Phono 73: o que (ainda) há de melhor

Não sei se existe um festival, em terras brasileiras, que tenha sido mais representativo que o famoso Phono 73, realizado no Palácio de Convenções do Anhembi, em SP, nos dias 11, 12 e 13 de maio do referido ano. Quando digo mais representativo, claro que aludo ao fato de que, historicamente, essa reunião de grandes artistas influenciou gerações subsequentes, formou opiniões e apontou caminhos. A atual gravadora Universal chamava-se Phonogram, a multinacional holandesa que reunia grandes nomes da MPB, à época. Alguns eram mais conhecidos: Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Toquinho, Ronnie Von, Jair Rodrigues, Elis Regina, Vinicius de Moraes, Raul Seixas, Erasmo Carlos, Jorge Ben, Maria Bethânia, Wanderléa, Hermeto Paschoal e Wilson Simonal. Outros fariam história: Sérgio Sampaio, Luiz Melodia, Jorge Mautner e Odair José. Havia mais.

Imagem relacionadaNão se pode negar – nem se queria, acredito – que a tonalidade política do festival era clara. Em tempos de horror militar (no pós-apogeu do sangrento governo Médici), um aglomerado como esse não poderia ter outra denominação que não fosse reunião de comunistas. O diretor de marketing da empresa, Armando Pittigliani, sabia que tinha ouro nas mãos, mas reconhecia, naturalmente, o perigo explícito nesse tipo de evento. Uma de suas boas sacadas foi reunir todo o grupo numa grande fotografia em cujo pé se inscrevia: Só nos falta Roberto. É bom lembrar que Roberto Carlos recusou-se a participar – tinha seus motivos, e um deles era a aversão a contestações. O que, aliás, era o grande mote do festival. Uma contestação que ia da política à estética, passando pelo comportamento e pela linguagem.

Uma pena que o devedê dure tão pouco: mirrados 35 minutos, uma sobra do que foi o festival, mas, ainda assim, é o registro de imagens únicas, como as de Chico e Gil tentando entoar a emblemática canção Cálice, que só pôde ser gravada cinco anos depois, no famoso disco da samambaia, de Chico. Com os microfones cortados por ordens militares, Chico e Gil criam frases desconexas ao som da melodia. Outra imagem impressionante ficou por conta de Caetano Veloso: ao som de Asa Branca, ele dança como se estivesse possuído; depois se arremessa ao chão, grunhe e canta e geme.

Sérgio Sampaio, ao som de Eu quero é botar meu bloco na rua, simula um coito sexual com um parceiro imaginário. É um registro do que era a época: o desbunde que se misturava à atitude política. Gal canta Comadre Sebastiana; Toquinho, Vinícius e o copo entoam Meu pai Oxalá. Elis Regina foi vaiada – embora não se ouçam as vaias – por conta de ter, anteriormente, se apresentado nas Olimpíadas do Exército. Apesar disso, cantou Cabaré, de João Bosco e Aldir Blanc, e terminou ovacionada e perdoada por um público que reconhecia nela a maior cantora. O áudio digitalizado desse festival teve lançamento anterior: em 1997. As imagens, entretanto, não estavam disponíveis até 2005, quando foi lançada a caixa com os cedês e com o devedê. O título completo da obra é Phono 73 – O canto de um povo. Não sei se o povo teve algo a ver com aquilo, mas deveria ter tido.

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AQUI você assiste ao que existe de registro desse grande encontro.

AQUI e AQUI você ouve o disco duplo.

11 opiniões sobre “Phono 73: o que (ainda) há de melhor”

  • 9 de outubro de 2017 em 15:59
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    O registro em vídeo é antológico. Cálice é uma joia de Gil e Mr. Buarque, de um tempo em que este estava no auge.

    A irreverência de Caetano é um show à parte. Cada segundo possui seu valor.

    Olha, bastasse o primeira nota, eu perdoaria Elis em qualquer hipótese.

    Fico nostálgico por um tempo que não vivi. Dizem que isso é uma espécie de patologia. Vai saber.

    Valeu o post, Grijó. Um abraço!

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    • 9 de outubro de 2017 em 22:05
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      Em 1973 eu tinha 11 anos. Não me interessava pelo assunto porque, além de ser um menino, não gostava de música. Em bom português: também sou nostálgico sobre uma época que não vivi.
      Comecei a apreciar MPB em 1978, por conta de minha prima, fã de Chico Buarque. Desde então não parei mais. Chico me levou a Caetano, a Gil et alli.
      Devo isso a ele.
      De Francisco para Francisco.

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  • 9 de outubro de 2017 em 16:42
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    Realmente uma joia, principalmente quando se comparado à produção de músicos brasileiros atuais, cujas escolhas pessoais (como opção sexual) parecem predominar sobre a qualidade musical – vide algumas coisas que não ouvi e já sei que não gosto , como um tal de Lineker e outro chamado Pablo Vittar.
    Só de ter Elis Regina, Chico Buarque, Gilberto Gil e Toquinho já vale a pena. Aliás, “Cabaré” é uma das minhas gravações prediletas da Pimentinha.
    Sergio Sampaio e o sempre histriônico Caetano Veloso são dois que tenho muitas reservas. Não vi o DVD mas imagino que a cena descrita acima não seja das mais belas.
    Só lamento que muitos destes que, bravamente combateram pacificamente a ditadura militar (bem diferente de terroristas que assassinaram e sequestraram em nome da fictícia causa) e foram vitoriosos após 21 anos, continuem a apoiar ditaduras muito mais longevas e sanguinárias, como a dos Castro em Cuba. Um paradoxo inexplicável.

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    • 9 de outubro de 2017 em 22:02
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      Tálib, meu caro, Não deixe de assistir ao devedê – assim que puder.
      Sérgio Sampaio é um craque, um herdeiro dos grandes letristas, um artista de primeira linha pós-tropicalista.
      Merece atenção.

      Caetano, para mim, está numa outra categoria: a dos gênios que, culturalmente, colaboraram para que um país como o Brasil tenha coisas boas de se ver e ouvir. Ele, Gil, Chico, Edu Lobo, Toquinho, Vinicius, Vandré e, um pouco depois, Sampaio, Macalé, Walter Franco.

      Desses citados, poucos confrontaram o regime com canções. Chico e Vandré, creio. Isso não desmerece os outros. Não sei exatamente como se combate a ditadura “pacificamente”, não sei o que isso quer dizer. Sério.

      Imagino que vc esteja falando de Chico Buarque quando menciona o apoio a Cuba. Acho que vc tem razão, mas penso que Chico veja a Ilha de uma forma como não vejo (nunca estive lá, e as informações que nos chegam são quase sempre antagônicas). Enfim, não sei se é esse reduto satânico que a mídia ianque e reacionária diz que é. Nem que é esse paraíso que boa parte dos atletas cubanos dizem viver.

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      • 10 de outubro de 2017 em 14:20
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        Grijó,
        Assistirei sim. Pode pensar que não, mas levo em consideração quando um amigo de gosto apurado como você me aconselha. Sobretudo para conhecer um pouco melhor Sergio Sampaio que, confesso, conheço pouco, justamente por não ter me empolgado muito com o pouco que conheci.
        Quanto a Caetano, realmente não gosto – e, modéstia à parte – conheço bastante. Na minha opinião, ele é valorizado além do que merece. “Leãozinho” e coisas como “avesso do avesso do avesso” não me descem. Fora que o considero afetado e exagerado musicalmente falando. As tentativas de vibrato dele são irritantes.
        Senti falta de um gigante nesse meio todo aí que você disse – que não sei se compareceu ao show, mas vi um desenho que se assemelha a ele – Paulinho da Viola.
        Só por Paulinho da Viola você já percebe que não valorizo alguém pelas letras serem combatentes ou não.
        Combater pacificamente uma ditadura (e olha que nesta ditadura funcionavam muitas coisas críticas do regime) foi o que fizeram diversos artistas e políticos como Paulo Brossard, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, entre outros. Bem diferente do que faziam ALN, MR-8, VAR-Palmares, entre outros, matando e sequestrando – não para para combater uma ditadura, mas para implantar outra. Tanto, que os pacifistas (e , mesmo assim, combatentes) saíram vitoriosos no final das contas.
        Quanto a Cuba, um conselho: não siga mídia nenhuma muito menos atletas. Apegue-se aos fatos. Nenhum regime cujo “presidente” ficou no poder desde 1959 e, ao não ter mais condições, passa a liderança para seu irmão, como quem passa o controle de uma fazenda humana, pode ser chamado democracia. Se Cuba fosse um bom lugar para se viver não haveria tanta gente arriscando a vida para chegar ao sempre tão mal falado Estados Unidos (o país que me orgulho de ter conhecido e admiro, uma potência econômica e cultural jamais vista e que a turma daqui – invejosa e recalcada até a medula – acha bonito demonizar). Fico só nestes dois aspectos para não prolongar muito o assunto – e sei que muito do que falei você deve pensar igual – ou só o jazz não bastaria para fulminar todo bando de idiotas que acha o americano médio burro?
        É essa desonestidade intelectual de Chico Buarque, Grijó, que não aceito. Combateu ditadura aqui, mas aceita a de lá. Essa é minha mágoa com ele. Um artista da envergadura de Chico Buarque não poderia – ou não deveria – ser hipócrita a esse ponto. Pimenta nos olhos dos outros é refresco?

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        • 10 de outubro de 2017 em 21:36
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          Já passei da idade, Tálib, de me deixar levar por mídias.
          Por isso disse que, não conhecendo o reduto, não ouso fazer afirmações. Meu contato com Cuba se dá pela literatura (uma das melhores do mundo), pelo cinema (um dos melhores da América), pelo boxe (é potência em todos os pesos) e pela medicina (fui atendido por um médico cubano que, além de me ajudar, travou comigo um bom papo sobre a Cinemateca de Cuba, na qual o pai dele trabalhou).

          E, claro, pelo maravilhoso tabaco.

          A política deixo de lado, mas entendo que a política cultural cubana é imensamente superior a qualquer política cultural latino-americana. E olhe que México e Argentina são respeitáveis!

          Acho Caetano genial. Já disse isso. Conheço muitos detratores dele (incluindo vc) e respeito-os porque os juízos passam pela subjetividade. é preciso respeitar as opiniões. No que diz respeito à técnica textual, aí, a coisa pega. Torna-se algo estrutural, passível de análise, de debates que passam longe da pessoalidade.
          Aí ninguém segura o baiano!
          Chico e Gil são páreos. às vezes são melhores; às vezes, não.
          Paulinho da viola elevou o samba a patamares elitizados. No bom sentido. É o melhor de sua geração.

          Quanto à honestidade intelectual de Chico, bem, ele tem razões de sobra para considerar Cuba um lugar melhor que o Brasil, à época.
          Abraço, meu caro.
          E obrigado pelos seus comentários. Eles valorizam este humilde blogue.

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          • 11 de outubro de 2017 em 11:07
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            Bom…não me arrisco a discutir estrutura textual com você. Não gosto de Caetano e de suas músicas. Texto, prefiro entender o que um médico entende. Sou doido mas não louco.
            Agora, Grijó, em momento algum questionei o povo cubano. A cultura, e o esporte em especial. Meu questionamento é outro -o governo. É um governo ditatorial que mantém um povo sob pressão sem liberdade de contestação e ainda com presos políticos. Uma vergonha. E lógico que me arrisco a falar sem conhecer o reduto. As evidências são muito fartas – nunca me deixei levar pela mídia “ianque” como você disse. E se já não encontrava razões à época para o apoio à ditadura cubana, quiçá agora que o excelente compositor- insisto – mantém tal apoio. Quanto ao blog, aprendo muito mais que acrescento. Agora…a Medicina cubana está muito mas muito longe da beleza que pregam dela. Falo com conhecimento da causa do dia a dia do que pego nos locais em que trabalho

          • 11 de outubro de 2017 em 13:46
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            Creio que sim. Sei que a medicina cubana tem avanços mas também tem problemas. De grana, principalmente.
            Abra seu coração para Caetano, rapaz…hahaha.
            Grande abraço.

  • 9 de abril de 2018 em 15:22
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    eu vi este dvd, é maravilhoso, sérgio sampaio dando um show.
    parabéns pelo blog inteligente.

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  • 3 de agosto de 2023 em 14:51
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    E quando Elis cantou na Olimpíada do exército?

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  • 18 de agosto de 2023 em 18:29
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    Ainda falta na biografia de Elis uma explicação do porque ela cantou nas olimpíadas do exército.
    Ainda mais na época…

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