Mulheres #10: Jacqueline Bisset

Algum leitor deste blogue assistiu a A Noite Americana? Como você não pode, na postagem, responder positivamente, vou imaginar que o leitor assistiu, sim, e várias vezes. A primeira, porque era François Truffaut o diretor: tão badalado quanto competente, um dos grandes nomes do cinema francês. A segunda, a terceira, a quarta e as tantas outras, por um outro motivo: Jacqueline Bisset, esta mocinha abaixo representada, esta beleza plástica que entorpece olhares de ambos os sexos:

Os dez melhores filmes de François Truffaut

A Noite Americana é um ótimo filme: metalinguagem, sensualidade, cinema puro. Não foi, entretanto, o filme que me apresentou essa belezura, e sim O Fundo do Mar, uma película meia-boca de Peter Yeats, que pegava carona no sucesso de Tubarão, de Spielberg. No filme ela contracena com o sempre ótimo Robert Shaw. AQUI você confirma como ela consegue reunir máxima beleza e aparente fragilidade.

Feliz aniversário, Jacqueline Bisset! - Blog de Hollywood

Pictures & Photos of Jacqueline Bisset in 2023 | Jacqueline bisset, Jacqueline, Jacqueline bissett

Claro, claro: que lê deve perguntar: E Bullitt? Bem, o filme é um clássico do final dos anos 1960, traz o mitológico Steve McQueen no papel principal masculino e, claro, a luminosa Jacqueline Bisset, no papel de Kathy, namorada de Bullitt. McQueen, notório galanteador e sátiro de primeira linha, dizia que a atriz era tão bonita que o fazia sofrer. Não se sabe se com essas palavras conseguiu algo mais do que contracenar com Jacquie, como ele mesmo a chamava.

O melhor filme de que participa – em singelíssima opinião -, e no qual mantém sua beleza refulgente (e capacidade dramática), é A Sombra do Vulcão, de John Huston. Aos 40 anos, madura na plástica e no desempenho dramático, participou de uma história tensa, marcada por triângulo amoroso, reconciliações e ambiente hostil. AQUI você assiste ao trailler. É melhor ver o filme inteiro, contudo.

Flick Review < Under the Volcano | John Huston, 1984 - C o c o s s e

Há quase dez anos, Jacqueline Bisset esteve no Brasil. Veio participar, como convidada especialíssima, do lançamento do filme Bem vindo a Nova York, em que faz o papel da esposa de Dominique Staruss-Khan, acusado de estuprar uma camareira guineense. O episódio teve repercussão internacional e o cinema, arte oportunista (ainda bem!), fez a parte dele. A atriz esteve diante de Jô Soares, o apresentador, para promover a película. AQUI você assiste à entrevista.

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Jacqueline Bisset Talks Bizarre Golden Globes Speech - E! Online - CA

A inglesa Jacqueline Bisset fez alguns filmes ruins – que não merecem menção nesta postagem. Aqui, ao menos das mulheres escolhidas, só se fala bem. A questão é que, mesmo nesses filmes – cujos roteiros são sofríveis ou os coadjuvantes mereceriam o esquecimento -, a beleza e a refulgência dessa atriz, aliadas a suas competentes atuações, fizeram tais películas merecerem uma checagem. Poucas atrizes – e atores, por que não? – possuem essa prerrogativa. Neste primeiro dia de outubro, fique com Mrs. Bisset.

The Deep Jacqueline Bisset 1977 Photo Print - Item # VAREVCMBDDEEPEC016H - Posterazzi

Carmen & Monk

McRae, C: Carmen Sings Monk | Amazon.com.brAssim que conheci – pelos discos, evidentemente – Ella Fitzgerald, imaginei que não houvesse cantora que, no jazz, pudesse rivalizar com ela. Enganei-me, claro, já que Sarah Vaughan existia. Havia uma outra, a quem conheci (metonímia) mais tarde, cantando temas de Thelonious Monk: Carmen McRae. Maravilhado, estabeleceu-se para mim – e aí entra a subjetividade – a tríade fundamental do jazz vocal. O disco em questão está aí, ao lado. Há outros, porém Carmen Sings Monk é uma das obras-primas da canção. Não conhece? AQUI a chance de corrigir a falha.

Só as presenças do sax de Charlie Rouse, grande companheiro de Monk, e da bateria de Al Foster já fariam o disco valer a pena. O piano de Eric Gunnison é algo sublime, mas o grande instrumento, a verdadeira potência de todo o disco, Leia mais →

Adeus a Leny

Ouvi Leny Andrade pela primeira vez aos 25 anos, quando alguém – não me lembro quem – afirmou que ela cantava melhor que Carmen McRae, a qual eu ouvia com devoção, reverência. Indignado com a possível blasfêmia, e com a intenção inequívoca de contestar a afirmação, fui, com cautela, ouvir Estamos Aí, um elepê que a Odeon havia lançado em 1968, no qual havia duas canções de Marcos Valle, A Resposta e Banzo. Marcos Valle é uma fera desconhecida das gerações que enaltecem padres cantores, rappers, funkeiros, cantores sertanejos e que tais. Havia também gemas cristalinas como Deixa o morro cantar e Esqueça não, ambas de Tito Madi, e Razão de Viver, de Eumir Deodato e Paulo Sérgio Valle. Um discão!

Após a audição – cautelosa, repito -, fiquei em dúvida quanto à comparação com Mrs. McRae, mas cheguei à certeza de que Leny Andrade não lhe era inferior. No fim e ao cabo, para que comparar? Desde então saí garimpando discos de Leny – o que era difícil de encontrar até o advento do cedê, que trouxe, finamente, alguns de seus mais interessantes trabalhos, dos quais destaco Embraceable You, clássico dos irmãos Gershwin, em que brilham maravilhas como Stella by Starlight, Night and Day, The Shadow of your smile, The Man I Love, Misty e Autumn Leaves. É um disco de jazz, executado por uma das suas maiores intérpretes. Tenho vários outros discos dela: todos ótimos.

O vozeirão cantava tudo (em notas certas): do samba-canção à MPB; do blues à valsa, passando pelo jazz, pela balada, pelos ritmos latinos. Não conheço faixa em que ela tenha cantado rock, mas, caso o fizesse, colocaria muita gente no bolso. Leny Andrade fez fusion: jazz, Bossa Nova e samba tradicional andaram de mãos dadas, numa ciranda criativa e à base de improvisos: o que caracteriza a arte da voz. Ir de um lado a outro, de uma ponta à outra, mantendo-se firme e autêntica. Consagrada internacionalmente, respeitada por quem a ouviu, é a cantora brasileira mais reverenciada.

Leny morreu hoje, dia 24 de julho. Dependia de amigos (quase todos artistas reverentes) para tratamento de saúde. Nos últimos dois anos, fizeram-se lives de cantores e compositores, via YouTube, com o objetivo de fazer dinheiro para financiar sua terapêutica e os medicamentos. Sua música, contudo, fica para sempre para aqueles que amam o jazz e a música brasileira. Para mim, é, ao lado de Elizeth Cardoso e Elis Regina, a maior cantora brasileira. Ouvindo bem de perto, Leny Andrade supera as duas. Mais uma vez, entretanto: para que comparar, não?

Minha Mariana, de novo

Histórias Curtas para Mariana M, meu segundo romance, publicado em 2009, tem uma nova edição. Há 14 anos, ainda relutando sobre a hipótese de o livro ser ou não ser literatura policial, optei pela ideia de que todo o romance era apenas uma história de amor. Um homem – um dos narradores da história – está à morte e o pretexto para adiá-la é contar histórias para a Mariana do título. Histórias policiais precisam de cumprir algumas exigências – uma delas, a principal, é um crime ter sido cometido. Falei o óbvio.

Meu amigo e ídolo literário Luiz Guilherme Santos Neves (o melhor escritor do ES, em minha opinião) abrilhantou a primeira edição com uma generosíssima orelha. Van Gogh não faria melhor. Segundo Luís, Histórias Curtas para Mariana M é, além de um romance, um ensaio sobre literatura policial. Pode ser lido por esse viés, mas só percebi isso após ter lido o que ele escreveu. É assim mesmo: assim como o cônjuge traído, o autor nunca é o primeiro a saber. Pois bem: a editora Cândida refez o livro. Não seu conteúdo, mas sua forma. Deu à obra uma capa. Ei-la:

Histórias curtas para Mariana M - Cândida Virtual

Por conta de atrasos na entrega do livro – a gráfica assumiu a responsabilidade -, a nova edição terá seu devido relançamento: possivelmente em fevereiro/2023. Você – que está lendo – pode, contudo, adquirir o livro, que está em pré-venda, pela Editora Cândida. Eis o endereço: www.loja.editoracandida.com.br

Editora Cândida

Carson McCullers revisitada

Gosta de ver Marlon Brando em ação?  E Elizabeth Taylor, tão bela que chega a doer os olhos? E os dois juntos, num filme dirigido por John Huston? Pois é: essa situação existe, e se chama – no Brasil – O Pecado de todos nós, um ótimo filme cuja temática gira entre homossexualidade reprimida, frustração no casamento e militarismo. No original, o título é Reflexo num olho dourado, e é baseado no romance homônimo de uma escritora pouco celebrada no Brasil, Carson McCullers. Uma cena congelada do filme:

Reflections in a Golden Eye: a “hothouse tale” of desire and simmering  violence | Library of America

Não é, entretanto, sobre a película que quero falar, mas sobre Carson McCullers, essa extraordinária escritora que morreu há exatos 55 anos, e que escreveu ao menos duas obras-primas: A Balada do Café Triste e O Coração é um caçador solitário, ambas lidas por este que vos fala no final dos anos 1980, quando eu ainda não tinha a certeza de se havia ou não melhor literatura, no século XX, do que a norte-americana. Hoje, tenho: não há, mas isso é apenas uma opinião. Ei-la:

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Livro: O Coração é um Caçador Solitário - Carson Mccullers | Estante VirtualSou fã da criatividade na estrutura textual – desde que não desprivilegie a história. Em O Coração…, cada capítulo traz o ponto de vista de um personagem diferente, embora o centro de tudo seja a personagem central: um homem surdo-mudo cujo nome é marcado pela ironia: John Singer. É visto como símbolo da beatitude numa cidade do interior, em que alguns selecionados moradores têm suas vidas expostas com habilidade ímpar pelo talento de McCullers. Um livro imenso, um texto que deveria ser obrigatório a todos aqueles que amam (ou dizem amar) a literatura. Há um filme – a que não assisti – baseado nele.

A Balada Do Cafe Triste - 9788525010261 - Livros na Amazon BrasilA Balada do Café Triste é um volume de contos. Na verdade, o conto-título é uma noveleta cujo tema é um triângulo amoroso composto por 3 figuras marginais: um anão, uma esposa abandonada e seu ex-marido, que retorna à cidadezinha para perturbar a vida de todos. Contos como Wunderkind, O Transeunte e Um Dilema Doméstico são pequenas obras-primas de leitura fácil, justamente porque deve ter dado um trabalho danado escrevê-las. Se puder, leia tudo – e de uma tacada. Para ficar, na memória, com o gosto de Carson McCullers durante um bom tempo. AQUI você lê a noveleta no original.

P.S. Há também um filme baseado nesse livro. Vanessa Redgrave brilha nele. Ao contrário do filme O Coração é um caçador solitário, esse eu vi.

Clarice entrevista

Clarice Lispector é um quindim na boca da crítica. Um pastel de Belém, um yoku moku, um baklava. É querida – não sem justiça – por um sem-número de acadêmicos que consomem suas palavras como se elas tivessem brotado do Evangelho. Enfim, há quem discorde. Eu, por exemplo. Reconheço que essa senhora sabia escrever, respeito-a como criadora, mas, para mim, é chatinha. Faltam-lhe bom humor, sarcasmo, ironia. É séria demais, atendo-se a emaranhados psicológicos e fluxos de consciência um tanto gratuitos. Claro que é apenas uma opinião. Como diz uma amiga evangélica, ao saber que será repreendida: “Lá vem cajado!”

Apesar de tudo, aprecio bastante um de seus livros (na verdade não é seu, mas organizado para que fosse) que, distante da ficção, mostram uma outra Clarice: a jornalista, a entrevistadora, a sensível e certeira inquiridora. Ao dizer sensível, quero afirmar, e afirmo, que a célebre escritora conseguiu, em conversas pouco protocolares, obter de seu entrevistado(a) aquilo que existe de mais interior, de mais suavemente escondido, aquilo de que jornalistas do senso comum passam longe. As entrevistas, publicadas pela antiga revista Manchete, foram feitas em pouco menos de 1 ano e meio.

Entrevistas | Amazon.com.brSão 42 entrevistados: gente da literatura, da música, das artes (cênicas e plásticas) e do esporte. Engana-se quem imagina que ela se sinta mais à vontade com seus pares – escritores, poetas e dramaturgos. As melhores entrevistas, a meu ver, foram feitas com o escultor Mário Cravo, com a atriz Tônia Carrero e com o pintor Iberê Camargo. Claro que isso é apenas opinião. Há pérolas proferidas por Antônio Callado, por Jece Valadão (num breve papo), pelo sempre ótimo cronista José Carlos de Oliveira. E por aí vai.

Há um certo romantismo nas questões levantadas por Clarice. Algo de quase ingênuo, de quase simplório, mas que obtém respostas singulares: algumas delas surpreendentes, como quando pergunta ao escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues sobre sentir-se realizado como escritor. A resposta: “Eu me considero inversamente um fracassado. Não me realizei e nem acho que alguém se realize. O único sujeito realizado é o Napoleão de hospício, que não tem Waterloo nem Santa Helena.” É isso aí, Nelson! Obrigado, Mme. Lispector!

As mulheres de Guerreiro

O fotógrafo Antônio Guerreiro viveu bem. Filho de milionário, desfrutou de uma cobertura, no Leme, na qual fez inúmeras festas para as beldades e socialites cariocas, todas sequiosas por um clique, um flash. Fotografou belíssimas mulheres, quase todas famosas que, por meio de suas lentes e de seu talento, ficaram ainda mais belas – como se isso fosse possível. Era. Divertiu-se naquele Rio de Janeiro que não existe mais: marcado pelo glamour, pela sexualidade transbordante, pela valorização da estética, pela beleza feminina. Três delas, abaixo:

Antônio Guerreiro foi casado com duas belíssimas mulheres – uma de cada vez, evidentemente. Sônia Braga – que recentemente visitou as páginas deste blogue – e Sandra Bréa, um dos mis belos rostos da tevê. Além da morenice, do mesmo marido e das iniciais, as duas tinham em comum a sensualidade que Guerreiro soube explorar ao extremo. É só conferir, abaixo:

Sônia Braga em 1980, quando era casada com Guerreiro (Foto: Reprodução/Vogue Brasil)

As atrizes Dina Sfat e Maitê Proença foram dois exemplos de que mulheres bonitas ficam ainda mais belas quando bem fotografadas. A morenice sensual da primeira, potencializada pelos olhos e pela boca entreaberta, sugerem – e isso, claro, é interpretação pessoal – que nada é mais potente, numa fotografia, do que aquilo cada observador é capaz de ver. Maitê, bela e iluminada, expressa alegria, leveza. Guerreiro sabia das coisas.

Nem sei quantas mulheres Antônio Guerreiro fotografou. Oficialmente, foram mais de 600 beldades – entre atrizes, modelos, socialites, gente do mundo da arte e da cultura. Mais de 500 mil clicadas em 25 anos de uma profissão que qualquer um – homem ou mulher – apreciaria ter. Abaixo, a sempre bela Tônia Carrero, a exótica Elke Maravilha, as deslumbrantes Zezé Mota e Bruna Lombardi.

Antônio Guerreiro nasceu em 10 de julho de 1947. Se quiser ter uma boa visão do trabalho de Guerreiro, é só clicar AQUI. Inclusive há uma lista de fotografados, homens e mulheres. Pelo menos metade desse plantel não interessa a esta postagem.

Mulheres #9: Sônia Braga

Eu tenho 60 anos, de modo que o programa Vila Sésamo, que estreou em 1972, pegou-me já interessado em jogar futebol com os amigos e ir à escola – para jogar futebol também. Lembro-me, entretanto, de assistir a alguns episódios, e a imagem luminosa de Sônia Braga – que ainda não habitava meus assuntos – era eclipsada por uma ave gigante e desengonçada chamada Garibaldo. Um tempo depois, em 1975, já com 13 anos, Vi Sônia em Gabriela – e aí eu já a via com outros olhos. Abaixo, como Ana Maria, da citada vila:

Bem melhor como Gabriela, a sensual criatura de Jorge Amado. Não me recordo de, em telenovelas, nenhuma outra personagem feminina que tenha chacoalhado a libido da juventude com tanta potência. Pele, cabelos, sorriso, anatomia – tudo isso aliado à ideia de uma ingenuidade regionalista que, confundida com ignorância e submissão, expressa a exploração sexual de uma mulher. À parte análises mais complexas, observa-se a beleza de Sônia Braga, no esplendor dos seus 25 anos. Bem, há Dona Flor também, não é, seu Jorge?

Sônia Braga

E quem há de esquecer Solange, a esposa aventureira de A Dama do Lotação? Ou a prostituta Maria, de Eu te Amo? Ou ainda a virginal Marcina, da telenovela Saramandaia, que, excitada sexualmente, pegava fogo. Não, não é metáfora. Pegava fogo mesmo, e provocava queimaduras no sortudo que estivesse por perto.

Em 1984 Sônia Braga foi o combustível de que a Playboy precisava para decolar. Já havia aparecido na revista 6 anos antes, num suplemento especial que, infelizmente, não conheço. Mas posso imaginar. As fotos abaixo, da edição de quase 40 anos atrás, mostram a beleza mestiça de uma mulher que se tornou símbolo de uma época.

Sônia Braga - Gatas Peladas - Mulheres Gatas Peladas e Nuas

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Sônia foi clicada por Antônio Guerreiro, fotógrafo com quem esteve casada por 9 anos. Em breve, uma postagem sobre as fotografias deste que soube viver bem: entre mulheres bonitas, fotografando-as, privando com elas. Mas isso é papo para outra oportunidade. Fique com o clique do ex-marido:

Sônia Braga envelheceu da melhor maneira: mantém o sorriso refulgente, o olhar luminoso, que parece expressar a sabedoria acumulada. Num país em que mulheres se recusam a envelhecer – nenhuma censura nisso! -, ela assumiu os cabelos brancos, as rugas, o tempo que passou. Continua bela, como antes – e como sempre.

Sônia Braga vê sociedade carente de empatia na pandemia: 'O mundo está  louco'

As duas mulheres de Murilo

Amanhã será o primeiro dia de junho, e há 106 anos nascia um dos melhores e menos reconhecidos escritores brasileiros: Murilo Rubião. Se você não conhece seus livros — que não são muitos! —, corra e busque o seu, porque ler suas histórias absurdas, seus contos fantásticos, suas personagens inesquecíveis é um prazer que você somente encontrará, se tiver sorte, entre brasileiros, em José J. Veiga. Mas ele vai além disso — muito além. É um craque a serviço da boa literatura, com uma forma de narrar aparentemente simples, sem floreios, sem barroquismos. Aí está a dificuldade.

O livro que mostro na foto é a reunião de todos os seus contos: apenas 33. Bem, uso o advérbio apenas para me referir à quantidade. A qualidade, inequívoca, é encontrada em todas as histórias. Sim, eu disse todas, porque em nenhuma delas o vigor literário — seja nas narrações, nas descrições, nos diálogos ou na composição das personagens — deixa de ser a marca que mantém o leitor aceso, apegado ao texto. Quando se chega ao fim, a impressão que se tem é de que qualquer elemento a mais poderia macular a perfeição da narrativa.

Para escrever esta postagem, reli, de imediato, Bárbara, uma das mais impressionantes histórias curtas da literatura deste país. Sim, sem exagero. Depois reli um conto que flerta com o terror chamado Aglaia. Ambas as histórias, tendo mulheres como fundamento, expõem a fragilidade da figura masculina. Pode parecer um clichê, mas, sob a batuta de Rubião, essa relação de poder parece algo inédito. Bárbara pede tudo o que vê, e engorda tornando-se algo monstruoso. Aglaia torna-se uma parideira sem controle sobre as múltiplas gestações — e abominando cada uma delas.

O marido de Bárbara é o narrador. Mostra o próprio desassossego, o desespero de amar uma mulher que deseja tudo o que se mostra diante dela. Ele ama e concede, faz-lhe as vontades. Colebra, marido de Aglaia, é pai de dezenas de crianças que nascem, muitas vezes em pencas, com apenas semanas de gestação. Tem ímpetos de esmagá-los com os pés, mas consola-se com a dor ainda maior da esposa. Duas mulheres, dois títulos. Murilo, 106 anos, continua essencial. Repito: se não conhece, corra para conhecer.

Nara, aos 32

Sim, a voz de Nara Leão era pequena – e daí? Alguém cantava como ela, como se sussurrasse ao ouvido despreocupado de seu ouvinte? Sim, era limitada no alcance, mas expressava-se como ninguém em qualquer gênero musical. Foi do rock ao frevo, passando pelo baião, pela valsa, pela MPB, pelo blues. Foi tropicalista, foi bossanovista, foi a melhor intérprete feminina das canções de Chico Buarque; fez o que ninguém conseguiu: cantar alguns temas de Roberto Carlos melhor do que ele mesmo, o dono da bola.

Li a biografia de Nara, escrita por Sérgio Cabral. É um texto esclarecedor em muitos pontos, embora o autor tenha sido jornalista demais ao escrever.  Foi protocolar, a meu ver. Faltou-lhe um pouco de Ruy Castro na construção das personagem que nos apresentou. Faltou um pouco de new journalism, acho. A técnica do romance teria feito bem ao texto porque Nara merecia que sua jornada fosse assim celebrada. Bem, é apenas uma opinião.

O primeiro disco de Nara que comprei foi Com Açúcar Com Afeto, em 1981, no qual ela interpretava canções de Chico Buarque. Por conta da abertura política, foi possível ouvir a gravação (duo com o autor) de Vence na Vida Quem Diz Sim, originalmente na peça proibida Calabar – O Elogio da Traição, e aquela que, também em dueto com o próprio Chico, iria se tornar um clássico: Dueto. A propósito, AQUI, uma raridade. Para quem gosta de Nara e de Chico, é um manjar.

Nara Leão morreu há 32 anos – num dia 7 de junho, o mesmo dia em que Paulo Leminski nos deixou, por conta da cirrose que o acompanhou como uma sombra. Nara não teve melhor sorte: um tumor no cérebro venceu-a por pontos, até levá-la de forma definitiva. O que ficou? Tudo o que dela necessitamos: voz, suingue, candura, sofisticação, ternura, inquietude, talento, coragem, versatilidade. E muito mais, porque assim era ela: infinita e eterna.