Jesus, humor e pernas que regeneram

Assisti ao filme A Primeira Tentação de Cristo, do grupo humorístico Porta dos Fundos. Eu já havia assistido a Se beber, não Ceie, do mesmo time. Este último não é grande coisa: algumas das piadas são previsíveis (algo que é mortal para o gênero) e Fábio Porchat é bem chatinho – ao menos no papel de Jesus entupido de goró. NA Primeira Tentação… ele está ótimo, não somente como homossexual , mas principalmente como Satanás: o que, para muita gente, é a mesma coisa. Mas não é exatamente sobre o filme que quero falar, e sim sobre a reação de muitos religiosos sobre algo cujo objetivo é apenas fazer rir, penso eu.

Um amigo narrou-me o fato: numa de suas madrugadas, insone, deparou-se com um televangelista de chapéu de cowboy, que, calmamente, afirmava a seu público uma propriedade que até hoje não vi num mamífero. Ele dizia que, quando marinheiro, fora vítima de um naufrágio, e, à deriva, no mar, um tubarão havia-lhe devorado uma das pernas. Deus, em sua misericórdia, fez a perna crescer de novo. Ainda segundo meu amigo, o tal pastor falava e uma turba de fiéis dava-lhe atenção como se estivesse diante do Nazareno em pessoa. Indignei-me com este absurdo: o uso da fé sobre pessoas que lamentavelmente não têm instrução necessária para saber a diferença entre um homem e um anelídeo. O que fez meu amigo? Em vez de atirar pedras no pastor ou na sua igreja, mudou de canal. Mas, e se pudesse atirar?

A produtora do Porta dos Fundos foi vítima da violência e da intolerância: coquetéis molotov foram lançados contra seus aposentos. Muita gente se sentiu ofendida – e com razão, se se levar em conta que sentir-se ofendido é algo subjetivo. Cada um sabe como lidar com a própria fé, seja elevando-a ao patamar de prioridade, seja mantendo com ela uma relação, digamos, mais amena, com menos fervor. Sentir-se ofendido dá direito à forra? Em minha opinião, sim, mas não posso afirmar que a produtora do Porta dos Fundos tenha dirigido o média metragem a um determinado grupo, ou a uma pessoa específica. Por exemplo, ao pastor da perna regenerada. Duvido! De modo que o mais eficaz protesto contra o filme é não assistir a ele. Pode-se, por exemplo, cancelar a assinatura da Netflix. Alguns têm dito que o fizeram.

Há coisa pior na tevê do que fazer piada sobre a fé. Fazer uso dela para enganar o próximo – principalmente quando esse próximo é desprovido de senso crítico – é algo que, a mim, parece ser mais nocivo. A simonia, uma prática medieval que consiste em comercializar a fé, deve ser avaliada como algo atualíssimo, na ordem do dia. Há muito mais gente honesta que desonesta no meio religioso – disso não tenho dúvidas, mas como se portar diante de um líder religioso que consegue, por meio da fé, vender seus produtos e, após a venda, garantir ao comprador um cantinho no Paraíso?

De volta ao filme: minha pergunta é simples: por que um Jesus gay ofende tanto? Um Jesus fornicador, agiota, bandalho, corrupto, bêbado seria menos deletério? O problema não é o humor em si, não é a piada, mas a questão sexual: um Jesus gay ofende mais – ponto final. Sexualizar a Santidade é perigoso. E contra essa postura – perdoem-me o trocadilho – até os deuses lutam em vão. Ainda penso que o debate é necessário, não necessariamente para que se chegue a uma conclusão, mas para que se possa pensar criticamente num assunto que quase sempre está imune à dialética. Eu, católico, achei o filme engraçado, boas tiradas, diálogos ligeiros. Enfim, há gosto para tudo. Intolerância também.

Mulheres #7: Monica Bellucci

Monica Bellucci é a mais bela atriz do cinema italiano – e ponto. Não é pouco, já que compete com Claudia Cardinale, Gina Lollobrigida, Ornella Muti, Stephania Sandrelli, Monica Vitti, Pier Angeli e Silvana Mangano. A briga é duríssima quando Sophia Loren entra no certame, mas ainda acho que Monica Belluci leva vantagem. É a morenice absoluta, de olhos acesos e perfeitíssima combinação entre nariz, boca e zigomas. Se existe algo em seu rosto que pode beirar a imperfeição, mostre a este cego que escreve.

Vi Monica Bellucci pela primeira vez no ótimo (e triste) Malena, de Giuseppe Tornatore, filme de 2001. Nele, a beleza é algo condenável, é uma maldição que transforma a plástica irresistível em alvo da truculência e do horror. Malena, a personagem vivida por Monica, é a viúva que se torna objeto de desejo de um adolescente. Sua beleza é sobrenatural, tentadora, definitiva. Os homens a cobiçam – e suas esposas dão o troco, mas não neles, e sim na bela cuja beleza os provoca. É um filmaço!

Monica Bellucci nasceu há 54 anos. Continua estonteantemente bonita – o que, teoricamente, para quem foi modelo durante muitos anos, não é tão difícil. Na prática, é. A intimidade com a câmera fotográfica facilitou o contato com o cinema que, em primeira instância, é fotografia. Sem dificuldades para contracenar, teve a primeira oportunidade como uma gostosíssima vampira ronronando para o noivo Drácula, de Stoker-Coppola. Depois disso, Malena e, mais tarde, o terrível e assustador Irreversível, de Gaspar Noé, em que sua beleza é maculada pela violência.

Monica foi Cleópatra, foi a beijoqueira em Matrix Reloaded, foi a Rainha do Espelho nas histórias dos irmãos Grimm. Foi Maria Madalena, a mulher que mais se aproximou de Jesus. O cinema retirou-a do nicho das modelos fotográficas e espalhou sua privilegiadíssima estampa para além das páginas impressas e dos convescotes de moda ao redor do mundo. Quem gosta de cinema e tem bom gosto agradece.

Desafio do IPSIS

O IPSIS LITTERIS (dessa vez em maiúsculas) comemora sua 100ª postagem. Até o momento, após 16 meses de vida, foram mais de 16.600 visualizações e 485 comentários. É muito, se considerar que este blogue não versa sobre maquiagem, fofocas da tevê ou qualquer temática adolescente. Num mundo onde as imagens predominam, este blogue vai na contramão, privilegiando textos. Quem ainda se importa com leitura? Pois é.

Comemorando a tal 100ª postagem, aí vai o DESAFIO DO IPSIS. 3 perguntas. Quem acertar as 3 respostas – é necessário que sejam as 3! – ganhará um dos prêmios abaixo, a escolher: o disco Caravanas, de Chico Buarque, 3 livros de minha autoria, o blu-ray de 2001, Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick. Escolha UM deles, mas primeiro acerte as perguntas!

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DESAFIO 1

“Hábil entre os hábeis, Elia Kazan sabe que até a abjeção se pode fazer sedutora, que a mentira e o ódio podem ganhar adesão e alimentar entusiasmo, que todos os arranjos são possíveis, especialmente os piores. A sua inteligência de homem de cinema é tão profunda que da sua confusão moral nada escapa ao encantamento da sua encenação, como se tudo aquilo que ele não pudesse ocultar servisse de matéria a um lirismo salvador.”

Quem disse isso?

DESAFIO 2

O senhor abaixo é um dos bons poetas do continente americano. Artista iconoclasta, fez os beatniks norte-americanos e poetas marginais brasileiros parecerem articuladores adolescentes, com espinhas no rosto. Quem é ele?

DESAFIO 3

A música brasileira deve muito a esses senhores e senhoras abaixo. Dos OITO componentes da foto, identifique pelo menos CINCO.

 

Vem dançar, Pierre Dulaine!

DIÁRIO BRASIL DIGITAL®: "Vem Dançar", com BanderasTenho trabalhado – por opção – mais do que mereço. Sobra-me pouco tempo para uma atividade absolutamente essencial a um escritor: escrever. Enquanto me aventuro na pesquisa para andamento de um novo romance, uso algumas pausas para assistir a filmes – de preferência na companhia familiar. Aliás, vou mencionar família neste texto. É só esperar. Antes, porém, falo de Antonio Banderas, o ator espanhol. Mas por que falo nele, se, até onde sei, ele não é meu parente?

Banderas estrelou um filme intitulado Vem Dançar (Take the Lead, no original), uma espécie de Ao Mestre com Amor – clássico dos anos 60, com Sidney Poitier – com as agruras do hip hop. Antonio Banderas é um  professor de dança de salão que quer ensinar a garotos de uma escola pública algo que para eles inexiste: vida inteligente fora do rap e da dança hip hop. Não é um grande filme, mas chamou-me a atenção uma das cenas iniciais, que revela o encontro do professor (a personagem chama-se Pierre Dulaine) com a alunada. Nela, Banderas liga um aparelho de som e dele sai a extraordinária voz de Sarah Vaughan cantando They Can’t Take That Away from Me, dos irmãos Gershwin, um clássico do jazz interpretado de forma grandiosa, sublime.

Os garotos protestam com a arrogância veemente da adolescência, como se a canção fosse, na verdade, um discurso de Joseph Goebbels. É uma cena grotesca: os alunos ameaçam deixar a sala de aula, e só se mantêm nela quando o professor desliga o aparelho. Não querem saber de Sarah Vaughan. Ignoram quem são Ella Fitzgerald, Carmen McRae, Rosemary Clooney, Dinah Washington, Julie London. Não se interessam por Harold Arlen, pelos irmãos Gershwin, por Cole Porter, Irving Berlin, grandes nomes da canção em qualquer época. Querem contato, de fato, com os rappers que, de forma contundente ou não, num discurso verdadeiro ou convenientemente ensaiado, falam sobre periferia, sobre diferenças raciais, sobre os dissabores da condição em que vivem. Isso não se discute. O que me incomoda – e incomodou também o professor dançarino – é  rejeitarem aquilo que não conhecem.

Ritmo e Sedução filme - Veja onde assistir

Qual a função, então, de um professor – de dança ou de qualquer outra disciplina? Criticar seu aluno por ele desconhecer o que tem qualidade e, assim, aumentar a distância entre ele e seu pupilo? Não creio que seja essa a saída. Sempre acreditei que a obrigação de um professor – de qualquer área, mas aqueles que ministram aulas na seara de Humanidades têm mais chances de realizar isso – é apresentar ao aluno alternativas que permitam as escolhas, que proporcionem a eles a oportunidade de conhecer as opções. Apresentar música, literatura, cinema, arte em geral, de boa qualidade, é tarefa obrigatória.

Sinceramente? Sempre cri que um professor precisa habitar um mundo diferente daquele que seu aluno frequenta, embora deva reconhecer os cacoetes, as características e as contradições desse mundo, que não lhe é – e nem deve ser – alheio. Um professor, penso eu, pode (e deve) saber que existem, por exemplo, Thaíde, Ludmilla, Emicida e outras criaturas, mas é fundamental que conheça (e reconheça) a importância de Villa-Lobos, de Pixinguinha, de Lamartine Babo, de Chico Buarque. E apresentar esses artistas, de forma honesta e bem fundamentada, é seu ofício. E a família, onde entra? Bem, é ela que vai dar o primeiro passo. Sem ela, sem seu aval e cumplicidade, não há professor que possa, verdadeiramente, efetivar qualquer mudança. Vá em frente, Pierre Dulaine!

Mulheres #6: Raquel Welch

Raquel Welch foi o tesão de pelo menos 2 gerações – e uma delas foi a minha, embora sua beleza refulgente tivesse impactado a rapaziada que nascera em fins dos anos 1950. Eu nasci em 1962, de modo que as coisas começaram a fazer sentido a partir de 1976. Sim, elas começam a fazer sentido a partir dos 14 anos, exceto para alguns cuja precocidade não é prejudicial. Creio ter visto Raquel Welch pela primeira vez, com o olhar necessário, mais ou menos nessa época. Impressionado fiquei. Enfim, esta imagem abaixo, publicidade do filme Cem Rifles, de 1969, diz tudo:

Há uma história boa: em 1969, durante as filmagens de Myra Breckinridge, filme de Michael Sarne protagonizado por Rachel Welch e tendo Mae West como coadjuvante, as duas damas citadas tiveram um desentendimento. Raquel, cheia de fúria, disse a Mae: “Você me respeite, pois sou uma atriz!” Mae West, sempre ferina, retrucou: “Ok, querida, esse vai ser nosso segredo!” Não é verdade que Raquel Welch fosse má atriz. Tinha talento mas, bela como uma deusa, a falocracia cinematográfica a escalava para que ela expusesse sua beleza sem precisar falar muito. É o caso da imagem abaixo, do filme inglês (muito ruim) Mil Séculos antes de Cristo, de 1966, no qual tinha apenas 3 falas. A pose de Cristo crucificado é mera coincidência porque o título original é One Million B. C.

Esse filme tornou Raquel um símbolo sexual. Fez vários outros, nos quais o que importava não era sua capacidade dramática, mas a acachapante beleza anglolatina (era filha de boliviano com inglesa, nascida Jo Raquel Tejada) explorada nunca à exaustão (ao menos não a minha). O Welch veio da avó paterna. Mas retornando: seu talento foi posto à prova numa comédia deliciosamente divertida, baseado no romance homônimo de Gore Vidal, Myra Breckinridge. Raquel Welch faz o papel de um homem que, após a mudança de sexo, torna-se mulher – e que mulher! Ei-la, abaixo, contracenando com John Huston.

Aos 77 anos, Raquel Welch continua em atividade, e bonita. Participa de uma série Date My Dad, em que faz a sogra de um jogador de baseball solteiro e pai de três filhas. Eis:

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E para deleite dos fãs:

Sinceramente? Acho que este post nem precisava de texto. As imagens dela falam por si.

Filmes (re)vistos #3: O Dia em que a Terra Parou, 1951

Resultado de imagem para o dia em que a terra parou robert wiseO norte-americano Robert Wise montou Citzen Kane, o clássico de Orson Welles, apreciado pelos cinéfilos. Assinou Punhos de Campeão, um aclamado filme sobre o boxe. Poderia ter morrido feliz e realizado, mas optou por fazer de Julie Andrews uma noviça que cantava My Favourite Things – tema que John Coltrane imortalizaria, mas isso é outra história – em volta de um grupo de lourinhos suíços que temiam o pai de coração gelado. Alguns anos antes havia concebido, em parceria com Jerome Robbins, o grande musical West Side Story, cujo título português, Amor Sublime Amor, é sua única falha. Wise – que era realmente sábio – foi além. Além do sideral, do visto ao nu do olho, e concebeu duas pedras lapidadas da ficção científica. Uma delas, menos luminosa, é O Enigma de Andrômeda, a que assisti por volta de 73, no extinto Cine Odeon. Aos onze anos não tive a compreensão exata do filme, claro. Vi depois, em VHS, já com trinta e poucos, tela menor e cheio de boas lembranças. A outra pedra luminosa é, em modesta visão, o mais perfeito filme de ficção científica já feito: O Dia em que a Terra Parou, feito em 1951, onze anos antes do nascimento de muitos dos que leem esse testemunho – eu incluído. Mas é preciso justificar por que acho isso.

Em tempos de continuações de Star Wars e deliciosas bobagens como Guardiões das Galáxias, o filmaço O Dia em que a Terra Parou parece-me muitíssimo superior. Não apenas pela história bem articulada, mas principalmente pela ideia de que o ser humano é incompatível com aquilo que ele tanto proclama e a que ele muito diz visar: o pacifismo. Aos fatos vamos: Klaatu é um alien, um mensageiro, um representante de vários povos que se preocupam com outras civilizações. Ele é avançado – conhece mecânica celestial, filosofia, e sabe lidar com os humanos. Todos os aliens avançados – e sempre o são, claro – têm como preocupação maior o desprezo com que os humanos abusam do próprio ambiente e da própria condição. Klaatu desce, evidentemente, em solo americano e diz que vem em paz. Os humanos, por medo, agridem-no. Trancafiado num hospital, busca, em vão, uma reunião com os líderes políticos que comandam o planeta. Impossível – ou, pelo menos, difícil, afirma de forma arrogante um braço direito governamental ianque.

Klaatu foge, forma humana adquirida, para viver entre nós. Sabe que cientistas lhe darão ouvidos, e que serão eles – ou, na verdade, apenas um, de aparência einsteiniana – os locutores do desafio: reunir os humanos, ou seus líderes, sejam eles ligados à ciência ou à política. Hospedado numa pensão como Mr. Carpenter, faz amizade com o menino Bobby, enternece-se com sua mãe, viúva recente, a quem dá mostras de seu poder: em determinado dia, dentro de um elevador, e munido de informações científicas incompreensíveis a nós, faz parar a energia do planeta – toda ela, em todo canto, total e absoluta. É o dia em que a Terra para, para continuar a mesma, depois – como se nada houvesse acontecido.

Após essa demonstração de poder, e somente assim se faz ouvido, vê-se diante de humanos ouvintes. Sua missão é clara: ele representa uma comunidade intergalática que se preocupa com o fato de os terráqueos desenvolverem armas e tecnologia que podem prejudicar toda a galáxia. Diante de uma platéia que finge ouvir mensagens de paz, mas que, em verdade, não levará a sério toda a problemática que assola a humanidade, ele, Klaatu, o mensageiro, deixa claro que estaremos sendo observados. Ei-lo:

Os anos 1950, a Guerra Fria, a Europa reconstruída – tudo isso colaborando para que se criassem histórias sobre o desconhecido, sobre forasteiros intergaláticos, sobre possíveis ameaças interplanetárias. Wise foi por outro caminho: contou-nos uma história de paz que, aparentada com a boa ameaça, é, em termos absolutíssimos, necessária. Talvez quisesse dizer que a possibilidade da destruição gera o pacifismo, como querem alguns. Isso é balela. Cria o medo mútuo, mas não a paz. Talvez Wise tenha criado um libelo – suave, irônico – contra a autodestruição do homem, contra a corrida armamentista, contra o poder, em resumo. É, para mim, a obra-prima da ficção científica no cinema. Talvez Solaris, de Andrei Tarkovski, seja páreo. E, recentemente, Interestelar, de Christopher Nolan, que tem tudo para se tornar clássico.

Mulheres #5: Ornella Muti, 63

Se você não viu A Garota de Trieste, veja! Ornella Muti, aos 27 anos, no esplendor da beleza! Algo fora deste mundo, um monumento, o máximo em sensualidade. Não, não veja pelo filme – que não é grande coisa! -, mas por Ornella, o grande motivo pelo qual boa parte da juventude italiana dos anos 1970 foi ao cinema. Assisti ao filme, chato como um disco de Daniel, no fim dos anos 1980, e a partir de então busquei nas saudosas locadoras da cidade qualquer filme em que Ornella fizesse participações, seja como estrela, seja como coadjuvante. Mas quem poderia, com uma beleza destas, ser coadjuvante?

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Dia desses, num desses canais por assinatura, dei de cara com Ornella contracenando com Silvester Stallone. Uma comédia de erros sobre gangsterismo: não é grande coisa também, embora seja assinado pelo sempre excelente John Landis, responsável pelos fundamentais Os Irmãos Caras-de-Pau e Um Lobisomem Americano em Londres. A luminosidade essencial da beleza de Ornella, entretanto, foi motivo para eu manter o controle remoto estacionado no canal. Creio que não existe atriz italiana tão bonita. Calma: Sophia Loren é hors concours. Ornella Muti foi a Princesa Aura em Flash Gordon e nos brindou com a prostituta Cass, em Crônica de Um Amor Louco – este, sim, um filmaço! -, ao lado do sortudo Ben Gazzara. Digo sortudo porque ele contracenou com ela também no filme que abriu esta postagem.

Ao recusar o papel de Melina Havelock, bond girl em 007 Somente para seus Olhos, de 1981, o passo para o estrelato não aconteceu. O papel, entregue então a Carole Bouquet, transformou esta última em estrela internacional, embora por pouco tempo. Apesar disso, estrelou, no mesmo ano, Ninguém é Perfeito, uma comédia italiana esplêndida de Pasquale Campanile, em que Ornella faz o papel de um paraquedista alemão que troca de sexo e se torna uma belíssima mulher – ela, no caso. O filme foi um sucesso retumbante não somente na Itália, mas em toda a Europa. Ei-la, contracenando com outro sortudo, Renato Pozzetto.

Ornella Muti envelheceu bem. Está com 63 anos, mantém-se bela e luminosa. Se o vigor da juventude não é expresso por motivos óbvios, aparenta o mesmo frescor dos primeiros anos de cinema, a mesma expressão jovem, límpida. Na comparação com outras belas conterrâneas, deixou Claudia Cardinale, Stephania Sandrelli, Gina Lollobrigida e Silvana Mangano para trás. Quanto a Monica Belluci, o papo é outro. É a próxima da série.

Há 7 anos, uma crônica

Pois é. Fiquei um tempo sem aparecer. Problemas estruturais, que atingiram boa parte dos blogues do OPS! Estou de volta.

Hoje faz 7 anos que publiquei minha primeira crônica em A Gazeta, jornal local. Escrevi mais de 120, em 5 anos de atividade quinzenal, com interrupções. O título: Woody, Machado & as crianças francesas. Como uma homenagem a mim mesmo, uma espécie de cabotinismo improvisado, aí vai:

“Imagine que um determinado livro, ao ser lido, tenha impactado seu leitor de forma tão impressionante que esse mesmo leitor passe a citá-lo quando lhe perguntam quais as obras de sua preferência. Isso é plenamente possível – eu diria até corriqueiro. Woody Allen, o cineasta norte-americano, confessou ao jornal inglês Guardian que Memórias Póstumas de Brás Cubas, do autor carioca Machado de Assis, foi um dos cinco livros que mais influenciaram sua carreira. Isso também é plenamente possível, já que a obra – o título traduzido, Epitaph of a Small Winner, é muito melhor – é tremendamente bem escrita e, para os moldes da provinciana literatura brasileira da época, de uma inventividade sem precedentes. O que me causa espécie é o fato de Woody Allen, tão impressionado com o livro citado, não tenha buscado ler outras obras de Machado. Ou, por outra: não há registros de que ele tenha mencionado, por exemplo, Philosopher or Dog?, que é o título inglês do mais bem acabado livro de Machado de Assis, Quincas Borba.

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Eu me lembro de que, em meados dos anos 80, após ter lido Bem-vindo à Casa dos Macacos, de Kurt Vonnegut, Jr., numa daquelas edições mal traduzidas da Artenova, passei a garimpar, em sebos principalmente, livros desse autor com uma urgência que mal cabia no discurso, já que nem eu mesmo sabia exatamente por que se tornara necessário ler todos os seus livros. Hoje, compreendo que a busca por outros livros de um autor nada mais representa do que a manutenção de um diálogo que se estabeleceu na primeira leitura e que se deseja contínuo, arrastando-se por outras obras até que o leitor, por motivos que dizem respeito somente a ele, queira dar um fim a esse, digamos, bate-papo.

E por falar em diálogo, e também em Machado de Assis, tenho-me incomodado com uma questão, que certamente se liga Mr. Allen. Simples: creio eu que o cineasta, já que afeito à palavra escrita, tenha-se relacionado com o texto machadiano de forma adulta – ou seja: leu-o com a maturidade necessária a uma compreensão que favorece não somente o leitor, mas também o texto. Em outras palavras: os livros do autor carioca – assim como acontece com vários outros autores – exigem daqueles que os leem um certo costume de boa leitura, uma apreensão criteriosa do texto literário, uma intimidade com textos que desafiem o leitor. Isso não retira, em absoluto, a possibilidade de ler tais textos como passatempo, hobby. Fiquei sabendo, há uns dois anos, que o texto machadiano Conto de Escola havia sido, numa tradução, adotado para crianças francesas de 8 a 10 anos de idade.

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Eis a questão: será que crianças nessa idade, mesmo que bem orientadas por professores tarimbados, têm condições de perceber o pessimismo irônico de Machado e, mais ainda, que a corrupção pode ser fruto circunstancial da infância? Refrescando a lembrança: o personagem central do conto – e também seu narrador – é um menino de nome Pilar, que aceita dinheiro de um colega para fazer-lhe um trabalho escolar, mas que, ao final, por circunstâncias alheias a sua vontade, acaba ficando sem o pagamento. Se possível fosse, o menino manteria consigo a quantia obtida com a venalidade. Não há esperanças para ele. O destino está traçado. Sem contar que a corrupção, no conto, tem um viés sensual que desafia qualquer professor a traduzi-lo para crianças – francesas ou não.

Ler Machado de forma superficial é um pecado de escala estratosférica. Por outro lado, é sempre bom saber que um escritor de sua envergadura aproxima-se de leitores infantis. Desmistifica-se, então, a ideia de que a literatura brasileira do século XIX é inacessível à garotada. Mas o que pergunto é se a coisa funciona. Aquele sutil questionamento sobre moralidade, as nuances que proporcionam breves confusões ao leitor, as obliquidades, o camuflado deboche às instituições – haverá uma tradução francesa capaz de captar essa atmosfera? Pode até ser, mas crianças de 10 anos serão capazes de perceber isso? Se não, quem perde, de fato nessa história, é o texto.”

 

Vilões do Celuloide

Gosto de conversar com intelectuais. Considero-os o topo da cadeia, algo sacrossanto, estão a um passo da iluminação. Não estou sozinho nisso porque eles também se consideram assim. Conheço vários deles, e ligados também a múltiplas áreas. Quando versam sobre algo de que já ouvi falar, limito-me a aprender mais porque assim devem se comportar aqueles que reconhecem o próprio limite – no caso, eu. Há um tipo de intelectual que todos apreciam ser, até porque, para isso, não há necessidade de uma formação específica, nem muitos anos de estudo ou dedicação. Essa rara criatura é o conhecedor de cinema. Não, não falo de estudantes, críticos ou teóricos do assunto. Não é tão simples assim. Refiro-me aos reais conhecedores, àqueles que se esparramam pelas mesas de bar, loquazes, usam sandálias, discursam trechos inteiros de Herr Nietzsche e defendem, com os olhos rútilos, a produção cinematografia paquistanesa. Geralmente, perto deles, sou todo ouvidos. Meia hora de papo e me sinto diante de uma respeitável Pauline Kael regional.

Ouço-os falar de cinema. Todos eles assistiram às películas cruciais à formação cerebral do homem civilizado. Têm conhecimento sobre tomadas, sobre fotografia, sobre linguagem, sabem como adequar a música ao movimento, reconhecem o bom e o mau desempenho deste ou daquele ator, palpitam sobre figurinos e opinam sobre edição. Eu, de minha parte, gosto de ouvir e, como já mencionei, de aprender. Algo, porém, foge à minha compreensão: por que o cinema norte-americano virou o vilão da história? Por que, em roda de intelectuais, é tomado como o resumo da estupidez, da lepra visual? É claro que se tornou moda – há muito – elogiar o cinema indiano, o iraniano, o neozelandês, o europeu. Também é claro que têm eles seu valor. Há quarenta e cinco anos a coisa era assim: a Nouvelle Vague, o Cinema Novo e o Neorrealismo italiano formavam a trindade intocável do celuloide. Fellini, Glauber e Godard eram populares como Mickey Mouse e Donald Duck. Aos cineastas norte-americanos sobrava o vácuo intelectual.

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Acredito, com todo o respeito que os intelectuais merecem, que há um certo equívoco ao considerar o cinema lá de cima um cinema menor. Penso justamente o oposto. Não consigo vislumbrar nada melhor do que os filmes de Billy Wilder – que era austríaco mas fazia cinema americano como poucos. Alguém viu Farrapo Humano? Crepúsculo dos Deuses? A Montanha dos Sete Abutres? Pacto de Sangue? (Descartei as comédias porque sei o que a intelligentsia pensa delas). Quem, dentre os europeus, filmou melhor que Howard Hawks e John Ford? Falem a verdade. E quanto a Frank Capra, Robert Wise, George Cuckor, John Huston, Orson Welles, Elia Kazan, Stanley Kubrick, Sidney Lumet, Mervin Leroy, Otto Preminger, Raoul Walsh, Samuel Fuller, Fred Zinneman? Isso só citando o primeiro time, porque os reservas também goleavam. E mais: muitos estrangeiros, ainda que despidos do american way, fizeram filmes norte-americaníssimos, como Fritz Lang, Alfred Hitchcock, Jaques Tourneur e Douglas Sirk.

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Ok, tinham os melhores diretores. Tinham tudo, então? Não. Como qualquer intelectual sabe, se não há uma boa história sendo contada, não há um bom filme. Martin Scorsese – que bem poderia vestir a camisa de titular, assim como Francis Coppola, também itálico – já dizia isso. Tinham também os melhores roteiristas, muitos deles os melhores escritores na época: do sisudo William Faulkner ao obsessivo Dalton Trumbo, passando por Leon Uris, Gore Vidal e Tenessee Williams. Junte um bom barco e um bom timoneiro e não haverá oceano intransponível. E possuíam os melhores fotógrafos, os melhores cinegrafistas, os músicos de excelência, os figurinistas de primeira linha. Tudo isso porque tinham dinheiro? Bem, souberam aproveitar a grana criando uma fábrica de sonhos, que, para muitos – pelo menos para alguns atores e algumas atrizes –, tornou-se uma fábrica de pesadelos, mas isso fica pra depois.

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Penso – e isso é apenas uma opinião – que não se deve tomar como base o cinemão industrial cujo objetivo é produzir entretenimento e que serve para enriquecer ainda mais os chefões judeus dos grandes estúdios. Há setenta anos também era assim, mas com mais estilo e glamour e mais histórias bem contadas – e com menos propaganda. Mas o que dizer de Woody Allen, David Mamet, Robert Altman, John Landis, Lawrence Kasdan, Ridley Scott, James Ivory, Spike Lee, George Lucas, Steven Spielberg? Muitos desses estão vivos e produzindo, cada um a seu modo, um grande cinema. Muitos chegam a fazer suspirar os estudantes de comunicação, mesmo quando ninguém está olhando. Não entro na seara da animação ou dos documentários, nem na dos talentos revelados pelo Sundance de Mr. Redford, no cinema independente, no underground, nem nessa nova safra de diretores que tentam – com êxito, a meu ver – expor um novo caminho para a ficção do écran, como Tarantino, Sam Mendes e Richard Kelly. Demonizar o cinema norte-americano tornou-se a ordem do dia, mas uma ordem que se estende por pelo menos cinco décadas. E olhe que os verdadeiros demônios dessa história – os produtores, os doughmen – nem entraram neste texto.