A melhor noite de 67

Nos últimos dias tenho falado a meus alunos sobre Tropicalismo, o movimento musical cujas características e personagens já foram abordados em questões do ENEM. Há pouco mais de um ano, aqui mesmo, neste blogue, escrevi sobre o assunto. Retomo-o, afirmando – e digo isso a meus alunos – que não se chega ao Tropicalismo sem passar pela Bossa Nova, pelo samba, pela Jovem Guarda, pelo rock e pela Antropofagia de Oswald de Andrade. E, claro, pelos festivais da canção, que apresentaram, em fins dos anos 1960, o que de melhor se produzia (e produziu) em termos de canção. Foram os festivais que nos proporcionaram conhecer Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil – e um sem-número de outros compositores que, hoje, habitam o panteão da música popular nacional. Abaixo, Caetano canta Alegria Alegria, acompanhado pelos Beat Boys.

Recomendo a eles que assistam ao documentário Uma Noite em 67. É possível assistir a ele, na íntegra, AQUI. Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, esse doc, de 2010, traz imagens inéditas não somente de cenas de palco, mas há algumas pérolas brotando dos bastidores do evento. Isso sem contar nos comentários, quase 50 anos depois, de gente que, de uma forma ou de outra, esteve envolvido no processo. Jurados, maestros, críticos e, claro, os compositores e cantores que se apresentaram nessa noite tão absolutamente singular. E ainda há a cena completa de Sérgio Ricardo quebrando o violão e arremessando-o para a plateia.

O livro é ainda melhor: traz as entrevistas completas com aqueles que estiveram no Teatro Paramount, local do Festival da Record, capitaneado por Paulo Machado de Carvalho (um dos entrevistados do livro). Aliás, é ele quem revela ter ido buscar Gilberto Gil no hotel, já que o compositor baiano recusava-se, dominado pelo pavor de um palco de festival, a apresentar sua obra-prima Domingo no Parque, que abocanhou o segundo prêmio e ainda serviu de embrião para o movimento tropicalista. Outro embrião é Alegria Alegria, de Caetano Veloso. Também revelou que Roberto Carlos (que não é entrevistado no livro) pediu para nunca mais participar de festivais.

O livro é tão saboroso quanto necessário. É um relatório, uma súmula do que foi o maior dos festivais. Depoimentos de Nelson Motta, Júlio Medaglia, Chico de Assis e Ferreira Gullar abrilhantam as páginas. É o documento de uma época em que os compositores tinham realmente que possuir talento para eternizar-se, e os 5 primeiros colocados (Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso e Roberto Carlos, em ordem decrescente) tinham isso de sobra. Eram os melhores naquele tempo e continuam os melhores atualmente, 51 anos depois. Quem pode lhes substituir?

Dirceu, que era baterista, toca berimbau. Gilberto Gil canta Domingo no Parque.

Roberto Carlos canta o samba Maria, Carnaval e Cinzas

Chico Buarque e sua Roda-Viva, acompanhado pelo MPB4

Marília Medalha, ao microfone, acompanhando Edu Lobo, ao violão. A campeã Ponteio é aclamada.

8 opiniões sobre “A melhor noite de 67”

  • 7 de outubro de 2018 em 21:46
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    Amenizando dias conturbados de rebuliço político com Arte, obrigado Professor!
    Estou lendo Chega de Saudade, de Ruy Castro, tô achando sensacional, escrita muito fluida e descontraída!
    Se pudesse elencar 5 livros indispensáveis sobre a história da música brasileira, quais seriam?

    Grande abraço!

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    • 8 de outubro de 2018 em 14:00
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      “Chega de Saudade” eu li quando saiu. Excelente. A continuação dele, “A Onda que se ergueu no Mar”, é ótimo tb.
      “Tropicália”, de Carlos Calado, é excelente.
      “História social da música popular brasileira”, do J. R. Tinhorão. Muito bom.
      Há um livro, do qual gostei muito, mas é um tanto acadêmico, chamado “Uma História do Samba”, de Lira Neto. Fala sobre as origens, da África até o Brasil.

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  • 9 de outubro de 2018 em 20:15
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    Ótimo norte para quem deseja conhecer! Atualmente os melhores colocados são minhas preferências na música. Também os considero insubstituíveis. Pelo que me parece, ao olhar o caminhar da música brasileira, continuarão a ser. Valeu, professor!

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    • 9 de outubro de 2018 em 22:54
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      Eis uma questão a ser discutida mesmo.
      Mesmo sem tecer comparações – não gosto muito delas -, quem pode realmente dar andamento ao processo? Quem seguirá o caminho e, ainda que mantenha a própria singularidade, pode nos brindar com produtos de qualidade inequívoca?
      Não vejo ninguém no horizonte. Quando esses senhores pararem de produzir, entraremos no vácuo.
      Abraço.

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  • 31 de outubro de 2018 em 21:11
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    Que artigo fantastico, como é bom voltar no tempo, mas ao mesmo tempo fico triste, como tudo mudou, hoje se dá valor para coisas supérfluas, e perdemos tanto com a falta de cultura existente nos dias de hoje.

    Que bom que ainda existem sites como esse, que preseva as raízes da cultura brasileira.

    Parabéns professor, certamente voltarei aqui mais vezes.

    Abraços.

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  • 9 de novembro de 2020 em 09:37
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    Assisti sua aula, prof, maravilhosa!!!!
    Parabéns!!!!!
    qual o melhor disco desta época, para o senhor?

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