Heavy Metal, a revista

Pin em REVISTA HEAVY METALE quando Heavy Metal deixa de ser um subgênero do rock e se torna um clássico da graphic novel – para nós, quadrinhos? E quando figuras como Moebius, Enki Bilal e Milo Manara (sobre quem já escrevi) tornam-se mais importantes e significativos do que Bruce Dickinson, Angus Young e Tony Iommi? Para muita gente, os quatro primeiros citados valem muito mais que a barulhada que os três roqueiros, também citados, produzem. Bem, é questão de gosto, além de compreender que ver é melhor que ouvir.

Ouvi falar na Heavy Metal ao folhear um exemplar de El Vibora, revista espanhola que, infelizmente, não existe mais, e em cuja capa aparecia a figura misteriosa e transgressora de Ranxerox, o grotesco robô punk-humanoide apaixonado pela adolescente drogada Lubna, a quem ele protegia como fosse ela a filha de um Jesus apocalíptico. Ranxerox é filho de italianos: Tanino Liberatore e Stefano Tamburini, mas não nasceu na Heavy Metal, e sim na Cannibale, em fins dos anos 1970. Não, não conheço a Cannibale, infelizmente, mas li sobre ela. A propósito: Ranxerox é esta figura, abaixo (e que tem revista própria, todinha dele):

RanXerox And Lubna Tanino Liberatore T Shirt

Quando a Heavy Metal foi publicada em português – meados de 1995 -, pouca gente comemorou. Um tanto quanto desconhecida do público consumidor de quadrinhos (ainda era; hoje, não mais), passou despercebida para muita gente que apreciava as boas histórias – muitas delas distopias – e os desenhos tão psicodélicos quanto geniais. Tenho todos os números da HM brasileira, além dos números especiais em que a aparece a belíssima Druuna, a heroína futurista criada por Paolo Serpieri. Druuna é uma beleza mesmo. Confira:

BigWowArt.com, Comic Art For Sale

A edição brasileira da Heavy Metal bateu as botas sem aviso prévio. Foi de repente, deixando um punhado de órfãos sem saber o que fazer, alimentando a vã esperança de que bons ventos soprassem novamente. Não rolou. A revista norte-americana existe até hoje, publicando histórias de ficção científica pouco edificantes, cheias de sensualidade, de horror, de personagens neuróticos e mulheres de beleza inequívoca. Há um filme – homônimo -, canadense, que reúne várias histórias que brotaram na revista. A trilha sonora é tão pesada quanto a película: da voz de Sammy Hagar ao som alucinado do Black Sabbath. AQUI você assiste ao trailler. Desfrute!

At the Village Vanguard, o livro

Livro: Ao Vivo no Village Vanguard - Max Gordon | Estante VirtualLivros sobre música – todos os gêneros possíveis – pululam nas prateleiras das poucas livrarias. Há de tudo: desde biografias de músicos e bandas até manuais de como aprender a tocar instrumentos: do violoncelo à shakuhachi. Todos os gostos são contemplados – o que me tranquiliza, pois o jazz, o rock, a MPB e a música clássica são gêneros que parecem vender bem, já que há títulos em abundância. Em deles é Ao Vivo no Village Vanguard, de Max Gordon. Quem é Max Gordon, afinal? É proprietário da mais tradicional casa de jazz dos Estados Unidos – o Village Vanguard do título. 

Estive lá, nos anos 1990. Assisti a uma apresentação de David Murray, o sopro mais vigoroso desde Benny Golson. Paguei os olhos da cara, tomei duas doses de uísque e não comi nada, porque não se come no Village Vanguard. Bebe-se, fuma-se e ouve-se. Mas quero falar do livro. Max Gordon dá o ritmo, trazendo histórias sobre as figuras que se apresentaram na casa. Do espetacular saxofonista cego Roland Kirk a Dannie Richmond, baterista de Mingus que, emocionado após a morte do amigo, vai até o Village para uma conversa.

Há mais: Sonny Rollins fugindo do palco após metade de uma extraordinária execução; um retrato de Miles Davis, o gênio temperamental, e cantoras do calibre de Anita O’Day e Dinah Washington. Ok, não é apenas música. Há, por exemplo, um capítulo delicioso sobre como Max Gordon usou as segundas-feiras – dias em que o Village não funcionava – para reunir um grupo e conversar sobre qualquer assunto, desde que polêmico. Há apresentações de blues, há um capítulo para Lenny Bruce, o comediante em seu estandape.

Bar Village Vanguard em Nova York - 2023 | Dicas incríveis!

O Village Vanguard é, contudo, uma casa de jazz. É uma grife poderosa: muitos músicos tarimbados apreciavam fazer um disco com a chancela Live at Village Vanguard. Vou citar alguns medalhões: Sonny Rollins, John Coltrane, Bill Evans, Dizzy Gillespie, McCoy Tyner, Bobby Timmons, Wynton Marsallis, Art Pepper, Mal Waldron, Miles Davis. Bem, a lista não cabe na postagem. Vale a pena ler? Claro, desde que você goste de boa música e que aprecie um bom papo sobre ela. Se você se interessou em ler esta postagem, está nessa categoria de leitor. Aproveite, portanto!

O poeta Magritte em 3 telas escolhidas

Sou fã de Magritte, René Magritte: belga, surrealista, morto há 56 anos num dia 15 de agosto. O gênio da raça, embora menos (re)conhecido que Salvador Dalí, que sabia como ninguém autopromover-se. Magritte, mais discreto mas tão inovador (ou mais) quanto o pintor espanhol, criou um universo próprio dentro do imenso universo surreal. Suas imagens não têm aparente sentido no mundo consciente, posto que usem a geometria e a exatidão realista. Não são o que parecem ser, e essa é a premissa surreal.

o império da luz por Rene Magritte (1898-1967, Belgium) | Museu De Reproduções De Arte

A reprodução acima tem o título O Império das Luzes, de 1954: a cena noturna sob o céu diurno. Há algo de poético no quadro, algo que brota do contraste e da simetria. Se existe um pintor no século XX capaz de aproximar poesia da pintura, este é René Magritte, admirador de Lautréamont e Rimbaud – não por acaso, poetas simbolistas franceses que influenciaram o Surrealismo. Assim como a poesia se recusa a explicar o que quer (a quem quer) que seja, os quadros de Magritte nada revelam – a não ser, evidentemente, aquilo que o observador consegue ver.

Magritte – A VIOLAÇÃO - VÍRUS DA ARTE & CIA - Lu Dias Carvalho

A Violação é uma ideia. É a subversão do valor milenar, da distinção entre corpo e face, ambos expostos e ao mesmo tempo cobrindo um ao outro. Pediram a René Magritte que dissesse algumas palavras sobre a obra, e dele receberam “é um sorriso muito antigo”. Eis a questão: o que isso quer dizer? Explicar a frase equivaleria a envenená-la, e o mesmo pode se dizer da tela diante dos olhos. Se há poesia nessa subversão, somente quem observa poderá dizê-lo.

Tempo Trespassado de René Magritte | Tela para Quadro na Santhatela

Um túnel ferroviário transformado em lareira é o tema de O Tempo Trespassado. O absurdo da tela – legítima, para o Surrealismo – funde movimento e direção, mas, para onde? A fumaça que brota da locomotiva dá a ideia de que tal movimento nunca cessará, com independência e tenacidade. Se o observador tenta transpor a ideia para o real, perceberá que a anomalia nada tem de artística. O que vale, claro, é a forma como René Magritte expõe o paradoxo. Eis aí a grande poesia.

Só por curiosidade: o título original desse quadro é La durée poignardé, que significa Tempo correndo esfaqueado por uma adaga. Bem, esse é René Magritte.

AQUI, o Musée Magritte. Aproveite!

Mr. Wilson no castelo

Grupo Companhia das LetrasFiquei assombrado ao ler, em meados dos anos 1980, O Castelo de Axel, de Edmund Wilson. Assombrado duas vezes, na verdade. Uma delas: o acúmulo de informações que esse senhor possuía sobre o Simbolismo e seu mais icônico representante, Artur Rimbaud; a outra: o tamanho diminuto do meu conhecimento acerca do mesmo tema. Claro que Wilson não fala somente do enfant terrible Rimbaud. Joyce, Eliot, Gertrude Stein, Valéry, Proust, Yeats e Villier de L’Isle-Adam são avaliados/analisados pela inteligência robusta de um dos maiores críticos literários do século XX. Você deve se lembrar dele pelo estrondoso sucesso de um livro que poucos leram: Rumo à Estação Finlândia.

Todos esses escritores citados em O Castelo de Axel criaram a modernidade nas letras. Sem eles, é provável que ainda estivéssemos tateando as paredes do século XX, ruminando o ocaso serôdio do Realismo e estapeando a estética parnasiana. Foram eles, segundo Edmund Wilson, os responsáveis por uma estética que, diante da industrialização e da materialidade, buscaram a alternativa que moldou o século em que nasci: a imaginação. É dessa literatura imaginativa, num período de 60 anos – de 1870 a 1930 -, que o livro trata.

O Castelo de Axel - Edmund WilsonAo ler, pela primeira vez, eu já mantivera contato com as letras de Rimbaud, Eliot e o Joyce de Dublinenses. Cheguei a Eliot por meio de meu amigo Reinaldo, que criticara a tradução de Ivan Junqueira para The Waste Land. Sabia alguma coisa de Valéry, Stein e Yeats e ignorava solenemente Villier de L’Isle-Adam – exceto pelo poema dramático Axel, que inspirou o título do livro. Claro: há outros poetas sobre os quais versa – em especial Jules Laforgue e o sempre funestamente misterioso Tristan Corbiére. Edmund parece conversar com o leitor, mas cobra dele seriedade e conhecimento.

Não é fácil escrever sobre autores tão essenciais – e sobre suas obras. Há certo incômodo em apontar o dedo para defeitos (ou questionamento de virtudes) de obras que atravessam o tempo como ícones de um gênero literário: em especial o Ulysses, de Joyce, e Em busca do Tempo Perdido, de Proust. A segurança com que Edmund Wilson analisa autores e livros é inquestionável. E cheia de criatividade, alegria, inteligência. Wilson é tão essencial quanto os autores sobre os quais escreve.

Corso herdeiro de Whitman

Dos beatniks gosto de Ferlinghetti (pela poesia ousada e pulsante) e de Kerouac porque todos gostam. Não há, a meu ver, nenhum grande poeta naquela geração. São essenciais muito mais pela atitude e pela transgressão do que pelo valor literário, pela poesia pujante. Lembro-me de ter conhecido Corso et alli ao ler Alma Beat, um volume de ensaios escritos por Antônio Bivar, Eduardo Bueno, , Pepe Escobar, Roberto Muggiati, Reinaldo Moraes, Leonardo Fróes e o excelente Cláudio Willer – que traduziu o sempre difícil Lautréamont. A edição saiu pela L&PM, em 1985.

Entre 1954 e 1957, Gregory Corso escreveu mais de cinco mil poemas, segundo seu amigo e mentor Allen Ginsberg, e a maioria não prestava, não tinha vigor literário, era um emaranhado confuso de referências culturais e experiências obtidas nos orfanatos pelos quais passou na infância – sem contar o tempo na prisão durante a adolescência. Talvez isso o credenciasse a participar daquele grupo que inevitavelmente se formava no fim dos anos 1950, e que se tornaria tão famoso quanto literariamente questionável: os beatniks. Com o tempo, seu verbo se tornou mais sólido, as imagens se organizaram e a notoriedade – ao menos naquele nicho jovem norte-americano – veio naturalmente.

Fazendo uma faxina em minhas estantes – a falta de espaço obriga-me a tal -, deparei-me com um exemplar de Gasolina & Lady Vestal, do dito cujo. Não é um grande livro – até porque não conheço um grande livro beat -, mas a cuidadosa tradução de Ciro Barroso tornou o livro palatável, legível e apreciado por quem gosta de uma linguagem direta, ácida, de poucos adjetivos e advérbios bem colocados. Corso escreveu um romance (o qual não pretendo ler, intitulado The American Express) e algumas peças teatrais – todas elas com a marca linguística de sua poesia. Há em Gregory Corso muito de Richard Brautigan, a quem admiro e sobre quem já escrevi.

Apesar de Brautigan, Gregory Corso é, na verdade, herdeiro linguístico de Whitman, embora não tenha a expressividade e a relevância desse enormíssimo poeta. Os versos longos, a ausência de rima e, principalmente, a temática do humano que não compreende bem por que seus pares caminham sem rumo fazem esse novaiorquino trazer à tona a conexão entre a sensibilidade e a desilusão – aliás, uma como consequência da outra. Vou relendo Gasolina & Lady Vestal até que consiga compreender o que a realidade expressa e significa. Mr. Corso talvez me mostre, tanto tempo depois.

Filmes (re)vistos #8: O Baile, 1983

Para muita gente, Grease – ou Nos Tempos da Brilhantina – é o melhor musical já feito. Inegavelmente simpático e uma estrondosa máquina de fazer dinheiro, o filme tem um trunfo: o rock, gênero que a juventude preza e consome. Escrevi sobre musicais: quem quiser pode verificar AQUI. Mas por que estou falando sobre essa vertente cinematográfica? Porque assisti, mais uma vez – dentre tantas -, ao filme O Baile, do italiano Ettore Scola – para mim, obra-prima, daquelas que quem ama o cinema precisa assistir diversas vezes. Tenha certeza: o cansaço passa longe.

O Baile - Cenas de Cinema - Crítica do filme - Clássico

O Baile é o que é: um baile – ou seja: um evento em que música e dança unem-se para para entreter quem por ali se encontra. No caso, o filme vai além, porque seu objetivo (se é que precisa ter um) é contar a história da França a partir da união entre as duas artes citadas, conectando-as a suas causas e consequências: a cultura, o costume, o tempo, a história. A ousadia da película reside no fato de que palavras não são tão necessárias à comunicação. Música, gestos, comportamento e talento para unir tudo isso, sim.

O filme fará quarenta anos em dezembro – data de seu lançamento. Scola é craque: fez Nós que nos amávamos tanto e Feios, sujos e malvados. Só isso já lhe justificaria a celebridade, e seria suficiente para que não se sentisse na obrigação de dirigir a ótima comédia O Jantar. Voltemos, pois, ao baile. Há quem diga que, sem palavras, é impossível contar uma história. Balela de diletante, claro. Ettore Scola parte da ideia do contrário, transformando em narrador a combinação de cenário, vestimenta, gesto, expressões faciais e, claro, música. Sem legendas – porque elas são, aqui, desnecessárias -, a narrativa funciona: é poética, é engraçada, emotiva.

Cinco filmes para conhecer Ettore Scola | GZH

As referências culturais, sublinhadas pela coreografia e pelos variados gêneros musicais, são expostas como um banquete sobre a mesa: todas as iguarias juntas, mas é possível eleger aquela que mais agrada, que mais se destina ao espectador que, tenha certeza, participa, a seu modo, da atmosfera que a música e o movimento provocam. Nem tudo é alegria, claro. Por exemplo: uma das cenas mais tocantes da película é o repúdio do(a)s dançarino(a)s – que batem os pés no assoalho, repetidamente – a um personagem vestido de preto (cicatriz num dos olhos), que levanta a mão numa menção ao nazismo. Eis a resistência. Esse é Scola.

A propósito: é possível assistir ao filme AQUI.

Fama Volat, in English (e alguns advérbios em português)

Meu romance policial Fama Volat tem edição em inglês, vertida para a língua de Vonnegut por minha filha, Júlia Grijó. Está disponível na Amazon, de graça, para quem baixar no Kindle. É só clicar AQUI. Se quiser em paperbeck, clique AQUI.

Escrever em inglês não é para todos – e não é para mim, de modo que precisei de alguém especializado para a versão. Em português, língua pátria, você (ainda) encontra exemplares para a venda na loja da editora Cândida. AQUI, então. Fama Volat, como eu disse, é um romance policial. É ambientado em Vitória, ES, e conecta-se ao estranho porém charmoso mundo das artes. O título refere-se a um grupo seleto e secreto que comercializa, em nível global, e clandestinamente, itens raros.

Há assassinatos no livro, bem como detetives, investigações e advogados. É um quase típico exemplo do gênero. Eu disse quase porque você precisa ler para entender por que usei esse advérbio. Enfim, se puder – e espero que possa! -, leia! E antes que eu me esqueça: Fama Volat conecta-se a um outro livro meu, que foi relançado recentemente, intitulado Histórias Curtas para Mariana M. Foi publicado originalmente em 2009. Você pode se informar AQUI. É a apresentação do livro, escrita por mim.

Creio que já tenha falado o suficiente. Os livros falam por mim – ou, ao menos, deveriam fazê-lo. Para conhecer meus outros livros, nem precisa sair do blogue. É só clicar lá em cima, em O CHEFÃO. Ou em BOOKS, se quiser ler em inglês. By the way, é uma ótima opção para leitura de férias. Em minha modestíssima opinião, pelo menos.

Minha Mariana, de novo

Histórias Curtas para Mariana M, meu segundo romance, publicado em 2009, tem uma nova edição. Há 14 anos, ainda relutando sobre a hipótese de o livro ser ou não ser literatura policial, optei pela ideia de que todo o romance era apenas uma história de amor. Um homem – um dos narradores da história – está à morte e o pretexto para adiá-la é contar histórias para a Mariana do título. Histórias policiais precisam de cumprir algumas exigências – uma delas, a principal, é um crime ter sido cometido. Falei o óbvio.

Meu amigo e ídolo literário Luiz Guilherme Santos Neves (o melhor escritor do ES, em minha opinião) abrilhantou a primeira edição com uma generosíssima orelha. Van Gogh não faria melhor. Segundo Luís, Histórias Curtas para Mariana M é, além de um romance, um ensaio sobre literatura policial. Pode ser lido por esse viés, mas só percebi isso após ter lido o que ele escreveu. É assim mesmo: assim como o cônjuge traído, o autor nunca é o primeiro a saber. Pois bem: a editora Cândida refez o livro. Não seu conteúdo, mas sua forma. Deu à obra uma capa. Ei-la:

Histórias curtas para Mariana M - Cândida Virtual

Por conta de atrasos na entrega do livro – a gráfica assumiu a responsabilidade -, a nova edição terá seu devido relançamento: possivelmente em fevereiro/2023. Você – que está lendo – pode, contudo, adquirir o livro, que está em pré-venda, pela Editora Cândida. Eis o endereço: www.loja.editoracandida.com.br

Editora Cândida

Carson McCullers revisitada

Gosta de ver Marlon Brando em ação?  E Elizabeth Taylor, tão bela que chega a doer os olhos? E os dois juntos, num filme dirigido por John Huston? Pois é: essa situação existe, e se chama – no Brasil – O Pecado de todos nós, um ótimo filme cuja temática gira entre homossexualidade reprimida, frustração no casamento e militarismo. No original, o título é Reflexo num olho dourado, e é baseado no romance homônimo de uma escritora pouco celebrada no Brasil, Carson McCullers. Uma cena congelada do filme:

Reflections in a Golden Eye: a “hothouse tale” of desire and simmering  violence | Library of America

Não é, entretanto, sobre a película que quero falar, mas sobre Carson McCullers, essa extraordinária escritora que morreu há exatos 55 anos, e que escreveu ao menos duas obras-primas: A Balada do Café Triste e O Coração é um caçador solitário, ambas lidas por este que vos fala no final dos anos 1980, quando eu ainda não tinha a certeza de se havia ou não melhor literatura, no século XX, do que a norte-americana. Hoje, tenho: não há, mas isso é apenas uma opinião. Ei-la:

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Livro: O Coração é um Caçador Solitário - Carson Mccullers | Estante VirtualSou fã da criatividade na estrutura textual – desde que não desprivilegie a história. Em O Coração…, cada capítulo traz o ponto de vista de um personagem diferente, embora o centro de tudo seja a personagem central: um homem surdo-mudo cujo nome é marcado pela ironia: John Singer. É visto como símbolo da beatitude numa cidade do interior, em que alguns selecionados moradores têm suas vidas expostas com habilidade ímpar pelo talento de McCullers. Um livro imenso, um texto que deveria ser obrigatório a todos aqueles que amam (ou dizem amar) a literatura. Há um filme – a que não assisti – baseado nele.

A Balada Do Cafe Triste - 9788525010261 - Livros na Amazon BrasilA Balada do Café Triste é um volume de contos. Na verdade, o conto-título é uma noveleta cujo tema é um triângulo amoroso composto por 3 figuras marginais: um anão, uma esposa abandonada e seu ex-marido, que retorna à cidadezinha para perturbar a vida de todos. Contos como Wunderkind, O Transeunte e Um Dilema Doméstico são pequenas obras-primas de leitura fácil, justamente porque deve ter dado um trabalho danado escrevê-las. Se puder, leia tudo – e de uma tacada. Para ficar, na memória, com o gosto de Carson McCullers durante um bom tempo. AQUI você lê a noveleta no original.

P.S. Há também um filme baseado nesse livro. Vanessa Redgrave brilha nele. Ao contrário do filme O Coração é um caçador solitário, esse eu vi.

Minha lista (devida)

Listas divertem – e somente isso. Divertem quem lê e quem a produz. Aquele que lê adora discordar, criticar, mandar às favas. Embora concorde com alguns pontos, prefere apontar, de fato, aquilo de que discorda. Comigo é assim. Deve ser assim com você também, prezado(a) leitor(a). Há algumas semanas, postei uma lista de discos escolhida por vários jornalistas espalhados pelo Brasil. Comentei-a, AQUI. Se quiser lê-la antes de ler a minha, fique à vontade.

Ressalto: não entraram na lista música instrumental ou clássica. Você perceberá também que nenhum dos discos envolvidos tem menos de 40 anos. Sim, é preferência minha. E não há somente MPB, como se pode observar. Canção do Amor demais é um disco de bossa nova, assim como Chega de Saudade. Entraram, contudo, na lista. Não sou tão purista quanto pareço. Ei-la:

ÓPERA DO MALANDRO – Teatro em Escala1. Ópera do Malandro, Chico Buarque. O disco duplo é a perfeição, da escolha dos intérpretes à confecção das canções. Algumas delas obras-primas, como Geni e o Zepelim, O Meu Amor, O Malandro e Uma Canção Desnaturada. E a ópera, que fecha o disco, é de fazer inveja a muitos escritores tarimbados. Arranjos do craque Francis Hime. Chico Buarque é o maior nome da MPB.

Alucinação de Belchior dialogando com a nossa época | LOID2. Alucinação, Belchior. Um disco em que brilham canções que ficarão para sempre – e olhe que nasceram entre 1973 e 1975! Exemplos? Como Nossos Pais, Apenas um rapaz latino-americano, A Palo Seco e Velha Roupa Colorida. Belchior é um dos melhores letristas do gênero, e este disco, em que quase todos os integrantes eram ligados ao rock, é seu apogeu.

Caetano Veloso – Bicho, 40 anos – linksonoro3. Bicho, Caetano Veloso. Todos os discos de Caetano entre 1969 e 1982 são ótimos, de modo que escolher este – de 1977 – não foi tarefa fácil. O que destaca? O Caetano absolutamente maduro e criativo. Canções como Tigresa, Gente, Um Índio, O Leãozinho e Alguém Cantando provam isso. Todas sensacionais: letra e música. Escolhi por conta delas.

Edu & Tom - Tom & Edu4. Tom & Edu, Edu Lobo/Tom Jobim. Junte Beckenbauer e Cruyff no mesmo time. Mal comparando, é mais ou menos isso. Dois maestros juntos, divertindo-se, cantando e tocando canções que eles mesmos eternizaram. Destaque para Vento Bravo, Chovendo na roseira, Pra dizer adeus e Luíza. Aliás, destaque para tudo, porque o disco é antológico!

Canção do Amor Demais – Wikipédia, a enciclopédia livre5. Canção do Amor Demais, Elizete Cardoso. Os fãs de Elis que me perdoem, mas Elizete é a maior cantora brasileira. Opinião particular – é óbvio. Agora imagine essa senhora sendo acompanhada por Tom Jobim e João Gilberto, pais da Bossa Nova! E imagine-a cantando canções de Tom & Vinicius! Se você aprecia o gênero, vais achar esse disco a obra-prima entre as obras-primas. Arranjado por Tom, todas as faixas são excepcionais. Bem, afinal é Elizete cantando.

Chega de Saudade - João Gilberto - LETRAS.MUS.BR6. Chega de Saudade, João Gilberto. Pois é: disco icônico, fundamental, do qual – confesso! – só fui realmente gostar após tê-lo ouvido na vida madura, nos meus quarenta e poucos. Sim, é revolucionário, criou um outro modo de se cantar samba, e gerou uma filharada que se mantém até hoje. Claro que algumas letras são bobinhas, infantis, mas o que conta é como se canta e como se toca. É um mundo que se abre, em 1959. Se você pensa que esse mundo fechou, erra.

Há 45 anos, Jards Macalé reunia | Podcast | Rádio Brasil de Fato7. Banquete dos Mendigos, Jards Macalé. Um disco-manifesto, comemorando os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Emblemático, representou a reunião de vários nomes: Chico Buarque, Gal Costa, Johnny Alf, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Jorge Mautner, Raul Seixas, Gonzaguinha, Milton Nascimento, Toninho Horta e, claro, Jards Macalé. Muita gente boa junta: difícil não sair algo fenomenal.

Refavela: como o álbum de Gil revolucionou a MPB nos anos 708. Refavela, Gilberto Gil. Por que não discos extraordinários como Refazenda, Um Banda Um, Nightingale ou Dia Dorim Noite Neon? Bem, primeiro porque Refavela também é extraordinário. Em segundo lugar, porque foi o primeiro disco de Gil que comprei, em 1979, dois anos depois de ele ter sido lançado. A relação é pessoalíssima. Não precisaria nem citar que Balafon, Sandra, No Norte da Saudade e a faixa-título são primores textuais.

Antologia - MPB 4 - Álbum - VAGALUME9. Antologia, MPB4. Gosto de todos os discos do MPB4, sem exceção. Nunca fizeram nada que me desagradasse. Os fãs do quarteto – se é que lerão esta postagem – vão torcer o nariz, afinal, como uma antologia pode ser o melhor disco? Pois é. Mas juntar pot-pourri de Ismael Silva, Ataulfo Alves, Chico Buarque, Tom Jobim, Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, Monsueto, Dorival Caymmi e Baden Powell não é pouca coisa. E a afinação do quarteto é coisa de outro mundo. Discaço!

Milton Nascimento, LP Duplo Clube Da Esquina 2- Série Clássicos Em Vinil  [Disco de Vinil]: Amazon.com.br: CD e Vinil10. Clube da Esquina 2, Milton Nascimento. Sim: acho o número 2 melhor. Gosto daquele que ficou em primeirão, no juízo dos jornalistas. Prefiro este porque Canção Amiga, Casamiento de Negros, Credo, Paixão e Fé, Maria Maria e Tanto estão nele. E, claro: Canción por la unidad de Latino America, em companhia de Chico Buarque, com um show de Wagner Tiso. Política e arte nas alturas.

Se quiser enviar a sua lista, sinta-se convidado(a) a fazê-lo.