Muhammad, Bruce e Caetano Veloso

Sou fã de boxe. Sempre que possível, assistia aos combates de Eder Jofre pela tevê, quando a nobre arte ainda não era demonizada (com certa razão) pela medicina e pelos puritanos. Claro: também era fã de George Foreman e de Joe Frazier, mas o grande astro desse esporte era Cassius Marcellus Clay. Ou, como exigiu ser chamado após converter-se ao Islã, Muhammad Ali. Li O Rei do Mundo logo que veio a público, traduzido. É ótimo — até porque não se concentra no boxe per si, mas no seu engajamento político e religioso. Tudo o que envolveu o astro do boxe em sua jornada espiritual, e de como os wasps viram seu herói virar-lhe as costas. É um ótimo registro, se você aprecia o assunto.

Também sou fã de artes marciais — em especial o judô, o qual pratiquei quando adolescente, tendo como sensei o lendário José de Barros. Eram os anos 1970 e o judô, claro, levou-me à coreografada porradaria dos filmes de Bruce Lee e, mais tarde, ao blaxpoitation de Jim Kelly. Nunca li uma biografia de Bruce Lee, mas lerei, porque fã merece que a vida do ídolo seja exposta, principalmente quando sua morte é motivo de teorias da conspiração e conjeturas tão divertidas quanto essenciais ao mito. Os filmes que estrelou tinham enredos sofríveis e a carga dramática que Lee embutia em seus personagens era risível. Quem se importa, todavia? O que valia era a ação! Bruce é, junto a Fred Astaire e Gene Kelly, o maior bailarino do cinema.

Bruce Lee em 'O Voo do Dragão'

Lembro-me da série Kung Fu, cujos episódios — estrelados por David Carradine — iam ao ar no horário pós-telenovela da Globo, às 21h. Colecionei os números da revista Kung Fu, que vieram ao mundo pela Ebal, a partir de 1973. Assisti ao filme Operação Dragão um pouco mais tarde, e, vingado por conta da classificação indicativa (da época), fui ao cinema incontáveis vezes, para ver Bruce Lee, John Saxon, Jim Kelly e Bolo Yeung. Eram bons aqueles tempos, em que os filmes da artes marciais pareciam mais críveis, embora tão heroicos quanto os de Van Damme e Steven Seagal.

Eis a questão: o que Caetano Veloso, presente no título desta postagem, está fazendo aqui? Eu explico. Em 1977, quando eu ainda não me ligava à MPB, minha querida amiga Izinha — née Josemília — apresentou-me a canção Um Índio, contida no elepê Bicho. Não conhece? AQUI você ouve a versão original. Foi uma revelação, uma epifania. Na canção, Muhammad Ali e Bruce Lee, rimados com o romântico Peri e os Filhos de Gandhi, constam dos estribilho. É obra-prima. Anos mais tarde, já fã de Caetano e já professor de literatura brasileira, fiz um paralelo entre o compositor baiano e o poeta maranhense Gonçalves Dias. Isso, entretanto, é papo para outro dia.

Seinfeld: 3 livros

Jerry Seinfeld e Larry David, criadores da sitcom Seinfeld, não faziam ideia do sucesso que fariam ao escrever sobre o quotidiano de um comediante de stand-up comedy. Não imaginavam que o programa se tornaria um ícone pop nem que ficariam milionários com o resultado de uma ideia. Aliás, todos os cinco diretamente envolvidos — Jason Alexander, Julia Louis-Dreyfus e Michael Richards, inclusos — passaram a nadar em dólares, gozando de um prestígio que nenhum outro comediante, nos anos 1990, gozou. Bem, Julia já era bilionária — ou seria, quando o pai, o francês Gérard Louis-Dreyfus morresse. E morreu, em 2016.

Na esteira da sitcom, Jerry Seinfeld — que escrevia os diálogos com Larry David — resolveu reunir muitos dos textos que foram ao ar e publicou O Livro sobre Nada. É a premissa resumida e enganosa do programa: falar sobre o nada. Enganosa porque, de fato, fala-se do cotidiano do próprio Jerry e de seus amigos, um bando de egoístas cujo desprezo pela humanidade se esparramava por 25 minutos semanais. Ninguém prestava ali — e é aí que estava o charme da sitcom. Há passagens engraçadas no livro: quase todas elas já consumidas por quem é fã daquela turma. Eu, por exemplo.

Houve quem levou a sério a série sobre o nada. Houve quem resolveu, por molecagem ou não, olhar para a sitcom e conectá-la a Sócrates, Kierkegaard, Sartre, Platão, Wittgenstein, Aristóteles e Nietzsche. Sim, a fina-flor da filosofia ocidental. E mais: ética, moral, paradoxos, sofisma e virtude são explorados em 14 textos divertidíssimos, mas todos eles levados a sério. E mais: o livro é dedicado a Bob Sacamano. Quem curte a sitcom sabe quem é. Organizado por William Irwin, professor de Filosofia da King’s College, na Pensilvânia, o livro é um achado. É para ser lido devagar, porque faz o leitor lembrar-se de cada situação mencionada. Quem curte ver a filosofia falar sobre o nada vai apreciar. Eu, por exemplo.

Após o voluntário fechamento das portas, Jerry Seinfeld envolveu-se em outros projetos — a animação Bee Movie e o ótimo Comedians in Cars Getting Coffee, sobre o qual já escrevi. AQUI, caso haja interesse. Resolveu também biografar-se em Será que isso presta?: à sua maneira, por meio dos textos para stand-up comedy, de 1975 até meados da segunda década do século XXI. Percebe-se, na leitura, a evolução do comediante, seja em textos curtos ou naqueles que, no máximos, gastam duas páginas. A ideia continua a mesma: o nada, o cotidiano, os costumes. E, claro, o humor. Vai gargalhar? Não creio, mas o livro vai divertir e provocar uma certa nostalgia nos órfãos de Seinfeld. Eu, por exemplo. 

p.s. Escrevi sobre Larry David e a maldição de Seinfeld. AQUI, caso se interesse.

Aretino, Linda & o sexo

A literatura erótica – e sua irmã mais ousada, a pornográfica — não é, sob qualquer hipótese, uma literatura menor. Quem aprecia as boas histórias, e também os bons poemas e dramas, sabe disso. Quem não aprecia também sabe — e por isso mesmo se opõe ao tema. Sexo é fundamento. Sem ele, meus seis ou sete leitores não existiriam, não poderiam discordar do que será lido nesta postagem. A propósito, sem o sexo eu também não existiria, de modo que o texto que se lê relaciona-se ao tema de forma quase hereditária.  Além de outras formas de se relacionar com ele, sexo também é bom de se ler.

Tenho lido sobre o assunto: penso em escrever um texto pornográfico — daqueles para valer, sem constrangimentos. A pornografia é o sexo sem vergonha de si mesmo, é a desnecessidade de afeto, que despreza jantares, presentes, alianças, futuro, jogos de poder. No meu livro de contos Todas Elas, Agora, de 2013, cheguei a ensaiar o tema, mas não produzi nada que não pudesse ser lido por um seminarista, embora eles possam negar isso e me enviar à eternidade infernal. Literatura pornográfica — ou sua irmã aristocrática, a erótica — é a libertação de grilhões tanto linguísticos quanto de enredo. 

Por que falo do assunto? Porque anteontem, 20 de abril, foi aniversário de Pietro Aretino, poeta pornográfico italiano que enriqueceu trocando sacanagem por diamantes. Sim, isso mesmo. Às senhoras nobres e assanhadas da Veneza e da Roma do século XVI enviava poemas licenciosos e, em troca, enchia os bolsos de preciosidades. Protégée dos Médicis — e do Papa Leone X —, era inatacável, de modo que se divertia sem que qualquer autoridade lhe perturbasse os modos. Ficou milionário comercializando luxúria. Seus sonetos luxuriosos são uma beleza de se ler.

Escrevo também porque hoje, 22 de abril, faz 23 anos que Linda Lovelace deixou este mundo, após um acidente automobilístico. A lendária atriz protagonizou — quem se lembra? — Deep Throat, ou Garganta Profunda, possivelmente o filme pornográfico mais icônico da história do cinema. Soube-se, alguns anos depois, que fora forçada pelo marido perverso, muitas vezes sob ameaça de tortura física, a participar dos filmes. Sofreu um bocado. Convertida à religião, algum tempo depois, tornou-se ativista antipornografia. Ei-la, abaixo:

Há um filme sobre sua vida, intitulado Lovelace, de 2013. Amanda Seyfried faz o papel principal, e o marido cruel e canalha fica por conta do sempre excelente Peter Sarsgaard. Vale checar, se houver interesse.

Pedro: poeta & bispo

A segunda vez que ouvi falar de Dom Pedro Maria Casaldáliga foi ao ouvir, assim que veio ao mundo, em 1982, o disco Missa dos Quilombos, de Milton Nascimento. É um disco de rara beleza, de temática social e cristã, gravado na Igreja de Nossa Senhora dos Homens, em Minas Gerais. É, de fato, uma missa musical, estruturada para ser primordialmente ouvida. Mas não é sobre Milton que quero falar — e sim sobre um dos parceiros (o outro é Pedro Tierra), o bispo católico nascido na Espanha — era catalão — e naturalizado brasileiro, defensor dos direitos humanos, taxado de comunista por invasores de terra, que o juraram de morte.

E quanto à primeira vez? Também com a participação de Milton, no encarte do disco Sentinela, de 1980: um dos melhores discos desse artista extraordinário. Mas repito: Milton, nesta postagem, é secundário. Em primo plano está o bispo, a figura ímpar, o ativista, para muitos o santo (epíteto que sempre descartou, sem qualquer falsa modéstia). Religioso e hábil com as palavras, um herdeiro de Vieira, célebre orador. Casaldáliga, humanista como o padre seiscentista, indignou-se com o tratamento aos povos nativos, originários – antigamente chamados de índios. Dedicou-se, de corpo, alma e palavras, a defendê-los. A eles e aos trabalhadores rurais, que carinhosamente o chamavam de Pedro. Ei-lo:

Evangelizou sem colonizar, porque sabia que eram termos excludentes. Foi um poeta social, para quem as palavras deveriam servir à liberdade, à justiça, à luta. É, nessa seara — assim como Pe. Antônio Vieira, mais uma vez — autor de Versos Adversos, dentre vários textos. Se quiser ler, AQUI você consegue. O prefácio é de um dos meus ídolos literários, o professor Alfredo Bosi. Para muitos, a religião, algo limitador, é incompatível com a arte — elemento libertador. Não sei. Sem a religião, o que seria da obra de Bach, de Vivaldi, de Palestrina? Essa questão fica para depois.

VERSOS ADVERSOSSua poesia é contundente, ao mesmo tempo que lírica. O domínio da palavra é tão evidente quanto a fé que, edificada, alicerça sua visão de fraternidade, amor ao próximo, luta contra a desigualdade e em prol da paz entre os homens. Ele sabe, entretanto, que a paz é consequência do ânimo e da união. Sabia o que estava dizendo, e o dizia de forma simples, sem arroubos sentimentais ou arabescos verbais. Era um poeta em sua essência: vivo para quem metonimicamente o ler. Hoje, 16 de fevereiro, ele faria 97 anos. Ave, Pedro!

Augusto nasceu na época errada

Augusto Frederico Schmidt é poeta moderno, morto há 60 anos, num dia 9 de fevereiro. Nasceu na época errada, porque, enquanto modernista, participou do mesmo grupo em que Carlos Drummond, Cecília Meireles e Vinícius de Moraes reinaram quase absolutos. Só não foram absolutos porque Jorge de Lima e Murilo Mendes estavam lá, para incomodar. Pois é: como sobressair — ou sequer ser notado — quando seus pares são quem são? Sem contar que a poesia dessa época ainda sofria com a ascensão da chamada Prosa de 30, com Jorge Amado, Graciliano Ramos e Érico Verissimo fazendo grande literatura.

Augusto, entretanto, sobreviveu. Fez a poesia melancólica do Modernismo, próxima de Drummond, mas ainda mais intensa. Fez a poesia de quem via o amor como falta, tendo a saudade como consequência, e o sexo como ausência. Tinha muito de Romantismo e Simbolismo, mesmo modernista. Mário de Andrade criticava-o, porque não via modernidades em sua poesia, como se o elemento moderno fosse a base estética para a grande poesia da época. Augusto Frederico Schmidt, aos olhos de muitos modernistas, nasceu velho. Talentoso, mas serôdio.

Li há poucas semanas alguns poemas de Mar Desconhecido, seu livro publicado no início dos anos 1940. É poesia confessional, um tanto adolescente, que não agrada a ouvidos e olhos de quem desemboca — como eu — num João Cabral ou, mais tarde, num Roberto Piva. Os versos livres se misturam à métrica; os versos brancos estão lado a lado com rimas bem postas, intencionais — é claro! É um sonetista de primeira linha, herdeiro de Guilherme de Almeida e, antes, de Alphonsus de Guimarães. Descambou para a poesia cristã, assim como fizeram os já citados Murilo Mendes e Jorge de Lima, mas aí perdeu a mão. Fez uma poesia careta e sem brilho.

Augusto Schmidt e o Galo Branco

Há certo erotismo, um tanto contido — talvez pela expressividade cristã de seus poemas. Mesmo assim, a figura feminina é desejo e é morte, elementos teoricamente díspares, mas nem tanto, porque os psicanalistas fazem dessa dicotomia uma festa. Augusto Frederico Schmidt tem seu valor, e tal valor seria mais celebrado se tivesse feito poesia 40 anos antes, quando Cruz e Sousa conflitava com Bilac et caterva. Teria sido um bom companheiro para uma poesia que, no mundo, foi poderosa, e no Brasil teve vida curta. No fundo, Augusto era um simbolista no corpo de um moderno. Ainda assim, os compêndios literários mencionam-no com a devida e merecida frequência. Eis uma palinha de Elegia:

                                     Tua beleza incendiará os navios no mar. / Tua beleza incendiará as florestas.

                                     Tua beleza tem um gosto de morte. / Tua beleza tem uma tristeza de aurora.

                                     Tua beleza é uma beleza de escrava. / Nasceste para as grandes horas de glória,

                                     E o teu corpo nos levará ao desespero (…)

Música & MPB: livros essenciais

Coração Americano - Bastidores do álbum Clube da Esquina | Amazon.com.brNatal, época de presentear: música & livros + história da MPB. Ganhei da consorte, por bom comportamento, dois ótimos e essenciais livros sobre a música brasileira. Um deles sobre determinado disco — no caso, Clube da Esquina, de Milton Nascimento. Coração Americano — Bastidores do álbum Clube da Esquina, organizado pela produtora cultural Andrea Estanislau. Com textos escritos pela rapaziada que participou de toda a confecção do disco — os irmãos Lô e Márcio Borges, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Toninho Horta e Tavito —, o livro tem um trabalho gráfico de primeiríssima: papel Couché, fotos inéditas e diagramação que foge ao trivial.

Sempre há um porém: faltou um texto escrito pelo gênio do grupo, Milton Nascimento, embora haja uma entrevista dele concedida ao parceiro Fernando Brant. Depoimentos de Beto Guedes, Wagner Tiso (orquestração) e Alaíde Costa (na participação de uma das faixas) apresentam visões particulares de como foi trabalhar com e em grupo. Sim, sim, tenha certeza: é um livro fundamental para quem quer conhecer o processo de criação de um dos mais importantes discos da história da MPB.

Livro Para Seguir Minha Jornada Chico Buarque Regina Zappa | MercadoLivreOutro livro: Para seguir minha jornada — Chico Buarque, escrito pela jornalista Regina Zappa, que já havia escrito uma pequena biografia do compositor para a série Perfis do Rio, editado pela Relume Dumará e publicado em 1999. Neste livro, editado pela Nova Fronteira, a jornalista vai além — muito além. Num trabalho de pesquisa que abrange da infância até os 80 anos do mais importante artista da MPB, a jornalista vai fundo na história de vida e de música do meu xará. Se não é o livro definitivo, chega perto.

Do primeiro contato com a música, a infância na Itália, a opção por deixar de lado a arquitetura, as parcerias, as participações nos festivais, os primeiros discos, a censura, o casamento, as filhas, os grandes discos na década de 1970, a dramaturgia, a narrativa (do conto Ulisses até os romances consagrados de hoje) — tudo isso é levado a medidas extremas de informação. Sem contar as fotos que, até onde sei, não haviam sido publicadas em livro. É outro trabalho gráfico esplêndido. Se você não conhece a fundo a obra de Chico Buarque, vai se encantar com o livro. Se conhece, vai se surpreender por perceber que há muito a aprender.

Milton Nascimento e Chico Buarque: Primeiro de Maio - Vermelho

Castro, Jobim: textos curtos demais

Volto a Antônio Carlos Jobim — e também a Ruy Castro. Já escrevi sobre os dois, aqui, neste blogue que poucos leem. Há alguns anos imaginei que meus leitores fossem seis ou sete. Hoje já solto fogos quando alguém aparece por estas cercanias. Desabafos à parte, vamos a Tom & Ruy. Acabo de ler O Ouvidor do Brasil — 99 vezes Tom Jobim, do jornalista-escritor-biógrafo-imortal Ruy Castro. Li de uma tacada: 220 páginas com 99 crônicas – todas elas curtas – que versam sobre o maestro. Falei errado: nem todas versam. Algumas apenas citam. Lendo a introdução, o cronista foi sincero: “Em alguns [textos] a presença de tom poderá parecer de passagem.” É verdade.

Tom Jobim é realmente um craque. Uso o presente do indicativo porque obra e autor, aqui, mostram-se confundidos, metonímicos: sua obra não morre, de modo que o criador mantém-se entre os vivos. Ruy Castro também é craque, e já mostrou isso escrevendo sobre Bossa Nova, sobre Garrincha, Nelson Rodrigues, Carmen Miranda. Escreveu sobre Ipanema, sobre o samba-canção e sobre alguns selecionados artistas do século XX. Escreveu sobre filmes, sobre música e sobre literatura. É homem de repertório farto.

Em O Ouvidor do Brasil há um problema — que não se encontra em nenhum outro livro de Ruy Castro (talvez em Ela é Carioca, mas isso merece uma postagem única). O texto curto não lhe faz bem. Ele é bom quando tem tempo para escrever, quando mergulha fundo naquilo que elegeu como assunto e como obsessão. É preciso, para esse mergulho, muito fôlego — e ele tem isso de sobra. E quando é obrigado a vir à tona, para respirar e tomar sol? Os textos, publicados entre 2007 e 2023, na Folha de São Paulo, obrigaram-no a sintetizar algo que não merecia síntese. Pode ser que muitos tenham apreciado sua capacidade de falar muito com poucas palavras. Eu, não.

Ao final de boa parte das pequenas crônicas, fiquei com aquela sensação de que o autor teria feito um trabalho muito melhor caso tivesse mais duas páginas — apenas duas, não mais que isso. A linguagem de Ruy Castro se mantém clara, irônica, bem armada, por vezes mordaz. É sua vantagem e nosso privilégio. Limitá-la (e tenho certeza de que a responsabilidade é do veículo, a Folha) é um pecado. Mesmo assim, merece ser lido — afinal, quantas oportunidades temos de ver um craque falar do outro?

Caetano, Luiz Guilherme: última palavra

Domingo após a segunda prova. Enem, 2024.

Rola um vídeo na internet em que o grande compositor e cantor Caetano Veloso resolve uma questão do Exame Nacional do Ensino Médio — o ENEM — em que ele mesmo fora citado.  Caetano não titubeia, escolhe a alternativa – e acerta. Poderia ter errado, como já aconteceu anteriormente, há uns dois anos. Eis então a pergunta de resposta óbvia: como pode o autor não saber a resposta correta sobre o texto que produziu? Resposta simples: o autor escreveu o texto, criou-o, produziu-o. O autor não o leu, de modo que a pergunta é feita para quem leu o texto; não para quem o escreveu.

Lembro-me de quando, há mais ou menos 35 anos, a UFES tornou obrigatória a leitura do romance A Nau Decapitada, de Luiz Guilherme Santos Neves. Sendo eu professor para alunos que querem acessar a universidade, preparei-lhes, como uma prova simulada, questões relativas à obra. Alguns acertaram; outro, não. Lembro-me também de mostrar as questões ao próprio autor, Luiz Guilherme que, ao tentar resolvê-las, não obteve êxito. Em bom vernáculo: errou-as. Eis mais uma vez o axioma: o autor não é leitor de si mesmo. Não possui a isenção necessária para, racionalmente, avaliar o texto.

Caetano, na verdade, avaliou uma crônica em que era citado – não um texto de sua lavra, criado e produzido por seu cérebro privilegiado, além da sensibilidade aguçada que possui ao escrever canções. O envolvimento emocional do autor com sua obra atrapalha-o, confunde-o. Tente imaginar um poeta, um escritor ou um compositor que, diante de sua criação, pergunta-se: o que eu quis dizer com isso? Ou, pior: como esse texto pode ser interpretado? Não é essa a função do artista.

De tropicalista inspirado, Caetano chega aos 70 abraçando contradições ...

Eis uma outra questão: quem tem a última palavra sobre um texto literário? Qual a interpretação tão correta quanto definitiva? Claro que interpretações pressupõem elementos que as justifiquem, mas a arte — como um todo — pode (e deve) possui inúmeras significações. Eis sua beleza e sua função: multiplicar-se em significados. Textos literários cuja interpretação não é variável correm o risco de não serem tão literários assim. Ou de serem mal escritos. Enfim, é um debate que merece atenção. Por enquanto, no meu caso, fico assim: torcendo para não precisar resolver uma questão sobre meus próprios livros.

Massaud & Machado

Discurso de recepção pelo Acadêmico Erwin Theodor RosenthalMassaud Moisés é figura obrigatória em qualquer curso de Letras, e merece — deve, na verdade — ser lido por professores, por estudantes e por quem se interessa por literatura. É um craque nas palavras, principalmente quando escreve sobre algum objeto definido: um escritor escolhido, uma obra de destaque, um gênero específico. É autor de livros seminais, como A Literatura Brasileira através dos textos, A Criação Literária e o essencialíssimo Dicionário de termos literários. Ao lado de Alfredo Bosi e Antônio Cândido, forma a tríade masculina da teoria literária brasileira.

Machado de Assis, bem, não há necessidade de que eu o apresente. O que realmente é necessário é mostrar quando essas duas figuras se encontram. Em Machado de Assis: Ficção e Utopia, um encontra o outro, e da maneira mais elegante possível. O adjetivo em itálico justifica-se, porque a linguagem de Massaud Moisés é de uma clareza tão absoluta que suas reflexões acerca do enormíssimo Machado tornam-se elegantes. É bom de se ler justamente por isso – além de, no meu caso, aprender um bocado.

Machado de Assis: Ficção e Utopia | Amazon.com.brOs ensaios contidos no livro não são inéditos. Foram publicados desde 1958 em revistas, suplementos literários — muitos deles no Caderno de Sábado, do Jornal da Tarde, na década de 1990. Recomendo a leitura de todos os 14 ensaios, mas um deles – justamente o que intitula a coletânea — é tão precioso quanto fundamental. Partindo de Brás Cubas, o notável professor traz uma ideia inédita: como o escritor-chave do Realismo brasileiro pode ser um utopista? Lá pelas tantas, ele nos diz: “Mirando-se no espelho do texto, contemplando os semelhantes transfigurados em personagens, o leitor dá-se conta da imperfeição do mundo e a um só tempo sente-se atraído pela promessa de um mundo melhor aqui na terra.” Genial.

Massaud Moisés faz o que não havia sido feito: conecta Machado a Eça de Queiroz e a Proust (que viria depois); desmistifica a oposição entre os dois Machados: o romântico e o realista; apresenta a ideia de que o adultério de Capitu é algo secundário em Dom Casmurro. E por falar em Capitu, há um ensaio sensacional em que o professor conecta Minha Vida de Menina, de Helena Morley, publicado em 1942, com a heroína Maria Capitolina. É uma das melhores coisas do livro. Bem, se você nunca leu os textos críticos de Massaud Moisés, pode começar por esse. Além de traduzir o sempre necessário Machado de Assis, dá uma aula de como pensar literatura.

Em tempo: seu nome é pronunciado “Massaúde” e não “Massô”. Ele era descendente de libaneses; não de franceses.

Professores & Professoras em Vitrine

Em homenagem ao DIA DO PROFESSOR — 15 de outubro —, aí vão alguns vídeos do podcast Vitrine Literária com Francisco Grijó com professores e professoras ligados, cada um a seu modo, à literatura. Reitero meus agradecimentos a todos e a todas que, gentilmente, dialogaram com este que vos escreve. Agradeço também a quem assistiu aos bate-papos — ou os ouviu, porque estão disponíveis, também, no Spotify. Em frente, então: é só clicar e assistir.

E se quiser deixar um comentário, será muitíssimo bem vindo!

1. HERON MIRANDA, professor de Física e escritor.

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2. LILIAN MENENGUCI, professora e escritora.

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3. ORLANDO LOPES, professor e poeta

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4. ANAXIMANDRO AMORIM, professor, poeta e escritor

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5. RICARDO SALVALAIO e SAMIRA FREITAS, professores

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6. FRANCISCO AURÉLIO RIBEIRO, professor e escritor

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7. BERNADETTE LYRA, professora e escritora

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8. SAULO RIBEIRO, professor, escritor e editor

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9. THAÍS HELENA, professora e escritora

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10. PAULO SODRÉ, professor e escritor

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11. MARCELA AMARAL e PAULO SCARDUA, professores

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12. CAMILA DALVI, professora e escritora

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13. FERNANDO ACHIAMÉ, professor, poeta e escritor

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14. JERRY TONONI, professor

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15. RENATA BOMFIM, escritora e professora.

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16. INÊS AGUIAR DOS SANTOS NEVES, escritora e professora

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