Machado, Woody & as crianças francesas*

Imagine que um determinado livro, ao ser lido, tenha impactado seu leitor de forma tão impressionante que esse mesmo leitor passe a citá-lo quando lhe perguntam quais as obras de sua preferência. Isso é plenamente possível – eu diria até corriqueiro. Woody Allen, o cineasta norte-americano, confessou ao jornal inglês Guardian que Memórias Póstumas de Brás Cubas, do autor carioca Machado de Assis, foi um dos cinco livros que mais influenciaram sua carreira. Isso também é plenamente possível, já que a obra – o título traduzido, Epitaph of a Small Winner, é muito melhor – é tremendamente bem escrita e, para os moldes da provinciana literatura brasileira da época, de uma inventividade sem precedentes.

O que me causa espécie é o fato de Woody Allen, tão impressionado com o livro citado, não tenha buscado ler outras obras de Machado. Ou, por outra: não há registros de que ele tenha mencionado, por exemplo, Philosopher or Dog?, que é o título inglês do mais bem acabado livro de Machado de Assis, Quincas Borba. Eu me lembro de que, em meados dos anos 80, após ter lido Bem-vindo à Casa dos Macacos, de Kurt Vonnegut, Jr., numa daquelas edições mal traduzidas da Artenova, passei a garimpar, em sebos principalmente, livros desse autor com uma urgência que mal cabia no discurso, já que nem eu mesmo sabia exatamente por que se tornara necessário ler todos os seus livros. Hoje, compreendo que a busca por outros livros de um autor nada mais representa do que a manutenção de um diálogo que se estabeleceu na primeira leitura e que se deseja contínuo, arrastando-se por outras obras até que o leitor, por motivos que dizem respeito somente a ele, queira dar um fim a esse, digamos, bate-papo.

E por falar em diálogo, e também em Machado de Assis, tenho-me incomodado com uma questão, que certamente se liga a Mr. Allen. Simples: creio eu que o cineasta, já que afeito à palavra escrita, tenha-se relacionado com o texto machadiano de forma adulta – ou seja: leu-o com a maturidade necessária a uma compreensão que favorece não somente o leitor, mas também o texto. Em outras palavras: os livros do autor carioca – assim como acontece com vários outros autores – exigem daqueles que os leem um certo costume de boa leitura, uma apreensão criteriosa do texto literário, uma intimidade com textos que desafiem o leitor. Isso não retira, em absoluto, a possibilidade de ler tais textos como passatempo, hobby. Fiquei sabendo, há uns dois anos, que o texto machadiano Conto de Escola havia sido, numa tradução, adotado para crianças francesas de 8 a 10 anos de idade. 

Eis a questão: será que crianças nessa idade, mesmo que bem orientadas por professores tarimbados, têm condições de perceber o pessimismo irônico de Machado e, mais ainda, que a corrupção pode ser fruto circunstancial da infância? Refrescando a lembrança: o personagem central do conto – e também seu narrador – é um menino de nome Pilar, que aceita dinheiro de um colega para fazer-lhe um trabalho escolar, mas que, ao final, por circunstâncias alheias a sua vontade, acaba ficando sem o pagamento. Se possível fosse, o menino manteria consigo a quantia obtida com a venalidade. Não há esperanças para ele. O destino está traçado. Sem contar que a corrupção, no conto, tem um viés sensual que desafia qualquer professor a traduzi-lo para crianças – francesas ou não. 

Ler Machado de forma superficial é um pecado de escala estratosférica. Por outro lado, é sempre bom saber que um escritor de sua envergadura aproxima-se de leitores infantis. Desmistifica-se, então, a ideia de que a literatura brasileira do século XIX é inacessível à garotada. Mas o que pergunto é se a coisa funciona. Aquele sutil questionamento sobre moralidade, as nuances que proporcionam breves confusões ao leitor, as obliquidades, o camuflado deboche às instituições – haverá uma tradução francesa capaz de captar essa atmosfera? Pode até ser, mas crianças de 10 anos serão capazes de isso perceber? Se não, quem perde, de fato nessa história, é o texto.

*Publicado, originalmente, em A Gazeta (jornal local), em julho de 2011.

 

Cinema ou sardinha, Guillermo?

Guillermo Cabrera Infante y la censura

Escrevi sobre livros de Guillermo Cabrera Infante, um dos meus ídolos literários. Dois deles: Fumaça Pura e Mea Cuba, volumes cuja (re)leitura me enche de prazer e – se me permitem a pieguice – enchem meu coração de alegria. Cabrera Infante é fã de cinema, e o compreende de forma bastante singular, e essa singularidade é expressa em palavras que se transformam em crônicas bem humoradas, por vezes mordazes, que emitem luz sobre a arte que tanto aprecia a luminosidade. No início de 2023, adquiri os três volumes de artigos sobre filmes: Cinema ou sardinha. Em espanhol os volumes concentram-se num só.

Cinema ou sardinha - parte 2: Vias, bem vivas: Volume 2 | Amazon.com.brCabrera Infante tem aquilo que todo escritor deseja ter: maturidade irônica. E é justamente munido dessa ferramenta que ele escreve – parece conversar com o leitor, entre charutos e doses de bourbon – sobre Howard Hawks, Orson Welles, Hitchcock, Vincente Minnelli, sobre seus filmes e como eles conseguiram referenciar uma época e muitos costumes. Sim, o cinema é, claro, a grande personagem do livro, reverenciada por um autor que desde a infância se mostrou cinéfilo apaixonado, febril. O título, aliás, é uma grande brincadeira. Pode-se viver sem sardinha, mas não sem cinema.

As mulheres não estão ausentes: o volume 2, cuja capa ilustra a postagem, é marcado por crônicas que homenageiam Marilyn, Rita Hayworth, Anita Loos, Mae West, Barbara Stanwyck, Gloria Swanson, Ava Gardner. Até Sharon Stone e Melanie Griffith entraram no rol. E homens célebres como William Holden, Orson Welles, Fellini, Chaplin, Cary Grant e James Mason. É uma festa. E tudo isso escrito com a pena infantiana – ou seja, veloz, mordaz, sacana, trocadilhesca e tão literária que causa inveja: ao menos em mim. Vai causar inveja a você, também. Se você que lê aprecia cinema, não pode deixar de ler a trilogia.

Cinema Ou Sardinha - Parte 1 Pompas Fúnebres - SBSE para quem torce o nariz para o cinema americano, há diversão fora do eixo: Guillermo Cabrera Infante escreve sobre Almodóvar, Fritz Lang, Kiarostami, Kurosawa. Escreve sobre grandes diretores e, claro, grandes filmes feitos por eles, sobre filmes B, sobre o faroeste, os filmes em preto e branco e por aí vai. Tudo sob a ótica de um erudito que sabe ser popular – e vice-versa. Li vários livros sobre cinema – da crônica ao romance, passando por biografias e análises fílmicas -, mas nada me divertiu tanto quanto, diante da erudição e do conhecimento de Cabrera Infante, perceber que o cinema sobrevive e para sempre viverá. Vale ler para crer.

 

Os Mamíferos revisitados

Inovar só tem relevância se a inovação tiver real valor. Falei o óbvio. Experimentalismos no vácuo valem quase nada – exceto, talvez, para seu autor, que imagina ter descoberto a importância do oxigênio. Sei que, após 1922 – quando Joyce decepou de vez o romance moderno -, não se fez nada de novo em literatura. Retomar, reinventar, reciclar: três verbos cujo prefixo expressa que o ineditismo passou longe. Por que falo isso, entretanto? Vou explicar. Em 2016 lancei um livro biográfico intitulado Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular. 337 páginas contando a história de 3 artistas e de seus entornos.

TBT: o início do rock no ES e a história da banda Os Mamíferos, nas décadas de 60 e 70A capa está aí, ao lado. Nela, os componentes do time: Mário Ruy (guitarra), Afonso Abreu (líder e contrabaixo) e Marco Antônio Grijó (bateria). Um trio, na verdade – que, em muitos casos, acrescia-se de um vocalista tão talentoso quanto polêmico: Aprígio Lyrio. Falei em inovação, no primeiro parágrafo. Fui específico ao afirmar que nada é novo em literatura. E na música? Creio que esse vaticínio se repita, mas é preciso levantar, no caso dOs Mamíferos, algumas bolas. Duas delas são inquestionáveis porque se baseiam na cronologia. Vou explicar também.

Caetano Veloso e Gilberto Gil são pilares da música popular brasileira. Ao lado de Chico Buarque, formam a Santíssima Trindade da MPB. A dupla baiana criou o Tropicalismo, estética que retomou a Antropofagia de Oswald de Andrade e passou a valorizar o Brasil conectando-o ao resto do mundo. Um dos elementos do movimento foi a fusão de gêneros, ritmos, melodias. Pois é: foram louvados a partir de 1967, quando tudo começou. E não é que Os Mamíferos, esse trio capixaba, já havia feito isso quase dois anos antes?

Filme sobre Os Mamíferos terá sessão especial e gratuita na Serra - Século Diário

Quer mais? Miles Davis oficializou o fusion através de um disco extraordinário cujo título é Bitches Brew, em 1969. Nele, o essencial jazzista estabeleceu a união entre o jazz e o rock, criando um mundo novo para os ouvintes de ambos os gêneros. Sim, sim. Os Mamíferos já faziam isso, afinal o trio, antes de se dedicar ao rock, já nadava pela maré do jazz há muito tempo. Para eles, a fusão foi natural. Falo sobre isso no livro, embora evite polêmicas. Elas são desnecessárias, principalmente quando o mais importante na música – e na arte! – é seu conteúdo, é aquilo que ele provoca em quem o consome. Saravá, Mamíferos!

*A foto, de 1969, mostra Mário Ruy (à esquerda, na guitarra); Marco Antônio Grijó (bateria) e Afonso Abreu, no baixo elétrico. Som de primeiríssima. Seria bom se vc tivesse ouvido, Miles!

Filmes (re)vistos #10: Fahrenheit 451, 1966

Fahrenheit 451 (Filme), Trailer, Sinopse e Curiosidades - Cinema10De volta.

Qualquer estudante secundarista já estudou escalas termométricas: Celsius, Kelvin, Reaumur, Rankine e, claro, aquela que possui o nome mais charmoso, Fahrenheit. Esse nome alemão pertence a Daniel Gabriel, físico teuto-polonês que inventou o termômetro de mercúrio e que adorava spaghetti. Na escala Fahrenheit, o papel combure a 451 graus – daí o título. Um filmaço, dirigido pelo meu xará, François Truffaut, e com a presença luminosíssima da bela Julie Christie.

Revi o filme porque queria apresentá-lo a um amigo que havia lido o livro – homônimo, de Ray Bradbury – no qual o filme se baseou. A película é uma declaração de amor aos livros: a mais potente, precisa e poética forma de dizer aos livros o quanto eles importam. E como seria o mundo sem eles? Eis a questão: o que seria deste planeta sem Shakespeare, Cervantes, Dante, Camões? E olhe que cito somente gente ligada à literatura, porque sem a Arte em geral e Filosofia, estaríamos de 4, no bosque, uivando para a lua.

Num futuro distópico, os livros representam o perigo, afinal versam sobre o conhecimento, sobre a informação. Não são eles os grandes inimigos do totalitarismo? Devem ser extirpados, destruídos como se fossem uma lepra social. Em se tratando de um Brasil recente – e considerando as proporções óbvias -, passamos por isso. Artistas, neste país, durante quatro anos, foram os vagabundos, os inomináveis párias contrários à pátria amada. Enfim, isso é papo para outra postagem.

VIVER É PERIGOSO: FAHRENHEIT 451

Truffaut foi feliz. Conseguiu imprimir no celuloide a força poética do romance de Bradbury. Conseguiu contar uma história cheia de suspense, amor, erotismo, aventura. Criou um cenário fotográfico nebuloso, tenso, corroborando a ideia de que algumas ações representam perigo tão imediato quanto fatal. Ler é crime, e criminosos devem ser punidos e educados a abominar a fonte de onde vêm as ideias. É um filmaço, uma ode à memória literária. E a propósito: esta aí embaixo é Julie Christie, de quem falei. Bonitinha, não?

Джули Кристи (Julie Christie) - актриса - фильмография - голливудские актрисы - Кино-Театр.Ру

Beethoven, Bach: 2 livros

Beethoven: Solomon, Maynard: 9780028724607: Amazon.com: BooksMais livros, mais música.

Maynard Solomon é um craque, um ás. Escreve para quem conhece o assunto com profundidade; escreve para quem é leigo e se interessa por aquilo que ele fala: música clássica. Conheço poucos com essa habilidade, porque ambos – o conhecedor e o ignorante interessado -, para ele, têm a mesma importância, já que se nutrem da mesma matéria, cada um a seu modo. E de qual matéria eu falo? De Ludwig van Beethoven, um dos mais importantes nomes da música em qualquer época. Para muitos, o maior. 

Acabei de ler a biografia do grande homem escrita por Solomon. É um assombro. Um trabalho cirúrgico sobre a amplidão de uma obra sem limites: as influências, a vaidade, a surdez, a bajulação, a saúde débil. O Beethoven despótico, o incompreendido, o arrogante. O Beethoven absolutamente genial que, quando queria, era incomparável, senhor absoluto do elemento musical. Claro: há um capítulo sobre o tema amoroso e, evidentemente, a Amada Imortal dá o ar da graça. Há também os relatos absolutamente saborosos das circunstâncias que levaram o gênio a compor determinadas peças musicais. É de não querer parar de ler.

I48 variações sobre Bach | Amazon.com.brniciei, neste mesmo dia em que escrevo este texto, a releitura de 48 variações sobre Bach, de Franz Rueb. Li-o quando veio a público, há 21 anos. É biografia estilosa, diferente de tudo o que já li (ou reli), traduzido numa narrativa incomum. Rueb é suíço, dedica-se à música desde a adolescência e ele mesmo sabia que ouvir Bach aos dezoito anos é diferente de ouvi-lo 40 anos depois. Essa é a premissa: Bach varia, modifica-se para melhor, sempre. E essa variação estende-se à própria concepção do Kantor.

Há o Bach religioso, luterano; há o Bach iluminista, algébrico, pensador. Franz Rueb analisa os dois de forma descontraída, com linguagem acessível – um tanto distinta daquela de Solomon – e simples. As Variações Goldberg, mote para o livro, são, originalmente, um exercício para teclado: repetições necessárias com sutis modificações. O livro é isso. Bach, único, torna-se variável em vida, obra, realizações, sentimentos, pessoas. Nada mais óbvio, nada mais inventivo. Vale a leitura.

Alejo Carpentier: música & letras

Alejo Carpentier - Portal da LiteraturaFiquei alguns anos me preparando para escrever sobre aquele que considero o maior escritor latino-americano: o cubano Alejo Carpentier. Bem, afirmar que ele é o maior é juízo de valor e, portanto, subjetivo. Um querido amigo disse que ser o maior num país que produziu Lezama Lima e Cabrera Infante não é fácil. Concordo: mantenho a afirmação, entretanto. Carpentier tem a elegância e a erudição necessárias aos grandes escritores – sem deixar, claro, que tais elementos o afastem de leitores menos exigentes, mas que apreciam a arte literária. Antes que me apedrejem: escritores inteligentes escrevem para leitores inteligentes.

Fiz referência a ele ao escrever sobre Antonio Vivaldi, numa postagem recente. Concerto Barroco é uma obra-prima, que se aproxima de uma outra, intitulada A Sagração da Primavera, dois livros que nascem da música e vivem por ela. Isso sem contar El Acoso, que ganhou tradução como O Cerco, e que versa sobre política e, claro, música. Alejo Carpentier era um sujeito de muitas caras (no ótimo sentido): era jornalista apaixonado por arquitetura, música e pintura. Lia partituras e versava sobre pintores expressionistas com propriedade.

E era um escritor extraordinário, cujo barroquismo da linguagem pode parecer, de imediato, difícil (e um tanto fastidioso). Seus livros (li alguns) não me assombraram inicialmente – com exceção para o citado Concerto Barroco -, e me obrigaram, não sem paciência, a esperar os enredos ganharem ritmo. Aconteceu com A Sagração da Primavera, uma história de amor entre um cubano revolucionário e uma bailarina russa. Aconteceu com O Cerco, narrativa curta cuja base é a Eroica, terceira sinfonia de Beethoven.

Carpentier escreveu La Musica en Cuba. Não conheço a obra, mas imagino que sua pesquisa deva ter a profundidade necessária ao esclarecimento pleno dessa específica arte. Em O Músico em mim, um retrato extraordinário da relação entre o romancista e a música, Alejo Carpentier expõe seu conhecimento vastíssimo sobre a música clássica do século passado, mas isso é papo para uma outra postagem. Fique com A Sagração da Primavera, com Concerto Barroco e com O Cerco. Ou, ao menos, um deles.

Davis, Moon: biografias

Livro: Miles Davis - a Autobiografia - Miles Davis - Quincy Troupe | Estante VirtualEsta é para quem gosta de biografias. Dependendo do personagem sobre quem se fala, eu também gosto. Falei o óbvio. Para escrever a verdadeira história dOs Mamíferos, banda de rock capixaba que teve vida curtíssima — apenas 4 anos —, li sobre algumas vidas: de Lewis Carroll a Jorge Guinle, passando por Billie Holiday, Miles Davis, Frank Sinatra. Claro que priorizei biografias musicais, evidentemente. Aliás, há, sobre a biografia de Mr. Davis, algo a se considerar: a linguagem usada na tradução. Uma tristeza.

Eu explico. O livro é escrito a quatro mãos: o próprio Miles e Quincy Troupe, poeta e escritor que, entre outras obras relevantes, escreveu sobre Stevie Wonder e sobre o Weather Reports. Sabe o que fala, sabe o que escreve e, sendo ele um arguto observador da cultura afro, muitos dos termos usados no texto refletem a linguagem específica do universo negro norte-americano. E como traduzir isso? Não é fácil, eu sei, mas encher a tradução com expressões que adolescentes brasileiros falam é, no mínimo, inadequado. De resto, nada como ler sobre um dos homens que, em pelo menos duas ocasiões, mudaram o jazz.

Não é o que acontece com a biografia do maior baterista do rock — Keith Moon. Tony Fletcher, o biógrafo, assim como Quincy Troupe, ama a personagem de quem fala. Absolutamente detalhista, criterioso, mantém-se na linguagem que alia bom jornalismo e boa literatura. Herdeiro do new journalism, distanciou-se de Gay Talese, de Truman Capote ou de Tom Wolfe ao evitar os elementos romanescos e possivelmente fictícios — mesmo que para apenas ilustrar a obra. Eis um retrato de Keith para além do baterista.

Keith coloca Ginger Baker e John Bonham no bolso, deixando que se baqueteiem mutuamente disputando a vice-liderança. Não, não é pouco. De criança-problema ao estrelato mundial, essa figura mítica, intrigante e genial criou um mundo em que era o grão-vizir, fazendo o que queria, explodindo instrumentos, arrumando confusões com skinheads, bebendo quantidades industriais de uísque e vodca, brigando com colegas de banda, fantasiando-se de cavalo, divertindo-se às custas do constrangimento alheio. Foi ao limite. Era uma criança quando tinha de ser criança — e assim continuou até morrer, em 1978, mal tinha acabado de fazer 32 anos. Fica sua história, para gozo dos fãs e dos admiradores do bom e velho rock.

As lacunas de Campos de Carvalho

Walter Campos de Carvalho escreveu poucos livros. A exemplo de figuras como os norte-americanos J. D. Salinger e Thomas Pynchon, (adiciono o mexicano Juan Rulfo), o autor sempre achou que deveria falar apenas o necessário, e – dizem! – arrependeu-se de alguns textos. Não sei dizer até onde essa informação é segura. Li 4 livros desse autor. Dois deles são obras-primas da anarquia literária: A Lua vem da Ásia e Vaca de Nariz Sutil. Os outros dois, A Chuva Imóvel e O Púcaro Búlgaro são divertidíssimos (principalmente este último), e deveriam ser lidos por quem aprecia boa e originalíssima literatura.

Tribo by Campos de Carvalho | GoodreadsEis a questão: faltam-me a leitura de 3 obras, a saber: Banda Forra, livro de ensaios, de 1941; Tribo, romance de 1954, e a coletânea de contos O Espantalho Habitado de Pássaros, que nem sei se existe, de fato. Consta que foi publicada em 1965, mas não conheço ninguém que tenha lido, nem que sequer tenha conhecido, folheado etc. Campos de Carvalho renegou Tribo e Banda Forra. Calou-se sobre tais obras como se elas denunciassem um escritor que ele não era, mas que, tenho certeza, moldaram o fenômeno literário que ele se tornou.

Se há um bom autor no insipiente surrealismo brasileiro, essa figura é Campos de Carvalho. É possível garantir isso a partir da leitura das obras que não foram renegadas, e que trazem a marca do absurdo conectado a uma linguagem veloz e quase automática, incisiva, e que parece brotar de um inconsciente em ebulição. Há, também, o elemento cômico – mas aí o papo é outro, e o Surrealismo se desloca para dar lugar ao farsesco, ao deboche desmesurado, ao chiste e aos trocadilhos.

A surrealidade da guerra em "Vaca de Nariz Sutil", de Campos de Carvalho - Homo Literatus

A vontade do autor deve ser respeitada, é evidente. Se ele não quer que os títulos citados venham à tona, que seja feito seu desejo, e nem é necessário que isso seja explicado. Resta ao leitor, principalmente ao leitor que apreciou a leitura dos livros cuja edição e reedição foram permitidas, imaginar a razão dessa lacuna. No fundo, tal razão não importa muito. A lacuna, sim. Campos de Carvalho é daqueles autores cujas linhas deveriam ser expostas em toda a sua integridade.

AQUI um ótimo ensaio sobre a obra do autor.

At the Village Vanguard, o livro

Livro: Ao Vivo no Village Vanguard - Max Gordon | Estante VirtualLivros sobre música – todos os gêneros possíveis – pululam nas prateleiras das poucas livrarias. Há de tudo: desde biografias de músicos e bandas até manuais de como aprender a tocar instrumentos: do violoncelo à shakuhachi. Todos os gostos são contemplados – o que me tranquiliza, pois o jazz, o rock, a MPB e a música clássica são gêneros que parecem vender bem, já que há títulos em abundância. Em deles é Ao Vivo no Village Vanguard, de Max Gordon. Quem é Max Gordon, afinal? É proprietário da mais tradicional casa de jazz dos Estados Unidos – o Village Vanguard do título. 

Estive lá, nos anos 1990. Assisti a uma apresentação de David Murray, o sopro mais vigoroso desde Benny Golson. Paguei os olhos da cara, tomei duas doses de uísque e não comi nada, porque não se come no Village Vanguard. Bebe-se, fuma-se e ouve-se. Mas quero falar do livro. Max Gordon dá o ritmo, trazendo histórias sobre as figuras que se apresentaram na casa. Do espetacular saxofonista cego Roland Kirk a Dannie Richmond, baterista de Mingus que, emocionado após a morte do amigo, vai até o Village para uma conversa.

Há mais: Sonny Rollins fugindo do palco após metade de uma extraordinária execução; um retrato de Miles Davis, o gênio temperamental, e cantoras do calibre de Anita O’Day e Dinah Washington. Ok, não é apenas música. Há, por exemplo, um capítulo delicioso sobre como Max Gordon usou as segundas-feiras – dias em que o Village não funcionava – para reunir um grupo e conversar sobre qualquer assunto, desde que polêmico. Há apresentações de blues, há um capítulo para Lenny Bruce, o comediante em seu estandape.

Bar Village Vanguard em Nova York - 2023 | Dicas incríveis!

O Village Vanguard é, contudo, uma casa de jazz. É uma grife poderosa: muitos músicos tarimbados apreciavam fazer um disco com a chancela Live at Village Vanguard. Vou citar alguns medalhões: Sonny Rollins, John Coltrane, Bill Evans, Dizzy Gillespie, McCoy Tyner, Bobby Timmons, Wynton Marsallis, Art Pepper, Mal Waldron, Miles Davis. Bem, a lista não cabe na postagem. Vale a pena ler? Claro, desde que você goste de boa música e que aprecie um bom papo sobre ela. Se você se interessou em ler esta postagem, está nessa categoria de leitor. Aproveite, portanto!

Mr. Wilson no castelo

Grupo Companhia das LetrasFiquei assombrado ao ler, em meados dos anos 1980, O Castelo de Axel, de Edmund Wilson. Assombrado duas vezes, na verdade. Uma delas: o acúmulo de informações que esse senhor possuía sobre o Simbolismo e seu mais icônico representante, Artur Rimbaud; a outra: o tamanho diminuto do meu conhecimento acerca do mesmo tema. Claro que Wilson não fala somente do enfant terrible Rimbaud. Joyce, Eliot, Gertrude Stein, Valéry, Proust, Yeats e Villier de L’Isle-Adam são avaliados/analisados pela inteligência robusta de um dos maiores críticos literários do século XX. Você deve se lembrar dele pelo estrondoso sucesso de um livro que poucos leram: Rumo à Estação Finlândia.

Todos esses escritores citados em O Castelo de Axel criaram a modernidade nas letras. Sem eles, é provável que ainda estivéssemos tateando as paredes do século XX, ruminando o ocaso serôdio do Realismo e estapeando a estética parnasiana. Foram eles, segundo Edmund Wilson, os responsáveis por uma estética que, diante da industrialização e da materialidade, buscaram a alternativa que moldou o século em que nasci: a imaginação. É dessa literatura imaginativa, num período de 60 anos – de 1870 a 1930 -, que o livro trata.

O Castelo de Axel - Edmund WilsonAo ler, pela primeira vez, eu já mantivera contato com as letras de Rimbaud, Eliot e o Joyce de Dublinenses. Cheguei a Eliot por meio de meu amigo Reinaldo, que criticara a tradução de Ivan Junqueira para The Waste Land. Sabia alguma coisa de Valéry, Stein e Yeats e ignorava solenemente Villier de L’Isle-Adam – exceto pelo poema dramático Axel, que inspirou o título do livro. Claro: há outros poetas sobre os quais versa – em especial Jules Laforgue e o sempre funestamente misterioso Tristan Corbiére. Edmund parece conversar com o leitor, mas cobra dele seriedade e conhecimento.

Não é fácil escrever sobre autores tão essenciais – e sobre suas obras. Há certo incômodo em apontar o dedo para defeitos (ou questionamento de virtudes) de obras que atravessam o tempo como ícones de um gênero literário: em especial o Ulysses, de Joyce, e Em busca do Tempo Perdido, de Proust. A segurança com que Edmund Wilson analisa autores e livros é inquestionável. E cheia de criatividade, alegria, inteligência. Wilson é tão essencial quanto os autores sobre os quais escreve.