Mulheres #5: Ornella Muti, 63

Se você não viu A Garota de Trieste, veja! Ornella Muti, aos 27 anos, no esplendor da beleza! Algo fora deste mundo, um monumento, o máximo em sensualidade. Não, não veja pelo filme – que não é grande coisa! -, mas por Ornella, o grande motivo pelo qual boa parte da juventude italiana dos anos 1970 foi ao cinema. Assisti ao filme, chato como um disco de Daniel, no fim dos anos 1980, e a partir de então busquei nas saudosas locadoras da cidade qualquer filme em que Ornella fizesse participações, seja como estrela, seja como coadjuvante. Mas quem poderia, com uma beleza destas, ser coadjuvante?

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Dia desses, num desses canais por assinatura, dei de cara com Ornella contracenando com Silvester Stallone. Uma comédia de erros sobre gangsterismo: não é grande coisa também, embora seja assinado pelo sempre excelente John Landis, responsável pelos fundamentais Os Irmãos Caras-de-Pau e Um Lobisomem Americano em Londres. A luminosidade essencial da beleza de Ornella, entretanto, foi motivo para eu manter o controle remoto estacionado no canal. Creio que não existe atriz italiana tão bonita. Calma: Sophia Loren é hors concours. Ornella Muti foi a Princesa Aura em Flash Gordon e nos brindou com a prostituta Cass, em Crônica de Um Amor Louco – este, sim, um filmaço! -, ao lado do sortudo Ben Gazzara. Digo sortudo porque ele contracenou com ela também no filme que abriu esta postagem.

Ao recusar o papel de Melina Havelock, bond girl em 007 Somente para seus Olhos, de 1981, o passo para o estrelato não aconteceu. O papel, entregue então a Carole Bouquet, transformou esta última em estrela internacional, embora por pouco tempo. Apesar disso, estrelou, no mesmo ano, Ninguém é Perfeito, uma comédia italiana esplêndida de Pasquale Campanile, em que Ornella faz o papel de um paraquedista alemão que troca de sexo e se torna uma belíssima mulher – ela, no caso. O filme foi um sucesso retumbante não somente na Itália, mas em toda a Europa. Ei-la, contracenando com outro sortudo, Renato Pozzetto.

Ornella Muti envelheceu bem. Está com 63 anos, mantém-se bela e luminosa. Se o vigor da juventude não é expresso por motivos óbvios, aparenta o mesmo frescor dos primeiros anos de cinema, a mesma expressão jovem, límpida. Na comparação com outras belas conterrâneas, deixou Claudia Cardinale, Stephania Sandrelli, Gina Lollobrigida e Silvana Mangano para trás. Quanto a Monica Belluci, o papo é outro. É a próxima da série.

Vilões do Celuloide

Gosto de conversar com intelectuais. Considero-os o topo da cadeia, algo sacrossanto, estão a um passo da iluminação. Não estou sozinho nisso porque eles também se consideram assim. Conheço vários deles, e ligados também a múltiplas áreas. Quando versam sobre algo de que já ouvi falar, limito-me a aprender mais porque assim devem se comportar aqueles que reconhecem o próprio limite – no caso, eu. Há um tipo de intelectual que todos apreciam ser, até porque, para isso, não há necessidade de uma formação específica, nem muitos anos de estudo ou dedicação. Essa rara criatura é o conhecedor de cinema. Não, não falo de estudantes, críticos ou teóricos do assunto. Não é tão simples assim. Refiro-me aos reais conhecedores, àqueles que se esparramam pelas mesas de bar, loquazes, usam sandálias, discursam trechos inteiros de Herr Nietzsche e defendem, com os olhos rútilos, a produção cinematografia paquistanesa. Geralmente, perto deles, sou todo ouvidos. Meia hora de papo e me sinto diante de uma respeitável Pauline Kael regional.

Ouço-os falar de cinema. Todos eles assistiram às películas cruciais à formação cerebral do homem civilizado. Têm conhecimento sobre tomadas, sobre fotografia, sobre linguagem, sabem como adequar a música ao movimento, reconhecem o bom e o mau desempenho deste ou daquele ator, palpitam sobre figurinos e opinam sobre edição. Eu, de minha parte, gosto de ouvir e, como já mencionei, de aprender. Algo, porém, foge à minha compreensão: por que o cinema norte-americano virou o vilão da história? Por que, em roda de intelectuais, é tomado como o resumo da estupidez, da lepra visual? É claro que se tornou moda – há muito – elogiar o cinema indiano, o iraniano, o neozelandês, o europeu. Também é claro que têm eles seu valor. Há quarenta e cinco anos a coisa era assim: a Nouvelle Vague, o Cinema Novo e o Neorrealismo italiano formavam a trindade intocável do celuloide. Fellini, Glauber e Godard eram populares como Mickey Mouse e Donald Duck. Aos cineastas norte-americanos sobrava o vácuo intelectual.

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Acredito, com todo o respeito que os intelectuais merecem, que há um certo equívoco ao considerar o cinema lá de cima um cinema menor. Penso justamente o oposto. Não consigo vislumbrar nada melhor do que os filmes de Billy Wilder – que era austríaco mas fazia cinema americano como poucos. Alguém viu Farrapo Humano? Crepúsculo dos Deuses? A Montanha dos Sete Abutres? Pacto de Sangue? (Descartei as comédias porque sei o que a intelligentsia pensa delas). Quem, dentre os europeus, filmou melhor que Howard Hawks e John Ford? Falem a verdade. E quanto a Frank Capra, Robert Wise, George Cuckor, John Huston, Orson Welles, Elia Kazan, Stanley Kubrick, Sidney Lumet, Mervin Leroy, Otto Preminger, Raoul Walsh, Samuel Fuller, Fred Zinneman? Isso só citando o primeiro time, porque os reservas também goleavam. E mais: muitos estrangeiros, ainda que despidos do american way, fizeram filmes norte-americaníssimos, como Fritz Lang, Alfred Hitchcock, Jaques Tourneur e Douglas Sirk.

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Ok, tinham os melhores diretores. Tinham tudo, então? Não. Como qualquer intelectual sabe, se não há uma boa história sendo contada, não há um bom filme. Martin Scorsese – que bem poderia vestir a camisa de titular, assim como Francis Coppola, também itálico – já dizia isso. Tinham também os melhores roteiristas, muitos deles os melhores escritores na época: do sisudo William Faulkner ao obsessivo Dalton Trumbo, passando por Leon Uris, Gore Vidal e Tenessee Williams. Junte um bom barco e um bom timoneiro e não haverá oceano intransponível. E possuíam os melhores fotógrafos, os melhores cinegrafistas, os músicos de excelência, os figurinistas de primeira linha. Tudo isso porque tinham dinheiro? Bem, souberam aproveitar a grana criando uma fábrica de sonhos, que, para muitos – pelo menos para alguns atores e algumas atrizes –, tornou-se uma fábrica de pesadelos, mas isso fica pra depois.

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Penso – e isso é apenas uma opinião – que não se deve tomar como base o cinemão industrial cujo objetivo é produzir entretenimento e que serve para enriquecer ainda mais os chefões judeus dos grandes estúdios. Há setenta anos também era assim, mas com mais estilo e glamour e mais histórias bem contadas – e com menos propaganda. Mas o que dizer de Woody Allen, David Mamet, Robert Altman, John Landis, Lawrence Kasdan, Ridley Scott, James Ivory, Spike Lee, George Lucas, Steven Spielberg? Muitos desses estão vivos e produzindo, cada um a seu modo, um grande cinema. Muitos chegam a fazer suspirar os estudantes de comunicação, mesmo quando ninguém está olhando. Não entro na seara da animação ou dos documentários, nem na dos talentos revelados pelo Sundance de Mr. Redford, no cinema independente, no underground, nem nessa nova safra de diretores que tentam – com êxito, a meu ver – expor um novo caminho para a ficção do écran, como Tarantino, Sam Mendes e Richard Kelly. Demonizar o cinema norte-americano tornou-se a ordem do dia, mas uma ordem que se estende por pelo menos cinco décadas. E olhe que os verdadeiros demônios dessa história – os produtores, os doughmen – nem entraram neste texto.

Filmes (re)vistos #2: Clube dos Cafajestes, 1978

Críticos de cinema não gostam muito de comédias, embora reconheçam que Quanto mais Quente Melhor, de Billy Wilder, seja um dos grandes filmes já feitos. Como não sou crítico, eu gosto — e muito. E mais ainda dos filmes de John Landis, quando este se propõe fazer rir sem sequer passar perto dos recursos do slapstick, ou pastelão. John Landis fez, só para início de conversa, Os Irmãos Cara-de-Pau (The Blues Brothers, 1980) e Clube dos Cafajestes (National Lampoon’s Animal House, 1978). Poderia se aposentar com a certeza de dever cumprido. Ambos são protagonizados por John Belushi, o ator iconoclasta e anárquico que aporrinhava todo diretor com quem trabalhava. Com Landis, John Belushi comportou-se porque tinha um rival: o próprio Landis.

Escolho um para rever e comentar: Clube dos Cafajestes parece ser uma comédia para adolescentes — e é. Mas não para adolescentes que ouvem Jota Quest e passam horas e horas nas academias e de joelhos rezando para Youtubers sem graça e sem cérebro. Se você é um deles, esqueça. Tem de ouvir o Velvet Underground e gostar de dormir até tarde.

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O filme é sacana, despudorado, politicamente incorreto, debochado e esmaga sob o chinelo a própria adolescência que se preocupa em ser exemplo para a família. Daí se perceber que no filme ninguém presta — nem os estudantes certinhos que, em sua maioria, são rancorosos e egoístas. Belushi fala pouco — suas gags são físicas, seja no corpo, seja no rosto de sobrancelhas móveis como lagartixas. Donald Sutherland — um professor de literatura chatíssimo que fuma baseados diários — está impagável. A Festa da Toga — no fim da postagem, como aperitivo —, em que ninguém é de ninguém, é um dos grandes pontos altos de um filme feito para as alturas. Mas o bacana na película é o clima de guerra entre as fraternidades — o que já é uma contradição em termos. De um lado, os ajustados Ômegas; de outro, aqueles para quem eu torço: os Deltas. É o fraque contra o farrapo, e, no final, o farrapo sai ganhando — e, para sedimentar a vitória, destrói o desfile oficial da cidade.

Clube dos Cafajestes não pode passar na Sessão da Tarde. Há cenas consideradas desaconselháveis para menores — por isso ele é reprisado, de vez em quando, nesses corujões da Globo, durante as madrugadas insones. Não está na Netflix. Se estiver, não consegui achar. Se você dorme até tarde, é porque fica acordado durante toda a noite. Ou faça como eu: tenha o filme em casa, em blu-ray, recém comprado — é muito melhor. A propósito: se você não sabe quem é John Belushi, apresento-lhe:

John Belushi during Saturday Night Live's 'Weekend Update' skit on December 2, 1978 in New York.

AQUI, um aperitivo.

Filmes (re)vistos #1: Anti-herói Americano, 2003

Gosto de rever filmes, assim como aprecio reler livros, ouvir a mesma faixa do disco repetidas vezes etc. Comentei, há algumas postagens, sobre Quino, o extraordinário cartunista argentino. Também escrevi sobre Milo Manara. Em outras palavras, também admiro os quadrinhos e, no caso deste texto específico, admiro quando os quadrinhos se ligam ao cinema. Não, nada de Marvel ou DC, embora não chegue a desgostar de algumas películas que trazem Batman, X-Men, Superman & O Justiceiro. Como você poderá perceber, vou ao outro extremo para falar de um filme que considero dos melhores que vi nos últimos anos, e que revejo tanto quanto possível: American Splendor, que aqui no Brasil ganhou o título de Anti-herói Americano, criação conjunta dos diretores Robert Pulcini e Shari Springer Berman.

É bom saber: American Splendor é uma revista, um comic book que se fundamenta exclusivamente em fatos quotidianos, na cidade de Cleveland, Ohio. Os autores dessa revista-crônica são o legendário e maldito Robert Crumb e um tal Harvey Pekar, o anti-herói protagonista da película, um judeu depressivo unha-de-fome e amante do jazz que trabalha como arquivista – e por isso é frustrado. Não gosta do que faz e foi abandonado pela esposa que, ao deixar o lar em que viviam, disse não aguentar a vida plebeia. Resolve criar uma revista a partir de um fato solitário: ao organizar arquivos de óbitos, vê-se diante da ficha de um homem que trabalhara durante toda a vida num emprego como o dele. A partir de então, resolve criar uma revista, que se torna famosa e vende como chicletes, mas Pekar continua na mesma, até envolver-se com uma mulher tão esquisita quanto ele, que vê em todos os seres humanos sintomas neuróticos.

Só essa premissa, a meu ver, já valeria uma checada no filme, mas há mais: Harvey Pekar, com a fama, chega a sentar-se por algumas vezes na cadeira diante de David Letterman (sim, o do talk-show que o Jô Soares copiava) – até que os dois se desentendem e esse é o ponto alto do filme. Hilário e o mesmo tempo triste. Tudo isso realmente aconteceu. Pekar existe de verdade – e aparece no filme ao lado do ator que o interpreta, Paul Giamatti. Dessa forma, o filme desemboca na metalinguagem, bem arrumada, irônica, mordaz, por vezes muito engraçada. Giamatti é da safra daqueles atores que se sustentam pela força dramática apenas, e não pela estampa – aliás, ele é feio como um olho roxo e suas caretas expressam sua dor e seu desprezo pelo mundo que, reciprocamente, também o despreza.

O filme se constrói em película e em desenho, como se um fosse continuidade do outro – aliás, é exatamente isso o quem acontece. A técnica vem dos quadrinhos, o enquadramento flui como num gibi no qual não existem páginas viradas. Sempre se volta a elas, pois assim funcionam as boas histórias. Tudo bem: o leitor dirá que isso não é novidade. Não é mesmo. Caso o que importasse aqui, nesta postagem, fosse trazer algo novo a quem quer que leia, qual o propósito de rever um filme? Paradoxalmente, quanto mais o revejo, mais elementos novos observo. Talvez seja esse o real esplendor.

AQUI você vê um trailer do filme.

Mulheres #3: Nastassja Kinski

Nastassja Aglaia Nakszynski começou no cinema aos 13 anos, pelas lentes de Win Wenders, em The Wrong Move, um road movie de 1975 que trazia a presença luminosa de outra alemã, Hanna Schygulla, no papel feminino principal. Aos treze Nastassja já possuía a impressionante beleza que transformaria o atormentado Roman Polanski, três anos depois, num boquiaberto apaixonado, e seria justamente ele o responsável por apresentá-la ao mundo, dando-lhe o papel principal no belo filme Tess, de 1979.

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Depois: foi garota do circo (O Fundo do Coração) e esposa de Robert Schumann (Sinfonia da Primavera), tornou-se pantera numa relação incestuosa com o irmão Malcolm McDowell (A Marca da Pantera), foi refugiada iugoslava cujo marido era impotente (Os Amantes de Maria), envolveu-se com o agente antiterror Nureyev (Exposed), foi mulher do maestro Dudley Moore (Infielmente Tua), desfilou como uma sílfide por estações portuárias (A Lua na Sarjeta) e voltou, loura, stripper e mãe, para os olhos de Wenders (Paris, Texas) – tudo isso em 3 míseros anos. Tudo bem, tudo bem, alguns filmes são menores, reconheço, mas Os Amantes de Maria, O Fundo do Coração e A Marca da Pantera merecem menção especial.

A atriz deixou sua marca no imaginário masculino nos anos 80, principalmente por aparecer nua ao lado de Marcello Mastroianni dois anos antes, em Tentação Proibida, de Alberto Lattuada, um dos grandes nomes do Neorrealismo italiano. Foi o primeiro filme que vi, estrelado por ela. Pude ver suas curvas também em A Marca da Pantera – refilmagem de Sangue de Pantera, de Jacques Tourneur -, filme que fez dela uma celebridade e, mesmo assim, num determinado momento de sua carreira, ela isolou-se, deixando Hollywood a ver navios, órfã de uma acachapante beleza europeia que não tinha rivais em sua época. Voltaria mais tarde, casada com o produtor egípcio Ibrahim Moussa, com quem teve dois filhos e que fez uma ponta no filme Harem, estrelado por ela, em 1985. Um filme menor, em que ela faz uma belezura raptada por Ben Kingsley, um sheik árabe.

Os anos 1980 foram bons para Nastassja Kinski, mas não a década seguinte, quando ela resolveu percorrer os caminhos dos filmes de ação e protagonizou bombas como Velocidade Terminal e Crackerjack – Resgate Suicida. Outro sortudo que a teve como esposa foi o produtor musical e trompetista Quincy Jones, com quem teve uma filha. E por falar em paternidade, Nastassja é filha do lendário ator Klaus Kinski, um desajustado que publicou sua autobiografia – Kinski Uncut -, na qual insinua ter tido relações incestuosas com ela. O rompimento entre eles foi definitivo, a ponto de ela, em 1991, não ter comparecido ao funeral do pai.

A foto acima, de Richard Avedon, mostra Nastassja Kinski em sua imagem mais famosa – uma Eva moderna, muito mais bela que a concubina de Adão. Era o ano de 1981 e ela mal acabara de fazer 20 anos, estava no apogeu da beleza, no ponto máximo da sensualidade. Está ali para ser vista, admirada, contemplada. É toda sua, leitor!

Vendo (do verbo ver) um musical

Agora me diga: além de ser uma comédia de primeiríssima, que outro filme pode reunir três dos maiores cantores norte-americanos – Frank Sinatra, Bing Crosby e Sammy Davis, Jr. -, e ainda, de quebra, apresentar a voz firme de Dean Martin, o charme cínico de Peter Falk e a beleza exuberante de Barbara Rush? Pois se você apostou em Onze Homens e um Segredo, clássico de 1960, errou,  porque Mr. Crosby não estava nele, e a mocinha do filme é a deliciosa Angie Dickinson – que ainda perde para Barbara por alguns corpos de distância. O filme em questão é Robin Hood de Chicago, uma comédia musical dirigida por Gordon Douglas, feita há 53 anos. Mas porque ressuscitá-la? Primeiro porque revi ontem, domingo pós-Enem, no canal pago TCM. E também – principalmente – pelos motivos apresentados no início da postagem.

Eu gosto de musicais, essa invenção dos ianques, que representam uma era, um determinado momento estético em que tudo parecia dar certo, da música à coreografia, passando pelos cenários e pelos temas – quase sempre encharcados de uma ingenuidade sedutora, alegre. As produções grandiosas, as orquestrações e arranjos afinados, a excelência das canções – cujos compositores (ao menos  maioria) estão entre o que há de melhor na música popular do século passado – e, claro, a combinação de tudo isso aliada a histórias que não são esquecidas facilmente. E, para finalizar: musicais me proporcionaram conhecer Cyd Charisse. Quem é? Esta AQUI, num outro musical que não se encaixa na postagem.

À parte o fato de que três membros do temido Rat Pack – o quarteto formado pelos hedonistas Sinatra, Sammy Davis, Dean Martin + Peter Lawford -, o filme sobrevive por duas razões: é uma comédia atemporal, embora seu ambiente sejam os norte-americanos anos 30, e a história intertextualiza com uma das imortais lendas da literatura: o mito de Robin Hood e seu bando. Esses dois motivos já valeriam o ingresso. Mas há duas passagens que constam de qualquer lista de grandes cenas do cinema cômico: numa delas, AQUI, Sammy Davis, Jr. canta e dança e sapateia o tema Bang Bang. Numa OUTRA, os já citados senhores simulam um culto religioso no qual excomungam o energúmeno álcool. A música se chama Mr. Booze.  Se tiver tempo, deixe rolar e assista. Antológicas!

Escrevi, há poucas semanas, sobre La La Land, musical oscarizado, homenagem ao jazz. Não sei se o sucesso do filme criará uma onda que fará brotar novos filmes do gênero. Não creio. A meninada não aprecia muito. Quer ação, fantasia, heróis da Marvel. Eu, um tanto resignado, volto no tempo por conta desses canais de tevê, que enchem meu coração de alegria e me torna um romântico temporário. Por isso fico imaginando um musical com os quatro grandes mencionados + Tony Bennett, Nat King Cole, Johnny Hartman e Louis Armstrong. Um show e tanto, com o qual ficaria difícil rivalizar. Faltou alguém? Ah, sim, Elvis Presley. Bons sonhos, então, Grijó!

Kubrick, epifania

Qualquer dicionário decente define epifania como uma manifestação visual de caráter divino, revelação. Epifania é coisa de privilegiado, de alma santa, de sujeito iluminado – ou pelo menos assim se consideram aqueles que se envolvem com visões santificadas de caráter pessoal. Alguns usam da química para isso, mas aí a história é outra. Um amigo me disse que, ao assistir a um espetáculo operístico pela primeira vez (Don Giovanni, salvo engano), a vida se abriu diante dele, como se o que tivesse vivido até então fosse despido de significado. Tudo havia mudado por conta da música e do drama. Dia desses ouvi um jornalista esportivo afirmar que ter visto o holandês Cruijff jogar, ao vivo, nos anos 1970, havia sido uma de suas experiências reveladoras. Penso que tudo isso constitui a epifania, e me parece estar ligada, sempre, a algo que se move. No meu caso, o cinema, do grego kinema, movimento, num específico momento, proporcionou-me essa revelação.

Film Review: A Clockwork Orange – CineVue

Naturalmente não me sinto iluminado por isso, embora tal palavra me transporte a Stanley Kubrick, o cineasta meio maldito e gênio por inteiro. Kubrick dirigiu A Laranja Mecânica, ano de 1971, mas o filme chegou por aqui em 78. Proibido a menores, só fui ver o filme dois anos depois, no extinto e saudoso Dom Marcos, em Vila Velha, em frente à praça principal da cidade. Lembro-me bem de ter saído do cinema e não saber exatamente para qual direção seguir. Ok, um homem, aos 18, não sabe mesmo para onde ir, mas estou convencido de que o filme tinha muito mais a ver com esse desnorte do que a pouca idade.

O texto de Antony Burgess, no qual a película se baseou, e o qual fui ler algum tempo depois, não me abalou tanto. A razão é simples: movimento, a base da epifania. E a partir de então a linguagem meio joyceana dos personagens (mérito do Burgess, claro) e as imagens coreografadas de Kubrick me impressionaram, assim como o fizeram o behaviorismo governista, o estranho olhar de Malcolm MacDowell após beber leite narcotizado. Sem falar na violência amplificada, gratuita e profética, na sexualidade aliada à destruição, no threesome ao som de Guilherme Tell, de Rossini, na paraplegia do velho escritor comunista após ser surrado, ao som de Singin’ in the Rain. As famosas bolinhas pretas (as novas gerações ignoram isso), símbolo da censura da época, que acompanhavam, dançantes, as partes pudendas e expostas das personagens – tudo isso, e muito mais, provocou-me o mal estar que, sabe-se lá por quais mecanismos, gerou-me a epifania, a revelação.

How London has changed since Stanley Kubrick's A Clockwork Orange ...

Fui procurar, em Vitória, no outro dia, o livro do Burgess, e não o encontrei em nenhuma das poucas livrarias da ilha. E lembro-me, finalmente, de ter percebido, naquele momento, que o cinema saía do espaço do mero entretenimento e alcançava um outro objetivo: expor uma outra realidade que, diante de nós ou não, existe e tem cheiro, gosto, forma, som, efeito. Isso eu percebi algum tempo depois, mas já era tarde. Essa realidade, a do cinema, tinha se tornado mais reveladora que qualquer outra.

Phono 73: o que (ainda) há de melhor

Não sei se existe um festival, em terras brasileiras, que tenha sido mais representativo que o famoso Phono 73, realizado no Palácio de Convenções do Anhembi, em SP, nos dias 11, 12 e 13 de maio do referido ano. Quando digo mais representativo, claro que aludo ao fato de que, historicamente, essa reunião de grandes artistas influenciou gerações subsequentes, formou opiniões e apontou caminhos. A atual gravadora Universal chamava-se Phonogram, a multinacional holandesa que reunia grandes nomes da MPB, à época. Alguns eram mais conhecidos: Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Toquinho, Ronnie Von, Jair Rodrigues, Elis Regina, Vinicius de Moraes, Raul Seixas, Erasmo Carlos, Jorge Ben, Maria Bethânia, Wanderléa, Hermeto Paschoal e Wilson Simonal. Outros fariam história: Sérgio Sampaio, Luiz Melodia, Jorge Mautner e Odair José. Havia mais.

Imagem relacionadaNão se pode negar – nem se queria, acredito – que a tonalidade política do festival era clara. Em tempos de horror militar (no pós-apogeu do sangrento governo Médici), um aglomerado como esse não poderia ter outra denominação que não fosse reunião de comunistas. O diretor de marketing da empresa, Armando Pittigliani, sabia que tinha ouro nas mãos, mas reconhecia, naturalmente, o perigo explícito nesse tipo de evento. Uma de suas boas sacadas foi reunir todo o grupo numa grande fotografia em cujo pé se inscrevia: Só nos falta Roberto. É bom lembrar que Roberto Carlos recusou-se a participar – tinha seus motivos, e um deles era a aversão a contestações. O que, aliás, era o grande mote do festival. Uma contestação que ia da política à estética, passando pelo comportamento e pela linguagem.

Uma pena que o devedê dure tão pouco: mirrados 35 minutos, uma sobra do que foi o festival, mas, ainda assim, é o registro de imagens únicas, como as de Chico e Gil tentando entoar a emblemática canção Cálice, que só pôde ser gravada cinco anos depois, no famoso disco da samambaia, de Chico. Com os microfones cortados por ordens militares, Chico e Gil criam frases desconexas ao som da melodia. Outra imagem impressionante ficou por conta de Caetano Veloso: ao som de Asa Branca, ele dança como se estivesse possuído; depois se arremessa ao chão, grunhe e canta e geme.

Sérgio Sampaio, ao som de Eu quero é botar meu bloco na rua, simula um coito sexual com um parceiro imaginário. É um registro do que era a época: o desbunde que se misturava à atitude política. Gal canta Comadre Sebastiana; Toquinho, Vinícius e o copo entoam Meu pai Oxalá. Elis Regina foi vaiada – embora não se ouçam as vaias – por conta de ter, anteriormente, se apresentado nas Olimpíadas do Exército. Apesar disso, cantou Cabaré, de João Bosco e Aldir Blanc, e terminou ovacionada e perdoada por um público que reconhecia nela a maior cantora. O áudio digitalizado desse festival teve lançamento anterior: em 1997. As imagens, entretanto, não estavam disponíveis até 2005, quando foi lançada a caixa com os cedês e com o devedê. O título completo da obra é Phono 73 – O canto de um povo. Não sei se o povo teve algo a ver com aquilo, mas deveria ter tido.

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AQUI você assiste ao que existe de registro desse grande encontro.

AQUI e AQUI você ouve o disco duplo.