Dylan, 80 anos (eu, serôdio)

Escrevi sobre Bob Dylan quando ainda era secretário de Cultura, na capital, Vitória. Muita gente discordou do que escrevi. Fui chamado de corajoso por expor algo em que acredito. Sou fã do Dylan compositor, deixo isso claro. O texto está aí, para quem quiser ler novamente – ou pela primeira vez, o que seria mais comum.

Bing: ausência de 43 anos

Quem é o maior cantor popular norte-americano? Eu diria Sinatra, meu xará. Além de ser tecnicamente perfeito, é meu preferido – o que faz com que meu julgamento seja, evidentemente, questionável. Sinceramente? Acho que poucos questionarão. Bem, há outros que mereceriam o posto: Johnny Hartman, Louis Armstrong, Nat King Cole, Sammy Davis, Jr., Tony Bennett. Há, entretanto, um outro que, para muitos, é o maior de todos, inclusive para o próprio Sinatra: Bing Crosby.

Calma: deixei os vocalistas rock de fora, até porque o rock é um gênero que não exige que o cantor seja realmente grande coisa. Claro: exceção para um dos maiores cantores em qualquer gênero: Elvis Presley. Mas por que estou fazendo toda essa introdução? Porque hoje, 14 de outubro, faz 43 anos que o mundo perdeu Bing Crosby. Há alguns meses adquiri, em vinil, a caixa com 4 discos desse extraordinário cantor: Bing Crosby and Friends. Ei-la:

É uma grande festa. Uma compilação de grandes gravações em duetos e trios. Gente do quilate de Rosemary Clooney, Nat King Cole, Peggy Lee, Judy Garland, Maurice Chevalier e mais um punhado de craques – o filho Gary Crosby incluído. Há uma gravação de Surry with the Fringe on Top, com Hellen O’Connel que é uma beleza. Ah, claro, nem tudo é dueto. Crosby canta How are Things in Glocca Morra e That Old gang of Mine sozinho. Duas pérolas.

E se você tem dúvidas quanto a comparações com aqueles senhores citados no primeiro parágrafo, ouça e veja ISTO. Faz parte de uma das melhores comédias musicais já feitas, Robin Hood de Chicago. Estão lá Frank Sinatra, Sammy Davis e Dean Martin, todos contracenando com Bing Crosby. Ainda prefiro meu xará, mas o protagonista desta postagem – preciso confessar – é melhor. A propósito: com Louis Armstrong, Bing Crosby faz um dueto que ninguém deveria desconhecer. Se puder, aproveite!

Sem Laurindo há 25 anos

Pois a vida é feita de coincidências: ontem pela manhã, resolvi ouvir um disco que não punha para rodar há alguns anos. Isso acontece com frequência. O título remete às incumbências dos artistas que o protagonizam: Sammy Davis, Jr. e Laurindo Almeida. Este último é o motivo desta postagem porque há 25 anos esse grande violonista deixou o mundo menos sonoro. O disco é uma maravilha, uma aula de como se deve cantar – quando se está instrumentalizado para isso – e outra de como o violão pode (e deve) tornar a vida mais feliz. Qualquer vida.

Não me lembro exatamente quando ouvi o violão de Laurindo Almeida pela primeira vez. Lembro-me, entretanto, que meu querido amigo Pedro Nunes, escritor tarimbado e grande conhecedor da música, emprestou-me Guitar from Ipanema, lá no início dos anos 1990. Esse disco, todavia, será obrigado a esperar. Em frente, então: Sammy Davis, Jr. é um dos maiores cantores americanos. Esqueça sua habilidade ao sapateado e o fato de ser um showman. O que conta, aqui, é voz, timbre, afinação, alcance. Em alguns momentos, provoca inveja em Sinatra, Crosby e Bennett.

E Laurindo, a estrela do post? Engana-se quem pensou que sua tarefa foi acompanhar o superstar do vozeirão. Laurindo Almeida deu o andamento, mostrou o caminho que deveria ser seguido. E mais: deu pitacos essenciais nos arranjos de George Rhodes (que trabalhava para o cantor), comprovando que a voz de Sammy Davis, acostumada a pesadas orquestras e aos contornos sensuais do swing, deveria mostrar-se mais terna (quase tímida) num disco essencialmente jazzístico. Sim, é jazz. E da melhor qualidade.

Se você, que está lendo, ignora o instrumentista de quem falo, saiba que há poucos pecados maiores. Aí vai por quê: Laurindo tocou com Villa-Lobos e Pixinguinha. Só isso já o imortalizaria, mas não ficou por aí: foi para os EUA e se tornou um ícone, porque é naquele país que ele produz para valer. Tocou com o Modern Jazz Quartet, com Ray Brown e com Stan Getz. Com o saxofonista Bud Shank ele botou a Bossa Nova no cardápio dos gringos, mas não estacionou no gênero, embora haja parentesco entre a BN e o jazz. O disco com Sammy Davis prova isso. Se quiser ouvir tudo, clique AQUI.

Caso não, experimente ao menos The Shadow of Your Smile, Speak Low e Where is Love? Seu pecado será atenuado. Boa audição!

 

Roberto, Erasmo e O Bofe

Hoje é dia 19 de abril e o cantor e compositor Roberto Carlos faz 79 anos. Na estrada desde 1961, esse conhecidíssimo senhor já não tem a potência de antes, mas consegue disputar público com duplas sertanejas, padres cantores e funkeiros iletrados. Mantém inatacada a fidelidade de seu público, praticamente não faz shows e tem a seu dispor um grupo de músicos de primeiríssima linha. Não sou fã, mas respeito o trabalho do distinto. E, mesmo não sendo fã, tenho alguns discos em que o talento dele é posto à prova. E passa de ano, com louvor.

Como este blogue, todavia, não suporta os clichês, resolvi falar de um disco especial: a trilha sonora de O Bofe, que não apresenta a voz afinada de Roberto Carlos. Por quê? Porque todas as canções são interpretadas por outras cantores: Jaques Wu, Osmar Milito, Elza Soares, Os Vips, Nelson Motta e mais alguns menos votados. É um disco bem feito, suingado, há algo de soul nele, há algo de rock – tudo misturado, claro. Aquilo que os críticos chamam de música romântica, marca registrada de Roberto, não predomina. Ah, não consta da discografia da dupla Roberto/Erasmo. Isso faz dele ainda mais especial. Se quiser ouvir o disco, CLIQUE AQUI.

Em frente ao coqueiro verde

Não há canção ruim neste elepê, e não falo apenas de gosto pessoal. Letras bem armadas, irônicas, ligeiras, debochadas. Os arranjos? São simplesmente elaborados por Waltel Branco, que trabalhou com Tim Maia, Marcos Valle, Flora Purim, Rosa Passos. Acha pouco? Então lá vai: Chico Hamilton, Dizzy Gillespie, Henry Mancini, Sergio Mendes e João Gilberto, além de ser um dos responsáveis pela trilha de A Pantera Cor de Rosa. Está bom, não? E quem produziu o disco foi Eustáquio Sena, que ficou conhecido como produtor do mais importante – segundo a crítica especializada – disco de música brasileira: Acabou Chorare, dos Novos Baianos. Eustáquio canta a faixa Perdido no Mundo.

Ficheiro:O bofe - nacional.jpg – Wikipédia, a enciclopédia livre

Tenho pouca recordação da telenovela. Lembro-me de Ziembinski vestido de mulher e de Claudio Marzo barbudão. A trilha vim a conhecer uns quinze anos depois, quando, já mais amadurecido, deixei de falar que telenovela é alienação e que suas trilhas sonoras prestam-se unicamente a vender bobagens que vão povoar lares incultos. E passei também a reconhecer o talento de Roberto Carlos, antes relegado a cafona, ultrapassado, chato. Merece os parabéns, também pelo aniversário.

Saudosista, sim!

Meu querido amigo, o excelente professor, dramaturgo e ator Murilo Goes leu a recente postagem em que falei sobre Chico Buarque e Rubem Fonseca. Chamou-me saudosista, pelo whatsapp. Ele tem razão, embora o tom que comumente usam para tal expressão seja depreciativo. Na verdade, no que diz respeito a minhas áreas de interesse – cinema, música e, claro, literatura –, mantenho-me nos séculos passados. Isso não implica, logicamente, que eu não possa reconhecer que a produção contemporânea seja vantajosa, necessária e, em alguns casos, bastante representativa.

Não tenho dúvidas de que, por exemplo, o cinema produzido há sessenta anos tenha muito mais qualidade, em todos os setores – exceto, claro, naqueles em que a computação mete o bedelho –, do que os filmes produzidos na última década. Refiro-me às atuações, ao roteiro, à trilha sonora e, evidentemente, ao desempenho de quem está por trás das câmeras. No caso, o diretor. Assisto a filmes criados no ventre dos anos 1950 – de qualquer nacionalidade, incluindo a brasileira – e não vislumbro nada que, atualmente, possa rivalizar com eles.

Incomoda-me ouvir um adolescente referir-se a filmes em preto e branco como matéria arqueológica, algo mesopotâmico, assírio. E quanto à música? Talvez isso seja mais evidente e menos questionável. Escolha o gênero: jazz, blues, erudita, rock, MPB, samba. Existe algo, produzido nos últimos trinta anos, que possa ombrear – rítmica, melódica e harmonicamente – com os grandes nomes do jazz ou da música erudita, do rock, da MPB, do blues? Duvido. E antes que me acusem, deixo claro que não falo de gosto musical, porque isso diz respeito à visão pessoal. Falo de técnica.

Faço um parágrafo para me dedicar a minha área: literatura. Não só a produzo como vivo dela, tentando mostrar a estudantes sua importância. J. L. Borges, o extraordinário escritor argentino, afirmava que somente os livros escritos há mais de cem anos deveriam ser lidos. Não discordo, embora isso pareça paradoxal – e é, afinal, a quem se destinará os livros que escrevo? Certifico-me, antes de tudo, e isso de certa forma funciona como álibi, que nada de novo nem de inovador foi escrito nos últimos trinta anos. É claro que, mesmo como álibi, essa afirmação não justifica a inferior qualidade dos textos atuais, quando comparados ao que foi escrito em séculos passados.

Sim, o que está registrado literariamente no passado é, sem mácula na afirmação, muito mais bem acabado e realizado do que o que se faz nos tempos atuais. Se alguém duvida, leia Balzac, Dostoievski, Twain, Eça, Verga, Machado, um de cada país. Há muitos, muitos outros, que me vêm, de imediato, ao pensamento como exemplos essenciais. De outra coisa estou certo: reconhecer-lhes a magnitude, e respeitá-la como base e subsídio, é o verdadeiro estímulo para que se continue a produzir aquilo que, um dia, a olhos pouco treinados, possa tornar-se saudosista.

Oito Vozes num disco essencial

O ano de 1978 trouxe ao mundo da música brasileira alguns discos que se tornaram antológicos: Chico Buarque, do próprio; Todos os Sentidos, Belchior; Álibi, Maria Bethânia; Mico de Circo, Luiz Melodia; Clube da Esquina 2, Milton Nascimento; Transversal do Tempo, Elis Regina; Muito, Caetano Veloso; Ao Vivo em Montreux, Gilberto Gil; Camaleão, Edu Lobo; O Poeta e o Violão, Toquinho & Vinicius. Citei os que considero o primeiro time da chamada Música Popular Brasileira. Tudo isso para falar de um disco que poderia estar nessa lista, mas que, de fato, é a estrela da postagem (e o qual estou ouvindo neste momento): Cobra de Vidro, cantado a oito vozes. Sim, você leu direito. As canções do disco (ao vivo, já que é o registro de um show) são distribuídas em dois grupos vocais: os sempre excelentes MPB 4 e Quarteto em Cy. Ei-los, numa capa de pouca nitidez:

Uma curiosidade pessoal: o show Cobra de Vidro estreou no dia em que completei 16 anos, 13 de abril de 1978. Ok, esse dado em nada acrescenta a postagem, mas fica o registro. Para quem não sabe: o MPB 4 é o melhor grupo vocal brasileiro, e sobrevive neste mundo de boçalidade musical(?) porque alguns ainda insistem em ouvir o que eles têm a dizer. Eu sou um deles. Para quem não sabe (ou não se lembra): foram eles que acompanharam, em 1967, Chico Buarque na canção Roda Viva, clássico dos festivais. O Quarteto em Cy, formado originalmente por 4 irmãs cujos nomes tinham Cy como primeira sílaba, neste disco corrompe a formação: apresentam-se Cyva, Cynara, Soninha e Dorinha. Quanto aos homens, a formação é a original: Magro, Ruy, Aquiles e Miltinho.

O que sempre me chamou a atenção no MPB 4, além do entrosamento absolutamente perfeito em arranjos vocais mais perfeitos ainda, foi o repertório. A tonalidade política – a preocupação em marcar uma posição de confronto com as injustiças e com as desigualdades – aliada a um senso estético e artístico de primeira linha eram os ingredientes que fizeram o grupo cair em graça na minha geração. Nesse disco/show, temas como Me Gustan Los Estudiantes, O Cio da Terra, Nada Será Como Antes e Oriente trazem essa marca, a meu ver essencial à época. Hoje, também. O Quarteto em Cy é uma delícia de se ouvir. Quatro mulheres basicamente sopranos que, penso eu, seriam capazes de criar qualquer atmosfera vocal. Lirismo + musicalidade + consciência de que a música serve a propósitos que ultrapassam a estética.

Se puder, ouça. Não tenho o cedê, mas o vinil guardo com o coração e os ouvidos. Há outros discos reunindo os dois grupos, nos quais cantam canções de Chico & Tom, de Ivan Lins & Djavan e algumas coletâneas que as gravadoras criam para tirar um troco. Mas, quer saber? Todas elas valem a pena. Para mim, entretanto, o melhor disco deles é Cobra de Vidro, um show essencial de música que, hoje, a garotada chama de velha – no pior sentido que essa expressão possa ter. O consolo? Eles amadurecerão (espero!). A propósito: AQUI você ouve o disco, maduro, adulto, na íntegra.

Chico, Rubem: os bons tempos não voltam

Chico e Rubem não são os mesmos. O Chico de quem falo é o Buarque, carioca e compositor, possivelmente o maior nome da MPB nos últimos 50 anos. Sem exagero. O Rubem a quem me refiro é o Fonseca, ás do conto e do romance, foi a referência desses gêneros, no Brasil, por 30 anos. Como eu disse, Chico e Rubem não são mais os mesmos. Perderam o fôlego, não são – hoje – nem sombra do que foram, embora se mantenham entre os melhores em suas áreas. Continuam grandes, mas não são mais os maiores. Antes que eu me esqueça: continuo consumindo o que produzem, exceto, devo admitir, os romances escritos pelo meu xará. Não consegui ler Estorvo. Benjamin deu trabalho, mas terminei – com a sensação de que não deveria ter lido. Leite Derramado é chato de doer. Em contrapartida: os textos para teatro – Ópera do Malandro, Gota D’Água e Calabar – são ótimos.

O que Chico Buarque produziu de melhor (na canção) concentra-se nos anos 1970. Construção, Meus Caros Amigos, Chico Buarque (o disco da samambaia) e Ópera do Malandro são álbuns irrefutáveis. E eu diria té que o disco de 1981 – Almanaque – rivaliza com os títulos citados. Depois disso, só se salva O Grande Circo Místico, mas aí já é obra em parceria – com Edu Lobo, outro gênio. Já li gente dizendo que os anos de chumbo ajudaram Chico a criar. Isso é bobagem. Chico não criou porque havia repressão e censura, mas apesar delas. A questão que se pode levantar é que o nível criativo já não é o mesmo há, pelo menos, 30 anos. Nenhum outro disco dele, entre 1983 e 2018, tem o vigor criativo dos discos setentistas, com suas canções inesquecíveis e essenciais. NESTA LISTA você pode entender o que digo. Claro: é opinião pessoal.

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E quanto a Rubem Fonseca? Para muitos, ele é melhor no conto, esse gênero que, segundo Cortázar, vence o leitor por nocaute. Para mim, foi romancista de primeiríssima linha, se considerar dois livros: A Grande Arte e Bufo & Spallanzani. Depois disso, as narrativas longas perderam o viço, a linguagem repetiu-se, bem como as obsessões, as imagens violentas e as perversões tornaram-se clichês. O Doente Moliére quase foi uma exceção, mas perdeu-se ao tentar reproduzir, com ironia, um ambiente que somente os europeus conseguem vislumbrar. Foi craque nos contos quando trouxe à superfície O Cobrador, A Coleira do Cão, Os Prisioneiros e Feliz Ano Novo. Sinceramente? Nem meus ídolos Dalton Trevisan e Murilo Rubião rivalizavam.

Fonseca trouxe a crueza da realidade para a literatura contemporânea, e arrisco dizer que nenhum outro autor brasileiro sabia retratar linguagens distintas tão bem: do mecânico ao médico, passando passando pelo traficante, pelo advogado, pelo empresário, pelo garçom, pela prostituta, pela modelo, pelos grã-finos, pélos executivos, pelos atletas. Acho que ninguém fez melhor – até os dias de hoje. É sempre bom lembrar que, como Chico Buarque, Rubem Fonseca teve seu ápice: da metade dos anos 1970 até a metade da década seguinte. Depois disso, escreveu livros irregulares, alguns até interessantes ( Diário de um Fescenino, Agosto e A Confraria dos Espadas), mas nada que causasse surpresa. Os livros recentes, entre 2011 e 2018 – cinco, ao todo -, revelam um autor que não se reinventa. Isso, entretanto, não é um problema. O problema é repetir-se, e um leitor-fã, como eu, percebe isso.

A Grande Arte - Rubem Fonseca | MercadoLivre

Que fique claro, ao final de tudo (e repetindo): continuo a ler os livros de Rubem Fonseca e a ouvir as canções de Chico Buarque. Sou devoto, mesmo que crítico.

Para Caetano, com amor!

Acabei de ler a biografia de Caetano Veloso: a desautorizada, para a qual ele, o biografado, havia, anteriormente, dado o ok. Após a decisão do STF sobre a censura a biografias, o livro veio a público. Caetano já havia escrito, par lui-même, sua história: Verdade Tropical, que li com avidez, urgência, em 1998. Nem quis ler as modificações, enxertos a meu ver desnecessários, feitas vinte anos depois, quando relançaram a obra. Não me interessa. Fico com o texto original. Dessa vez a coisa muda: não estando o próprio biografado no controle da situação, espera-se que se exponham fatos que não vieram a lume – ainda.

Caetano acha que o livro é mal escrito. E sobre algumas passagens o compositor baiano tem razão. É carregado de clichês, há erros gramaticais, praticamente não tem qualidade literária – mas eis a questão: não é essa a proposta do livro, a meu ver. Os autores – Carlos Eduardo Drummond e Márcio Nolasco – não me pareceram preocupados em fazer literatura, mas em contar a história de um indivíduo que, para dizer o mínimo, é o ídolo deles. E nesse ponto, detalhar os acontecimentos, explicar atitudes, expor novidades, tudo isso, marcado por um garimpo criterioso e aparentemente honesto, faz com que a leitura do livro seja considerada essencial. Ao menos a quem se interessa pela vida de um dos ícones da MPB.

Meu último livro foi uma biografia: Os Mamíferos -crônica biográfica de uma banda insular. Senti na pele o que é trabalhar com fonte primária, usando as ferramentas disponíveis (jornais, revistas, depoimentos). Havia muito pouco material sobre meus biografados. Os biógrafos de Caetano, no entanto, tinham, diante de si, uma história sedimentada, um artista sacralizado pelo tempo e pela memória, sem contar as inúmeras publicações acerca do protagonista do livro. E o resultado, em termos de pesquisa, é assombroso. É justo parabenizar!

O Caetano Veloso que mais me interessa vive entre 1965 e 1980. Das participações nos festivais à liberdade criativa da Abertura Política, passando pela polêmica do Tropicalismo, pelos shows com Chico, com Bethânia, com os Doces Bárbaros, com a Banda Black Rio, pela inquietude criativa, pelos relacionamentos amorosos – que tanto influenciaram suas composições -, pelos conflitos com a imprensa, pelo cinema, pela caretice em relação às drogas, pelo autoexílio londrino, pelos festivais internacionais de rock (de um deles ele participou), tudo isso está lá, e muito mais, como um documento que serve para compreender quem é Caetano Emanuel Viana Teles Veloso. Sem qualquer indulgência, transpirando honestidade, o livro é definitivo. Pode falar mal, Caetano, mas os autores fizeram uma declaração de amor a você!

A morte de um mulherengo

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No começo dos anos 1980, em Vitória, Leonard Cohen foi um artista cultuado por um grupo pequeno de admiradores. Era pequeno justamente porque pouco se falava nesse artista, quase ninguém o conhecia na era pós-disco e havia muita gente que, sabe-se lá por quê, apreciava o medíocre movimento BRock, que trouxe à superfície Barão Vermelho, Blitz, Legião Urbana, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso e que tais. Eu tive a sorte de ter colegas que, na faculdade, falavam em Leonard Cohen baixinho, pelos cantos, como se ele fosse uma pérola quebradiça tão frágil que seu nome mal era pronunciado.

Sua voz, ao contrário, era de uma potência tão definitiva quanto pouco usual. O primeiro disco que ouvi, com 19 anos, foi Death of a Ladie’s Man, de 1977, no qual brilham Iodine, a balada Paper Thin Hotel, a espetacular Memories, a narrativa I Left a Woman Waiting, o poderoso country rock Don’t Go Home with Your Hard-On, e, claro, a faixa-título, um poema-conto belo e triste. Na época, só tinha ouvido falar de seus livros – era poeta e romancista – e de como escrevia com a mesma elegância com que tratava os vocábulos numa canção. Embora canadense, toda a sua formação literária pertencia à Inglaterra. A propósito, Death of a Ladie’s Man é também um de seus vários livros de poemas.

Realmente não sei em que seara ele é melhor: se compondo canções ou articulando versos. É, até onde conheço, o único artista que, aventurando-se em dois terrenos, atinge a plenitude criativa em ambos. É neste livro, para mim um clássico, que Leonard Cohen dá sua versão do que é falar poesia. How to Speak Poetry é um achado, um texto que todo poeta responsável deveria ler (falar, no texto, nada mais é do que criar). É a metalinguagem levada ao extremo (tradução minha, livre):

“O poema não é nada a não ser informação. É a constituição do país interior. Se você o declamar e espalhá-lo com nobres intenções, então você não é melhor que os políticos que despreza. Você é apenas alguém sacudindo uma bandeira e fazendo o apelo mais banal de patriotismo emotivo.”

Leonard Cohen morreu há exatamente um ano. Segundo consta, foi vítima de uma queda enquanto dormia. Aos 82 anos, o artista legou-nos 14 discos oficiais, em estúdio; 7 discos ao vivo e 5 coletâneas. Na literatura: 12 livros, entre poemas e romances, e 3 coletâneas de versos. Não é pouco. Em qualidade, é muito mais do que merecemos.

A melhor noite de 67

Nos últimos dias tenho falado a meus alunos sobre Tropicalismo, o movimento musical cujas características e personagens já foram abordados em questões do ENEM. Há pouco mais de um ano, aqui mesmo, neste blogue, escrevi sobre o assunto. Retomo-o, afirmando – e digo isso a meus alunos – que não se chega ao Tropicalismo sem passar pela Bossa Nova, pelo samba, pela Jovem Guarda, pelo rock e pela Antropofagia de Oswald de Andrade. E, claro, pelos festivais da canção, que apresentaram, em fins dos anos 1960, o que de melhor se produzia (e produziu) em termos de canção. Foram os festivais que nos proporcionaram conhecer Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil – e um sem-número de outros compositores que, hoje, habitam o panteão da música popular nacional. Abaixo, Caetano canta Alegria Alegria, acompanhado pelos Beat Boys.

Recomendo a eles que assistam ao documentário Uma Noite em 67. É possível assistir a ele, na íntegra, AQUI. Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, esse doc, de 2010, traz imagens inéditas não somente de cenas de palco, mas há algumas pérolas brotando dos bastidores do evento. Isso sem contar nos comentários, quase 50 anos depois, de gente que, de uma forma ou de outra, esteve envolvido no processo. Jurados, maestros, críticos e, claro, os compositores e cantores que se apresentaram nessa noite tão absolutamente singular. E ainda há a cena completa de Sérgio Ricardo quebrando o violão e arremessando-o para a plateia.

O livro é ainda melhor: traz as entrevistas completas com aqueles que estiveram no Teatro Paramount, local do Festival da Record, capitaneado por Paulo Machado de Carvalho (um dos entrevistados do livro). Aliás, é ele quem revela ter ido buscar Gilberto Gil no hotel, já que o compositor baiano recusava-se, dominado pelo pavor de um palco de festival, a apresentar sua obra-prima Domingo no Parque, que abocanhou o segundo prêmio e ainda serviu de embrião para o movimento tropicalista. Outro embrião é Alegria Alegria, de Caetano Veloso. Também revelou que Roberto Carlos (que não é entrevistado no livro) pediu para nunca mais participar de festivais.

O livro é tão saboroso quanto necessário. É um relatório, uma súmula do que foi o maior dos festivais. Depoimentos de Nelson Motta, Júlio Medaglia, Chico de Assis e Ferreira Gullar abrilhantam as páginas. É o documento de uma época em que os compositores tinham realmente que possuir talento para eternizar-se, e os 5 primeiros colocados (Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso e Roberto Carlos, em ordem decrescente) tinham isso de sobra. Eram os melhores naquele tempo e continuam os melhores atualmente, 51 anos depois. Quem pode lhes substituir?

Dirceu, que era baterista, toca berimbau. Gilberto Gil canta Domingo no Parque.

Roberto Carlos canta o samba Maria, Carnaval e Cinzas

Chico Buarque e sua Roda-Viva, acompanhado pelo MPB4

Marília Medalha, ao microfone, acompanhando Edu Lobo, ao violão. A campeã Ponteio é aclamada.