Filmes (re)vistos #9: O Vento será tua herança, 1960

Um tipo de filme em que os americanos são imbatíveis: filmes de tribunal ou, como querem os nativos puristas, legal films. Há grandes películas, não se pode (nem se deve) negar: O Veredito e 12 Homens e uma sentença, ambos de Sidney Lumet; O Sol é para Todos, de Robert Mulligan; Testemunha de Acusação, do sempre genial Billy Wilder, e o brasileiro O Caso dos Irmãos Naves, de Luis Sergio Person. Todos grandes filmes. Há muitos outros, claro, mas nenhum – a meu ver – supera O Vento será tua herança, de Stanley Kramer, em cartaz numa dessas tevês por assinatura. E se o naturalista Charles Darwin mostraria o polegar, concordando comigo.

Vídeo: O Vento Será Tua Herança continua atual

O que Darwin tem a ver com o filme? Bem, o enredo é simples: professor de uma cidade pequena é condenado por ensinar aos alunos a Teoria da Evolução. Uma lei estadual, escrita e sancionada por criacionistas, não permite que o Evolucionismo interfira na educação bíblica dos alunos. Toda a cidade está contra o professor. Em seu desespero, e sem dinheiro para pagar um bom advogado, pede ajuda a um jornal de Baltimore – que, progressista, contrata um grande advogado para defendê-lo. Esse grande advogado é um dos maiores atores de Hollywood em qualquer época: Spencer Tracy (de cabelos brancos, na foto).

Não menos notável é Fredric March, interpretando um político oportunista que ajuda o promotor a tentar mandar de vez o professor para o xilindró. Quer mais? Gene Kelly – sim, o grande bailarino do cinema (abaixo, de colete) – faz o papel de E.K. Hornbeck, jornalista que vai cobrir, de forma cínica e debochada, o Julgamento do Macaco, como ficou conhecido o caso (verdadeiro) em que o filme se baseou. Não, Gene Kelly não dança, no filme. Está ótimo sem requebrar-se, fazendo as vezes de Henry Louis Mencken, o mais temido jornalista norte-americano da primeira metade do século XX. Já escrevi sobre ele AQUI.

Tesouros da Sétima Arte - "O Vento Será Tua Herança", de Stanley Kramer

Como sou um homem de letras, aprecio diálogos – aliás, são eles o grande trunfo do filme. A bem da verdade, filmes de tribunal sustentam-se na palavra, no raciocínio, na loquacidade, na esperteza do advogado e/ou do promotor. Bem, a estrutura da Commom Law americana ajuda esse tipo de fita, permite que as habilidades dos causídicos sejam a grande atração. Em O Vento será tua herança é isso que conta. É um embate raro de se ver nos filmes – a não ser naqueles excepcionalmente inteligentes.

AQUI, o trailer, com legendas.

Clarice entrevista

Clarice Lispector é um quindim na boca da crítica. Um pastel de Belém, um yoku moku, um baklava. É querida – não sem justiça – por um sem-número de acadêmicos que consomem suas palavras como se elas tivessem brotado do Evangelho. Enfim, há quem discorde. Eu, por exemplo. Reconheço que essa senhora sabia escrever, respeito-a como criadora, mas, para mim, é chatinha. Faltam-lhe bom humor, sarcasmo, ironia. É séria demais, atendo-se a emaranhados psicológicos e fluxos de consciência um tanto gratuitos. Claro que é apenas uma opinião. Como diz uma amiga evangélica, ao saber que será repreendida: “Lá vem cajado!”

Apesar de tudo, aprecio bastante um de seus livros (na verdade não é seu, mas organizado para que fosse) que, distante da ficção, mostram uma outra Clarice: a jornalista, a entrevistadora, a sensível e certeira inquiridora. Ao dizer sensível, quero afirmar, e afirmo, que a célebre escritora conseguiu, em conversas pouco protocolares, obter de seu entrevistado(a) aquilo que existe de mais interior, de mais suavemente escondido, aquilo de que jornalistas do senso comum passam longe. As entrevistas, publicadas pela antiga revista Manchete, foram feitas em pouco menos de 1 ano e meio.

Entrevistas | Amazon.com.brSão 42 entrevistados: gente da literatura, da música, das artes (cênicas e plásticas) e do esporte. Engana-se quem imagina que ela se sinta mais à vontade com seus pares – escritores, poetas e dramaturgos. As melhores entrevistas, a meu ver, foram feitas com o escultor Mário Cravo, com a atriz Tônia Carrero e com o pintor Iberê Camargo. Claro que isso é apenas opinião. Há pérolas proferidas por Antônio Callado, por Jece Valadão (num breve papo), pelo sempre ótimo cronista José Carlos de Oliveira. E por aí vai.

Há um certo romantismo nas questões levantadas por Clarice. Algo de quase ingênuo, de quase simplório, mas que obtém respostas singulares: algumas delas surpreendentes, como quando pergunta ao escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues sobre sentir-se realizado como escritor. A resposta: “Eu me considero inversamente um fracassado. Não me realizei e nem acho que alguém se realize. O único sujeito realizado é o Napoleão de hospício, que não tem Waterloo nem Santa Helena.” É isso aí, Nelson! Obrigado, Mme. Lispector!

A única antologia, por enquanto

Vamos ao óbvio: só se deve enumerar um artigo se houver outros exemplares dele. Se for único, não faz sentido chamá-lo “primeiro”. Sim, falei algo dispensável, implícito em qualquer discurso. A editora Paz  e Terra, entretanto, pensa diferentemente. Aliás, sendo honesto: o problema não é da editora brasileira, mas da própria revista mundialmente conhecida e respeitada: The New York Review of Books. Vou explicar: em 1997, adquiri um livro que saía do forno: a edição brasileira de uma reunião de artigos publicados, por 30 anos, do citado veículo.

Se você que está lendo se interessa por cultura, arte, política, sociologia e uns nacos de filosofia vai apreciar a seleção de artigos feita por Robert Silvers, Barbara Epstein e Rea Hederman. Algumas perguntas iniciais devem ser feitas. Quem escreve? Sobre o que e sobre quem se escreve? Como se escreve? Esta última pergunta é fácil de responder: escreve-se bem. Alguns textos são absurdamente bem escritos – chega a dar inveja, ao menos a mim. As duas primeiras perguntas podem ser respondidas ao mesmo tempo.

Para se ter uma breve ideia: o crítico de arte Robert Hughes escreve sobre Andy Warhol; o poeta Wystan Auden versa sobre enxaquecas, enquanto o polêmico Gore Vidal fala sobre aviação em A Paixão de Voar. É um prazer saborear cada parágrafo da entrevista que o maestro Robert Craft faz com o sempre genial Igor Stravinski: o assunto é Beethoven e suas sinfonias. Richard Ellmann, claro, fala sobre Joyce, e meu texto preferido, Balzac aos trinta anos, é escrito pelo brilhante crítico inglês V. S. Pritchett.

Falei em preferência textual, mas é difícil escolher, dentre 23 artigos, qual o mais interessante. Eu não conheço uma revista literária com tamanha envergadura intelectual, capaz de abraçar tanto talento pontuando ideias que interessam não somente aos iniciados, mas a qualquer um que enxergue na boa leitura prazer e benefícios. Em tempos de boçalidade escrita e falada, de superficialidade de ideias, de enaltecimento dos medíocres, o New York Review of Books é um foco necessário de resistência.

O disco de Miles, por Khan

Já ouviu falar em Ashley Kahn? É um jornalista especializado em música, é produtor de rádio, professor, foi editor da Rolling Stone e escreveu um livro interessantíssimo sobre a gravadora Impulse!: The House of Trane Built: The Story of Impulse Records. Vou escrever sobre esse livro também, em breve. Ashley Khan, entretanto, está neste blogue por outro livro: Kind of Blue – a história da obra-prima de Miles Davis. Para quem não sabe – há alguém que não? -, Miles Davis é um dos maiores nomes do jazz. Para muita gente, é o maior. E Kind of Blue é seu disco de excelência, sua obra máxima.

O prefácio é do extraordinário baterista Jimmy Cobb, o único membro do sexteto que, à época em que o livro veio à superfície – ano 2000 -, estava vivo. Usei o termo extraordinário para Cobb, e uso também para todos os outros componentes da banda: Coltrane, Cannonball Adderley, Bill Evans, Paul Chambers e, evidentemente, o chefão: Miles. Ah, claro: Wynton Kelly, pianista, toca em uma faixa: Freddie Freeloader. Esses senhores, em perfeitíssima sintonia, criaram uma obra-prima, e Ashley Kahn detalha como, quando e por quais motivos esse disco se tornou icônico e vendeu milhões de cópias.

Há passagens saborosíssimas no livro: desde a forma como Miles Davis arregimentou Cannonball para seu time até as dificuldades estéticas da primeira sessão de gravação, em 2 de março de 1959. Aliás, a segunda sessão só teve início 50 dias depois, quase em final de abril. O que mais chama a atenção é que o material do disco é simples. Não há grandes complexidades musicais, grandes novidades harmônicas ou rítmicas. É um disco de beleza extrema, de sensibilidade aguçada. A revista Down Beat, especializada em jazz, afirmou que “o que é fora do comum é que esses homens tenham feito tanto com material tão esquálido e elementar.”

Muita gente diz que Kind of Blue inaugurou o jazz modal. Ashley Khan também, embora não se preocupe em explicar detalhadamente o que vem a ser esse subgênero. Preferiu mostrar todo o universo – político, financeiro, social, artístico – que cercou o final dos anos 1950 para expor seu resultado: Miles Davis e sua música. Mostrou pormenores de todos os músicos envolvidos, bem como dos produtores e dos chefões da estúdio. Apresentou-nos o papel dos críticos e do público. Todos marcados profundamente por uma guinada que o jazz deu a partir de Kind of Blue. Vale a leitura.

A propósito: se você não conhece o disco em questão, AQUI está, inteirinho.

Nara, aos 32

Sim, a voz de Nara Leão era pequena – e daí? Alguém cantava como ela, como se sussurrasse ao ouvido despreocupado de seu ouvinte? Sim, era limitada no alcance, mas expressava-se como ninguém em qualquer gênero musical. Foi do rock ao frevo, passando pelo baião, pela valsa, pela MPB, pelo blues. Foi tropicalista, foi bossanovista, foi a melhor intérprete feminina das canções de Chico Buarque; fez o que ninguém conseguiu: cantar alguns temas de Roberto Carlos melhor do que ele mesmo, o dono da bola.

Li a biografia de Nara, escrita por Sérgio Cabral. É um texto esclarecedor em muitos pontos, embora o autor tenha sido jornalista demais ao escrever.  Foi protocolar, a meu ver. Faltou-lhe um pouco de Ruy Castro na construção das personagem que nos apresentou. Faltou um pouco de new journalism, acho. A técnica do romance teria feito bem ao texto porque Nara merecia que sua jornada fosse assim celebrada. Bem, é apenas uma opinião.

O primeiro disco de Nara que comprei foi Com Açúcar Com Afeto, em 1981, no qual ela interpretava canções de Chico Buarque. Por conta da abertura política, foi possível ouvir a gravação (duo com o autor) de Vence na Vida Quem Diz Sim, originalmente na peça proibida Calabar – O Elogio da Traição, e aquela que, também em dueto com o próprio Chico, iria se tornar um clássico: Dueto. A propósito, AQUI, uma raridade. Para quem gosta de Nara e de Chico, é um manjar.

Nara Leão morreu há 32 anos – num dia 7 de junho, o mesmo dia em que Paulo Leminski nos deixou, por conta da cirrose que o acompanhou como uma sombra. Nara não teve melhor sorte: um tumor no cérebro venceu-a por pontos, até levá-la de forma definitiva. O que ficou? Tudo o que dela necessitamos: voz, suingue, candura, sofisticação, ternura, inquietude, talento, coragem, versatilidade. E muito mais, porque assim era ela: infinita e eterna.

Desafio do IPSIS #2

O IPSIS LITTERIS comemora sua 150ª postagem.

150 postagens sobre música, literatura, cinema, quadrinhos, esporte, política, arte, comportamento – e tudo priorizando o leitor adulto. Em outras palavras, é um blogue pouco lido, mas isso não chega a ser um problema. Vamos em frente assim mesmo, sendo mais ignorado do que reconhecido. Quando este blogue chegou a 100 postagens, propus um desafio, que consistia NISSO. Houve um ganhador, cujo nome é Vítor Sarmento, e que nunca veio buscar o prêmio. Aliás, desapareceu deste blogue, embora eu tenha comunicado a ele, nos comentários, que o sucesso bateu à sua porta. Ao que me consta, hoje, após tanto tempo, o prêmio prescreveu. Talvez não.

Comemorando a tal 150ª postagem, aí vai a segunda edição do DESAFIO DO IPSIS. Três perguntas. Quem acertar as três respostas – é necessário que sejam as três! – ganhará UM (e apenas um) dos prêmios abaixo, a escolher:

1) o blu-ray do filme Vinícius de Moraes, de Miguel Faria Jr, devidamente lacrado e selado.

2) 4 livros: um exemplar do livro Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular (biografia) + um exemplar de Fama Volat (romance) + um exemplar de Todas Elas, Agora (contos) + um exemplar de Licantropo (contos). Todos, evidentemente, de minha autoria. 

                         

3) Um voucher no  valor de 100 reais na loja Amigos do Vinil, situada no Shopping Praia da Costa. Fica em frente à C&A. Caso você, vencedor do desafio, não seja adepto do vinil, há, nessa mesma loja, camisas, livros e cedês à disposição. O voucher vale para tudo.

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DESAFIO

1) Um músico de jazz, conhecido por ser um gentleman que não destinava a ninguém uma crítica, foi abordado por dois amigos, também músicos, que resolveram lhe perguntar qual sua opinião sobre Hitler. Imaginaram, claro, que tal músico/gentleman não teria como falar de Hitler sem criticá-lo. Equivocaram-se. A resposta, elegantíssima, foi: “Indiscutivelmente, Hitler foi o melhor em sua especialidade”. Qual o nome desse músico e qual o instrumento que ele tocava?

2) Chico Buarque de Holanda é um dos grandes compositores da MPB. Para muitos, o maior. Durante muito tempo, principalmente entre 1968 e 1975, sofreu ataques frontais da censura, o que, em muitos casos, obrigou-o a modificar letras de algumas canções. Na lista a seguir, duas canções NÃO sofreram modificações (por conta dos censores) em seus versos. Quais? O Meu Amor, Tanto Mar, Jorge Maravilha, Bárbara, Vence na Vida Quem Diz Sim, Gota D’Água.

3) A ilustração/foto abaixo apresenta a famosa entrevista de alguns integrantes do famoso tabloide O Pasquim com o jornalista Carlos Castelo Branco, identificado com o número 6. Identifique os senhores marcados com os números 1, 2, 3, 4 e 5.

Não, não é fácil. A validade para as respostas do desafio vigora até dia 11/05/2020. Ou seja: quem quiser responder terá 7 dias para fazê-lo.

12 anos sem Norman Mailer

Numa seara habitada por Truman Capote, Gay Talese, Lillian Ross, Tom Wolfe e Hunter Tompson, destacar-se não era fácil. Pois Norman Mailer não somente se destacou, como foi o melhor do grupo. É o craque máximo do new journalism e um ficcionista de primeira linha, capaz de escrever sobre a 2ª Guerra Mundial (Os Nus e Os Mortos, clássico) com o mesmo primor estilístico que concedeu à biografia romanceada de Marilyn Monroe. Ou ainda escrevendo sobre uma de suas poucas paixões: o boxe. O livro A Luta, que versa sobre o embate entre Muhammad Ali e George Foreman, no Zaire, é um primor textual: nada se acrescenta, nada se omite. Fez mais: transformou Picasso em personagem, assim como o fez com o assassino de Kennedy: Lee Harvey Oswald. Em tempo: a obra de Picasso estimulou Mailer a desenhar. AQUI você confirma isso (é só comprar o livro).

O que torna Mailer tão especial? Talvez porque ele consiga algo que muitos escritores tarimbados tentaram, sem êxito: escrever ficção e falar de política ao mesmo tempo. Que eu me lembre, Gore Vidal conseguiu – e só. Provavelmente, após esta postagem ter sido publicada, eu me lembre de outro nome (mas não vou fazer adendos). A Guerra do Vietnam, o feminismo, os conflitos raciais, a relação USA-Cuba, as bandidagens das primárias para presidente, tudo isso era seu assunto, e foi uma espécie de destroçador do american way of life, que ele considerava uma baboseira nociva que precisava sempre ser atacada.

Resultado de imagem para os nus e os mortosNorman não se ateve à literatura, aos livros – ou ao jornalismo. Foi roteirista de cinema, escreveu para teatro e para a televisão, foi ícone contracultural, e despertou o ódio das feministas (e de qualquer pessoa normal) quando uma de suas esposas o acusou de violência: ele a esfaqueou duas vezes (uma estocada no peito e outra nas costas), com uma pen-knife. A propósito: Norman Mailer se casou seis vezes. A esposa esfaqueada chamava-se Adele Morales, pintora de origem peruana, e que morreu 3 anos após o ex-marido.

Hoje faz 12 anos que Norman Mailer morreu. Sinceramente? Acho que ele fez falta como escritor e como jornalista, principalmente durante os anos Obama, com sua dialética refinada e cáustica. Quanto ao governo atual, de Donald Trump, bem, acho que Mailer estaria salivando, pronto para estraçalhar a Casa Branca, demolindo-a, como fez com tudo que merecia demolição.

Bueno, Contracultura, Cassidy

Eduardo Bueno é um jornalista que sabe escrever, sabe ir além do texto jornalístico e de suas regras de como fazer o leitor entender – muitas vezes o óbvio.  Ir além do texto jornalístico, para mim, é aproximar-se da literatura. Não espere, claro, que eu o compare a Tom Wolfe, a Truman Capote ou ao meu preferido, Gay Talese, craques do new journalism. Se é para iniciar esta postagem com alguma comparação, aproxime Eduardo Bueno de Ruy Castro, de Fernando Moraes. Devo dizer que esse não é o propósito deste texto.

Li, há pouco mais de dois meses, Textos Contraculturais, Crônicas Anacrônicas & Outras Viagens, do dito cujo. Uma reunião de textos – quase todos ótimos – sobre um tema que me interessa: contracultura. Escrevi sobre isso na biografia Os Mamíferos…, mas não é sobre mim que quero falar. Contracultura não é tema explorado há pouco tempo. Contracultura é, evidentemente, algo tão antigo quanto a cultura per si. O Iluminismo foi contracultural, bem como o Modernismo, catapultado pelas vanguardas que a Europa gerou. Enfim! Eduardo Bueno reúne textos que publicou entre 1984 e 2010, e mais um texto inédito, intitulado Quatro Mil Dólares e uma Ponta.

A maioria dos leitores de Bueno – aos menos aqueles que conheço – tiveram contato com ele pelos livros publicados pela Estação Brasil. Livros de História escritos por um jornalista – quer algo mais contracultural? Ao contrário deles, cheguei a Bueno através do livro Alma Beat, no qual se encontravam textos de outros simpatizantes do movimento, como Claudio Willer (tradutor de Lautreamont) e Antonio Bivar. Todos bons de traço, mas Eduardo Bueno era mais rock and roll, mais ácido, e tão divertido quanto esclarecedor. Eu tinha 22 anos, já era professor e pude ver o quanto eu não sabia – e quanto era necessário aprender!

Voltando ao livro: de todos os textos (16, ao todo), sem contar as crônicas, o que mais me chamou a atenção foi Visões e Revisões de Jack & Neal, escrito e publicado há 10 anos, no qual Bueno apresenta o tom de beatitude que exsudava da figura de Neal Cassady, um dos heróis da geração beat. É nesse texto que Bueno parece se emocionar, parece entregar-se ao que o movimento tinha de mais verdadeiro e honesto, mais inquieto e pujante. Há muito mais a dizer, mas um blogue precisa economizar as palavras, ou não será lido. Ok, não precisa perder seu tempo, mas ganhe de outro lado: leia o livro de Eduardo Bueno. É uma viagem de ida da qual não é necessário voltar.

Para Caetano, com amor!

Acabei de ler a biografia de Caetano Veloso: a desautorizada, para a qual ele, o biografado, havia, anteriormente, dado o ok. Após a decisão do STF sobre a censura a biografias, o livro veio a público. Caetano já havia escrito, par lui-même, sua história: Verdade Tropical, que li com avidez, urgência, em 1998. Nem quis ler as modificações, enxertos a meu ver desnecessários, feitas vinte anos depois, quando relançaram a obra. Não me interessa. Fico com o texto original. Dessa vez a coisa muda: não estando o próprio biografado no controle da situação, espera-se que se exponham fatos que não vieram a lume – ainda.

Caetano acha que o livro é mal escrito. E sobre algumas passagens o compositor baiano tem razão. É carregado de clichês, há erros gramaticais, praticamente não tem qualidade literária – mas eis a questão: não é essa a proposta do livro, a meu ver. Os autores – Carlos Eduardo Drummond e Márcio Nolasco – não me pareceram preocupados em fazer literatura, mas em contar a história de um indivíduo que, para dizer o mínimo, é o ídolo deles. E nesse ponto, detalhar os acontecimentos, explicar atitudes, expor novidades, tudo isso, marcado por um garimpo criterioso e aparentemente honesto, faz com que a leitura do livro seja considerada essencial. Ao menos a quem se interessa pela vida de um dos ícones da MPB.

Meu último livro foi uma biografia: Os Mamíferos -crônica biográfica de uma banda insular. Senti na pele o que é trabalhar com fonte primária, usando as ferramentas disponíveis (jornais, revistas, depoimentos). Havia muito pouco material sobre meus biografados. Os biógrafos de Caetano, no entanto, tinham, diante de si, uma história sedimentada, um artista sacralizado pelo tempo e pela memória, sem contar as inúmeras publicações acerca do protagonista do livro. E o resultado, em termos de pesquisa, é assombroso. É justo parabenizar!

O Caetano Veloso que mais me interessa vive entre 1965 e 1980. Das participações nos festivais à liberdade criativa da Abertura Política, passando pela polêmica do Tropicalismo, pelos shows com Chico, com Bethânia, com os Doces Bárbaros, com a Banda Black Rio, pela inquietude criativa, pelos relacionamentos amorosos – que tanto influenciaram suas composições -, pelos conflitos com a imprensa, pelo cinema, pela caretice em relação às drogas, pelo autoexílio londrino, pelos festivais internacionais de rock (de um deles ele participou), tudo isso está lá, e muito mais, como um documento que serve para compreender quem é Caetano Emanuel Viana Teles Veloso. Sem qualquer indulgência, transpirando honestidade, o livro é definitivo. Pode falar mal, Caetano, mas os autores fizeram uma declaração de amor a você!

Paulo, Henry

Em épocas de juvenismo político, quando autores de direita me ameaçavam tanto quanto a gripe que escorria de minhas narinas, cheguei a imaginar que Paulo Francis era um idiota, um pascácio de ideias curtas. Eram os anos 1980, quando ele aparecia no quase fechamento do último telejornal noturno da Globo, comentando sobre costumes, arte, comportamento, jornalismo, música clássica, exposições, livros, teatro – tudo, evidentemente, do e no país em que vivia, os Estados Unidos. A voz era inconfundível, carregada de desprezo por aqueles que discordavam dele e uma certa arrogância com quem o admirava. Blasé ao extremo.

Resultado de imagem para o livro dos insultosEu disse, há algumas postagens, que Diogo Mainardi queria ser Paulo Francis. Digo e repito. E falo mais: Paulo Francis queria ser Henry Louis Mencken, o temido jornalista norte-americano cujas observações – tão lúcidas quanto ácidas – de natureza cultural, política, religiosa, econômica, pautaram o quotidiano norte-americano durante 60 anos. Era uma fera indomável, marcado por um profundo conhecimento sobre o assunto que dissertava. Batia em quem considerava medíocre ou desprezível: padres, pseudointelectuais, políticos aproveitadores, escritores de segunda linha, artistas pretensiosos. Não poupou ninguém – a não ser quem merecia.

Cada um a seu modo, tanto Paulo Francis quanto H. L. Mencken são necessários. Precisamos de figuras assim, capazes de encarar a realidade sem as indulgências advindas da política, da grana, do aconchego da estabilidade no ofício, do mercado que dita as regras. Tanto um quanto o outro adquiriram o status do intelectual cáustico, capaz de enfrentar o establishment de maneira nem sempre elegante. Tinham muito a dizer sobre vários assuntos, marcando o território com a polêmica tão necessária a qualquer discussão entre indivíduos ou grupos inteligentes. O Livro dos Insultos de Mencken, publicado em 1988, é uma coletânea, selecionada por Ruy Castro. São textos extraídos de A Mencken Chrestomathy. Um iconoclasta de primeiríssima linha. Merece a leitura.

O livro de Francis é organizado pelo jornalista Nelson de Sá – e ao que parece, seu fã. Selecionou bem. Há artigos de toda sorte: da hipocondria de Woody Allen ao populismo de Jorge Amado; da burocracia de Gorbachev ao cinema de Coppola, passando por Freud, Truman Capote, Cacilda Becker, políticos como Lula, Collor, Brizolla e…Henry Louis Mencken, a quem admirava por motivos óbvios. É divertido ouvi-lo desancar alguns ícones, debochar da boçalidade e da jequice de alguns artistas, sejam brasileiros ou estrangeiros. O livro também merece uma checada. São 386 páginas de puro deleite, se você aprecia ataques à mediocridade.

Para ler frases de Mencken, clique AQUI.

Se quiser ler alguns aforismo de Francis, clique AQUI.