Outra anedota do mundo da música clássica. Leonard Bernstein, o maestro norte-americano, foi ao Konzerthaus Berlin assistir à regência da Quinta de Beethoven, por Herbert von Karajan, que regia a Filarmônica de Berlim. Após o espetáculo, grandioso e essencial, os dois maestros se encontram. Os gigantescos egos de ambos eram notórios, comentados por todos aqueles com quem trabalharam. Karajan, aplaudidíssimo e cheio de pompa depois de uma regência impecável, volta-se para Bernstein e afirma: “Leo, hoje, a orquestra foi praticamente regida por Deus!” Leonard, não menos vaidoso, devolveu-lhe: “Por mim?”

A anedota explica bem a postura de Leonard Bernstein diante do mundo – uma postura altiva, autossuficiente, plena de segurança. Morreu num dia 25 de agosto, aos 72 anos – dos quais 50 foram dedicados a fazer da música algo maiúsculo, essencial. É evidente que muitos, antes dele, fizeram isso com e para a música, mas quem, com tanta paradoxal generosidade? Seus ensinamentos, sua lógica musical e sua dedicação à arte foram elementos definidores para aqueles que o seguiram, sejam discípulos fiéis ou admiradores contumazes. E por que não dizer que ele foi generoso também com a Filarmônica de Nova Iorque – antes dele sempre posta em segundo plano, atrás de orquestras como as de Boston ou Chicago?
Foi Leonard Bernstein que elevou os ânimos, deu à orquestra uma nova face, um dinamismo ainda não empenhado no grupo. E há quem diga que essa transformação foi rápida, algo incomum para o métier. A generosidade, entretanto, não para aí. Talvez a grande contribuição do maestro tenha sido na seara da educação. Usando o meio televisivo, muito eficaz e rápido, deu vida a projetos como Omnibus, New York Philharmonic Young People’s Concerts e Leonard Bernstein presents…, programas que tinham como objetivo estimular ainda mais aqueles que se dispunham a ouvir. Aos interessados, era um poço sem fundo de prazer e conhecimento. Aos que desconheciam a música, uma oportunidade para sair da escuridão.
AQUI, AQUI e AQUI você testemunha o trabalho desse senhor – um educador.
P. S. Já ouvi a anedota do início da postagem com os mesmos personagens, mas em papeis trocados.
Não consegui abrir os vídeos, mas fica uma perguntinha. Será que tem algum maestro que não seja vaidoso, que não se ache o máximo?
Não sei dizer, mas me parece que alguns lidam com esse status de forma mais sutil, com menos arroubos e menos caprichos.
Briga de peixe grande. Dois brilhantes músicos e maestros. Impecáveis.
Outro comentário que faria é que ambos deram espaço a excelentes músicos jovens, como o estupendo polonês Kristian Zimermann.
Mas, particularmente, ainda prefiro Karajan.
Para ficar em um só exemplo: ouça a Abertura 1812 de Tchaikovsky por um e por outro. As duas são lindas, mas uma é melhor.
Karajan é o maior maestro de todos, penso.
Mais que Fürtwangler ou Harnoncourt, que são notáveis. O que me impressionou em Bernstein foi a capacidade de influência que ele teve, o que ele fez com a música erudita, tentando popularizá-la.
Tenho as gravações de Tchaikovsky a que vc se referiu. Gosto das duas.
Abraço.
Agora que você tocou nesse assunto de popularização da música clássica, me lembro da beleza de texto que li há um tempo atrás sobre fraudes como Andre Rieu, Richard Clayderman, Ray Conniff e Andrea Bocelli entre inúmeros. Dá uma olhada. É bem objetivo e cômico http://www.concerto.com.br/textos.asp?id=272