Machado & a infidelidade

Joaquim Maria Machado de Assis apreciava triângulos amorosos. Talvez fosse tendência realista, coisa de nicho de época, em que a figura feminina estava sempre disposta a sair — ou a entrar — pela tangente matrimonial. Os europeus já haviam trabalhado o tema: Balzac, Flaubert, Verga, Dostoievski e Eça passeavam pelo tema como se fosse uma estrada pavimentada, abusando das estripulias maledicentes, e sempre sensuais, do mulherio. Joaquim Maria foi no durame: os contos A Cartomante, Noite de Almirante, A Causa Secreta e Missa do Galo são exemplos clássicos. Há outros. Sem falar nos romances Quincas Borba, Esaú e Jacó e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Bem, Dom Casmurro virou clichê.

Ficheiro:Machado de Assis 1904.jpg – Wikipédia, a enciclopédia livreMachado foi chamado de misógino por teóricos de segunda linha. Não compreenderam que suas mulheres eram uma clara oposição àquelas mocinhas que um suposto insosso Romantismo produziu e que foram, com o tempo, transformando-se em realistas. Lembram-se da alencariana Aurélia, em Senhora? Sim, aquela que comprou o marido por vingança e desejo. Pois o casamento com doses de conveniência social já havia brotado no machadiano A mão e a Luva. Quem leu leu – mas não se deve reler. É o mais fraco Machado.

A ideia triangular foi explorada em Iaiá Garcia, que por sua vez tinha como influência as inseguranças amorosas masculinas. O Romantismo limitou Joaquim Maria, que desejava dar saltos olímpicos, queria planar como uma ave andina. Foi encontrar a si mesmo a partir do início da década de 1880, quando, exasperado, esbofeteou os românticos com Brás Cubas e suas memórias post mortem: principalmente seu rival e amigo Alencar. Faça-se justiça: Alencar era, no Romantismo, muito melhor que Machado. Um tempo depois, o amigo aposentou-se e se mantém na memória como o melhor no gênero: rival dos Alexandres Dumas, père et fils.

Dom Casmurro - Edição Exclusiva Amazon | Amazon.com.brDona Carolina Augusta Xavier de Novais, cônjuge do autor, incentivava-o a criar mulheres fortes, voluntariosas e independentes (até certo ponto). Ajudou-o a escrever, já que era culta de berço, lia em inglês e francês, além de ter apresentado a Machado o Tristram Shandy, do padre anglicano Laurence Sterne. Há quem diga que o brasileiro plagiou o irlandês. É possível. Enfim, é papo para outra postagem. Voltando ao tema: esqueça aquela estranha ideia de que mulheres adúlteras existiam porque era assim a sociedade — e o mundo. Bobagem teórica. O que ele queria, de fato, era enterrar o Romantismo. E ajudou no sepultamento.

2 opiniões sobre “Machado & a infidelidade”

  • 15 de fevereiro de 2026 em 11:45
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    Interessante!
    Num texto informativo é bem entrelaçado, Você traz a infidelidade feminina desde outras eras!
    O incentivo á mulheres fortes e emancipadas, já vem de longe.

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    • 18 de fevereiro de 2026 em 18:25
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      A literatura não foi muito gentil nem generosa com as mulheres. Tiveram de conquistar o espaço na marra.
      Deu certo, até certo ponto.
      A literatura continua predominantemente masculina. Uma pena.

      Resposta

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