Há 535 anos nascia Henrique VIII, chefão do trono inglês por quase 4 décadas. Casou-se seis vezes, brigou com o Papa Clemente II e se tornou o manda-chuva da Igreja Anglicana, meteu a mão na grana do poder católico e reprimiu quem o contradizia — com a morte, inclusive. O sujeito não era fácil: para muitos, o pior caráter que já pisou em solo inglês. Pior até que o carniceiro Jack the ripper. Mencionei que ele teve seis esposas. Entre 1509 e 1547 — quando morreu —, teve também várias amantes: uma satiríase sem precedentes na história inglesa. Mas por que falo dele? Primeiro porque hoje é dia 28 de junho (seu nascimento), mas principalmente porque estou ouvindo The Six Wives of Henry VIII, do tecladista Rick Wakeman. Você pode ouvir AQUI, caso queira.
O disco é de 1973, pouco tempo depois de ter deixado as fileiras da banda de rock progressivo Yes. Aliás, a ideia progressiva foi mantida, com largos e intensos solos de teclado e uma bateria nervosa, como a do ótimo Alan White. E toneladas de sintetizadores fazendo a festa, sob a batuta de Mr. Wakeman. É um discaço, que teve origem na ideia de que cada esposa do monarca inglês era diferente uma da outra. O que tinham em comum: a cama, as ordens e a fúria de Henrique VIII. É um disco conceitual.
Diz-se que Rick Wakeman estudou cada uma delas: seus gostos, personalidades, medos, anseios, caracteres, corpo, voz. E fez o que quis com isso. De seu ponto de vista, encontrou nas mulheres e nos temas uma identidade própria, um retrato musical cheio de nuances rítmicas e melódicas. Todas as faixas são boas: para muita gente, é o melhor disco dele. Não sei dizer, mas me regozijo ao ouvi-lo desde a primeira vez, em 1976. É rock progressivo de primeiríssima, sem guitarras estridentes, e muito estilo.
Se Rick Wakeman ou Henry VIII tinham uma preferida, não sei. Eu aprecio, dentre as seis, Katherine Howard. A música, claro. AQUI você a ouve. O citado Alan White dá seu recado, como poucos bateristas no rock o fizeram. Se você, caro sexto ou sétimo leitor, não curte música mas gosta de filmes, aí vai: assista a A Outra, de Justin Chadwick. As belezuras Natalie Portman e Scarlett Johansson brilham ao lado de um Eric Bana meio sem jeito para o papel. É bonito demais para interpretar um rei rabugento, gordo e calvo. Eu ficaria bem melhor no papel.
Bônus: AQUI um texto que escrevi sobre Rick Wakeman e Liszt.
Bônus: AQUI você lê uma entrevista bacana, de 2024.
Conheço bem mais a fama de Wakeman do que seu trabalho. Conheço basicamente sua estreia no Yes, em Fragile. Acho muito pomposo. Ao contrário, gosto mais de guitarras do que de teclados. O grande tecladista de rock para mim é Jon Lord. A dupla Lord-Blackmore é insuperável. Abraços
John Lord é sensacional. Acho que a tríade do teclado no rock deve ser Wakeman-Lord-Emerson.
Os 3 ótimos, mas Wakeman foi adiante sozinho, coisa que os outros não conseguiram.
Ao menos não com tanto sucesso.
Eu tenho um certo trauma com Rick Wakeman. Em 1975 ele se apresentou em Porto Alegre, justo no dia do baile da minha formatura do científico (era assim na época). Não tinha como ir ao show. Mas o pior de tudo foi quando, passando na frente de um hotel, no centro da cidade, eis que surge na minha frente, imponente com seus cabelos compridos, ele, a quem já devotava amor desde os discos do YES. E já tinha o disco “The Six Wives of Henry VIII” e os do YES até então. Foi de cortar os pulsos. Guardo os discos dele (e todos os da época) como uma lembrança de que um dia cruzei com um gigante. Nunca mais me esqueci disso.
Um privilégio.
Ele esteve em Vitória, ES, em 1981. Deu um show um tanto ptotocolar, mas, mesmo assim, excelente.
Não tenho muitos discos dele: apenas os dos anos 1970.
Muito grato por esta postagem! Conheci e aprendi a gostar de Rick Wakeman graças a um colega de faculdade, Fabiano Carvalho, quem me apresentou ao artista.
São os verdadeiros amigos.