Um dos frequentadores do Ipsis Litteris disse que o blogue precisava de mais animação. Posso concordar com isso. Então, lá vai: no início dos anos 1990, quando eu dirigia – em companhia de meu amigo Talmon Jr. – um sebo fincado no coração da Ufes, num anexo da primeira versão do Cine Metrópolis, chegou-me às mãos uma fita VHS cujo título era When the Wind Blows, de um tal Jimmy Murakami, de quem eu nunca tinha ouvido falar. A cópia era ruim e sem legendas, mas a história, atualíssima, é de impressionar, principalmente porque os desenhos, de aparente ingenuidade, carregam uma força dramática intensa, mesmo que representem o modo de vida tranquilo de um casal inglês da área rural, cujo filho, já crescido, não vive com ele.
É um desenho pacifista – contrário a qualquer manifestação armamentista nuclear, além de ser uma história de amor, mais especificamente quando os efeitos da radioatividade começam a ser percebidos nos corpos dos personagens centrais. A forma como o casal lida com o horror atômico é simplista: pensam que as guerras são inevitáveis – daí, é melhor ficar em casa e assistir a elas. Eis a questão: expostos à radiação, experimentam o próprio declínio anatômico. Vão morrendo aos poucos, um diante do outro, e nada podem fazer – e isso inclui em não se desesperarem. É um filme pra lá de inquietante, perturbador.

Há um momento do filme em que, diante da terra devastada, a personagem feminina central, Hilda, preocupa-se com as possíveis visitas que poderiam chegar e encontrar a bagunça que a casa se tornou. A ingenuidade das personagens é o trunfo maior da história. É ela que, personificada, torna-se o antídoto para o horror e para a desgraça. A esperança de que o governo – no filme, como uma entidade quase sacrossanta – chegue a tempo de socorrê-los (como se isso fosse possível) é algo que não chega a ser patético (como querem alguns). É de uma tristeza dolorosa, amargurada, sem saída. O roteirista, Raymond Briggs – ele também autor do livro em que a animação se baseia -, acerta em cheio. O que pode ser feito contra o poder?

When The Wind Blows é uma produção inglesa de 1986. A trilha sonora traz Roger Waters, do Pink Floyd, e David Bowie – ambos promovendo a discussão sobre que futuro nos espera. Não deixe de assistir, se puder. AQUI o filme completo.
Já que o papo é filme perturbador e inquietante, sugiro a você – e aos seus leitores – que assista “Mãe!” de Darren Aronofsky (aquele mesmo do Cisne Negro), que está em cartaz no excelente Cine Jardins.
Sempre fico com um pé atrás em relação as obras cuja os seus respectivos autores fazem para sí, como acredito ser o caso deste filme. Mas vale a reflexão pós-filme a respeito do que se passou na película. O espaço reduzido onde se passa o filme sacrifica a fotografia, mas é um filme interessante, com boas metáforas, cenas perturbadoras e que leva alguns dias para digeri-las completamente. Ah, sem falar na estonteante Jennifer Lawrence, que já vale o ingresso.
Não só indico esse filme pelas cenas perturbadores, mas pela relação que a personagem da Lawrence tem com a Hilda, em que a personagem feminina também se encontra em uma terra danificada e vulnerável, mas a sua preocupação é apenas manter a casa em ordem – como toda Mãe que se preze. Vale a espiada o filme!
Grande abraço!
Devo assistir a ele neste fim de semana.
O que há de peculiar (e de perturbador) em “When the Wind Blows” é a ingenuidade do casal. Crer no governo e na humanidade é a derrocada total. Não há esperança, a não ser dentro de nós mesmos. Ninguém se importa.
Abração.
Awesome, como dizem os americanos!!!!!!!!
Parabéns!
Não achei no Youtube.
Não acho esse filme de jeito nenhum.
Já procurei em tudo quanto é streamin.