Saudosista, sim!

Meu querido amigo, o excelente professor, dramaturgo e ator Murilo Goes leu a recente postagem em que falei sobre Chico Buarque e Rubem Fonseca. Chamou-me saudosista, pelo whatsapp. Ele tem razão, embora o tom que comumente usam para tal expressão seja depreciativo. Na verdade, no que diz respeito a minhas áreas de interesse – cinema, música e, claro, literatura –, mantenho-me nos séculos passados. Isso não implica, logicamente, que eu não possa reconhecer que a produção contemporânea seja vantajosa, necessária e, em alguns casos, bastante representativa.

Não tenho dúvidas de que, por exemplo, o cinema produzido há sessenta anos tenha muito mais qualidade, em todos os setores – exceto, claro, naqueles em que a computação mete o bedelho –, do que os filmes produzidos na última década. Refiro-me às atuações, ao roteiro, à trilha sonora e, evidentemente, ao desempenho de quem está por trás das câmeras. No caso, o diretor. Assisto a filmes criados no ventre dos anos 1950 – de qualquer nacionalidade, incluindo a brasileira – e não vislumbro nada que, atualmente, possa rivalizar com eles.

Incomoda-me ouvir um adolescente referir-se a filmes em preto e branco como matéria arqueológica, algo mesopotâmico, assírio. E quanto à música? Talvez isso seja mais evidente e menos questionável. Escolha o gênero: jazz, blues, erudita, rock, MPB, samba. Existe algo, produzido nos últimos trinta anos, que possa ombrear – rítmica, melódica e harmonicamente – com os grandes nomes do jazz ou da música erudita, do rock, da MPB, do blues? Duvido. E antes que me acusem, deixo claro que não falo de gosto musical, porque isso diz respeito à visão pessoal. Falo de técnica.

Faço um parágrafo para me dedicar a minha área: literatura. Não só a produzo como vivo dela, tentando mostrar a estudantes sua importância. J. L. Borges, o extraordinário escritor argentino, afirmava que somente os livros escritos há mais de cem anos deveriam ser lidos. Não discordo, embora isso pareça paradoxal – e é, afinal, a quem se destinará os livros que escrevo? Certifico-me, antes de tudo, e isso de certa forma funciona como álibi, que nada de novo nem de inovador foi escrito nos últimos trinta anos. É claro que, mesmo como álibi, essa afirmação não justifica a inferior qualidade dos textos atuais, quando comparados ao que foi escrito em séculos passados.

Sim, o que está registrado literariamente no passado é, sem mácula na afirmação, muito mais bem acabado e realizado do que o que se faz nos tempos atuais. Se alguém duvida, leia Balzac, Dostoievski, Twain, Eça, Verga, Machado, um de cada país. Há muitos, muitos outros, que me vêm, de imediato, ao pensamento como exemplos essenciais. De outra coisa estou certo: reconhecer-lhes a magnitude, e respeitá-la como base e subsídio, é o verdadeiro estímulo para que se continue a produzir aquilo que, um dia, a olhos pouco treinados, possa tornar-se saudosista.

Filmes (re)vistos #3: O Dia em que a Terra Parou, 1951

Resultado de imagem para o dia em que a terra parou robert wiseO norte-americano Robert Wise montou Citzen Kane, o clássico de Orson Welles, apreciado pelos cinéfilos. Assinou Punhos de Campeão, um aclamado filme sobre o boxe. Poderia ter morrido feliz e realizado, mas optou por fazer de Julie Andrews uma noviça que cantava My Favourite Things – tema que John Coltrane imortalizaria, mas isso é outra história – em volta de um grupo de lourinhos suíços que temiam o pai de coração gelado. Alguns anos antes havia concebido, em parceria com Jerome Robbins, o grande musical West Side Story, cujo título português, Amor Sublime Amor, é sua única falha. Wise – que era realmente sábio – foi além. Além do sideral, do visto ao nu do olho, e concebeu duas pedras lapidadas da ficção científica. Uma delas, menos luminosa, é O Enigma de Andrômeda, a que assisti por volta de 73, no extinto Cine Odeon. Aos onze anos não tive a compreensão exata do filme, claro. Vi depois, em VHS, já com trinta e poucos, tela menor e cheio de boas lembranças. A outra pedra luminosa é, em modesta visão, o mais perfeito filme de ficção científica já feito: O Dia em que a Terra Parou, feito em 1951, onze anos antes do nascimento de muitos dos que leem esse testemunho – eu incluído. Mas é preciso justificar por que acho isso.

Em tempos de continuações de Star Wars e deliciosas bobagens como Guardiões das Galáxias, o filmaço O Dia em que a Terra Parou parece-me muitíssimo superior. Não apenas pela história bem articulada, mas principalmente pela ideia de que o ser humano é incompatível com aquilo que ele tanto proclama e a que ele muito diz visar: o pacifismo. Aos fatos vamos: Klaatu é um alien, um mensageiro, um representante de vários povos que se preocupam com outras civilizações. Ele é avançado – conhece mecânica celestial, filosofia, e sabe lidar com os humanos. Todos os aliens avançados – e sempre o são, claro – têm como preocupação maior o desprezo com que os humanos abusam do próprio ambiente e da própria condição. Klaatu desce, evidentemente, em solo americano e diz que vem em paz. Os humanos, por medo, agridem-no. Trancafiado num hospital, busca, em vão, uma reunião com os líderes políticos que comandam o planeta. Impossível – ou, pelo menos, difícil, afirma de forma arrogante um braço direito governamental ianque.

Klaatu foge, forma humana adquirida, para viver entre nós. Sabe que cientistas lhe darão ouvidos, e que serão eles – ou, na verdade, apenas um, de aparência einsteiniana – os locutores do desafio: reunir os humanos, ou seus líderes, sejam eles ligados à ciência ou à política. Hospedado numa pensão como Mr. Carpenter, faz amizade com o menino Bobby, enternece-se com sua mãe, viúva recente, a quem dá mostras de seu poder: em determinado dia, dentro de um elevador, e munido de informações científicas incompreensíveis a nós, faz parar a energia do planeta – toda ela, em todo canto, total e absoluta. É o dia em que a Terra para, para continuar a mesma, depois – como se nada houvesse acontecido.

Após essa demonstração de poder, e somente assim se faz ouvido, vê-se diante de humanos ouvintes. Sua missão é clara: ele representa uma comunidade intergalática que se preocupa com o fato de os terráqueos desenvolverem armas e tecnologia que podem prejudicar toda a galáxia. Diante de uma platéia que finge ouvir mensagens de paz, mas que, em verdade, não levará a sério toda a problemática que assola a humanidade, ele, Klaatu, o mensageiro, deixa claro que estaremos sendo observados. Ei-lo:

Os anos 1950, a Guerra Fria, a Europa reconstruída – tudo isso colaborando para que se criassem histórias sobre o desconhecido, sobre forasteiros intergaláticos, sobre possíveis ameaças interplanetárias. Wise foi por outro caminho: contou-nos uma história de paz que, aparentada com a boa ameaça, é, em termos absolutíssimos, necessária. Talvez quisesse dizer que a possibilidade da destruição gera o pacifismo, como querem alguns. Isso é balela. Cria o medo mútuo, mas não a paz. Talvez Wise tenha criado um libelo – suave, irônico – contra a autodestruição do homem, contra a corrida armamentista, contra o poder, em resumo. É, para mim, a obra-prima da ficção científica no cinema. Talvez Solaris, de Andrei Tarkovski, seja páreo. E, recentemente, Interestelar, de Christopher Nolan, que tem tudo para se tornar clássico.

Vilões do Celuloide

Gosto de conversar com intelectuais. Considero-os o topo da cadeia, algo sacrossanto, estão a um passo da iluminação. Não estou sozinho nisso porque eles também se consideram assim. Conheço vários deles, e ligados também a múltiplas áreas. Quando versam sobre algo de que já ouvi falar, limito-me a aprender mais porque assim devem se comportar aqueles que reconhecem o próprio limite – no caso, eu. Há um tipo de intelectual que todos apreciam ser, até porque, para isso, não há necessidade de uma formação específica, nem muitos anos de estudo ou dedicação. Essa rara criatura é o conhecedor de cinema. Não, não falo de estudantes, críticos ou teóricos do assunto. Não é tão simples assim. Refiro-me aos reais conhecedores, àqueles que se esparramam pelas mesas de bar, loquazes, usam sandálias, discursam trechos inteiros de Herr Nietzsche e defendem, com os olhos rútilos, a produção cinematografia paquistanesa. Geralmente, perto deles, sou todo ouvidos. Meia hora de papo e me sinto diante de uma respeitável Pauline Kael regional.

Ouço-os falar de cinema. Todos eles assistiram às películas cruciais à formação cerebral do homem civilizado. Têm conhecimento sobre tomadas, sobre fotografia, sobre linguagem, sabem como adequar a música ao movimento, reconhecem o bom e o mau desempenho deste ou daquele ator, palpitam sobre figurinos e opinam sobre edição. Eu, de minha parte, gosto de ouvir e, como já mencionei, de aprender. Algo, porém, foge à minha compreensão: por que o cinema norte-americano virou o vilão da história? Por que, em roda de intelectuais, é tomado como o resumo da estupidez, da lepra visual? É claro que se tornou moda – há muito – elogiar o cinema indiano, o iraniano, o neozelandês, o europeu. Também é claro que têm eles seu valor. Há quarenta e cinco anos a coisa era assim: a Nouvelle Vague, o Cinema Novo e o Neorrealismo italiano formavam a trindade intocável do celuloide. Fellini, Glauber e Godard eram populares como Mickey Mouse e Donald Duck. Aos cineastas norte-americanos sobrava o vácuo intelectual.

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Acredito, com todo o respeito que os intelectuais merecem, que há um certo equívoco ao considerar o cinema lá de cima um cinema menor. Penso justamente o oposto. Não consigo vislumbrar nada melhor do que os filmes de Billy Wilder – que era austríaco mas fazia cinema americano como poucos. Alguém viu Farrapo Humano? Crepúsculo dos Deuses? A Montanha dos Sete Abutres? Pacto de Sangue? (Descartei as comédias porque sei o que a intelligentsia pensa delas). Quem, dentre os europeus, filmou melhor que Howard Hawks e John Ford? Falem a verdade. E quanto a Frank Capra, Robert Wise, George Cuckor, John Huston, Orson Welles, Elia Kazan, Stanley Kubrick, Sidney Lumet, Mervin Leroy, Otto Preminger, Raoul Walsh, Samuel Fuller, Fred Zinneman? Isso só citando o primeiro time, porque os reservas também goleavam. E mais: muitos estrangeiros, ainda que despidos do american way, fizeram filmes norte-americaníssimos, como Fritz Lang, Alfred Hitchcock, Jaques Tourneur e Douglas Sirk.

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Ok, tinham os melhores diretores. Tinham tudo, então? Não. Como qualquer intelectual sabe, se não há uma boa história sendo contada, não há um bom filme. Martin Scorsese – que bem poderia vestir a camisa de titular, assim como Francis Coppola, também itálico – já dizia isso. Tinham também os melhores roteiristas, muitos deles os melhores escritores na época: do sisudo William Faulkner ao obsessivo Dalton Trumbo, passando por Leon Uris, Gore Vidal e Tenessee Williams. Junte um bom barco e um bom timoneiro e não haverá oceano intransponível. E possuíam os melhores fotógrafos, os melhores cinegrafistas, os músicos de excelência, os figurinistas de primeira linha. Tudo isso porque tinham dinheiro? Bem, souberam aproveitar a grana criando uma fábrica de sonhos, que, para muitos – pelo menos para alguns atores e algumas atrizes –, tornou-se uma fábrica de pesadelos, mas isso fica pra depois.

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Penso – e isso é apenas uma opinião – que não se deve tomar como base o cinemão industrial cujo objetivo é produzir entretenimento e que serve para enriquecer ainda mais os chefões judeus dos grandes estúdios. Há setenta anos também era assim, mas com mais estilo e glamour e mais histórias bem contadas – e com menos propaganda. Mas o que dizer de Woody Allen, David Mamet, Robert Altman, John Landis, Lawrence Kasdan, Ridley Scott, James Ivory, Spike Lee, George Lucas, Steven Spielberg? Muitos desses estão vivos e produzindo, cada um a seu modo, um grande cinema. Muitos chegam a fazer suspirar os estudantes de comunicação, mesmo quando ninguém está olhando. Não entro na seara da animação ou dos documentários, nem na dos talentos revelados pelo Sundance de Mr. Redford, no cinema independente, no underground, nem nessa nova safra de diretores que tentam – com êxito, a meu ver – expor um novo caminho para a ficção do écran, como Tarantino, Sam Mendes e Richard Kelly. Demonizar o cinema norte-americano tornou-se a ordem do dia, mas uma ordem que se estende por pelo menos cinco décadas. E olhe que os verdadeiros demônios dessa história – os produtores, os doughmen – nem entraram neste texto.

Filmes (re)vistos #2: Clube dos Cafajestes, 1978

Críticos de cinema não gostam muito de comédias, embora reconheçam que Quanto mais Quente Melhor, de Billy Wilder, seja um dos grandes filmes já feitos. Como não sou crítico, eu gosto — e muito. E mais ainda dos filmes de John Landis, quando este se propõe fazer rir sem sequer passar perto dos recursos do slapstick, ou pastelão. John Landis fez, só para início de conversa, Os Irmãos Cara-de-Pau (The Blues Brothers, 1980) e Clube dos Cafajestes (National Lampoon’s Animal House, 1978). Poderia se aposentar com a certeza de dever cumprido. Ambos são protagonizados por John Belushi, o ator iconoclasta e anárquico que aporrinhava todo diretor com quem trabalhava. Com Landis, John Belushi comportou-se porque tinha um rival: o próprio Landis.

Escolho um para rever e comentar: Clube dos Cafajestes parece ser uma comédia para adolescentes — e é. Mas não para adolescentes que ouvem Jota Quest e passam horas e horas nas academias e de joelhos rezando para Youtubers sem graça e sem cérebro. Se você é um deles, esqueça. Tem de ouvir o Velvet Underground e gostar de dormir até tarde.

Clube dos Cafajestes Torrent Rip BluRay 1080p Dublado Download Grátis

O filme é sacana, despudorado, politicamente incorreto, debochado e esmaga sob o chinelo a própria adolescência que se preocupa em ser exemplo para a família. Daí se perceber que no filme ninguém presta — nem os estudantes certinhos que, em sua maioria, são rancorosos e egoístas. Belushi fala pouco — suas gags são físicas, seja no corpo, seja no rosto de sobrancelhas móveis como lagartixas. Donald Sutherland — um professor de literatura chatíssimo que fuma baseados diários — está impagável. A Festa da Toga — no fim da postagem, como aperitivo —, em que ninguém é de ninguém, é um dos grandes pontos altos de um filme feito para as alturas. Mas o bacana na película é o clima de guerra entre as fraternidades — o que já é uma contradição em termos. De um lado, os ajustados Ômegas; de outro, aqueles para quem eu torço: os Deltas. É o fraque contra o farrapo, e, no final, o farrapo sai ganhando — e, para sedimentar a vitória, destrói o desfile oficial da cidade.

Clube dos Cafajestes não pode passar na Sessão da Tarde. Há cenas consideradas desaconselháveis para menores — por isso ele é reprisado, de vez em quando, nesses corujões da Globo, durante as madrugadas insones. Não está na Netflix. Se estiver, não consegui achar. Se você dorme até tarde, é porque fica acordado durante toda a noite. Ou faça como eu: tenha o filme em casa, em blu-ray, recém comprado — é muito melhor. A propósito: se você não sabe quem é John Belushi, apresento-lhe:

John Belushi during Saturday Night Live's 'Weekend Update' skit on December 2, 1978 in New York.

AQUI, um aperitivo.

Kubrick, epifania

Qualquer dicionário decente define epifania como uma manifestação visual de caráter divino, revelação. Epifania é coisa de privilegiado, de alma santa, de sujeito iluminado – ou pelo menos assim se consideram aqueles que se envolvem com visões santificadas de caráter pessoal. Alguns usam da química para isso, mas aí a história é outra. Um amigo me disse que, ao assistir a um espetáculo operístico pela primeira vez (Don Giovanni, salvo engano), a vida se abriu diante dele, como se o que tivesse vivido até então fosse despido de significado. Tudo havia mudado por conta da música e do drama. Dia desses ouvi um jornalista esportivo afirmar que ter visto o holandês Cruijff jogar, ao vivo, nos anos 1970, havia sido uma de suas experiências reveladoras. Penso que tudo isso constitui a epifania, e me parece estar ligada, sempre, a algo que se move. No meu caso, o cinema, do grego kinema, movimento, num específico momento, proporcionou-me essa revelação.

Film Review: A Clockwork Orange – CineVue

Naturalmente não me sinto iluminado por isso, embora tal palavra me transporte a Stanley Kubrick, o cineasta meio maldito e gênio por inteiro. Kubrick dirigiu A Laranja Mecânica, ano de 1971, mas o filme chegou por aqui em 78. Proibido a menores, só fui ver o filme dois anos depois, no extinto e saudoso Dom Marcos, em Vila Velha, em frente à praça principal da cidade. Lembro-me bem de ter saído do cinema e não saber exatamente para qual direção seguir. Ok, um homem, aos 18, não sabe mesmo para onde ir, mas estou convencido de que o filme tinha muito mais a ver com esse desnorte do que a pouca idade.

O texto de Antony Burgess, no qual a película se baseou, e o qual fui ler algum tempo depois, não me abalou tanto. A razão é simples: movimento, a base da epifania. E a partir de então a linguagem meio joyceana dos personagens (mérito do Burgess, claro) e as imagens coreografadas de Kubrick me impressionaram, assim como o fizeram o behaviorismo governista, o estranho olhar de Malcolm MacDowell após beber leite narcotizado. Sem falar na violência amplificada, gratuita e profética, na sexualidade aliada à destruição, no threesome ao som de Guilherme Tell, de Rossini, na paraplegia do velho escritor comunista após ser surrado, ao som de Singin’ in the Rain. As famosas bolinhas pretas (as novas gerações ignoram isso), símbolo da censura da época, que acompanhavam, dançantes, as partes pudendas e expostas das personagens – tudo isso, e muito mais, provocou-me o mal estar que, sabe-se lá por quais mecanismos, gerou-me a epifania, a revelação.

How London has changed since Stanley Kubrick's A Clockwork Orange ...

Fui procurar, em Vitória, no outro dia, o livro do Burgess, e não o encontrei em nenhuma das poucas livrarias da ilha. E lembro-me, finalmente, de ter percebido, naquele momento, que o cinema saía do espaço do mero entretenimento e alcançava um outro objetivo: expor uma outra realidade que, diante de nós ou não, existe e tem cheiro, gosto, forma, som, efeito. Isso eu percebi algum tempo depois, mas já era tarde. Essa realidade, a do cinema, tinha se tornado mais reveladora que qualquer outra.

Quando o Vento Sopra

Um dos frequentadores do Ipsis Litteris disse que o blogue precisava de mais animação. Posso concordar com isso. Então, lá vai: no início dos anos 1990, quando eu dirigia – em companhia de meu amigo Talmon Jr. – um sebo fincado no coração da Ufes, num anexo da primeira versão do Cine Metrópolis, chegou-me às mãos uma fita VHS cujo título era When the Wind Blows, de um tal Jimmy Murakami, de quem eu nunca tinha ouvido falar. A cópia era ruim e sem legendas, mas a história, atualíssima, é de impressionar, principalmente porque os desenhos, de aparente ingenuidade, carregam uma força dramática intensa, mesmo que representem o modo de vida tranquilo de um casal inglês da área rural, cujo filho, já crescido, não vive com ele.

É um desenho pacifista – contrário a qualquer manifestação armamentista nuclear, além de ser uma história de amor, mais especificamente quando os efeitos da radioatividade começam a ser percebidos nos corpos dos personagens centrais. A forma como o casal lida com o horror atômico é simplista: pensam que as guerras são inevitáveis – daí, é melhor ficar em casa e assistir a elas. Eis a questão: expostos à radiação, experimentam o próprio declínio anatômico. Vão morrendo aos poucos, um diante do outro, e nada podem fazer – e isso inclui em não se desesperarem. É um filme pra lá de inquietante, perturbador.

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Há um momento do filme em que, diante da terra devastada, a personagem feminina central, Hilda, preocupa-se com as possíveis visitas que poderiam chegar e encontrar a bagunça que a casa se tornou. A ingenuidade das personagens é o trunfo maior da história. É ela que, personificada, torna-se o antídoto para o horror e para a desgraça. A esperança de que o governo – no filme, como uma entidade quase sacrossanta – chegue a tempo de socorrê-los (como se isso fosse possível) é algo que não chega a ser patético (como querem alguns). É de uma tristeza dolorosa, amargurada, sem saída. O roteirista, Raymond Briggs – ele também autor do livro em que a animação se baseia -, acerta em cheio. O que pode ser feito contra o poder?

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When The Wind Blows é uma produção inglesa de 1986. A trilha sonora traz Roger Waters, do Pink Floyd, e David Bowie – ambos promovendo a discussão sobre que futuro nos espera. Não deixe de assistir, se puder. AQUI o filme completo.

Robert Wise, o versátil

Em conversa com amigos que apreciam cinema (talvez até mais do que eu), ouvi gritarem aos quatro ventos que Solaris, de Andrei Tarkovsky, era o mais bem acabado filme de ficção científica já feito. Eu vi Solaris em fita cassete, fim dos anos 1980, e achei um filmaço, mas meu voto, para indignação do grupo que me ouvia, era para O Dia em que a Terra Parou, de Robert Wise. Este sim, a melhor das ficções científicas. Não, não é aquela versão estapafúrdia com Keanu Reeves. É a película de 1951. De novo: é apenas uma opinião, sujeita a pedradas certeiras e a concordâncias improváveis. E arrisco mais:  O Enigma de Andrômeda é a segunda melhor ficção-científica de todos os tempos. A propósito, também é de Robert Wise. Eis aí um diretor que é competente nessa seara, e é ainda melhor nos musicais. Regeu duas obras-primas no segmento: A Noviça Rebelde e Amor Sublime Amor, dois clássicos dos anos 1960, imortais, notáveis.

West Side Story' será montado em 9 de novembro no Rio

Isto sempre me impressionou em Robert Wise: a versatilidade, a capacidade de andar por caminhos variados – em muitos casos até opostos. Exemplo? Um indivíduo que dirige Marcado Pela Sarjeta, um filme sobre boxe e melancolia, é também capaz de dirigir Dois na Gangorra, uma bela história de amor, com certo toque de deboche? Se você acha que sim, assista aos dois filmes e tente unir os pontos comuns – se você os encontrar, claro. Robert Wise foi montador em Cidadão Kane, de Orson Welles, deu continuidade ao clássico Cat People, de Jacques Tourneur, A Maldição do Sangue de Pantera, fez o magnífico Quero Viver!, o excelente A Estrela e ainda filmou o clássico da literatura de terror As Duas Vidas de Audrey Rose, filmes tão distintos que nem sei como cabem na mesma postagem. Sim, sei: o diretor é o mesmo, claro.

Robert Wise nasceu e morreu no mês de setembro, com um intervalo de 91 anos. Nunca assisti a um filme seu de que não gostasse. Alguns mais; outros menos, mas todos eles com aquele prazer que nos faz atravessar o quotidiano e ele próprio nos faz lembrar de uma cena, de um diálogo, de uma canção. Sua versatilidade – ou sua capacidade de ser muitos sendo um só – deve ser sempre celebrada. Há outros diretores versáteis, que conseguem se equilibrar em diferentes temas e focar o mundo de distintas formas. Mas, quer saber? Falta o charme de Robert Wise. Quem chegou perto foi Robert Altman – mas este fica para depois.

34 anos sem Buñuel

No filme Meia-Noite em Paris, de Woody Allen, há algumas cenas em que a personagem Gil Pender, vivida por Owen Wilson, encontra o cineasta Luis Buñuel. Se você viu o filme, sabe que a personagem retorna, sem qualquer explicação – ainda bem! – no tempo parisiense (anos 1920) e lá mantém contato com o que se chama a Geração Perdida: vários artistas estrangeiros que foram viver na capital francesa (Hemingway, Picasso, Scott Fitzgerald, Matisse, Dalí, Gertrude Stein, T. S. Eliot, Cole Porter). Numa das cenas dos citados encontros com Buñuel, Gil Pender lhe dá a ideia para um de seus grandes filmes: O Anjo Exterminador, um clássico do Surrealismo, um soco no estômago da aristocracia ocidental.  Mas por que estou falando em Luis Buñuel?

Porque hoje faz 34 anos que esse gênio do cinema morreu – e porque O Anjo Exterminador é, dentre outras obras-primas desse senhor, meu filme preferido. AQUI, um trecho. Buñuel não é uma unanimidade – ao menos não para mim. Em bom vernáculo: não aprecio todos os seus filmes (a que assisti), mas isso é irrelevante, porque se está diante de um diretor que não segue qualquer padrão, a não ser aquela estética que ele se atribui numa determinada película, num específico momento. Talvez esse seja seu grande patrimônio, essa multiplicidade de formas, essa versatilidade de conteúdos.

Dia desses, curtindo o recesso escolar, revi Tristana e A Bela da Tarde, numa tacada, em devedê. Confesso que Catherine Deneuve foi o grande motivo de eu estar diante da tevê, tentando me lembrar de como reagi a meu début diante desses filmes, de como isso foi algo epifânico porque me fez querer assistir a tudo o que o espanhol havia produzido, sem exceção. Daí, ao me deparar com a obra-prima, com o absurdo/possível do filme O Anjo Exterminador, com toda a simbologia religiosa do cordeiro a ser sacrificado, com a condição frágil de uma aristocracia em apuros, com o desespero pela sobrevivência (algo que equaliza os homens), com a ebulição instintiva que precisa apenas de um empurrãozinho para se manifestar, tornei-me aquilo que chamam popularmente de fã.

Li Meu Último Suspiro, sua autobiografia, logo que foi editado no Brasil, pela Nova Fronteira, nos anos 1980. Um livro divertido, embora o leitor que aprecie (e tenha visto) alguns filmes de Buñuel compreenda melhor o que ele afirma e o que pensa – principalmente sobre si mesmo. Creio que a ideia de um último suspiro seja algo reflexivo, que se volta para quem expira. Uma pena realmente que Luis Buñuel tenha feito isso conosco. E com o cinema, principalmente.