Bem vivo aos 76

Dia desses me perguntaram sobre qual o melhor disco que rock que conheço. A pergunta é fácil; difícil é a resposta, já que o rock, abrangente em suas modalidades e em número de bandas e gravações, dificulta qualquer tipo de julgamento. Isso, claro, é uma visão pessoal. Creio que alguns de meus 6 ou 7 leitores tenham suas preferências já fossilizadas, trazidas da adolescência – que é quando o rock nos encanta, nos toma por inteiro. Creio que já ter dito isso numa outra postagem. Mas não fujo do desafio: para mim, Abbey Road, dos Beatles, e Electric Ladyland, de Jimi Hendrix, são o que há de melhor. Sei que alguns vão torcer o nariz: Abbey Road, disco de rock? Não é?

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Nunca fui íntimo do heavy metal. Alguma coisa do hard rock me agrada, em especial Led Zeppelin, Queen e Aerosmith. O disco ao vivo do Deep Purple no Japão também. Coisa séria, que um adulto pode consumir sem correr o risco de voltar no tempo e sentir-se com 14 anos. O rock progressivo, ao contrário, sempre me foi caro: Pink Floyd, King Crimsom, Yes, Jethro Tull e Frank Zappa, cujo disco One Size Fits All, de 1975, foi-me apresentado no meu aniversário de 16 anos, em 1978. Comecei a jornada pelo progressivo a partir daí. Um caminho feito de paradas, retornos, atalhos. E, por último, o mais importante: minha banda preferida é o The Who. Já mencionei isso.

Mas por que falo de rock e de lembranças, referências? E por que somente o nome de Jimi Hendrix aparece em negrito? Se vivo, o senhor da foto teria 76 anos, mas morreu num dia 18 de setembro, há 48 anos. Para mim, é o maior de todos os guitarristas – e olhe que sou fã de Clapton, que muitos consideram um deus das cordas, e de Jimmy Page, outro monstro -, embora haja uma justa ressalta a ser feita: será que Jimi manteria o pique? Essa é uma questão tão absolutamente desnecessária quanto divertida, embora muita gente leve isso a sério. Para seus detratores, ou para os fãs de outros guitarristas menores, Jimi Hendrix não teve tempo de mostrar que seria eterno. Para mim, este post mostra o contrário.

Jimi fez tudo o que era possível – e o que era considerado impossível, ele deu um jeito. Fez das distorções música para todos os ouvidos. Usou a tecnologia para expressar o som que não se imaginava existir. Foi um inovador, arriscou-se ao máximo em busca do som que queria apresentar – e acabou por influenciar todos (ou quase todos) que vieram depois dele. Poucos fizeram isso na música, e quando afirmo isso levo em conta todos os gêneros. Eu disse todos. Fez blues-rock, rock and roll, hard rock, baladas, country, jazz. Lá no início da postagem falei em Electric Ladyland. Claro que você conhece, mas, se ainda não teve oportunidade, ouça. É o derradeiro álbum de estúdio do The Jimi Hendrix Experience, trio que comportava também Noel Redding (baixo) e Mitch Mitchell (bateria). É ouvir para crer. E rezar pela música de Jimi Hendrix, que durará para sempre,

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Bobby Short aos 94

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Esse senhor aí de cima é Bobby Short. Não sei se você conhece, porque não é um músico muito popular: ao menos não por aqui. Eu também não o conhecia quando, em meados do anos 1990, ganhei um disco no qual a estupenda cantora Mabel Mercer dividia as honras com ele, ao vivo, formato vinil da Atlantic, cujo título é Mabel Mercer & Bobby Short at Town Hall. Um discaço em que pude, pela primeira vez, ouvir o som produzido por esse extraordinário cantor e pianista de cabaré. Não, não espere um vozeirão. Bobby Short não é Sinatra, Johnny Hartman ou Sammy Davis. Ele é Bobby Short e isso basta! Ou seja: é tão único quanto arrebatador. É fino, sofisticado, nunca banal. Você pode vê-lo e ouvi-lo executando I’m in Love Again, de Cole Porter, canção incluída em Hannah e suas Irmãs, de Woody Allen.

E por falar em Cole Porter, para muitos, Bobby Short é seu intérprete definitivo. Ouça a pouco conhecida Miss Otis Regrets, gravação no programa de Larry King. Um dos mais antigos hotéis de Nova Iorque se chama Hotel Carlyle, em cujo night club, o Café Carlyle, nosso herói se apresentava regularmente. Há um programa de tevê, feito há quase 40 anos, no qual ele se apresenta no ambiente que tornou seu. AQUI você pode constatar, se estiver disposto a encarar mais de 1 hora documental sem legendas. Aliás, para as canções – a parte principal do programa -, não há necessidade delas.

Bobby Short esteve no Brasil quando eu tinha 20 anos – e eu não só não tinha muita intimidade com a música norte-americana, com os crooners e as grandes cantoras, como ouvia algo que, hoje, é um tanto quanto incompatível com a música ultrafina de Bobby Short – o rock. Não que eu desgoste desse gênero. Aprecio o rock, mas não vejo qualquer dificuldade em compreender que a música de Bobby é executada com um zelo e ao mesmo tempo com tal charmoso desleixo que as vozes de Roger Daltrey e de Freddy Mercury parecem coisa de adolescente. E não são? Enfim, para que comparar?

Para alguns, a música de Bobby Short é coisa de velho. Tenho certeza de que dirão isso. Se você tem menos de 30 anos, precisa ouvir de coração aberto, sem preconceitos, apreciando – ou tentando apreciar – o bom humor, a harmonia, a sutileza e sofisticação no toque, a finesse no modo de cantar e assim por diante. Se você se animou com o texto e quiser uma dica para um disco deste cantor/pianista, recomendo este, abaixo, com título enorme: Bobby Short – How’s Your Romance? (Music for Lovers From The Master Of Cabaret). É nele que você poderá ouvir Tea for Two, Night and Day, I Can’t Get Started (com orquestra), Easy to Love, Body and Soul (com orquestra) e muito mais. Aproveite! Bobby Short morreu em 2005, aos 81 anos, vítima de leucemia. Se vivo, teria 94 anos, nascido num 15 de setembro – e provavelmente ainda estaria abrilhantando ambientes, como o Café Carlyle.

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O álbum perdido de Mr. Coltrane

O quarteto clássico de John Coltrane traz McCoy Tyner ao piano; Elvin Jones na bateria e Jimmy Garrison no contrabaixo. É o timaço que trouxe à superfície discos tão antológicos quanto distintos entre si: A Love Supreme, Ballads e Crescent. É, na minha opinião, o que Coltrane fez de melhor – e incluo aí os discaços com o Miles Davis Quintet, nos anos 1950. Depois disso, o genial saxofonista não teve rivais em seu instrumento – exceção para Sonny Rollins, mas aí a comparação capenga porque um é um deus na harmonia e o outro é um totem melodioso. Enfim, é melhor deixar cada um em seu nicho.

Mas eis o que eu queria dizer: chega ao mundo o tal álbum perdido, Both Directions at Once, com gravações de 1963, algo impressionante a cuja audição me dediquei em minha última tarde de férias, nessa segunda que passou. Não gosto de downloads musicais mas, sem alternativa, fui obrigado a ouvir, em FLAC, gravações fabulosas de Nature Boy, One UP One Down, Slow Blues, Impressions e Vilia – sem contar a faixa inicial, de título protocolar. Vários alternate takes nos quais se percebem diferenças sutis de interpretação: ora McCoy Tyner se adianta; ora Elvin Jones amacia. É um banquete para quem sabe saborear.

Coltrane esteve na folha de pagamento da gravadora Impulse! por 4 anos, de 1962 a 1965. Fez de tudo, nessa época. Baladas, folk songs, standards, flertou com o free, armou-se de blues e spirituals. Era um momento para lá de criativo, embora estivesse pondo o pé na antessala da fase mais radical de sua produção vastíssima: os discos espirituais, a busca pelo etéreo etc. Enfim, um dia escreverei sobre isso. Mas por que essas gravações perdidas chegam somente agora? Provavelmente porque somente há pouco tempo chegaram às mãos da família da primeira esposa de Coltrane, Juanita Naima. A gravadora Impulse! não possuía os tapes.

Há também outra possibilidade: como o contrato de Coltrane com a Impulse! previa dois discos ao ano, pode ser que essas gravações tenham ficado de fora do contrato. É uma possibilidade. Conjecturas à parte, o melhor é ouvir. Vilia é uma peça clássica, de A Viúva Alegre, escrita pelo húngaro Franz Lehár; Coltrane a transforma em jazz de forma sublime. Nature Boy é um show, em que Elvin Jones mostra por que é um dos maiores bateristas do jazz. E sem alarde. Impressions é tema coltraniano por excelência. Slow Blues é o que mais se aproxima da liberdade criativa, da improvisação. Quase 11 minutos e meio de som alto, claro, preciso. One UP, One Down é pauleira: todo o quarteto dialogando em voz alta. O ponto alto do disco.

E a primeira faixa do disco, intitulada Untitled Original 11383? Faça o seguinte: ouça tudo AQUI, AQUI, AQUI e AQUI. Vinil de primeira linha. É o melhor a fazer. John Coltrane merece que se chegue a conclusões sozinho.

Mr. Mendes & a Bossa

Sérgio Mendes é um músico de primeira. Estrelou, como pianista, pelo menos dois discos que constariam de qualquer antologia mundial de música instrumental: Bossa Nova York, de 1964, no qual brilhavam também Tom Jobim, Art Farmer e Phil Woods. O outro, gravado um ano antes, chama-se Você ainda não ouviu nada!, do Sérgio Mendes & Bossa Rio, de cuja formação constavam Edison Machado, possivelmente o melhor baterista brasileiro em qualquer época, e o craque no trombone Raul de Souza. Sérgio, além de cuidar das teclas, cuidou dos arranjos – mas, calma: não foi só ele. O citado Jobim e o lendário Moacir Santos também participaram dessa obra-prima. Esse disco fica para depois.

Sérgio Mendes é famoso – mas sua fama, justificada pela qualidade de seu trabalho, era resumida a ouvintes de 50 e 60 anos, cuja exigência musical passava longe de modismos. Eu disse “era resumida”. Hoje não é mais. Há alguns anos, quando a população abaixo dos 30 anos enviou-o ao quase anonimato, Sérgio Mendes fez como o gato: deu o pulo que mudou o cenário. Aliou-se ao poderoso rapper will.i.am (sim, com minúsculas), que fez os holofotes darem a guinada necessária. Mr. Mendes pôde, então, experimentar o gostinho de ser conhecido por menores de 25 anos. É uma grande vantagem, ao menos em termos de mercado. Não se discute que a indústria do entretenimento fez a opção por uma fatia etária que, em muitos casos, não se preocupa muito com a qualidade do que consome. Conheço fãs de Seu Jorge que nunca ouviram falar de Franz Schubert, mas sabem, hoje, quem é Sérgio Mendes. Ponto para ele.

Retorno ao primeiro disco citado, que é o motivo desta postagem – e que estou ouvindo, neste momento. Bossa Nova York é um clássico do Sergio Mendes Trio, formado por Sebastião Neto, no contrabaixo, e Chico Batera, na bateria – além, claro, do líder pianista que dá nome ao grupo. É um disco de jazz-samba, algo que vai um pouco além da Bossa Nova, num andamento mais ligeiro, mas com a mesma precisão técnica. O título refere-se ao fato de o disco ter sido gravado nos estúdios da Atlantic, naquela cidade. O que me deixa pasmo é que os músicos estrangeiros – Art Farmer, Phil Woods e Hubert Laws – não conheciam o trio até entrarem no estúdio. Tinham contato com Tom Jobim, já conhecido nos EUA, em 1964, data da gravação.

Aliás, de Tom, há gravações antológicas de Só Danço Samba e Inútil Paisagem, isso sem falar em Garota de Ipanema, Vivo Sonhando e O Morro não tem vez. De Carlos Lyra, duas obras-primas: Maria Moita e Primavera. De Baden, um tema de derreter os mais corações mais empedrados: Consolação. Todo o disco é bom. Aliás, ótimo. No fim da postagem, há um link para você ouvi-lo, se quiser. Só para constar: aliado a Carlinhos Brown, Sérgio Mendes fez a canção – candidata ao Oscar – do extraordinário desenho Rio, de 2011. Gostei demais do filme. Meu vizinho, um adolescente aos 16, também. Se eu lhe perguntar quem é Sérgio Mendes, é possível que ele, após um exercício de memória, diga: Não é aquele velhote parceiro do Mr. Brown? Vou responder – triste – que é. A propósito: se você quer conhecer a biografia desse grande músico, vá ao site dele. Se for ao Wikipedia , vá em inglês. Os norte-americanos respeitam sua música muito mais que os brasileiros. Um dos motivos pelos quais ele quis ficar lá.

AQUI você ouve o disco inteiro.

Marcelo Coelho, música, Romantismo

I Juca Pirama é um clássico do Romantismo brasileiro. Um poema narrativo sobre índios guerreiros, em que a ideia de heroísmo não só ilustrava o ideal pós-independência como valorizava o nativo histórico brasileiro, desfazendo – ou tentando desfazer – a ideia de que o europeu é superior. Mas não é sobre literatura esta postagem. Falo de música, de música de qualidade, de jazz. E de Marcelo Coelho, um dos grandes instrumentistas cujo show pude testemunhar. Aliás, chamá-lo instrumentista é reduzir sua importância e sua realização. Marcelo é professor, pesquisador, compositor.

Não sei se vocês já leram I Juca Pirama. É um poema de métrica variável, rimado, de ritmo preciso – o que, por si só, já é um prato cheio para um músico. É um poema narrativo, com vozes: pai, filho, antropofagia, fantasia, ideais. A questão é que Marcelo Coelho vai além, muito além desses elementos. Não é somente na forma poética que sua música se baseia, mas na própria literatura em si. Os elementos literários presentes no poema, algo que transcende a língua, é que geram o arcabouço composicional. E isso atrelado, num certo sentido, à música que Miles Davis trouxe à baila há quase 60 anos, com Kind of Blue: o jazz modal. Mas a base de Marcelo está em Ron Miller, professor na Universidade de Miami. Se quiser saber sobre ele, clique AQUI.

Tenho alguns discos de Marcelo. Um deles, Colagens, é essencial, jazz puro, calibrado, adulto. Certo, certo: quem ouviu disse que não é música fácil, não é para qualquer ouvido. É um erro. É um disco para ser consumido por todos os que se interessam por música, mesmo que não tenham intimidade com o jazz, com a polifonia, com o próprio jazz modal a que me referi. Uma confissão: meu conhecimento sobre teoria musical é nulo. Gosto de música, mas ignoro o processo de se chegar a ela. Minha área, como se sabe, é outra – e é justamente essa outra que Marcelo Coelho resolveu invadir, com tanta propriedade e com outro olhar. Estou lendo devagar o livro cuja ilustração está à direita do visor. Leio devagar porque assim se faz com as grandes obras: deve-se sorvê-las com o paladar puro, sem a contaminação que, para muitos, é inevitável. Eu tento evitar. Ave, Marcelo!

Quer saber quem é Marcelo Coelho? CLIQUE AQUI.

 

 

Prince e Harrison (nem tão) suavemente chorando

Vivo estivesse, Prince teria feito 60 anos neste mês de junho. Um artista completo, de quem Miles Davis, um de meus ídolos, disse ser o Duke Ellington dos anos 1980. Miles podia ser um tanto polêmico quando queria, mas, nesse caso específico, creio que nem sequer tenha exagerado. Prince, guitar hero, gênio excêntrico, chegou-me da forma que deve ter chegado à grande maioria de seus hoje fãs: Purple Rain, o álbum duplo de 1984, em companhia da banda The Revolution. Um discaço que possuo até hoje, bolacha, carregado de rhythm & blues, de precisão artística, de pop rock de qualidade inequívoca.

Esta postagem tem dois lados, como um bom vinil: há 50 anos vinha ao mundo The White Album, também duplo, da mais importante banda pop que existiu ou existirá: The Beatles. Não é sobre ela que quero falar, mas sobre um de seus quatro integrantes – George Harrison -, aquele que escreveu a de início subestimada While My Guitar Gently Weeps, canção genial de origem filosófica, em sétimo lugar no lado A, com Eric Clapton dando uma canja mesmo sem a aquiescência inicial dos dois ególatras Lennon e McCartney.

E agora, juntando tudo: em 2004, durante a cerimônia do Rock and Roll Hall of Fame, Prince homenageia George Harrison em companhia de Tom Petty, Jeff Lyne, Steve Winwood e Dhani Harrison, filho de George e inacreditavelmente parecido com o pai. A canção While My Guitar Gently Weeps nunca foi tão bem tratada – nem por seu dono. Nem por Clapton. Se você duvida, assista ao vídeo abaixo:

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Veja tudo, mas, se quiser checar do que Prince é capaz, ouça a partir de 3:28. Sim, O Príncipe é um dos melhores. Naquele grupo, por exemplo, não tinha rivais, e olhe que Marc Mann, grande guitarrista, está lá, fazendo um solo muito parecido com o de Clapton da gravação original. Prince sai das sombras, aparece nos 3 minutos finais de apresentação, e rouba a festa. Vale ouvir, sim.

 

A canção atual é ruim?

Resultado de imagem para 100 canções essenciais da mpb revista bravoA vantagem de ser o chefão do blogue é a de se escrever o que se quer, sem interferências. Criei uma tag listas, na qual embuti o melhor do jazz, discos de Chico Buarque e, de quebra, o que li de fundamental. Listas divertem – eu já disse isso. Há alguns anos me chegou uma lista, proposta e arregimentada pela extinta revista Bravo!, que trazia as 100 canções essenciais da MPB. Uma outra revista, em tese mais especializada em música do que a citada Bravo!, a Rolling Stone, aventurou-se na espinhosa comarca das listas. Uso o adjetivo espinhosa não porque criar um grupo representativo disto ou daquilo seja algo que desagrade. Repito: até diverte. O termo liga-se mais ao fato de que toda lista é incompleta – sempre falta algo que o próprio autor da seleção entende como essencial. Pois bem. A Rolling Stone esclarece: “Em uma votação sem precedentes na imprensa nacional, a Rolling Stone Brasil convocou estudiosos, produtores e jornalistas para eleger os maiores discos da nossa música em todos os tempos.”

Fui ler a seleção proposta pelos estudiosos etc. Como listas expressam subjetividade, imaginei, antes da leitura, o quanto haveria de discordância entre o julgamento alheio e a minha opinião – que só não é totalmente anônima porque meus seis ou sete leitores não permitem tal condição. Eis aí a diversão a qual mencionei. Não me decepcionei com a lista. Ao contrário: embora houvesse alguma divergência – nada grave –, o teor seletivo trouxe-me certa alegria. Não vou citar aqui quais os discos selecionados, mas digo, em som alto, que dos dez primeiros títulos – na opinião dos estudiosos etc. –, nenhum deles sequer se liga ao rap, ao pagode, ao funk, ao sertanejo, à cantoria eclesiástica. Já é uma grande vantagem. E mais: dos títulos que mereceram menção e aplausos, 7 deles estão, cronologicamente, ligados aos anos 1970; 2, aos anos 1960, e 1 aos anos 1950. Todos no século passado, evidentemente. Os artistas – Caetano Veloso, Mutantes, João Gilberto, Chico Buarque, Milton Nascimento, Secos & Molhados, Jorge Ben, Novos Baianos – continuam, num certo sentido, na ativa, com exceção de Cartola, o grande compositor e sambista, que entra na 8ª posição com o disco cujo título traz seu nome em alto relevo. Cartola morreu há 38 anos.

Eis a questão: onde ficam os discos produzidos de 1980 até os dias de hoje? Vagam pelo limbo da seleção mais criteriosa, aquela que leva em conta o conteúdo adulto e que exige de seu consumidor um mínimo de sensibilidade artística? E quanto aos artistas que, atualmente, fazem tanto sucesso entre a garotada? Onde estão Tiaguinho, Emicida, Los Hermanos, Ivete Sangalo, Pe. Fábio de Melo, Jota Quest, Anitta, Pablo Vittar? Onde? No topo das paradas, com a agenda cheia, forrando a conta bancária (honestamente, é bom que se diga), falando exatamente aquilo que seu fã quer ouvir – e nunca contrariando-o, nunca exigindo dele que vá além, que descubra novos rumos, que se desdiga na primeira esquina.

Comentei sobre esta postagem – antes de escrevê-la – com um querido amigo. Ele me ouviu atentamente, e depois vociferou: “Não há canção ruim. O que existem são variações que podem ou não agradar a um determinado grupo.” Ouvi-o, também atentamente, e perguntei o que pergunto a meus seis ou sete leitores: existe má literatura, mau cinema, mau teatro, má pintura – e não existe má canção? Quer dizer, então, que em nome da indulgência universal, deve-se aceitar que uma composição limitada intelectual, harmônica, rítmica, melódica e textualmente seja considerada boa canção? O ideal qualitativo, que faz a arte ser o que é, deve ser desprezado? Em nome de quê? Em detrimento de quem? Ficam as perguntas enquanto ligo o som para ouvir Refazenda, de Gilberto Gil, ausente da lista sabe Deus por quê.

Gil, o roqueiro

O rock, como se sabe, instaura-se em nossa vida durante a adolescência. Poucos são os casos em que um indivíduo maduro, após ter experimentado gêneros musicais variados, tenha desembocado no rock como descoberta e como predileção. Não conheço alguém que tenha feito esse caminho. Deve haver alguém neste mundo, mas ignoro-o. Embora não seja meu gênero preferido – já disse isso em alguma postagem -, tenho apreço por algumas bandas e por alguns intérpretes. Elvis, Joe Cocker e Roger Daltrey moram em meu coração. The Who, Stones, Allman Brothers, Pink Floyd e Lynyrd Skynyrd estarão no meu funeral – metonimicamente falando. Hendrix e Rick Wakeman também. Sim, Rick Wakeman. Pode caçoar. Sou fã.

Sou fã também de Gilberto Gil, que em meados dos anos 1960, nutriu-se de rock a ponto de nos proporcionar um movimento que muito tinha do citado gênero: o Tropicalismo. Fã confesso de Jimi Hendrix, Gil percebeu que as poucas saídas – ou entradas – para a música brasileira era o rock. Foi entusiasta dOs Mutantes, a grande banda progressiva brasileira. Não conheço nada melhor, ao menos não entre brasileiros. Dia desses, conversando com um amigo, um autêntico detrator do rock, ouvi-o afirmar que não reconhece qualidade nas letras das canções roqueiras. Para ele é um festival de bobagens que acaba corroborando a ideia de que rock é coisa para adolescentes. Citou Titãs, Paralamas, Cazuza, Ultraje a Rigor, Blitz, Plebe Rude, Legião Urbana, Lobão, Camisa de Vênus. Desafiou-me a encontrar algo que se pudesse classificar, em termos textuais, como satisfatoriamente adulto. A expressão foi dele.

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De imediato, não encontrei. Lembrei-me, então, de Roque Santeiro, o rock, tema de Gil que compõe o magistral disco Dia Dorim Noite Neon, de 1985. É uma aula de como se faz uma canção em homenagem a um gênero. É um rock para o rock, metalinguístico, positivo, questionador. Além das escancaradas referências ao BRock, que ganhava força e se estabelecia na cena musical brasileira, Gil explica por que se deve abrir o coração para o rock, símbolo da juventude, do questionamento, da insatisfação, do desejo incontido, da força poderosa. E com uma letra absolutamente bem armada, carregada de ironias, jogos de palavras, metáforas precisas. Sim, é uma beleza. Ouça e veja, AQUI. Dê um desconto, claro, para os costumes vestuários de 33 anos atrás. Mas ouça!

Resultado de imagem para brock rock brasileiroLi o livro BRock – o rock brasileiro dos anos 80, de Arthur Dapieve. Vale a leitura, embora eu o tenha considerado, quando li, indulgente demais. É um panorama, tão vasto quanto possível, de um movimento que devolveu à juventude o vigor que, num certo sentido, ela havia perdido. Resolvi, antes de escrever este texto, passar os olhos no livro, que li há 18 anos. Realmente meu amigo tem razão: textualmente falando, o mundo adulto passa longe. Mas isso o desmerece? E quanto a Gil? Bem, creio que o papo é outro. Gil homenageou, como eu disse, todo o movimento. Acreditou nele. Claro que não podia prever os desastres que se tornariam Roger, do Ultraje a Rigor, e Lobão, mas isso é outra história. O rock não merece que se discuta esse pormenor.

Blue Note, capas

Em janeiro de 1956, Francis Wolff, executivo da mitológica gravadora Blue Note, conheceu Reid Miles, um artista comercial fã de música clássica. A empatia foi imediata e, após uns drinques e uma proposta financeira bastante razoável, Reid se tornou o designer das capas da gravadora – algo que durou 11 longos anos. Alfred Lion, fundador da Blue Note, e Francis Wolff , fotógrafo, diziam o que queriam numa capa e deixavam que Miles desse vida visual ao que imaginavam (incluindo aí as fotografias do próprio Wolff). O resultado foi um sem-número de magníficas capas que se tornaram, além da excelente música que ilustravam, um caso à parte. Se você tem uns dólares para gastar, pode comprar The Cover Art of Blue Note, uma coleção, em dois volumes, do que Reid Miles produziu.  São quase 400 capas. Se você não tem esses dólares, aproveite esta postagem e estes exemplos abaixo:

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Reid Miles tinha pedigree: passou pelo Chouinard Art Institute de Los Angeles., onde desenvolveu técnicas de design tão inovadoras quanto ricas em significado. No começo dos anos 1950, foi contratado pela revista Esquire, e a partir de então Francis Wolff resolveu contratá-lo pára desenvolver as capas dos lps de 12 polegadas. Deu no que deu: as capas da Blue Note são o que de melhor existe na cover art jazzística. Eu arriscaria dizer que são as melhores capas de qualquer gênero, mas há quem discorde disso.

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Eis aí um problema que o cedê não resolve. Pode até purificar a música, mas não consegue fazer justiça às capas. As dimensões reduzidas impedem que se vislumbre a genialidade de Reid Miles em sua amplitude. Nem tudo, todavia, está perdido: nos últimos anos, muito desse material foi reeditado em vinil – em seu formato clássico e original, o que permite à garotada interessada em jazz aproveitar toda a beleza da arte produzida por Reid Miles e por seus seguidores. Sim, eles existem. Mas isso é papo para depois.

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O Melhor do Jazz #5: os quartetos

O melhor quarteto de jazz é, na verdade, um quinteto. É opinião pessoal e a mantenho há quantos anos? Uns 30. O quinteto de Miles Davis (com John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones). Alguns dos discos são obras primas, daquelas obrigatórias em qualquer lista. A classificação, entretanto, nesta postagem, relaciona-se a quartetos, não necessariamente à formação sax, piano, bateria, contrabaixo. Pode haver variações.

A Love Supreme é das melhores coisas que o jazz produziu. É o máximo de John Coltrane, tanto espiritual e comercial quanto artístico. É seu ponto culminante, um olhar para si mesmo tendo Deus como guia. Não, não é obra gospel. É uma jornada musical de 33 minutos com a melhor formação possível em quarteto: McCoy Tyner, piano; Jimmy Garrison, contrabaixo; Elvin Jones, bateria. Todos eles magistrais, literalmente mestres em seus instrumentos. Um disco notável, dividido em quatro partes que, juntas, formam um totem musical: Acknowledgement, Resolution, Pursuance e Psalm. AQUI, o disco completo.

Tenor Madness é o único disco em que Sonny Rollins e John Coltrane se encontram – e mesmo assim em apenas uma faixa – a que dá título ao disco. Consta que Rollins havia contratado a sessão rítmica de Coltrane para o disco (Garland, Chambers e Joe Jones) e, já no estúdio, soube que o amigo havia ficado no carro, dormindo. Mandou chamá-lo e, sem que houvessem ensaiado, gravaram a faixa-título. Verdade ou não, é o que se conta – e tenho certeza de que é uma situação plenamente possível. O disco é um espetáculo, em especial Tenor Madness, com 12 minutos, e Paul’s Pal, uma homenagem de Rollins a Chambers. AQUI o disco inteirinho. E o mais interessante: você pode ouvir o mais bem acabado casamento entre harmonia (Coltrane) e melodia (Rollins).

The Modern Jazz Quartet. European Concert (Remastered) - Compilation by John Lewis | SpotifyQuando listei os meus preferidos discos ao vivo, sofri por deixar European Concert, do  Modern Jazz Quartet, de fora. É um disco sublime, em que John Lewis, o pianista mais elegante do jazz e líder do grupo, está inspiradíssimo. O contrabaixo (Percy Heath), o vibrafone (Milt Jackson) e a bateria (Connie Kay) não ficam atrás. É, dos que conheço, o melhor disco desse escrete. Os diálogos entre vibrafone e piano – os contrapontos harmônicos de Lewis são sensacionais! – são coisas para serem ouvidas no Céu, quando minha hora chegar. Destaque para Django (clássico do grupo), ‘Round Midnight, I Remember Clifford e I’ll Remember April. Uma beleza. Aliás, 15. AQUI você comprova o que digo.

Dave Brubeck é um patrimônio do jazz. E seu quarteto também, mesmo que tenha havido variações em seus personagens. A formação básica, fundamental, traz Paul Desmond, no sax alto; Joe Morello, na bateria, e Gene Wright, no contrabaixo. Todos geniais. Agora ponha esses senhores para tocar a música do maior de todos os compositores norte-americanos, Cole Porter. Tudo bem: são apenas oito faixas, o que é um pecado deixar de lado ao menos 20 composições importantes desse gênio da música. Por outro lado, estão presentes Love For Sale, Night and Day, What is This Thing Called Love, I Get a Kick Out of You e Just One of Those Things. Não, não é pouco. Dave Brubeck é um dos principais pianistas do jazz. Paul Desmond é o mais cool dos saxofonistas. Para muita gente, Joe Morello é um deus. E Gene Wright é uma fera domada apenas pelo piano do mestre. AQUI, esse discaço.

Chico Hamilton e Carson Smith são duas figuras conhecidas no mundo do jazz. O primeiro é um baterista de primeira; o baixista, competente e sério, é daqueles profissionais com quem todos apreciariam tocar. Pois esses dois + o sax barítono Gerry Mulligan e o trompetista Chet Baker, criaram um quarteto (sem piano) que está entre as grandes formações do jazz. As gravações de The Lady is a Tramp, Moonlight in Vermont e My Funny Valentine são definitivas. Mulligan é o melhor em seu instrumento. Chet é Chet – e ponto.