Barthelme, finalmente?

Em 1984 ganhei um livro intitulado Come Back, Dr. Caligari. Um querido amigo, psiquiatra e escritor (excelente em ambas as atribuições), presenteou-me. Li sem desconfiança, afinal por que um amigo capixaba me presentearia como um grego? As portas se abriram de um lado a outro: Donald Barthelme foi apresentado a mim e eu me apresentei a ele, como se dissesse: de agora em diante, estaremos lado a lado. Até então eu não sabia se havia ou não uma tradução para esta língua periférica, o português. Dois anos depois, na livraria São José, na rua do Carmo, capital carioca, encontrei Vida de Cidade (ilustração à esquerda de quem olha), edição de 1975, da Artenova. Não é grande tradução, mas era o que existia. Sim, até então era único livro de Barthelme traduzido.

Não tive facilidades para ler Come Back, Dr. Caligari. Barthelme está longe de ser um escritor fácil – talvez por isso não tenha muitos leitores, embora seu inglês seja aparentemente claro. A ideia de um livro seu tornar-se best-seller é tão provável quanto um pai conversar com os filhos, após sua morte. Mas eis que é exatamente isso (e muito, muito mais) o que acontece no segundo livro traduzido deste autor extraordinariamente sarcástico, irônico, debochado, crítico e divertidíssimo: O Pai Morto. Um pai, gigantesco como uma criatura rabelaisiana, ditando um manual de convivência (e não somente isso) para os filhos, que o enterrarão. Sofismas, anedotas, ironias, ensinamentos, reflexões – tudo isso temperado por períodos curtos, enxutos, pois não há por que falar mais que o necessário.

Donald Barthelme, ao lado de Joseph Heller, Richard Brautigan, Thomas Pynchon e Kurt Vonnegut, é um mestre do absurdo. A aventura quotidiana não passa de um flash surreal, um emaranhado de situações que se tornam verossímeis porque não somos capazes de racionalizar ao lê-lo. Em um de seus livros, King Kong é anfitrião numa festa sem louras; em outro, os anjos entram em polvorosa por conta da morte de Deus. Num outro, Branca de Neve é uma jovem temperamental, furiosa, enjoadinha. É uma festa da qual participamos independentemente de nossa vontade, títeres desse gênio das palavras.

A tradução de Vida de Cidade não é grande coisa, como eu disse. Já o trabalho em O Pai Morto, mais criterioso, com mais recursos, é um convite tentador àqueles que nunca ouviram falar nesse grande autor, morto há 28 anos. Aos que já leram alguma de suas obras, é mais tentador ainda. Por falar nisso, hoje é dia 25 de julho, Dia Nacional do Escritor. É uma data brasileira, porque o Dia Mundial do Escritor é em outubro, 13. Mas vale assim mesmo, Donald!

 

8 opiniões sobre “Barthelme, finalmente?”

  • 25 de julho de 2017 em 15:34
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    Parabéns pelo dia do Escritor! E pelo grande escritor que vc é; além da pessoa sem adjetivos possíveis de descrever alma e caráter.

    Nunca li Barthelme. Valeu a dica. Pensarei no desafio. Depois dou retorno.
    Abraços, Jocemail

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    • 25 de julho de 2017 em 15:57
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      Obrigado, querida, pelas palavras exageradas. Gosto disso.
      Quanto a Barthelme, leia mesmo, porque é dos bons.
      Apesar da maldição da pós-modernidade, não é chato.
      Abraços.

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  • 25 de julho de 2017 em 16:27
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    Parabéns pelo dia do escritor, professor, você é excelente no que faz! Nunca tinha ouvido falar desse escritor, vou procurar o Livro O Pai Morto, fiquei curiosa.

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  • 26 de julho de 2017 em 09:03
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    Seu blog não é acessível, como vc lida com isso? Até agora vc só falou de escritores desconhecidos. Tudo bem, mas quem vai ler?

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    • 26 de julho de 2017 em 09:27
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      Desconhecidos para quem, camarada?
      Discordo de vc. Acho que meu blogue é acessível, sim. A linguagem não é complexa (nem precisa ser), e os temas são comuns, ligados a cultura, arte em geral.
      Quem vai ler? Espero que todos que se interessem – incluindo vc.
      Valeu o comentário.

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  • 28 de julho de 2017 em 10:56
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    Olá Grijó, gostei da dica! Estou baixando Barthelme – O pai morto, em e-book (minhateca). Vc despertou meu interesse pelo livro. Abçs

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