Quanto vale sua opinião?

Conta-se nos bastidores da história musical brasileira que, em meados dos anos 60 do século passado, quando os compositores Chico Buarque de Holanda e Edu Lobo surgiram, e pouco tempo depois os tropicalistas deram o ar da graça, os adeptos do iê-iê-iê – também chamado Jovem Guarda – recolheram-se humildemente a seus aposentos, um tanto envergonhados de ter produzido algumas canções que mereceriam, sem exagero, o esquecimento. Diante do potencial criativo dos senhores citados, Roberto, Erasmo & Cia. iniciaram um processo autocrítico que soou positivo para suas carreiras. Acho louvável a autocrítica; considero importante que o indivíduo (re)avalie sua opinião quando a dialética se instaura na criação.

É saudável e necessário. Hoje não se vê mais isso. Ninguém se envergonha; perdeu-se a noção da humildade; o bom-senso virou a esquina e nunca mais foi visto. Dia desses ouvi uma entrevista na qual um DJ se dizia tão ou mais fundamental para a música atual quanto maestros europeus de nome incompreensível. Palavras dele – por isso estão em itálico. Não sei se rio ou choro. Não há sequer constrangimento. Pagodeiros e cantores sertanejos rivalizam com grandes compositores e zangam-se quando são desprezados pela intelligentsia. Querem o seu quinhão, sua parcela de consideração intelectual, querem ser considerados MPB por serem realmente populares.

Mas quem lhes disse que ser popular implica necessariamente ter qualidade? Aí entra uma questão tão crucial quanto triste: são populares porque há quem legitime essa popularidade. No caso, o consumidor. Sim, ele, o consumidor, também ignora constrangimentos. Falta-lhe a humildade, que esconde sob a desculpa esfarrapadíssima de que gosto não se discute. Claro que se discute. Gosto é ponto de vista. Ponto de vista não se discute? É algo imaculado, intocável? Blindou-se a subjetividade e qualquer crítica ou comentário que a contrariem adquirem status de truculência e desrespeito.

Os críticos, os comentaristas, os articulistas, os estudiosos, os analistas e os teóricos devem, então, ser desprezados em benefício dos papalvos que vociferam é minha opinião – e pronto!? Não considero isso justo. É claro que toda opinião merece respeito, principalmente quando fundamentada, abalizada – mas não merece, necessariamente, concordância. Opiniões que geram debate de ideias têm chances enormíssimas de também gerar conhecimento – algo que, suponho, interessa a todos. Ou deveria interessar. Mas quem se dispõe, de coração aberto e com a humildade necessária, a ser contradito? Essa pergunta não tem somente você, leitor, como alvo, mas dirige-se também a mim, e talvez até principalmente, como uma serôdia autocrítica. Afinal, nunca é tarde.

10 opiniões sobre “Quanto vale sua opinião?”

  • 1 de novembro de 2018 em 18:08
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    Abertos ao conhecimento sempre!

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  • 1 de novembro de 2018 em 18:47
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    A coisa anda tão rasa que nosso estado não tem mais crítica musical. Apenas informativos pré-show. Boas produções locais morrem na saída, sem a crítica adequada… Uma lástima.

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    • 2 de novembro de 2018 em 09:22
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      Boa, Pedro!
      Já há muito tempo se deixou de lado a crítica, como se ela não tivesse uma função.

      Vc, talentoso e profissional, sente isso na carne tanto quanto eu, numa seara distinta, que é a literatura.
      Os críticos se calaram mais do que foram calados. Não há interesse em discutir arte de um modo geral. Resta saber que motivos levam a isso.

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  • 2 de novembro de 2018 em 08:28
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    Excelente reflexão, camarada! O soberbo tenta superar o outro de forma surda, obtusa e, portanto, perde a chance de evoluir. O humilde, que reconhece não estar pronto, supera a si mesmo, desencadeando o ciclo altamente produtivo e infindável do saber.
    Aquele que se dispõe a ser contradito, às vezes perde o debate, que é efêmero, mas pode ganhar o conhecimento, que é para sempre.
    Sempre um privilégio aprender com você, amigo Grijó.

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    • 2 de novembro de 2018 em 09:19
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      Quem aprende com quem, meu caro professor?
      Depois de um comentário desses, preciso e estilístico, eu comemoro por ele estar aqui, neste meu espaço.

      É isso.
      Falta a humildade no debate.
      Valeu, professor!

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  • 2 de novembro de 2018 em 10:24
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    Realmente se reavaliar e ser uma pessoa autocrítica de certo,é mais difícil que receber uma crítica de outra pessoa. Acredito que o ego e o medo de não sermos “aceitos” -imperfeitos como somos – é o que cria essa imagem que muitos vendem. Professor, conhece o livro , Ostra Feliz Não Faz Pérola de Rubem Alves, lembrei do livro e a reflexão que ele nos traz. Nas palavras do próprio autor, o título refere-se a: “A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer”. Que possamos ser o grão de areia dentro de nós e também se preciso sermos o grão de areia no outro,talvez assim produziremos pérolas nessa vida.
    Um grande abraço!

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    • 2 de novembro de 2018 em 21:27
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      E isso.
      E olhe que nem gosto do Rubem Alves, mas ele foi certeiro nessa metáfora.

      Valeu, Ryanne!

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  • 10 de novembro de 2018 em 00:21
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    Olá, Grijó!
    Sempre escrevendo tão bem! Sempre crítico. Bom ler vc de novo.
    Abraço!

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