Saudosista, sim!

Meu querido amigo, o excelente professor, dramaturgo e ator Murilo Goes leu a recente postagem em que falei sobre Chico Buarque e Rubem Fonseca. Chamou-me saudosista, pelo whatsapp. Ele tem razão, embora o tom que comumente usam para tal expressão seja depreciativo. Na verdade, no que diz respeito a minhas áreas de interesse – cinema, música e, claro, literatura –, mantenho-me nos séculos passados. Isso não implica, logicamente, que eu não possa reconhecer que a produção contemporânea seja vantajosa, necessária e, em alguns casos, bastante representativa.

Não tenho dúvidas de que, por exemplo, o cinema produzido há sessenta anos tenha muito mais qualidade, em todos os setores – exceto, claro, naqueles em que a computação mete o bedelho –, do que os filmes produzidos na última década. Refiro-me às atuações, ao roteiro, à trilha sonora e, evidentemente, ao desempenho de quem está por trás das câmeras. No caso, o diretor. Assisto a filmes criados no ventre dos anos 1950 – de qualquer nacionalidade, incluindo a brasileira – e não vislumbro nada que, atualmente, possa rivalizar com eles.

Incomoda-me ouvir um adolescente referir-se a filmes em preto e branco como matéria arqueológica, algo mesopotâmico, assírio. E quanto à música? Talvez isso seja mais evidente e menos questionável. Escolha o gênero: jazz, blues, erudita, rock, MPB, samba. Existe algo, produzido nos últimos trinta anos, que possa ombrear – rítmica, melódica e harmonicamente – com os grandes nomes do jazz ou da música erudita, do rock, da MPB, do blues? Duvido. E antes que me acusem, deixo claro que não falo de gosto musical, porque isso diz respeito à visão pessoal. Falo de técnica.

Faço um parágrafo para me dedicar a minha área: literatura. Não só a produzo como vivo dela, tentando mostrar a estudantes sua importância. J. L. Borges, o extraordinário escritor argentino, afirmava que somente os livros escritos há mais de cem anos deveriam ser lidos. Não discordo, embora isso pareça paradoxal – e é, afinal, a quem se destinará os livros que escrevo? Certifico-me, antes de tudo, e isso de certa forma funciona como álibi, que nada de novo nem de inovador foi escrito nos últimos trinta anos. É claro que, mesmo como álibi, essa afirmação não justifica a inferior qualidade dos textos atuais, quando comparados ao que foi escrito em séculos passados.

Sim, o que está registrado literariamente no passado é, sem mácula na afirmação, muito mais bem acabado e realizado do que o que se faz nos tempos atuais. Se alguém duvida, leia Balzac, Dostoievski, Twain, Eça, Verga, Machado, um de cada país. Há muitos, muitos outros, que me vêm, de imediato, ao pensamento como exemplos essenciais. De outra coisa estou certo: reconhecer-lhes a magnitude, e respeitá-la como base e subsídio, é o verdadeiro estímulo para que se continue a produzir aquilo que, um dia, a olhos pouco treinados, possa tornar-se saudosista.

8 opiniões sobre “Saudosista, sim!”

  • 9 de janeiro de 2020 em 22:50
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    Muito bom, Grijó. Só não é saudosista quem não tem passado. Como diz Fernando Arrabal, “a vida é memória e o homem é o acaso”. Gosto da frase em espanhol onde o acaso é azar.

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    • 22 de janeiro de 2020 em 12:32
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      “Só não é saudosista quem não tem passado”.
      Excelente apontamento !!
      Parabéns!!!

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  • 10 de janeiro de 2020 em 08:19
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    Achei curiosas as suas colocações e o conhecendo um pouco não me atrevo a questionar, até porque, salvaguardando a minha incapacidade limitada de análise, tendo a concordar com o seu ponto de vista.
    Agradeço por mais essa reflexão.

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  • 19 de janeiro de 2020 em 13:03
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    Acho que qq um pode sentir saudade do passado , mas não deve desprezar os tempos atuais.
    Tem muita coisa boa sendo produzida em muitos estilos, rap, samba, funk, música clássica.
    O mal de muita gente , espero que não seja o seu , é achar que só existe coisa boa nos tempos atrás.
    Erro, erro, 404, nada a ver.
    Dá uma olhada por aí e vai ver.
    Abrá!

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    • 22 de janeiro de 2020 em 08:40
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      Concordo. Há coisas boas no presente, incluindo a produção daqueles que, no passado, faziam coisas melhores.

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  • 22 de janeiro de 2020 em 08:50
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    “De outra coisa estou certo: reconhecer-lhes a magnitude, e respeitá-la como base e subsídio, é o verdadeiro estímulo para que se continue a produzir aquilo que, um dia, a olhos pouco treinados, possa tornar-se saudosista.” (Francisco Grijó)

    Bravo pelo brilhante texto, querido Professor!!! Brilhantismo que lhe é peculiar, aliás!!
    Texto perfeito e irretocável!!
    Em meu modo de ver, a iconoclastia pela mera iconoclastia como fim em si mesma constitui estultícia fruto das vaidades pessoais. Não é assim que se inova. Se as bases são desconstruídas, fica mais difícil reinventar e reconstruir. Pura tolice e falta de honestidade artístico-intelectual, em minha opinião. Mentalidade estreita, rasa, superficial, bitolada e nivelada por baixo. Querer fugir do trivial de qualquer jeito é “vale-tudismo” (como diria Paulo Freire). Tentar sair do óbvio desta forma configura uma contradição formal, pois acaba descambando na vulgaridade e na previsibilidade do outro extremo. Falta equilíbrio, justeza, nuances, sutileza, discrição e elegância. Grande exemplo do que deve ser feito (e de como deve ser feito – técnica significa “saber fazer” no grego), no meu ponto de vista, são as antológicas interpretações da célebre pianista brasileira Guiomar Novaes. Sempre atenta ao colorido dos matizes e à riqueza de detalhes, Guiomar quebra as expectativas de uma forma totalmente inusitada sem qualquer vício, afetação ou exagero. Ela surpreende de forna delicada e fina, sem qualquer traço de agressão ou arrogância. O objetivo não é “chocar” a qualquer custo, mas realmente dar verdadeira vazão à criatividade e à originalidade. Suas interpretações são únicas. Tamanha precisão e classe nunca dantes vistas (ou melhor, ouvidas). Ela sabia que para desenvolver é necessário respeitar a Tradição Musical (Prática Costumeira geral e reiterada tida como Bela e Verdadeira), bem como conversar com as condições apriorísticas da cultura. Para progredir é preciso saber dialogar e não ser extravagante demais, porque os radicalismos são perigosos (embora, por vezes, imperiosos). Fico muito triste ao ver os rumos da “arte” hodierna, mas isto é outro papo. Não obstante, creio num futuro melhor para o fazer artístico. Que bom que o senhor é saudosista sem ser nostálgico (sei que não o é, pois o conheço). O senhor é um visionário e está à frente do seu tempo.
    Seu texto é simplesmente perfeito e expressa com exatidão aquilo que penso!! Tenho muito orgulho de ter sido seu aluno.
    Um forte abraço do Andre Rosalém-Signorelli

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    • 22 de janeiro de 2020 em 13:36
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      André, agradeço o teor e a forma das suas palavras.
      Vc tocou no ponto que tento discutir com meus alunos, com meus amigos e com quem se dispõe a ler meu blogue.
      Valeu!

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