Chico aos 31; Bethânia aos 26

Para muita gente, Maria Bethânia é a melhor intérprete da MPB. Não entro no mérito se é ou não a melhor cantora — mas, repito, é a melhor intérprete. É sensual, positiva, dramática, divertida, carismática. E sabe cantar, usando extraordinariamente bem o privilégio de ser contralto. É afinadíssima, e parece, num palco, ser tão absoluta quanto única. Faz isso há 60 anos, desde o compacto em que brilhou cantando Carcará, de João do Vale. Eis o que quero dizer: é uma cantora estável e criteriosa, que escolhe seu repertório com lupa e bom gosto. É a maioral — a voz brasileira viva.

Para outros tantos, Chico Buarque é o melhor compositor brasileiro — na MPB. Não tem rivais, apesar de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e Belchior terem produzido canções tão espetacularmente  imortais quanto as dele. Chico é hábil, ligeiro, lírico, malandro, letrista de primeira — assim como sambista de excelência. É provavelmente o melhor intérprete de suas canções, e há quem, não sem certo equívoco, diga que ele canta mal. É afinado também, e muito. Hoje canta menos, porque — infelizmente — tem se dedicado a escrever romances. Uma pena. Nasceu em junho, assim como Bethânia, e, naquele mesmo mês, há 50 anos, juntou-se a ela para um show antológico: Chico Buarque & Maria Bethânia ao vivo.

É o melhor disco ao vivo que conheço, na MPB. O Chico sambista acompanha os outros Chicos; a Bethânia sóbria desaparece, mesmo quando canta a belíssima Camisola do dia, de Herivelton Martins e David Nasser, ou Sonho Impossível, na versão de Chico. É feroz ao interpretar Raul Seixas, em Gita, ou o próprio companheiro de palco, em Sem Açúcar. A voz, mesmo sem muito alcance, está a serviço da interpretação dramática e certeira, emotiva na medida necessária. É, ao lado de Elizeth e de Elis, a grande intérprete da música brasileira. Engole o enganosamente tímido Chico, ao cantarem juntos, no desfecho do show, Quem te viu, quem te vê, Noite dos Mascarados e Vai Levando. E, claro, a extraordinária Sem Fantasia.

Chico Buarque & Maria Bethania Ao Vivo: Amazon.co.uk: CDs & VinylFalei do sambista Chico? Pois é — seja por meio de suas canções, ou de obras alheias, o samba manda o recado. Olê, Olá, Gota d’água e Notícia de Jornal (de Haroldo Barbosa e Luís Reis) são homenagens do compositor ao gênero que o consagrou. As obras-primas Flor da Idade e Bem-querer, ambas do drama em versos Gota D’água — sua parceria com Paulo Pontes — são pontos altos do show. Ah, claro: e há um ponto mais alto, a meu ver: Sinal Fechado, obra singularíssima de Paulinho da Viola, é levada pelos dois, num diálogo que deixa qualquer fã de música mais feliz. Vale ouvir todo o disco. E, antes que eu me esqueça, parabéns adiantados aos 3 envolvidos na postagem.

10 opiniões sobre “Chico aos 31; Bethânia aos 26”

  • 15 de abril de 2025 em 17:58
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    Excelente texto, informativo e sintético. Só não apeciei o lamento sobre Chico Buarque se dedicar ao romance.

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    • 15 de abril de 2025 em 21:31
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      Pois é, Andreia.
      Deixo-me levar pelo gosto pessoal. Não gostei – com exceção de “Fazenda Modelo”, lido lá pelos inícios dos anos 1980 – dos romances do Chico.
      Gosto muitíssimo do teatro e, claro, do trabalho dele como compositor.
      Há, entretanto, ressalvas minhas quanto a seus romances.
      Posso, claro, mudar de ideia – um dia!

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  • 15 de abril de 2025 em 19:05
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    Discão!!! Realmente uma das melhores intérpretes com um dos melhores compositores da nossa MPB.

    Agora, senti uma certa ironia ao comentar a faceta romancista do Chico. Certamente a magnitude de sua música ofusca sua literatura. Mas tem muito valor, não acha?

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    • 15 de abril de 2025 em 21:33
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      Não gosto dos romances de Chico, Remo.
      Acho-os chatos – o que não significa que mão possa mudar de ideia, no futuro.
      É apenas uma opinião.

      Sempre achei que há poucas chances de um grande poeta ser também um grande prosador. Há casos assim, mas sempre exceções.
      Chico não é, penso.

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  • 15 de abril de 2025 em 20:30
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    Olha, eu posso até estar enganado. Talvez gosto não se discuta, o que discordo. Porém, tenho para mim que gostar genuinamente das músicas de Chico Buarque é sinal de inteligência bem acima da média. Quanto a Bethânia, é uma intérprete genial mesmo.
    Abs!

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  • 15 de abril de 2025 em 20:45
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    Um texto que celebra a música e reconhece dois gigantes!!
    Adorei!

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  • 16 de abril de 2025 em 09:56
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    Excepcional artigo. Por uns instantes, poder respirar arte, voltar ao tempo, vivências de outrora e , de quebra , ferramenta para sobreviver”aos hojes”.
    Texto magnífico, Grijó! Gosto do Chico escritor tbem. Algumas obras mais outras menos, confesso não li todas! Mas, admiro!

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  • 16 de abril de 2025 em 10:34
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    Inacreditável encontrar um local com textos bem escritos e recente. Hoje em dia com as redes sociais as pessoas só querem consumir vídeos e coisas curtas.
    Parabéns! Sou professor também. Irei salvar seu site para retornar com frequência. Abraço.

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