Tenho lido bastante sobre arte contemporânea. Meu próximo romance, em andamento, e com o título provisório de Fama Volat, versa sobre o assunto. Mais não falo – até porque a quem interessaria? Pois bem: o livro à esquerda, cujo título se refere a uma específica obra de arte (sim, um tubarão de verdade) e seu valor de mercado, expõe, de forma curiosa e contundente, os motivos que levam uma determinada obra a ser avaliada de forma exponencial – em termos econômicos, evidentemente. Sabe-se, claro, que a unicidade da obra artística – um quadro, uma escultura, um mural etc. – pode ser uma catapulta monetária. Isso não é novidade e também não é suficiente para que tal catapulta faça seu trabalho.
O papel dos marchands, dos colecionadores e da imprensa (essa, inacreditavelmente com menos poder) faz de uma obra uma mina de ouro. Aquilo que muitos nunca considerariam arte é visto como algo que pode ser avaliado em alguns milhões de dólares. Mas como? Quando um artista deixa de ser um artista e se transforma numa marca. Eis a questão. Passa-se a consumir a marca e não o produto. O livro explica para mim o que provavelmente os indivíduos envolvidos nesse meio sabem de salteado: a obra de arte é, acima de tudo, um investimento. Don Thompson, o autor – ele também um colecionador -, expõe o papel quase mafioso dos colecionadores e dos leiloeiros. Não se iluda: é um mundo desconhecido para a maioria das pessoas que lê este texto. Daí o livro ser interessante, como um conto de fadas verossímil – ou mais que isso: verdadeiro.
E o tubarão? Seu autor/artista chama-se Damien Hirst e a obra tem um sugestivo título: The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living. Algo como A Impossibilidade Física da Morte na Mente de Alguém Vivo. Um título pra lá de publicitário, instigante, representando um mercado imune a crises econômicas, um mercado que vive da especulação e não do prazer estético que uma obra de arte pode proporcionar. Nenhuma crítica nisso, deixo claro. Cada um se relaciona com a arte como quer (e como pode). Há um documentário interessantíssimo (e boicotado por muitos canais de tevê fechada) intitulado The Mona Lisa Curse. Nele, Robert Hughes, o mais renomado crítico de arte do mundo, critica o citado mercado e surra inclementemente muitos artistas contemporâneos, tão fabricados quanto uma caixa de fósforos. Interessantíssimo mesmo, pode apostar.
O tubarão, como eu disse, é criação de Damien Hirst. Ei-lo, abaixo, com seu tubarão, ao fundo. Só para constar: o bicho foi condicionado numa solução de formol, mas, com o tempo de exposição na galeria, a coisa foi-se deteriorando. Como vendê-lo? Qual a solução? Damien não titubeou: por telefone, fez um anúncio em várias agências de correio do litoral australiano, as quais espalharam cartazes: Precisa-se de Tubarão. Simples. Conseguiu mais alguns exemplares, mas inquietou os críticos, que afirmaram: se não é o tubarão original, a obra passa a ser outra. Sim, leva-se isso a sério.

Muito curioso, dialogar ou ler seus escritos é sempre um aprendizado, tô só aguardando as férias para devorar Os Mamíferos. Qualquer semelhança física sua com o excêntrico (também) é mera coincidência rsrs. Abraço!
Devore mesmo. É um livro de temática importante, um registro. Se é bem escrito ou não, quem decide é o leitor.
Quanto à semelhança física, vc fala do tubarão?
Abraço.
Esses ingredientes todos , esse enredo assim, têm tudo para virar filme , após um livro que , se por uma ativa Editora, poderá vir a ser um best seller daqueles, tal os de Sidney Sheldon . Tomara !
Não sei se tomo como elogio ou não essa semelhança, mesmo que mínima, com Mr. Sheldon.
Abraço.
A arte contemporânea desde Picasso tomou um rumo que desprezou a estética. Virou negócio. Só.
Grijó,
Obrigado pela lembrança, quando me enviou o Whatsapp para informar do renascimento do blog.
Sou pouco conhecedor de arte contemporânea, uma vez que, o pouco que vejo, não gosto. Assim, pouco me instiga.
Não consigo entender como alguns podem achar um vaso sanitário exposto como obra de arte. Para mim, é lixo – tão somente para evitar adjetivos mais grosseiros que habitariam o interior do dito vaso. Mas, como você mesmo disse : cada um se relaciona com a arte como quer e pode.
Querer comparar o tubarão ( que para mim nada representa) com o Moisés de Michelangelo é o mesmo que comparar um concerto de Brandemburgo de Bach com 4’33” de John Cage. Cage não é arte – é uma deturpação da arte. Bach é o extremo oposto – é a perfeição.
Cage, tal como o autor da “obra de arte” do tubarão, é uma coisa ridícula, que muitos fingem apreciar o que não entendem e muitos acham ridículo mas não se expressam com medo de parecerem incultos ou obsoletos. Eu não. Falo o que penso. É ridículo e ponto.
Toda arte contemporânea é lixo? De modo algum. Está aí Neo Rauch, o fabuloso alemão, para provar que não. Já o tubarão…ainda bem que há quem pague 12 milhões de dólares. Eu não levaria para casa nem que o assim chamado artista me pagasse.
Comuniquei aos sempre interessados em cultura e em debate de ideias, camarada.
Seja bem vindo.
Arte contemporânea, meu caro, representa a visão de um grupo, de uma cultura. Assim como representou nos tempos de Michelangelo. A questão é que avaliamos a estética de acordo com nossos valores.
Em parte concordo com vc. E muitos críticos sérios também.
Quanto ao Cage, bem, foi o primeiro a nos provocar com a ideia de que silêncio pode ser música.
Há um escritor cubano, um de meus ídolos, chamado Guillermo Cabrera Infante. Num trecho de um de seus romances ele diz “Enorme a quantidade de coisas que podem ser vistas na escuridão quando se está dentro dela.”
Quanto de som pode existir no silêncio? Filosófico? Complacente? Pode ser, mas é assim que se começa o debate.
Grande abraço.