Em conversa com amigos que apreciam cinema (talvez até mais do que eu), ouvi gritarem aos quatro ventos que Solaris, de Andrei Tarkovsky, era o mais bem acabado filme de ficção científica já feito. Eu vi Solaris em fita cassete, fim dos anos 1980, e achei um filmaço, mas meu voto, para indignação do grupo que me ouvia, era para O Dia em que a Terra Parou, de Robert Wise. Este sim, a melhor das ficções científicas. Não, não é aquela versão estapafúrdia com Keanu Reeves. É a película de 1951. De novo: é apenas uma opinião, sujeita a pedradas certeiras e a concordâncias improváveis. E arrisco mais: O Enigma de Andrômeda é a segunda melhor ficção-científica de todos os tempos. A propósito, também é de Robert Wise. Eis aí um diretor que é competente nessa seara, e é ainda melhor nos musicais. Regeu duas obras-primas no segmento: A Noviça Rebelde e Amor Sublime Amor, dois clássicos dos anos 1960, imortais, notáveis.

Isto sempre me impressionou em Robert Wise: a versatilidade, a capacidade de andar por caminhos variados – em muitos casos até opostos. Exemplo? Um indivíduo que dirige Marcado Pela Sarjeta, um filme sobre boxe e melancolia, é também capaz de dirigir Dois na Gangorra, uma bela história de amor, com certo toque de deboche? Se você acha que sim, assista aos dois filmes e tente unir os pontos comuns – se você os encontrar, claro. Robert Wise foi montador em Cidadão Kane, de Orson Welles, deu continuidade ao clássico Cat People, de Jacques Tourneur, A Maldição do Sangue de Pantera, fez o magnífico Quero Viver!, o excelente A Estrela e ainda filmou o clássico da literatura de terror As Duas Vidas de Audrey Rose, filmes tão distintos que nem sei como cabem na mesma postagem. Sim, sei: o diretor é o mesmo, claro.
Robert Wise nasceu e morreu no mês de setembro, com um intervalo de 91 anos. Nunca assisti a um filme seu de que não gostasse. Alguns mais; outros menos, mas todos eles com aquele prazer que nos faz atravessar o quotidiano e ele próprio nos faz lembrar de uma cena, de um diálogo, de uma canção. Sua versatilidade – ou sua capacidade de ser muitos sendo um só – deve ser sempre celebrada. Há outros diretores versáteis, que conseguem se equilibrar em diferentes temas e focar o mundo de distintas formas. Mas, quer saber? Falta o charme de Robert Wise. Quem chegou perto foi Robert Altman – mas este fica para depois.
Amigo, sinto por divergir da sua classificação. Na minha modestíssima opinião, 2001-Uma odisseia no espaço – é a maior obra de ficção que já assisti. Um filme dirigido e produzido por Stanley Kubrick, co-escrito pelo próprio Kubrick e Arthur Clarke e baseado no livro do próprio Arthur.
Sua grandiosidade está no pioneirismo na lida com os elementos temáticos da evolução humana, desde questões acerca do existencialismo, até a vida extraterrestre. Os textos de diálogos curtos foram preenchidos por uma trilha sonora e por uma sonoplastia notáveis que, ao lado de imagens ambíguas, dão ao filme uma atmosfera surreal. Destaco também a linguagem científica que desfila durante todo filme demonstrando o rigor e a pesquisa previa que garantiu o sucesso entre os iniciados em ciências e eme ficção científica.
Espero uma análise sua sobre essa obra, não no intuito de convencê-lo a mudar de opinião, mas na expectativa de ver suas apreciações que certamente serão mais interessantes que as minhas.
Heron, ter de escolher entre 2001 e O Dia em que a Terra Parou é um sofrimento. O que mais gosto no segundo é a história, a ideia pacifista, o pioneirismo em discutir a temática ambiental e a coragem de afirmar que o ser humano é um idiota por princípio e fim.
2001 é obra-prima. Só não é a obra-prima do Kubrick, para mim. Para essa classificação, fico com A Laranja Mecânica, mas isso é outro papo.
Concordo com suas justificativas para escolher 2001. É fenomenal, e também ousado. Trilha sonora do clássico ao eletrônico. Sensacional! Uma ironia com a IBM e com sua falta de controle sobre as máquinas. Isso sem contar a questão filosófica (o maior patrimônio do filme).
Mas ainda fico com O Dia em que a Terra Parou, do Wise.
Abraço e obrigado pelo comentário. Apareça mais vezes!
Isso sem falar nO Enigma de Andrômeda, o qual citei.