesmo assim, pude ouvir e ver o que o festival proporcionava de melhor.

E o que houve de melhor? Tendo em vista que o termo melhor é superlativo de bom, afirmo que todos os shows tiveram qualidade inequívoca — dois, contudo, foram melhores. Os dois foram apresentados ao público em noites distintas: Rique Pantoja e seu quarteto, e Mike Stern, o guitarrista a quem Miles Davis chamada de gênio. E devia ter razão. Vi Pantoja pela prima vez em 1985, no Free Jazz, homenageando, em companhia de  o enormíssimo maestro Moacir Santos. Stern eu ouvi quando comprei, em meados dos anos 1980, o disco duplo We Want Miles. Dois momentos em que o jazz entrou em minha vida e de lá não sai nem que me façam beber ácido.

Rique Pantoja é sensacional: pianista de primeira linha, fez-se acompanhar de um escrete: Danilo Sinna, no saxofone (alto e soprano); Felipe Alves, na bateria, e Rubem Farias, no contrabaixo. Um show cheio de pontos altíssimos em que o jazz e a bossa se fundiram, criando uma atmosfera rítmica e harmônica de causar inveja a qualquer jazzista tarimbado. Pantoja já era craque quando, em companhia do grande baterista Paschoal Meireles, do saxofonista Mauro Senise e do baixista Artur Maia, deram vida a uma das formações do Cama de Gato, um grupo de música instrumental que, nos anos 1980 e 1990, encheu muitos corações de alegria. Pantoja, a meu ver, era o pulmão do quarteto. Bem, muita gente diz que essa a função de um pianista. AQUI você assiste ao show dele no Santa Jazz.

Mike Stern é uma figura. Divertido, simpático, fã de música brasileira, genial nas cordas da guitarra. Miles Davis tinha razão — embora eu não tenha a dimensão do gênio. Nem na minha área sei o que vem a ser isso, mas desconfio de que ele e Rique Pantoja estejam nessa categoria. Acompanhado dos músicos Bob Franceschini, no sax; Rubem Farias, no contrabaixo, e do extraordinário baterista Dennis Chambers, Mike Stern fez um show inesquecível, vigoroso sem ser enfadonho; preciso sem ser burocrático. E ainda se faz acompanhar da esposa alemã, Leni Stern. Uma beleza, que você pode ouvir AQUI, (de 3:15:48 a 4:16:11). Sinceramente? Se eu fosse você, ouvia tudo.

Pois é: alguém disse que escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura — mas está valendo. A propósito: eu apareço fazendo comentários sobre as performances. Você pode pular, se quiser.

Vida Boêmia: Lush Life, o filme

Filmes sobre jazz geralmente satisfazem tanto o espectador comum quanto o aficcionado por música — mais ainda, claro, aquele que considera o jazz um ritmo essencial, o que é meu caso. Bird, de Clint Eastwood, e ‘Round Midnight, de Bertrand Tavernier, são filmes que versam sobre artistas autodestrutivos que, sem a música, teriam pulado da ponte mais cedo, sem que o mundo tomasse deles pleno conhecimento. As vidas conturbadas de Charlie Parker e Bud Powell, respectivamente reproduzidas nos filmes citados, oscilaram entre a genialidade absoluta e o desespero existencial, o que sobrecarregou as películas de uma dramaticidade angustiante.

Não é o caso de Vida Boêmia, de Michael Elias, um diretor tão apaixonado por jazz quanto Eastwood. Seu filme (originalmente feito para a tevê) também não é impactante do ponto de vista estrutural, mas a história não desagrada ao espectador mais exigente, que se vê diante de uma dupla de músicos — um saxofonista e um trompetista — que têm amor ao jazz na mesma proporção que amam viver. Ironicamente, um deles está condenado à morte por conta de um tumor cerebral. O outro, para celebrar-lhe a vida que resta, resolve fazer uma grande festa em que todos os músicos de jazz de NY comparecem — todos, sem exceção, o que causa um enorme problema para os night clubs da cidade.

Forrest Withaker — que já havia encarnado Parker no filme Bird cinco anos antes — interpreta o trompetista por cuja porta a morte quer entrar, mas ele se recusa a atender, de imediato. Antes, quer o jazz, e quer executá-lo tendo em mãos um trompete que pertencera a Clifford Brown, comprado numa loja de penhores por 2.500 dólares por um talentoso garoto aspirante a músico. Assim é o jazz: quem faz leva-o a consequências últimas. E por falar em amor a ele, uma outra história — periférica — é retratada na película: a dificuldade de se relacionar com um artista. A mulher do canastra Jeff Goldblum (o saxofonista garanhão) é uma professora que quer ter uma vida normal ao lado do marido, quer desvencilhar-se da lush life que o companheiro leva. Não é possível. Assim é o jazz.

A propósito: revi esse filme anteontem, na tevê. Busquei na internet o devedê ou o blu-ray que, acredito, não foram lançado por aqui, mas aí vai, ao lado, seu rosto. E o link, no Youtube, com legendas en español. A propósito 2: John Coltrane lançou, em 1957 — dez anos antes de morrer —, o álbum Lush Life, hard bop da melhor qualidade com um time grandioso de músicos: Don Byrd (trompete), Red Garland (piano), Earl May (baixo), Paul Chambers (baixo), Albert Heath (bateria), Art Taylor (bateria) e Louis Hayes (bateria). Não, não estão tocando todos juntos, como na tal festa do filme. O tema Lush Life foi composto por Billy Strayhorn e já foi interpretado por uma multidão de músicos. Clique AQUI para ouvi-la pelos dedos do extraordinário pianista Phineas Newborn.

Chico aos 31; Bethânia aos 26

Para muita gente, Maria Bethânia é a melhor intérprete da MPB. Não entro no mérito se é ou não a melhor cantora — mas, repito, é a melhor intérprete. É sensual, positiva, dramática, divertida, carismática. E sabe cantar, usando extraordinariamente bem o privilégio de ser contralto. É afinadíssima, e parece, num palco, ser tão absoluta quanto única. Faz isso há 60 anos, desde o compacto em que brilhou cantando Carcará, de João do Vale. Eis o que quero dizer: é uma cantora estável e criteriosa, que escolhe seu repertório com lupa e bom gosto. É a maioral — a voz brasileira viva.

Para outros tantos, Chico Buarque é o melhor compositor brasileiro — na MPB. Não tem rivais, apesar de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e Belchior terem produzido canções tão espetacularmente  imortais quanto as dele. Chico é hábil, ligeiro, lírico, malandro, letrista de primeira — assim como sambista de excelência. É provavelmente o melhor intérprete de suas canções, e há quem, não sem certo equívoco, diga que ele canta mal. É afinado também, e muito. Hoje canta menos, porque — infelizmente — tem se dedicado a escrever romances. Uma pena. Nasceu em junho, assim como Bethânia, e, naquele mesmo mês, há 50 anos, juntou-se a ela para um show antológico: Chico Buarque & Maria Bethânia ao vivo.

É o melhor disco ao vivo que conheço, na MPB. O Chico sambista acompanha os outros Chicos; a Bethânia sóbria desaparece, mesmo quando canta a belíssima Camisola do dia, de Herivelton Martins e David Nasser, ou Sonho Impossível, na versão de Chico. É feroz ao interpretar Raul Seixas, em Gita, ou o próprio companheiro de palco, em Sem Açúcar. A voz, mesmo sem muito alcance, está a serviço da interpretação dramática e certeira, emotiva na medida necessária. É, ao lado de Elizeth e de Elis, a grande intérprete da música brasileira. Engole o enganosamente tímido Chico, ao cantarem juntos, no desfecho do show, Quem te viu, quem te vê, Noite dos Mascarados e Vai Levando. E, claro, a extraordinária Sem Fantasia.

Chico Buarque & Maria Bethania Ao Vivo: Amazon.co.uk: CDs & VinylFalei do sambista Chico? Pois é — seja por meio de suas canções, ou de obras alheias, o samba manda o recado. Olê, Olá, Gota d’água e Notícia de Jornal (de Haroldo Barbosa e Luís Reis) são homenagens do compositor ao gênero que o consagrou. As obras-primas Flor da Idade e Bem-querer, ambas do drama em versos Gota D’água — sua parceria com Paulo Pontes — são pontos altos do show. Ah, claro: e há um ponto mais alto, a meu ver: Sinal Fechado, obra singularíssima de Paulinho da Viola, é levada pelos dois, num diálogo que deixa qualquer fã de música mais feliz. Vale ouvir todo o disco. E, antes que eu me esqueça, parabéns adiantados aos 3 envolvidos na postagem.

Pedro: poeta & bispo

A segunda vez que ouvi falar de Dom Pedro Maria Casaldáliga foi ao ouvir, assim que veio ao mundo, em 1982, o disco Missa dos Quilombos, de Milton Nascimento. É um disco de rara beleza, de temática social e cristã, gravado na Igreja de Nossa Senhora dos Homens, em Minas Gerais. É, de fato, uma missa musical, estruturada para ser primordialmente ouvida. Mas não é sobre Milton que quero falar — e sim sobre um dos parceiros (o outro é Pedro Tierra), o bispo católico nascido na Espanha — era catalão — e naturalizado brasileiro, defensor dos direitos humanos, taxado de comunista por invasores de terra, que o juraram de morte.

E quanto à primeira vez? Também com a participação de Milton, no encarte do disco Sentinela, de 1980: um dos melhores discos desse artista extraordinário. Mas repito: Milton, nesta postagem, é secundário. Em primo plano está o bispo, a figura ímpar, o ativista, para muitos o santo (epíteto que sempre descartou, sem qualquer falsa modéstia). Religioso e hábil com as palavras, um herdeiro de Vieira, célebre orador. Casaldáliga, humanista como o padre seiscentista, indignou-se com o tratamento aos povos nativos, originários – antigamente chamados de índios. Dedicou-se, de corpo, alma e palavras, a defendê-los. A eles e aos trabalhadores rurais, que carinhosamente o chamavam de Pedro. Ei-lo:

Evangelizou sem colonizar, porque sabia que eram termos excludentes. Foi um poeta social, para quem as palavras deveriam servir à liberdade, à justiça, à luta. É, nessa seara — assim como Pe. Antônio Vieira, mais uma vez — autor de Versos Adversos, dentre vários textos. Se quiser ler, AQUI você consegue. O prefácio é de um dos meus ídolos literários, o professor Alfredo Bosi. Para muitos, a religião, algo limitador, é incompatível com a arte — elemento libertador. Não sei. Sem a religião, o que seria da obra de Bach, de Vivaldi, de Palestrina? Essa questão fica para depois.

VERSOS ADVERSOSSua poesia é contundente, ao mesmo tempo que lírica. O domínio da palavra é tão evidente quanto a fé que, edificada, alicerça sua visão de fraternidade, amor ao próximo, luta contra a desigualdade e em prol da paz entre os homens. Ele sabe, entretanto, que a paz é consequência do ânimo e da união. Sabia o que estava dizendo, e o dizia de forma simples, sem arroubos sentimentais ou arabescos verbais. Era um poeta em sua essência: vivo para quem metonimicamente o ler. Hoje, 16 de fevereiro, ele faria 97 anos. Ave, Pedro!

Jazz doméstico: Afonso Abreu Trio

Deixando as férias para trás: estamos de volta, com plural de modéstia e tudo o mais.

Iniciando 2025 com música. Escrever sobre amigos é sempre perigoso, já que o afeto mete o bedelho onde não deve. Mesmo assim, deve-se tentar. Ouvi — e reouvi — um disco que completará, em outubro, 25 anos: o tal jubileu de prata, seja lá o que isso queira dizer. O disco em questão é Palco Iluminado, de um trio de jazz capitaneado por Afonso Abreu, contrabaixista de primeira, na estrada há 60 anos. Os outros componentes do trio: o pianista Pedro Alcântara e o baterista, tão longevo quanto Afonso, Marco Antônio Grijó. Sim, é meu parente. O disco em questão foi gravado ao vivo, no Teatro Carlos Gomes, centro de Vitória, em 2000. O título é adequado. Eis a capa:

Grijó e Afonso entendem-se há 50 anos: uma parceria quer se iniciou no coração da década de 60 — século passado — e estendeu-se até os dias atuais, mesmo que sem a frequência de antes. Fizeram, e ainda são capazes de fazer, um um de primeiríssima, suingado, pulsante, absurdamente ajustado. Esse ajuste se deve também à presença do pianista, que mostra o caminho por onde todos devem ir. Pedro Alcântara exsuda talento: os dedos parecem multiplicar-se diante de Steinway e seus filhos. É o trio perfeito, a música perfeita.

Há pelo menos 3 performances antológicas: All Blues, de Miles Davis; Autumn Leaves, do húngaro Joseph Kosma, e O Morro não tem vez, da dupla Jobim-Vinicius. Marco Antônio Grijó, um tanto contido porque o repertório assim exigia, é a cozinha de luxo, sublinhando significativamente o que Pedro e Afonso dialogam entre si. A sempre difícil brubeckiana In Your own sweet way é um dos pontos altos do show, com o pianista alternando entre o fraseado lírico e a base percussiva. É uma beleza.

Afonso e Grijó foram mamíferos. O que isso quer dizer? AQUI você entenderá. AQUI também. O entendimento mútuo proporcionou uma adequação musical como pouco se vê, por aqui. Pedro adequou-se: foi o amálgama perfeito para que esse disco pudesse vir à superfície, de forma a apresentar a quem não (re)conhece o jazz feito no ES. Não um jazz com características específicas — música não é moqueca! —, mas a execução exemplar do gênero que foi levado a limites que realmente impressionam. Sim, e o palco se ilumina, porque o trio é jazz, é luz e é som. Aproveite.

De lambugem: All Blues em outra ocasião.

Música & MPB: livros essenciais

Coração Americano - Bastidores do álbum Clube da Esquina | Amazon.com.brNatal, época de presentear: música & livros + história da MPB. Ganhei da consorte, por bom comportamento, dois ótimos e essenciais livros sobre a música brasileira. Um deles sobre determinado disco — no caso, Clube da Esquina, de Milton Nascimento. Coração Americano — Bastidores do álbum Clube da Esquina, organizado pela produtora cultural Andrea Estanislau. Com textos escritos pela rapaziada que participou de toda a confecção do disco — os irmãos Lô e Márcio Borges, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Toninho Horta e Tavito —, o livro tem um trabalho gráfico de primeiríssima: papel Couché, fotos inéditas e diagramação que foge ao trivial.

Sempre há um porém: faltou um texto escrito pelo gênio do grupo, Milton Nascimento, embora haja uma entrevista dele concedida ao parceiro Fernando Brant. Depoimentos de Beto Guedes, Wagner Tiso (orquestração) e Alaíde Costa (na participação de uma das faixas) apresentam visões particulares de como foi trabalhar com e em grupo. Sim, sim, tenha certeza: é um livro fundamental para quem quer conhecer o processo de criação de um dos mais importantes discos da história da MPB.

Livro Para Seguir Minha Jornada Chico Buarque Regina Zappa | MercadoLivreOutro livro: Para seguir minha jornada — Chico Buarque, escrito pela jornalista Regina Zappa, que já havia escrito uma pequena biografia do compositor para a série Perfis do Rio, editado pela Relume Dumará e publicado em 1999. Neste livro, editado pela Nova Fronteira, a jornalista vai além — muito além. Num trabalho de pesquisa que abrange da infância até os 80 anos do mais importante artista da MPB, a jornalista vai fundo na história de vida e de música do meu xará. Se não é o livro definitivo, chega perto.

Do primeiro contato com a música, a infância na Itália, a opção por deixar de lado a arquitetura, as parcerias, as participações nos festivais, os primeiros discos, a censura, o casamento, as filhas, os grandes discos na década de 1970, a dramaturgia, a narrativa (do conto Ulisses até os romances consagrados de hoje) — tudo isso é levado a medidas extremas de informação. Sem contar as fotos que, até onde sei, não haviam sido publicadas em livro. É outro trabalho gráfico esplêndido. Se você não conhece a fundo a obra de Chico Buarque, vai se encantar com o livro. Se conhece, vai se surpreender por perceber que há muito a aprender.

Milton Nascimento e Chico Buarque: Primeiro de Maio - Vermelho

O melhor do jazz #13: contrabaixistas

Quem é o melhor contrabaixista do jazz? Não faço a mínima ideia. Posso, claro, enumerar os meus preferidos, aqueles que, nesses 45 anos ouvindo jazz, mais me agradaram aos ouvidos. Creio que Charles Mingus seja uma unanimidade, um ícone jazzístico que superou a restritiva condição de contrabaixista. Além de band leader, foi um grande orquestrador, um arranjador de primeiríssima e um ótimo pianista. Penso que é o primeiro da lista, com justiça. E o disco em questão, Pithecantropus Erectus, de onde saiu a faixa homônima, se não é sua obra-prima, chega perto.

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Ray Brown aparentemente tocou com todos os grandes nomes do jazz. Ao menos com quem importa: Duke Ellington, Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Bud Powell e Oscar Peterson. Dono e senhor de um estilo plural, foi um sideman de luxo, e um solista absolutamente perfeito. Gosto de todos os discos de que participou — todos os que conheço, evidentemente. Há um, em especial, Black Orpheus — que é, de fato, Manhã de Carnaval, de Luis Bonfá —, cuja faixa-título pode ser ouvida e vista abaixo. Na bateria, George Fludas, o grande baterista de Chicago.

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Miles Davis responde como líder de dois enormíssimos quintetos do jazz. O primeiro traz como contrabaixista o gigante Paul Chambers; o segundo apresenta um dos maiores do jazz: Ron Carter. Fã de música brasileira, tocou com Antônio Carlos Jobim, Luiz Bonfá, Robertinho Silva e Hermeto Paschoal, sem contar que lançou um discaço chamado Orfeu. No quinteto de Miles, mostrava a que vinha: dono de um senso de ritmo de de suingue inigualáveis no jazz, Mr. Carter fazia na cozinha o que fazia na sala de jantar — ou seja, como líder. É um dos maiores. Abaixo, com seu quarteto, no Festival Internacional de Jazz de San Javier, na Espanha. Ouça tudo; em particular de 2:45 a 4:15.

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Imagine um contrabaixista que foi considerado como o melhor de todos por músicos como Paul Quinichette, Sonny Stitt e Lee Morgan. Imagine um músico que não se intimidou ao tocar junto a Miles Davis, John Coltrane e Bill Evans, no quinteto que trouxe ao mundo Kind of Blue. Pois esse sujeito existe e se chama Paul Chambers, a quem se deveu uma revolução no instrumento, com um senso de ritmo até então nunca visto. Assim como Jimmy Blanton, seu ídolo e contrabaixista de Duke Ellington, Paul Chambers passou a não depender mais do baterista para atuar. Fez história. Abaixo, um solo em On Green Dolphin Street, acompanhando (e usando o arco) o pianista Wynton Kelly.

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Da primeira vez que ouvi The Shape of Jazz to come, do saxofonista Ornette Coleman, fiquei impressionado com o contrabaixista, Charlie Haden. Sem um piano que criasse a “liga” para os outros músicos, ficou por conta das cordas fazerem seu trabalho. Haden é um craque. Seu trabalho ao lado de Art Pepper é igualmente excelente, e mais maduro, mais profissional. E, com Jan Garbarek, no sax, e o brasileiro Egberto Gismonti, ao piano e ao violão, criou uma das grandes performances em Montreal. Acompanhe, abaixo, a partir de 6:29. Aliás, veja tudo.

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Castro, Jobim: textos curtos demais

Volto a Antônio Carlos Jobim — e também a Ruy Castro. Já escrevi sobre os dois, aqui, neste blogue que poucos leem. Há alguns anos imaginei que meus leitores fossem seis ou sete. Hoje já solto fogos quando alguém aparece por estas cercanias. Desabafos à parte, vamos a Tom & Ruy. Acabo de ler O Ouvidor do Brasil — 99 vezes Tom Jobim, do jornalista-escritor-biógrafo-imortal Ruy Castro. Li de uma tacada: 220 páginas com 99 crônicas – todas elas curtas – que versam sobre o maestro. Falei errado: nem todas versam. Algumas apenas citam. Lendo a introdução, o cronista foi sincero: “Em alguns [textos] a presença de tom poderá parecer de passagem.” É verdade.

Tom Jobim é realmente um craque. Uso o presente do indicativo porque obra e autor, aqui, mostram-se confundidos, metonímicos: sua obra não morre, de modo que o criador mantém-se entre os vivos. Ruy Castro também é craque, e já mostrou isso escrevendo sobre Bossa Nova, sobre Garrincha, Nelson Rodrigues, Carmen Miranda. Escreveu sobre Ipanema, sobre o samba-canção e sobre alguns selecionados artistas do século XX. Escreveu sobre filmes, sobre música e sobre literatura. É homem de repertório farto.

Em O Ouvidor do Brasil há um problema — que não se encontra em nenhum outro livro de Ruy Castro (talvez em Ela é Carioca, mas isso merece uma postagem única). O texto curto não lhe faz bem. Ele é bom quando tem tempo para escrever, quando mergulha fundo naquilo que elegeu como assunto e como obsessão. É preciso, para esse mergulho, muito fôlego — e ele tem isso de sobra. E quando é obrigado a vir à tona, para respirar e tomar sol? Os textos, publicados entre 2007 e 2023, na Folha de São Paulo, obrigaram-no a sintetizar algo que não merecia síntese. Pode ser que muitos tenham apreciado sua capacidade de falar muito com poucas palavras. Eu, não.

Ao final de boa parte das pequenas crônicas, fiquei com aquela sensação de que o autor teria feito um trabalho muito melhor caso tivesse mais duas páginas — apenas duas, não mais que isso. A linguagem de Ruy Castro se mantém clara, irônica, bem armada, por vezes mordaz. É sua vantagem e nosso privilégio. Limitá-la (e tenho certeza de que a responsabilidade é do veículo, a Folha) é um pecado. Mesmo assim, merece ser lido — afinal, quantas oportunidades temos de ver um craque falar do outro?

Jethro Tull revisitado (um prelúdio para Mick Abrahams)

Album Art Exchange - Stand Up by Jethro Tull - Album Cover ArtSe alguém perguntar — a quem gosta realmente de rock — qual a grande banda progressiva, é possível que se ouçam nomes como Yes, Pink Floyd, King Crimson e Genesis. São essas, evidentemente, e com justiça, as mais conhecidas, mais famosas. Rock progressivo é coisa de europeu, flerta com o jazz, com a música erudita, usa e abusa de sintetizadores, teclados, algumas letras são longas, os arranjos são complexos. É a parte adulta do rock: não é, em sua essência, feito para dançar nem  para servir de música de fundo. É som para se ouvir mesmo. Mas por que falo de rock? Porque acabei de ouvir Stand Up, o segundo álbum da ótima banda Jethro Tull. Está AQUI, caso queira ouvir.

Eu conheci o Jethro Tull em meados dos anos 1980, quando ouvi Thick as a brick por acidente, na casa de um amigo. Não dei muita bola, mas fiquei curioso — para dizer o mínimo — quando soube que o mesmo artista, no caso Ian Anderson, líder da banda, dava conta da flauta, do acordeão, do trompete, do saxofone e do violino. E ainda cantava, com uma voz que, se não tinha muito alcance, era marcante, singular. Apreciei e, algum tempo depois, ouvi This Was, o primeiro disco da banda. Se já apontava como destaque no rock progressivo, ainda havia uma vantagem: o guitarrista Mick Abrahams, que só tocou com o grupo neste disco. Consta que, por não viajar de avião, optou por deixar a rapaziada a ver navios.

A versão oficial é outra: diferenças criativas com Ian Anderson. Ok, então. O disco que ilustra a postagem, e que acabei de ouvir, é de 1969 — segundo álbum —, e Mick, sem alçar voo, deu lugar a Martin Barre, outra fera nas cordas, além de cuidar de muitos arranjos de canções. Há quem diga que foi o par perfeito para o líder da banda. Pode ser, mas eu ainda fico com Mick Abrahams; confesso, todavia, que Mr. Barre deu conta do recado. Ouça o disco e você perceberá isso. Há uma outra questão, que, a meu ver, valoriza o álbum: Ian Anderson, e ele mesmo afirma isso, bebeu na fonte jazzística de Ornette Coleman, de Charlie Parker e do alucinadamente criativo Rahsaan Roland Kirk.

Cinco Músicas para Conhecer: Jethro Tull sem flauta

Claro que ao ouvir o disco, mesmo en passant, qualquer um que aprecie a música vai perceber o quanto há de folk nas faixas. Jon Renbourn, do Pentagle, Bert Jansch e, claro, Bob Dylan são influências evidentes. Um tempo depois, já em fins dos anos 1990, comprei um cedê intitulado At Last, da banda de Mick Abrahams, meu guitar hero que, claro, será assunto de uma postagem só dele. Por enquanto, o Stand UP, do Jethro Tull, dá as cartas. Aprecie sem moderar-se.

Caetano, Luiz Guilherme: última palavra

Domingo após a segunda prova. Enem, 2024.

Rola um vídeo na internet em que o grande compositor e cantor Caetano Veloso resolve uma questão do Exame Nacional do Ensino Médio — o ENEM — em que ele mesmo fora citado.  Caetano não titubeia, escolhe a alternativa – e acerta. Poderia ter errado, como já aconteceu anteriormente, há uns dois anos. Eis então a pergunta de resposta óbvia: como pode o autor não saber a resposta correta sobre o texto que produziu? Resposta simples: o autor escreveu o texto, criou-o, produziu-o. O autor não o leu, de modo que a pergunta é feita para quem leu o texto; não para quem o escreveu.

Lembro-me de quando, há mais ou menos 35 anos, a UFES tornou obrigatória a leitura do romance A Nau Decapitada, de Luiz Guilherme Santos Neves. Sendo eu professor para alunos que querem acessar a universidade, preparei-lhes, como uma prova simulada, questões relativas à obra. Alguns acertaram; outro, não. Lembro-me também de mostrar as questões ao próprio autor, Luiz Guilherme que, ao tentar resolvê-las, não obteve êxito. Em bom vernáculo: errou-as. Eis mais uma vez o axioma: o autor não é leitor de si mesmo. Não possui a isenção necessária para, racionalmente, avaliar o texto.

Caetano, na verdade, avaliou uma crônica em que era citado – não um texto de sua lavra, criado e produzido por seu cérebro privilegiado, além da sensibilidade aguçada que possui ao escrever canções. O envolvimento emocional do autor com sua obra atrapalha-o, confunde-o. Tente imaginar um poeta, um escritor ou um compositor que, diante de sua criação, pergunta-se: o que eu quis dizer com isso? Ou, pior: como esse texto pode ser interpretado? Não é essa a função do artista.

De tropicalista inspirado, Caetano chega aos 70 abraçando contradições ...

Eis uma outra questão: quem tem a última palavra sobre um texto literário? Qual a interpretação tão correta quanto definitiva? Claro que interpretações pressupõem elementos que as justifiquem, mas a arte — como um todo — pode (e deve) possui inúmeras significações. Eis sua beleza e sua função: multiplicar-se em significados. Textos literários cuja interpretação não é variável correm o risco de não serem tão literários assim. Ou de serem mal escritos. Enfim, é um debate que merece atenção. Por enquanto, no meu caso, fico assim: torcendo para não precisar resolver uma questão sobre meus próprios livros.