Art & os Mensageiros

Alguém já disse que escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura. A frase é boa, mas limita a arte a um sentido específico – o que é, grosso modo, uma inequívoca injustiça. Nos primórdios do Ipsis, escrevi muito sobre jazz, meu gênero preferido, meu prazer obrigatório. Claro: aprecio a emepebê, o rock, o blues, o samba. Chego a reconhecer que a música clássica é o que de melhor há nessa arte, mas nada me toca tanto, musicalmente (e sem trocadilhos), como o jazz. Conversando certa vez com um amigo, disse-me ele que quem gosta de jazz é intelectual. Isso não é verdade. Intelectual apenas diz que gosta, e afirma isso entre goles de gim, marlboro entre os dedos, meio-sorriso treinado.

A ilustração à esquerda refere-se ao primeiro cedê de jazz que comprei, em 1992. Art Blakey é um dos gigantes da bateria – em qualquer gênero. Só não digo que é o melhor porque comparações, embora divertidas, têm origem em subjetividades questionáveis. Esse papo fica para depois. Art Blakey chefia os mensageiros do jazz, grupo que se propõe justamente ao epíteto que possui: levam o jazz aonde ele não está, e chegar para ficar. Neste disco, Freddie Hubbard (trompete), Wayne Shorter (sax tenor), Curtis Fuller (trombone), Cedar Walton (piano) e Reggie Workman (contrabaixo) levam ao extremo o que se chama virtuosismo. Talvez seja essa a melhor formação do grupo. E olhe que em outros tempos, Horace Silver, Hank Mobley, Johnny Griffin, Lee Morgan, Wynton Marsalis e Bobby Timmons (só para citar alguns, mais conhecidos) compuseram a trupe.

The 'Class Presidents' Of Art Blakey's Jazz Messengers : A Blog Supreme : NPR

Não sei se você, que lê, assistiu ao filme Whiplash, de Damien Chazelle. Se não, deveria ter visto. É um filme sobre jazz e sobre os limites de um jazzista em formação. Ok, é cheio de imprecisões, concordo, mas isso é secundário. No filme o tema Caravan, que dá nome ao disco em questão, é o mote para que um baterista compreenda que a execução musical sempre pode ser mais acurada, melhor. Aliás, a prova ficcional disso está no filme. Quer a prova real? É só ouvir o disco para perceber que não há limites para Art Blakey. Se puder ouvir essa gravação, tente manter o queixo no lugar a partir de 8:25, quando um solo de pouco mais de um minuto vem à tona, mas parece ter horas.

Caravan é um tema feito a quatro mãos: o trombonista portorriquenho Juan Tizol encontrou a genialidade do pianista Duke Ellington, possivelmente o maior compositor do jazz. Caravan é um clássico. No filme de Chazelle, o protagonista, um baterista de talento enormíssimo, tem como ídolo um outro gigante do instrumento: Buddy Rich. Sinceramente? Prefiro Art Blakey, que, além de ser um músico de primeira, é também um mensageiro. O Jazz, com maiúsculas mesmo, deve a ele.

11 opiniões sobre “Art & os Mensageiros”

  • 2 de julho de 2017 em 20:18
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    Grijó,

    O post é certeiro, porque a execução fala por si mesma, mas ainda prefiro Buddy Rich. Essas coisas são carregadas de subjetividade. Vai saber quem tem razão.

    PS.: E sobre Duke Ellington, quais os seus discos e temas prediletos?

    Um abraço.

    • 2 de julho de 2017 em 22:36
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      Há um disco do Ellington, “Money Jungle”, em que ele compõe o trio com Mingus e Max Roach.
      E há, claro, o disco dele com Coltrane, que é um dos melhores discos de jazz que conheço.
      Mas o Ellington é vasto. Acho que é melhor nem arriscar a dizer qual meu tema predileto, mas isso dá uma postagem bacana.
      Abraço.

  • 2 de julho de 2017 em 21:20
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    Essa gravação é sensacional. Dois anos antes, em 61, Art Blakey já tinha gravado o Night in Tunisia. Talvez sejam os dois maiores standarts do repertório afro-cuban jazz. Gosto à beça. Não me lembro quem tocou essa gig de 61, mas acho que Wayne Shorter não estava. & Veja só: descobri há pouco essa série de podcasts do Reinaldo (o jovem promissor do Pasquim e velho de guerra do Casseta). Se ainda não conhece os programas do cara, deve gostar. Abraço. http://radiobatuta.com.br/categoria-programa/a-volta-ao-jazz-em-80-mundos

    • 2 de julho de 2017 em 22:34
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      Estou com o disco na mão, Marcos. Lee Morgan, Wayne, Bobby Timmons, Jymie Merritt, no baixo.
      Discão.
      Vou checar a Radio Batuta. Valeu.

    • 4 de julho de 2017 em 22:29
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      Gostei da rádio Batuta. Pouco eclético – o que, para mim, é ótimo. Imaginei, entretanto, que ele desenvolvesse mais alguns pontos. A ligação do Cortázar com o Jazz, por exemplo.
      Mas o site é bem bacana.

  • 3 de julho de 2017 em 23:19
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    Fala Grijó, blz?

    Fico muito feliz com o retorno do blogue. Sempre foi um grande fonte de informação / consulta para mim. Espero poder sempre contribuir com esse espaço, seja com sugestões, seja com comentários.

    Você já ouviu falar em um banda de heavy metal norte-americana chamada Mastodon? Você deve estar se perguntando: mas que raios isso tem haver com o post? Explico: conta-se que ao lançar seu primeiro disco, Remission (2002), os críticos não sabiam como classificar banda. Claro, era metal, mas suas melodias são tão complexas uma review ficou a cargo de um crítico de jazz. Foi dito a época: ” “Southern-sounding” jazzy drumming and clean guitars of “Ol’e Nessie” to the Allmans.” Não acho que seja pra tanto. Fato é que o baterista, Brann Dailor, é um monstro. Pra mim é o melhor do gênero. Não duvido que ele tenha a técnica para tocar jazz, embora não possa ter certeza quando ao swing e a improvisação.

    Se tiver curiosidade ouça “Octopus has no friends” do disco The Hunter

    • 4 de julho de 2017 em 09:11
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      Vou checar esse Brann Dailor.
      E esse título “Octopus has no friends” é um achado.
      Valeu sua volta, George. É disto que falo: os comentários ajudam muito,são o grande patrimônio de um blogue.
      Abração.

  • 30 de abril de 2022 em 14:00
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    O grande Art.

  • 20 de maio de 2022 em 21:07
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    Tava dando uma olhada na série de jazz que vc fez.
    kd os trompetistas????????
    Dizzy Gillespie é o melhor!

  • 15 de julho de 2022 em 09:38
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    My uncle played with Monk, on drums, Frankie Dunlop.
    Hope u know him.
    Good hands for the blog.

    • 15 de julho de 2022 em 11:46
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      Of course.
      Frankie Dunlop was a great drummer, buddy.
      Played w/ Mingus, Rollins, Ferguson…
      Thanks.

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