O ano de 1978 trouxe ao mundo da música brasileira alguns discos que se tornaram antológicos: Chico Buarque, do próprio; Todos os Sentidos, Belchior; Álibi, Maria Bethânia; Mico de Circo, Luiz Melodia; Clube da Esquina 2, Milton Nascimento; Transversal do Tempo, Elis Regina; Muito, Caetano Veloso; Ao Vivo em Montreux, Gilberto Gil; Camaleão, Edu Lobo; O Poeta e o Violão, Toquinho & Vinicius. Citei os que considero o primeiro time da chamada Música Popular Brasileira. Tudo isso para falar de um disco que poderia estar nessa lista, mas que, de fato, é a estrela da postagem (e o qual estou ouvindo neste momento): Cobra de Vidro, cantado a oito vozes. Sim, você leu direito. As canções do disco (ao vivo, já que é o registro de um show) são distribuídas em dois grupos vocais: os sempre excelentes MPB 4 e Quarteto em Cy. Ei-los, numa capa de pouca nitidez:

Uma curiosidade pessoal: o show Cobra de Vidro estreou no dia em que completei 16 anos, 13 de abril de 1978. Ok, esse dado em nada acrescenta a postagem, mas fica o registro. Para quem não sabe: o MPB 4 é o melhor grupo vocal brasileiro, e sobrevive neste mundo de boçalidade musical(?) porque alguns ainda insistem em ouvir o que eles têm a dizer. Eu sou um deles. Para quem não sabe (ou não se lembra): foram eles que acompanharam, em 1967, Chico Buarque na canção Roda Viva, clássico dos festivais. O Quarteto em Cy, formado originalmente por 4 irmãs cujos nomes tinham Cy como primeira sílaba, neste disco corrompe a formação: apresentam-se Cyva, Cynara, Soninha e Dorinha. Quanto aos homens, a formação é a original: Magro, Ruy, Aquiles e Miltinho.

O que sempre me chamou a atenção no MPB 4, além do entrosamento absolutamente perfeito em arranjos vocais mais perfeitos ainda, foi o repertório. A tonalidade política – a preocupação em marcar uma posição de confronto com as injustiças e com as desigualdades – aliada a um senso estético e artístico de primeira linha eram os ingredientes que fizeram o grupo cair em graça na minha geração. Nesse disco/show, temas como Me Gustan Los Estudiantes, O Cio da Terra, Nada Será Como Antes e Oriente trazem essa marca, a meu ver essencial à época. Hoje, também. O Quarteto em Cy é uma delícia de se ouvir. Quatro mulheres basicamente sopranos que, penso eu, seriam capazes de criar qualquer atmosfera vocal. Lirismo + musicalidade + consciência de que a música serve a propósitos que ultrapassam a estética.

Se puder, ouça. Não tenho o cedê, mas o vinil guardo com o coração e os ouvidos. Há outros discos reunindo os dois grupos, nos quais cantam canções de Chico & Tom, de Ivan Lins & Djavan e algumas coletâneas que as gravadoras criam para tirar um troco. Mas, quer saber? Todas elas valem a pena. Para mim, entretanto, o melhor disco deles é Cobra de Vidro, um show essencial de música que, hoje, a garotada chama de velha – no pior sentido que essa expressão possa ter. O consolo? Eles amadurecerão (espero!). A propósito: AQUI você ouve o disco, maduro, adulto, na íntegra.
Mais um excelente texto, um resgate da nossa bela história musical, um brinde a cultura. Parabéns!
Valeu, meu caro.
Parabéns Grijo! Excelente resgate da nossa música.
Resgate necessário, Débora, mesmo que tardio.
Boa! Escutando em 3, 2, 1…
Tive a oportunidade de assistir o Quarteto em 1995 aqui em Vitória. MT bom!
Ótimo resgate da nossa música.
Parabéns!
Também vi. Mas apenas o MPB 4.
Nunca tinha ouvido falar desses grupos ate uma entrevista do Quarto Cy ao ao programa do Bial.
Gostei do entrosamento entre ritmos musicais que eles conseguem fazer!
Obrigada, prof.Grijo pela indicacao!
ps: dificil um quarteto de apenas soprano dara certo, mas, elas conseguiram.
Não sabia que tinham ido ao programa do Pedro Bial.
Uma grata surpresa.
Eles se entrosam bem, Lorena.
São os dois quartetos de excelência da MPB.
Tive a felicidade imensa de ver esse show no Rio lá na Praça Tiradentes quando do lançamento do disco. Fantástico, inesquecível.
Eu te invejo, de verdade.