O Grande Musical

🥇 Voir film Amor, Sublime Amor 1961 en Streaming - Dublado e ...Se você se der o trabalho de, ao entrar neste blogue, olhar, à direita, encontrará um widget nomeado filme do mês. Neste 1º de maio, dia do trabalhador, em vez de escolher filmes como Novecento, de Bertolluci, ou A Classe Operária vai ao Paraíso, de Elio Petri, ou ainda Eles Não Usam Black-tie, de Leon Hirszman, preferi colocar West Side Story, dirigido por Robert Wise. Para mim, o melhor musical já feito. Pois é: nada tem a ver com a data tão significativa. Mas vou adiante: quem ainda assiste a musicais?

Fiz essa pergunta a alguns amigos. A maioria não só não assiste a musicais como não gosta deles. Alguns se lembraram de Grease, mas foi só. Questionei: e Hair, O Baile, Moulin Rouge? Não somos tão velhos, disseram. Eu, ao longo de minhas centenas de anos, cheguei a escrever sobre um ótimo musical: Robin Hood de Chicago. Além de ótimas cenas hilárias, conta com 3 dos mais importantes cantores populares dos Estados Unidos: Sammy Davis, Jr, Frank Sinatra e Bing Crosby. Pode conferir, AQUI. E quanto a West Side Story, que, por aqui, foi traduzido como Amor Sublime Amor? Resumindo: Romeu e Julieta no século XX; duas gangues rivais na Upper West Side de NY dos anos 1960: os Sharks, porto-riquenhos como os Capuleti, e os Jets, anglo-saxões como os Montecchi. 

A história de amor proibido você conhece. A tragédia que se anuncia também. Como o extraordinário musical que é, as coreografias são, por isso, tão extraordinárias quanto. Duas delas merecem estar no panteão das grandes imagens de Hollywood. A cena de abertura tem nove minutos. Sim, você precisa gostar muito de musicais. E deste blogue também. Confira, se tiver paciência!

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E, claro, a minha preferida, America, em que o grupo de imigrantes de Porto Rico se divide entre atacar e defender o american way of life, bem como vencer as dificuldades de ser estrangeiro num país que olha somente e sempre para si mesmo. A mulher de roxo, sensualíssima, chama-se Rita Moreno e, no apogeu de sua beleza balzaquiana, tornou-se inesquecível. Ao menos para mim. No filme ela é Anita, namorada de Bernardo, interpretado por George Shakiris (terno preto e camisa lilás). Uma cena bem-humorada, uma crítica aos EUA, um espetáculo visual. Tem 4 minutos e meio: metade da cena anterior. O filme ganhou 10 Oscars. Não sei se isso quer dizer muito, para você. Disto eu sei: essas duas cenas escolhidas significam muito para mim.

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Mulheres #4: Ava Gardner

Ruy Castro, em seu interessante livro Saudades do Século XX, aponta – próprio juízo – algumas figuras (ligadas à arte) que ele considera fundamentais para que o século passado tenha tido a cara que teve. Dashiell Hammett, Frank Sinatra, Mae West e outros compõem a lista. Ao escrever sobre Sinatra, obrigou-se a falar sobre as relações amorosas conturbadas que povoaram sua biografia: da insípida Mia Farrow ao vulcão ativo chamado Ava Gardner. Ei-la:

Daí me veio a ideia de escrever, na primeira postagem do ano, sobre esta última, a quem Jean Cocteau, o célebre diretor-poeta-escultor-dramaturgo-cenógrafo-ator-pintor, chamou de o mais belo animal do mundo. E é possível que estivesse certo. Todo superlativo, como qualquer professor de gramática sabe, carrega em si o grau da comparação. Claro que Ava Gardner competia, em sua época, com outros animais de estirpe nobre: Cyd Charisse, Hedy Lamarr, Kim Novak, Lauren Bacall, Betty Grable e Marilyn Monroe. Sem contar as europeias (algumas em começo de carreira e no frescor de sua beleza) Anita Ekberg, Anouk Aimée, Silvana Mangano e Ingrid Bergman. Um seleção que faria um adolescente normal tomar banhos intermináveis.

Sua biografia é longa, mas pode ser resumida: fez mais de 60 filmes, não ganhou Oscar, casou-se três vezes – com o ator Mickey Rooney, com clarinetista e regente Artie Shaw e, por último, com Frank Sinatra, cujo relacionamento foi marcado por ciúmes (dele) e por três abortos. Era amiga de Hemingway, em cuja casa cubana se hospedou e na qual tomava banhos de piscina, nua, enlouquecendo o velho escritor suicida. Também em Cuba – já no país revolucionário –, conheceu Fidel e, se tivesse tido vontade, teria transformado o barbudo líder num pracinha babão. Mudou-se para a Europa – amava a Espanha e Londres – e por lá ficou, numa saudável e espontânea clausura, até morrer em 1990, um ano após ter tido um derrame.

Mas o assunto deste texto é a beleza luminosa de Ava Gardner – e não sua vida fogosa. Dia desses, ao (re)assistir a O Aviador, de Martin Scorsese, deparei-me com a bela Kate Beckinsale fazendo as vezes de Ava. Injustiça, a meu ver. Mas fica a pergunta: que mulher poderia impor na tela a refulgência e a beleza magnética da mais bela de todas as atrizes do cinema?

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Vendo (do verbo ver) um musical

Agora me diga: além de ser uma comédia de primeiríssima, que outro filme pode reunir três dos maiores cantores norte-americanos – Frank Sinatra, Bing Crosby e Sammy Davis, Jr. -, e ainda, de quebra, apresentar a voz firme de Dean Martin, o charme cínico de Peter Falk e a beleza exuberante de Barbara Rush? Pois se você apostou em Onze Homens e um Segredo, clássico de 1960, errou,  porque Mr. Crosby não estava nele, e a mocinha do filme é a deliciosa Angie Dickinson – que ainda perde para Barbara por alguns corpos de distância. O filme em questão é Robin Hood de Chicago, uma comédia musical dirigida por Gordon Douglas, feita há 53 anos. Mas porque ressuscitá-la? Primeiro porque revi ontem, domingo pós-Enem, no canal pago TCM. E também – principalmente – pelos motivos apresentados no início da postagem.

Eu gosto de musicais, essa invenção dos ianques, que representam uma era, um determinado momento estético em que tudo parecia dar certo, da música à coreografia, passando pelos cenários e pelos temas – quase sempre encharcados de uma ingenuidade sedutora, alegre. As produções grandiosas, as orquestrações e arranjos afinados, a excelência das canções – cujos compositores (ao menos  maioria) estão entre o que há de melhor na música popular do século passado – e, claro, a combinação de tudo isso aliada a histórias que não são esquecidas facilmente. E, para finalizar: musicais me proporcionaram conhecer Cyd Charisse. Quem é? Esta AQUI, num outro musical que não se encaixa na postagem.

À parte o fato de que três membros do temido Rat Pack – o quarteto formado pelos hedonistas Sinatra, Sammy Davis, Dean Martin + Peter Lawford -, o filme sobrevive por duas razões: é uma comédia atemporal, embora seu ambiente sejam os norte-americanos anos 30, e a história intertextualiza com uma das imortais lendas da literatura: o mito de Robin Hood e seu bando. Esses dois motivos já valeriam o ingresso. Mas há duas passagens que constam de qualquer lista de grandes cenas do cinema cômico: numa delas, AQUI, Sammy Davis, Jr. canta e dança e sapateia o tema Bang Bang. Numa OUTRA, os já citados senhores simulam um culto religioso no qual excomungam o energúmeno álcool. A música se chama Mr. Booze.  Se tiver tempo, deixe rolar e assista. Antológicas!

Escrevi, há poucas semanas, sobre La La Land, musical oscarizado, homenagem ao jazz. Não sei se o sucesso do filme criará uma onda que fará brotar novos filmes do gênero. Não creio. A meninada não aprecia muito. Quer ação, fantasia, heróis da Marvel. Eu, um tanto resignado, volto no tempo por conta desses canais de tevê, que enchem meu coração de alegria e me torna um romântico temporário. Por isso fico imaginando um musical com os quatro grandes mencionados + Tony Bennett, Nat King Cole, Johnny Hartman e Louis Armstrong. Um show e tanto, com o qual ficaria difícil rivalizar. Faltou alguém? Ah, sim, Elvis Presley. Bons sonhos, então, Grijó!

Mulheres #1:Marilyn, 55 anos depois

Há 55 anos Marilyn Monroe morreu. Possivelmente o maior ícone feminino do século que passou – e um dos mais relevantes da História. Quem rivaliza com ela? Cleópatra, Lucrecia Borgia, Maria Madalena, Joana D’Arc.? Calma, não falo de relevância política, social, humana. Falo de popularidade, e muita gente pode afirmar que o cinema, sendo ele o habitat de Marilyn, tenha facilitado a difusão de sua imagem. Claro que facilitou – e daí? Continua sendo um ícone incontestável. Não tinha tantos recursos dramáticos, é bem verdade, mas não era esse seu papel. Não se ia ao cinema para ver e avaliar a capacidade dramática de Marilyn Monroe, mas o que ela possuía de transbordante e fundamental: charme, beleza, sensualidade, tesão. Quer saber, sinceramente? Sendo ela quem era, por que se preocupar com atividades secundárias como atuar e decorar falas?

Billy Wilder, diretor com quem trabalhou na melhor comédia de todos os tempos, Quanto Mais Quente Melhor, em 1959, dizia que fazer Marilyn atuar era como extrair um dente. Não devia ser fácil mesmo, já que a moça possivelmente sabia que sua canastrice não interferia nas reações que provocava em qualquer ser humano com quem convivesse – homens e mulheres. Era um vulcão eruptivo 24 horas por dia, e essa afirmação pode ser interpretada tanto positiva quanto negativamente. O craque do beisebol Joe DiMaggio e o escritor Arthur Miller, dois de seus maridos – cada um a seu tempo, evidentemente -, concordavam nesse ponto. Não foram capazes de controlá-la, de lhe colocar moldes. Tentaram amansar seu comportamento e, ainda bem, foram absolutamente incompetentes na empreitada.

Dizem que se envolveu com homens errados, algo que lhe trouxe consequências tenebrosas: desde perseguição e tortura psicológica a frustrações de ordem sexual e afetiva. A imprensa, como acontece a qualquer estrela, esperava pelo deslize, e amplificava-o de tal sorte que não havia como questionar a veracidade do exagero. Marilyn Monroe sofreu com isso, e não soube se defender. Não havia, também, quem a defendesse, quem fosse capaz de enxergar o ser humano frágil vestido com a carapaça da deusa imortal, bela como se desenhada.

55 anos depois, Marilyn Monroe continua por aí. Comenta-se sobre ela como se ainda estivesse entre aqueles que nem a conheceram, que não assistiram a seus filmes, que não sabem que o pecado mora ao lado, que ignoram a preferência dos homens pelas louras ou que nunca ouviram dizer que os diamantes são os melhores amigos das mulheres. Marilyn ficou para sempre, no imaginário, na fantasia, nos filmes que se repetem à exaustão – não à exaustão daqueles que compreendem o que significam o mito e sua perpetuação. 55 anos depois, mesmo tendo minha idade (meu nascimento se deu quatro meses antes de sua morte), Marilyn Monroe continua sendo quem nunca deixou de ser.