Chico, Rubem: os bons tempos não voltam

Chico e Rubem não são os mesmos. O Chico de quem falo é o Buarque, carioca e compositor, possivelmente o maior nome da MPB nos últimos 50 anos. Sem exagero. O Rubem a quem me refiro é o Fonseca, ás do conto e do romance, foi a referência desses gêneros, no Brasil, por 30 anos. Como eu disse, Chico e Rubem não são mais os mesmos. Perderam o fôlego, não são – hoje – nem sombra do que foram, embora se mantenham entre os melhores em suas áreas. Continuam grandes, mas não são mais os maiores. Antes que eu me esqueça: continuo consumindo o que produzem, exceto, devo admitir, os romances escritos pelo meu xará. Não consegui ler Estorvo. Benjamin deu trabalho, mas terminei – com a sensação de que não deveria ter lido. Leite Derramado é chato de doer. Em contrapartida: os textos para teatro – Ópera do Malandro, Gota D’Água e Calabar – são ótimos.

O que Chico Buarque produziu de melhor (na canção) concentra-se nos anos 1970. Construção, Meus Caros Amigos, Chico Buarque (o disco da samambaia) e Ópera do Malandro são álbuns irrefutáveis. E eu diria té que o disco de 1981 – Almanaque – rivaliza com os títulos citados. Depois disso, só se salva O Grande Circo Místico, mas aí já é obra em parceria – com Edu Lobo, outro gênio. Já li gente dizendo que os anos de chumbo ajudaram Chico a criar. Isso é bobagem. Chico não criou porque havia repressão e censura, mas apesar delas. A questão que se pode levantar é que o nível criativo já não é o mesmo há, pelo menos, 30 anos. Nenhum outro disco dele, entre 1983 e 2018, tem o vigor criativo dos discos setentistas, com suas canções inesquecíveis e essenciais. NESTA LISTA você pode entender o que digo. Claro: é opinião pessoal.

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E quanto a Rubem Fonseca? Para muitos, ele é melhor no conto, esse gênero que, segundo Cortázar, vence o leitor por nocaute. Para mim, foi romancista de primeiríssima linha, se considerar dois livros: A Grande Arte e Bufo & Spallanzani. Depois disso, as narrativas longas perderam o viço, a linguagem repetiu-se, bem como as obsessões, as imagens violentas e as perversões tornaram-se clichês. O Doente Moliére quase foi uma exceção, mas perdeu-se ao tentar reproduzir, com ironia, um ambiente que somente os europeus conseguem vislumbrar. Foi craque nos contos quando trouxe à superfície O Cobrador, A Coleira do Cão, Os Prisioneiros e Feliz Ano Novo. Sinceramente? Nem meus ídolos Dalton Trevisan e Murilo Rubião rivalizavam.

Fonseca trouxe a crueza da realidade para a literatura contemporânea, e arrisco dizer que nenhum outro autor brasileiro sabia retratar linguagens distintas tão bem: do mecânico ao médico, passando passando pelo traficante, pelo advogado, pelo empresário, pelo garçom, pela prostituta, pela modelo, pelos grã-finos, pélos executivos, pelos atletas. Acho que ninguém fez melhor – até os dias de hoje. É sempre bom lembrar que, como Chico Buarque, Rubem Fonseca teve seu ápice: da metade dos anos 1970 até a metade da década seguinte. Depois disso, escreveu livros irregulares, alguns até interessantes ( Diário de um Fescenino, Agosto e A Confraria dos Espadas), mas nada que causasse surpresa. Os livros recentes, entre 2011 e 2018 – cinco, ao todo -, revelam um autor que não se reinventa. Isso, entretanto, não é um problema. O problema é repetir-se, e um leitor-fã, como eu, percebe isso.

A Grande Arte - Rubem Fonseca | MercadoLivre

Que fique claro, ao final de tudo (e repetindo): continuo a ler os livros de Rubem Fonseca e a ouvir as canções de Chico Buarque. Sou devoto, mesmo que crítico.

O melhor do Canadá

Meu sogro e minha sogra ficaram quase um mês no Canadá, a passeio. Pasmos com a eficiência política do país e com a funcionalidade que somente as nações civilizadas proporcionam, voltaram ao Brasil com certo desânimo – aplacado, somente, por conta das inexoráveis saudades dos filhos e, principalmente, das netas. Enfim, não é sobre família que quero falar, mas sobre o que de melhor o Canadá enviou ao mundo: Oscar Peterson e The Band. Claro que haverá quem pergunte: e Joni Mitchell, Neil Young, Alanis Morissette, Michael Bublé? E Justin Bieber? Isso contando só com gente ligada à música, porque Alice Munro, Michael Ondaatje e, claro, um dos meus críticos literários preferidos, Northrop Frye, estão entre os grandes artistas daquele país.

The Band acompanhou Bob Dylan por 2 anos. Só esse dado já qualificaria o grupo formado por Robbie Robertson (guitarra), Rick Danko (baixo), Garth Hudson (teclados), Richard Manuel (piano) e Levon Helm (bateria), quase todos canadenses (Helm é americano). Conheci o grupo quando, em 1984, ganhei de presente o álbum triplo The Last Waltz, e desde então passei a tentar comprar tudo o que existia do grupo, incluindo o documentário homônimo do Scorsese – que hoje possuo, em devedê. Não, eles não fazem exatamente rock, nem exatamente folk – mas uma mistura muitíssimo bem equilibrada dos dois. Você pode observar em Up On Cripple Creek, logo abaixo.

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E Oscar Peterson? Bem, o que posso dizer é que é um dos maiores pianistas do jazz. Para muitos, é seu maior virtuose, a excelência pianística em pessoa, o gênio das teclas. Tenho oito discos dele, e nenhum deles tem sequer uma faixa a qual posso chamar mediana. Acompanhou a Santíssima Trindade do Jazz Vocal: Ella, Billie e Carmen McRae; fez o mesmo com os saxofonistas Charlie Parker, Coleman Hawkins, Lester Young e Stan Getz. Quer mais? Dizzy Gillespie, Freddie Hubbard e Clark Terry disputavam-no a tapas – mas ele sempre preferiu Roy Eldridge. Se você aceita dicas de discos, aí vai: ouça West Side Story, Oscar Peterson Plays Duke Ellington e um dos grandes discos ao vivo que conheço: Live from Chicago.

O vídeo abaixo, com mais de 80 minutos de jazz no ponto mais alto, mostra Oscar Peterson em plena forma, expondo aos escandinavos o que há de melhor no gênero. Shows na Suécia, na Dinamarca e na Finlândia, entre 1963 e 1965. E um escrete acompanhando-o: Ray Brown, no baixo; Ed Thigpen: na bateria; Roy Eldridge no trompete, e Clark Terry, tocando trompete, flugelhorn. Quando tiver tempo, veja o vídeo todo, e entenda por que devemos tanto ao Canadá.

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Pres aos 110

Se vivo, Lester Young, um dos mais importantes saxofonistas do jazz, estaria fazendo 110 anos. Pres, apelido criado por Billie Holiday, sua querida amiga, dá o tom do que ele era: President, numa hierarquia em que os sax-tenores eram grandiosos e absolutamente irrepreensíveis em suas performances. Lester Young talvez tenha sido o mais elegante e menos agressivo, em contraposição a outro titã da época e do sax-tenor: Coleman Hawkins. Estou ouvindo, neste instante em que escrevo, o primeiro disco dessa fera que comprei: The Jazz Giants, álbum da Verve cheio de estrelas: Roy Eldridge (trompete), Vic Dickenson (trombone), Teddy Wilson (piano), Freddie Green (guitarra), Gene Ramey (baixo) e Jo Jones (bateria). a gravação é de janeiro de 1956.

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AQUI você ouve a primeira faixa do disco, I Guess I’ll have to Change My Plan.

E AQUI, a melhor faixa do disco, Gigantic Blues.

É isso, Presidente!

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Ben Webster aos 110

Vivo estivesse, Ben Webster faria, neste 27 de março, 110 anos. Ao ouvi-lo pela primeira vez, no coração dos anos 1980, achei que exagerava nos vibratos. Tudo bem, era um disco de baladas, duplo, da Verve, intitulado – claro! – Ballads. A capa está abaixo, e traz a ilustração de um sapo ao saxofone. Ben tinha esse apelido, Frog. Voltando ao disco (o qual, depois, revi sobre ele minha opiniões): gravações quase definitivas de Willow Weep for Me, Come Rain or Come Shine, Blue Moon, Teach Me Tonight, My Funny Valentine,  Sophisticated Lady e minha preferida: There’s No Greater Love. Só baladas clássicas, em cujas execuções Ben Webster se faz acompanhar por um escrete.

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Só para se ter uma ideia: Hank Jones, Thad Wilson e Billy Strayhorn aos pianos. Só a presença desses três senhores já vale o ingresso. Mas há mais: as baterias estupendas de Louis Bellson e de Jo Jones e o contrabaixo de Ray Brown. Se na época impliquei com os vibratos – que, percebo hoje, aveludam a melodia -, minha opinião era nada mais que a ingênua apreensão de um músico que habita o panteão dos grandes sax tenores do jazz. Hoje, felizmente, posso ouvir esse disco tão magnífico quanto essencial (possuo em vinil e em cedê) a quem aprecia o jazz. Felizes 110 anos, Ben! (numa foto de Jan Persson):

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Quincy para sempre

Para quem acha que Netflix é apenas entretenimento, aí vai a contradição: o documentário Quincy, sobre um dos maiores – senão o maior – produtores musicais de toda a indústria do disco. Seu nome completo: Quincy Delight Jones – ou Quincy Jones, para quem é fã de boa música. Trompetista de finíssimo trato, arranjador maiúsculo, compositor de primeiríssima e produtor de pelo menos dois dos maiores artistas do século XX: Michael Jackson e Frank Sinatra. Quer mais? Foi ele quem encabeçou alguns dos grandes momentos de nossa época: a gravação de We Are the World, em janeiro de 1985. Sob sua regência, 45 cantores e cantores entoaram um hino cujo objetivo era arrecadar fundos para o combate à fome na África.

E o outro momento? O show de inauguração do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, talvez o mais emblemático e atual ícone do movimento negro nas Américas. Quincy Jones, à frente do projeto, foi o responsável por arregimentar figuras fundamentais e representativas para a sociedade afro-americana. sem ele, o ex-secretário de estado Colin Powell e a apresentadora e atriz Oprah Winfrey teriam assistido ao evento pela tevê. Isso fica, aliás, claro no documentário. Quincy Jones era um furacão, um líder absoluto para quem os grandes astros não se atreviam a dizer não.

A maioria dos excelentes discos de Quincy Jones não são aqueles em que ele mete a boca no trompete. As pérolas que ele deixou para quem gosta de boa música mostram o que ele conseguia fazer como arranjador e orquestrador. Um dos maiores, em qualquer gênero – o que, aliás, era o que ele apreciava fazer: capaz de misturas tão efervescentes quanto inusitadas, o maestro criava universos que dialogavam com todos os gostos. Da balada ao jazz, do rock ao erudito.

Um exemplo? O disco abaixo, gravado há 53 anos, é uma reunião de temas que, aparentemente, nada têm em comum: da dupla Jagger/ Richards ao grande compositor Burt Bacharach, do clássico Blues in The Night, de Arlen/Mercer, a duas canções do brasileiro Luiz Bonfá (de quem Quincy era fã), passando pelo poderoso jazz de Cannonball Adderley e pelo ultraclássico Mack the Knife, tudo isso está AQUI, brilhando com sua luz acesa. Não deixe de ouvir.

Se puder, assista ao documentário. É nele que se descobre o homem Quincy, tão próximo do artista quanto possível. Fala-se das suas relações familiares, das ex-mulheres (curiosamente, a atriz Nastassja Kinski, mãe de uma de suas filhas, aparece por 2 segundos apenas), do trato com grandes artistas, do namoro com o hip hop, da consciência do que era (e ainda é) ser um negro nos Estados Unidos. Quincy Jones firmou-se por sua arte. É um exemplo que fica para sempre, de um artista que levou às últimas consequências seu talento, sua força e seu objetivo: apresentar a nós o que é a música.

Para Caetano, com amor!

Acabei de ler a biografia de Caetano Veloso: a desautorizada, para a qual ele, o biografado, havia, anteriormente, dado o ok. Após a decisão do STF sobre a censura a biografias, o livro veio a público. Caetano já havia escrito, par lui-même, sua história: Verdade Tropical, que li com avidez, urgência, em 1998. Nem quis ler as modificações, enxertos a meu ver desnecessários, feitas vinte anos depois, quando relançaram a obra. Não me interessa. Fico com o texto original. Dessa vez a coisa muda: não estando o próprio biografado no controle da situação, espera-se que se exponham fatos que não vieram a lume – ainda.

Caetano acha que o livro é mal escrito. E sobre algumas passagens o compositor baiano tem razão. É carregado de clichês, há erros gramaticais, praticamente não tem qualidade literária – mas eis a questão: não é essa a proposta do livro, a meu ver. Os autores – Carlos Eduardo Drummond e Márcio Nolasco – não me pareceram preocupados em fazer literatura, mas em contar a história de um indivíduo que, para dizer o mínimo, é o ídolo deles. E nesse ponto, detalhar os acontecimentos, explicar atitudes, expor novidades, tudo isso, marcado por um garimpo criterioso e aparentemente honesto, faz com que a leitura do livro seja considerada essencial. Ao menos a quem se interessa pela vida de um dos ícones da MPB.

Meu último livro foi uma biografia: Os Mamíferos -crônica biográfica de uma banda insular. Senti na pele o que é trabalhar com fonte primária, usando as ferramentas disponíveis (jornais, revistas, depoimentos). Havia muito pouco material sobre meus biografados. Os biógrafos de Caetano, no entanto, tinham, diante de si, uma história sedimentada, um artista sacralizado pelo tempo e pela memória, sem contar as inúmeras publicações acerca do protagonista do livro. E o resultado, em termos de pesquisa, é assombroso. É justo parabenizar!

O Caetano Veloso que mais me interessa vive entre 1965 e 1980. Das participações nos festivais à liberdade criativa da Abertura Política, passando pela polêmica do Tropicalismo, pelos shows com Chico, com Bethânia, com os Doces Bárbaros, com a Banda Black Rio, pela inquietude criativa, pelos relacionamentos amorosos – que tanto influenciaram suas composições -, pelos conflitos com a imprensa, pelo cinema, pela caretice em relação às drogas, pelo autoexílio londrino, pelos festivais internacionais de rock (de um deles ele participou), tudo isso está lá, e muito mais, como um documento que serve para compreender quem é Caetano Emanuel Viana Teles Veloso. Sem qualquer indulgência, transpirando honestidade, o livro é definitivo. Pode falar mal, Caetano, mas os autores fizeram uma declaração de amor a você!

A morte de um mulherengo

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No começo dos anos 1980, em Vitória, Leonard Cohen foi um artista cultuado por um grupo pequeno de admiradores. Era pequeno justamente porque pouco se falava nesse artista, quase ninguém o conhecia na era pós-disco e havia muita gente que, sabe-se lá por quê, apreciava o medíocre movimento BRock, que trouxe à superfície Barão Vermelho, Blitz, Legião Urbana, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso e que tais. Eu tive a sorte de ter colegas que, na faculdade, falavam em Leonard Cohen baixinho, pelos cantos, como se ele fosse uma pérola quebradiça tão frágil que seu nome mal era pronunciado.

Sua voz, ao contrário, era de uma potência tão definitiva quanto pouco usual. O primeiro disco que ouvi, com 19 anos, foi Death of a Ladie’s Man, de 1977, no qual brilham Iodine, a balada Paper Thin Hotel, a espetacular Memories, a narrativa I Left a Woman Waiting, o poderoso country rock Don’t Go Home with Your Hard-On, e, claro, a faixa-título, um poema-conto belo e triste. Na época, só tinha ouvido falar de seus livros – era poeta e romancista – e de como escrevia com a mesma elegância com que tratava os vocábulos numa canção. Embora canadense, toda a sua formação literária pertencia à Inglaterra. A propósito, Death of a Ladie’s Man é também um de seus vários livros de poemas.

Realmente não sei em que seara ele é melhor: se compondo canções ou articulando versos. É, até onde conheço, o único artista que, aventurando-se em dois terrenos, atinge a plenitude criativa em ambos. É neste livro, para mim um clássico, que Leonard Cohen dá sua versão do que é falar poesia. How to Speak Poetry é um achado, um texto que todo poeta responsável deveria ler (falar, no texto, nada mais é do que criar). É a metalinguagem levada ao extremo (tradução minha, livre):

“O poema não é nada a não ser informação. É a constituição do país interior. Se você o declamar e espalhá-lo com nobres intenções, então você não é melhor que os políticos que despreza. Você é apenas alguém sacudindo uma bandeira e fazendo o apelo mais banal de patriotismo emotivo.”

Leonard Cohen morreu há exatamente um ano. Segundo consta, foi vítima de uma queda enquanto dormia. Aos 82 anos, o artista legou-nos 14 discos oficiais, em estúdio; 7 discos ao vivo e 5 coletâneas. Na literatura: 12 livros, entre poemas e romances, e 3 coletâneas de versos. Não é pouco. Em qualidade, é muito mais do que merecemos.

Quem ouve Jazz?

O jazz está quase virando clichê – e isso é bom ou ruim? Escrever sobre jazz é algo que sempre me trouxe uma inequívoca satisfação, comparável somente ao saborear auditivamente algo do gênero, de preferência o piano, o saxofone, o trompete, a grande orquestra. Em segundo lugar porque essa iniciativa seria impensável há trinta anos, já que poucos eram os estudantes que se interessavam por um solo de Sonny Rollins ou pelas acrobacias cerebrais de Earl Hines. Aliás, não havia muito interesse porque o desconhecimento grassava. Lembro-me de no início dos anos 1980, eu e alguns amigos às voltas com os bolachões e com os divertidíssimos blindfold tests, que consistiam em ouvir um determinado tema no jazz e tentar descobrir, sem qualquer informação adicional, quem o executava.

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Hoje qualquer garoto gosta de jazz – ou pelo menos diz que gosta. Há uma certa aura intelectual no apreciador do gênero. Rock, hip hop e samba são para os amadores e para os adolescentes, afirmam alguns. Música clássica é para os esnobes, dizem outros – que também chegam a afirmar que música gospel é para desinformados que acham que qualquer baladinha que louva a Deus tem o valor do que produzia Mahalia Jackson. Jazz – afirmam quase todos – é música para os inteligentes, para aqueles que se nutrem de harmonias complexas e melodias improváveis, para aqueles que não veem a música como passatempo, como entretenimento nem como tecido de fundo para o namorico ou para a balada.

Alguns de meus seis ou sete leitores provavelmente irão considerar o parágrafo acima preconceituoso. Talvez nem caiba nos dias de hoje, já que a internet, as propagandas de tevê, alguns (poucos, é verdade) programas de rádio e os diversos festivais de jazz pelo Ocidente transformaram a arte de John Coltrane, Charlie Parker e Bill Evans em ingredientes capazes de compor um balaio no qual cabem Odair José, Dietrich Fischer-Dieskau e John Lennon. Não sei se chega a ser lamentável, porque o jazz passa a ser ouvido por uma fatia da população que até então o ignorava.

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Eu fico feliz em saber que muitos de meus alunos conhecem Miles Davis e que curtem o som das orquestras mais afinadas – de Stan Kenton a Duke Ellington. Isso é bom, mas seria melhor ainda que o jazz tivesse mídia, que fosse popularizado, que virasse atração no fim do programa de Fátima Bernardes. Calma, puristas! O que estou dizendo é que se o jazz chegar a aparecer na grade curricular dos programas populares de tevê poderá ser um indício de que as coisas vão pelo caminho certo, e que a difusão do gênero reflete um avanço. Já imaginaram Carmen McRae ter tanto espaço na mídia quanto Anitta? Ou Thelonious Monk e Dizzy Gillespie serem tão conhecidos pelo grande público quanto Alexandre Pires e Xande de Pilares?

Há um problema nisso tudo, penso. Será que o ouvinte de jazz quer essa popularização? Imagina ele que tal condição pode prejudicar a qualidade do produto? Não creio. Acho mesmo é que o consumidor de jazz quer continuar periférico – e aprecia isso. Não quer ouvir o que o populacho ouve, considera-se habitante de outra esfera, consumindo caviar quando a maioria come pastéis na esquina. É ou não uma forma de sentir-se superior? Uma pena, porque quem perde é o jazz.

A melhor noite de 67

Nos últimos dias tenho falado a meus alunos sobre Tropicalismo, o movimento musical cujas características e personagens já foram abordados em questões do ENEM. Há pouco mais de um ano, aqui mesmo, neste blogue, escrevi sobre o assunto. Retomo-o, afirmando – e digo isso a meus alunos – que não se chega ao Tropicalismo sem passar pela Bossa Nova, pelo samba, pela Jovem Guarda, pelo rock e pela Antropofagia de Oswald de Andrade. E, claro, pelos festivais da canção, que apresentaram, em fins dos anos 1960, o que de melhor se produzia (e produziu) em termos de canção. Foram os festivais que nos proporcionaram conhecer Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil – e um sem-número de outros compositores que, hoje, habitam o panteão da música popular nacional. Abaixo, Caetano canta Alegria Alegria, acompanhado pelos Beat Boys.

Recomendo a eles que assistam ao documentário Uma Noite em 67. É possível assistir a ele, na íntegra, AQUI. Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, esse doc, de 2010, traz imagens inéditas não somente de cenas de palco, mas há algumas pérolas brotando dos bastidores do evento. Isso sem contar nos comentários, quase 50 anos depois, de gente que, de uma forma ou de outra, esteve envolvido no processo. Jurados, maestros, críticos e, claro, os compositores e cantores que se apresentaram nessa noite tão absolutamente singular. E ainda há a cena completa de Sérgio Ricardo quebrando o violão e arremessando-o para a plateia.

O livro é ainda melhor: traz as entrevistas completas com aqueles que estiveram no Teatro Paramount, local do Festival da Record, capitaneado por Paulo Machado de Carvalho (um dos entrevistados do livro). Aliás, é ele quem revela ter ido buscar Gilberto Gil no hotel, já que o compositor baiano recusava-se, dominado pelo pavor de um palco de festival, a apresentar sua obra-prima Domingo no Parque, que abocanhou o segundo prêmio e ainda serviu de embrião para o movimento tropicalista. Outro embrião é Alegria Alegria, de Caetano Veloso. Também revelou que Roberto Carlos (que não é entrevistado no livro) pediu para nunca mais participar de festivais.

O livro é tão saboroso quanto necessário. É um relatório, uma súmula do que foi o maior dos festivais. Depoimentos de Nelson Motta, Júlio Medaglia, Chico de Assis e Ferreira Gullar abrilhantam as páginas. É o documento de uma época em que os compositores tinham realmente que possuir talento para eternizar-se, e os 5 primeiros colocados (Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso e Roberto Carlos, em ordem decrescente) tinham isso de sobra. Eram os melhores naquele tempo e continuam os melhores atualmente, 51 anos depois. Quem pode lhes substituir?

Dirceu, que era baterista, toca berimbau. Gilberto Gil canta Domingo no Parque.

Roberto Carlos canta o samba Maria, Carnaval e Cinzas

Chico Buarque e sua Roda-Viva, acompanhado pelo MPB4

Marília Medalha, ao microfone, acompanhando Edu Lobo, ao violão. A campeã Ponteio é aclamada.

O quase cinquentão Abbey Road

George Martin, produtor e orquestrador que gozou da intimidade dos Beatles, dizia aos quatro cantos que Abbey Road, disco de 1969, era a obra-prima do quarteto que revolucionou a música pop. Quase sempre se usa a expressão pop com certo desprezo hipócrita, como se o termo impusesse à música – como um todo, melodia e texto – depreciações inevitáveis. Besteira. Abbey Road, gozando sua ideologia pop-rock, é um disco de primeira, dos melhores já feitos e, no meu caso, concordo com George Martin: é o melhor dos Beatles. Aliás, há umas poucas postagens, afirmei que é um dos melhores discos de rock que conheço.

Sei que há quem afirme que Sgt. Pepper’s é melhor. É avaliação subjetiva, claro, assim como a minha e de George, mas, mesmo as subjetividades são (ou devem ser) justificadas. Primeiro: Harrison mostra os dedos (e a voz) afiados em dois temas que se tornaram clássicos: Something e Here Comes the Sun estão na ponta da língua de qualquer cinquentão de bom-gosto. Eu, por exemplo. A musicalidade de Something é algo fora do comum – e repare que os recursos para se chegar a ela são simples, quase primários. Mas tente fazer para ver se você consegue.

E por falar em riqueza melódica, que tal ouvir Golden Slumbers, Oh! Darling, Come Together e o tema do serial killer Maxwell’s Silver Hammer? Quer uma execução progressiva? Há também. Experimente I Want You (She’s So Heavy), mas não exija dos rapazes que eles antecipem o virtuosismo de um Robert Fripp ou as sinuosas reviravoltas de Greg Lake. O negócio deles era outro: entreter com arte. Ou seja: preocupando-se com a própria produção e um olho cravado na aceitação popular. Fizeram, sim, a melhor música popular.

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Eis os rapazes após a foto famosa, em que marcham na faixa de pedestre – em Londres. Mas aí você quer saber por que escolhi justamente esse disco para uma postagem. Simples. Abbey Road veio ao mundo em 26 de setembro de 1969. Claro, claro. Alguma coisa tinha de fazer dessa quarta-feira, o dia mais insosso da semana, uma data especial.