Abril, 13 (o cabotinismo)

Sabe o que o psicanalista Jacques Lacan, o filósofo e crítico literário Georg Lukács, o dramaturgo Samuel Becket, o poeta Seamus Heaney, o cantor Al Green, o compositor e cantor Sérgio Sampaio, o campeão de xadrez Garry Kasparov, o guitarrista Hillel Slovak e eu temos em comum? A data de nascimento: o décimo terceiro dia de abril. Sim, completo 58 anos hoje.

Como mando e desmando neste espaço, dedico a mim o conteúdo – especificamente a meus livros, e mais especificamente ainda aos 3 que ainda estão em circulação, sendo vendidos em livrarias (sim, ainda existem) e, principalmente, pela internet. Clicando nas capas abaixo, o leitor (sim, ainda existe) obterá informações escolhidas sobre as obras. Sim, sou cabotino.

2016, biografia
2013, contos
2019, romance

Quer informações sobre meus outros livros? Clique em O CHEFÃO, lá em cima, à direita. Ou AQUI. Dá na mesma.

Café da manhã, Campeão!

Li, não sei quantas vezes – creio que umas oito ou nove! – o livro Breakfast of Champions, de Kurt Vonnegut, Jr. No Brasil, saiu com o título de Almoço dos Campeões, numa edição que possuo, da finada editora Artenova, de 1973. Comprei na antiga (também finada) Livraria Capixaba, que ficava na Nestor Gomes, em 1981. É o melhor livro de Vonnegut – e quem fala aqui é um leitor voraz desse autor. De sua autoria, só não li a novela Sun Moon Star, os livros de contos Look at the Birdie, Palm Sunday e Canary in a Cathouse, a não-ficção Is This Isnt’t Nice, What Is?: Advice to the Young e as peças teatrais Between Time and Timbuktu, Fortitude e Happy Birthday, Wanda June! O resto (os outros 32 livros) está aqui, na lembrança da ótima leitura.

Kurt Vonnegut é uma de minhas obsessões literárias – assim como Julio Cortázar, Nelson Rodrigues, Murilo Rubião, Alejo Carpentier, Cabrera Infante, J. D. Salinger e Norman Mailer Na poesia, Alexandre O’Neill e João Cabral. Alguém já me criticou, afirmando que só leio autores do século XX. Errado. Se o verbo fosse preferir, eu concordaria, porque Balzac, Twain, Verga, Flaubert e Machado moram no meu coração. O papo, contudo, é sobre Vonnegut, cujo livro citado – meu preferido – foi recomprado numa livraria de aeroporto, com uma nova capa. Aquela, da Artenova, que ainda possuo – e que traz um outro título -, é assim:

A outra, comprada enquanto esperava o voo, e com a releitura iniciada, é esta:

Ok, ok: quem leu o livro compreendeu que usei um recurso que o próprio Vonnegut usou. Palavras e imagens criando um universo carregado de ironia, metalinguagem, narrativa aparentemente simples e dois enredos, que acabam por se comunicar por conta da ficção científica. Mais do que isso não digo. Retomando a ideia da narrativa aparentemente simples. Alguém disse – creio que tenha sido o jornalista Telmo Martino – que tudo o que é fácil de ler é difícil de escrever (e vice-versa). Vonnegut talvez seja a prova disso. Seus parágrafos parecem ter sido escritos sem a pretensão intelectual tão comum a escritores. É tão simples que chega a parecer que um escritor comum pode escrever aquilo. Esqueça. Se você é escritor, esteja certo: você não pode!

Café da Manhã dos Campeões é uma delícia de ser lido – e uma delícia ainda maior de ser relido. As personagens têm a caracterização necessária à curiosidade do leitor, e suas ações, todas elas aparentemente corriqueiras, trazem particularidades ora divertidas, ora apavorantes, como por exemplo o milionário bipolar dotado de ecolalia, ou o escritor de ficção científica cujos livros nunca foram lidos por ninguém – exceto pelo milionário bipolar dotado de ecolalia. O encontro entre os dois é de uma tristeza capaz de gerar riso. Relendo, lembrei-me de algumas passagens que me levaram a adiantar as páginas para encontrá-las. Que erro! Reler um livro de Kurt Vonnegut é surpreender-se com aquilo que pensou ter lido. Vou confirmar isso mais uma vez daqui a 10 anos.

O autor, numa foto de 1972, enquanto escrevia Breakfast of Champions.

Ave, Haroldinho!

No início deste último fevereiro, ainda curtindo o que me restava de férias, estive na cidade portuguesa do Porto, local agradável, com muita história para contar e cultura para esbanjar. Desde muito alimentava o desejo de ir à famosa livraria Lello & Irmão, um espaço localizado numa ladeira, com porta central estreita e um valor histórico absolutamente imensurável. Tenho um dicionário enciclopédico, em 3 volumes, dessa editora, adquirido por meu pai em 1967. Guardo com tanto carinho quanto zelo. Mas não é exatamente sobre o vigor intelectual de uma livraria histórica que quero falar.

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Não sei se vocês sabem – eu não sabia! -, mas J. K. Rowling, a milionária escritora inglesa mãe de Harry Potter, viveu um tempo em Portugal – mais especificamente na cidade do Porto, onde se localiza a Lello. Segundo se diz, era frequentadora do espaço e levou parte da estrutura da livraria para o universo mágico de Haroldinho. Sob sugestão de minha filha mais velha, li um dos livros da saga. Isso faz quase 20 anos. Não é grande literatura, mas diverte – e muito – o público adolescente. Divertiu-me também. Eis a questão. O que Haroldinho e sua turma fizeram pela Lello & Irmão? Já vou dizer.

Conversando com um sociólogo de 60 anos, nascido e criado no Porto, a Lello & Irmão estava mal das pernas. A maioria das livrarias do mundo está nessa condição. Contou-me que se comentava na cidade sobre o fechamento do histórico estabelecimento. Os intelectuais, professores e artistas preocupavam-se com o que consideravam vilipêndio cultural. Pois é. As pessoas não compravam mais livros, a livraria mantinha clientes, mas esses já não compravam o suficiente para mantê-la de pé. Veio então a notícia de que J. K. Rowling usara a Lello & Irmão como inspiração para a imaginária Flourish and Blotts, onde os pequenos feiticeiros compram suas específicas literaturas.

A coisa explodiu. A Lello passou a ser visitada por gente de todas as idades, principalmente por aqueles que consideram o Youtube e as redes sociais muito mais funcionais do que os livros. A garotada era compradora? Não, mas queria pisar as famosas escadas da livraria, mencionadas nos romances de Haroldinho. O que fizeram os gestores da Lello & Irmão? Estabeleceram um bilhete de acesso no valor de 5 euros. Caso alguém compre um livro, o valor é descontado nessa compra. Boa sacada!

Nenhuma descrição de foto disponível.

No fim das contas, o feiticeiro Haroldinho fez um bem aos livros, fez bem à Lello & Irmão, e de quebra se tornou personagem desta postagem. Quem poderia dizer que essa fase da vida, tão mal vista pelos intelectuais mas cobiçada pelo mercado de entretenimento, seria capaz de catapultar a importância de uma livraria de 114 anos? Pois é. Haroldinho pode ajudar, não importa onde esteja. Se você ainda não conhece a Lello & Irmão, comece por AQUI.

Saudosista, sim!

Meu querido amigo, o excelente professor, dramaturgo e ator Murilo Goes leu a recente postagem em que falei sobre Chico Buarque e Rubem Fonseca. Chamou-me saudosista, pelo whatsapp. Ele tem razão, embora o tom que comumente usam para tal expressão seja depreciativo. Na verdade, no que diz respeito a minhas áreas de interesse – cinema, música e, claro, literatura –, mantenho-me nos séculos passados. Isso não implica, logicamente, que eu não possa reconhecer que a produção contemporânea seja vantajosa, necessária e, em alguns casos, bastante representativa.

Não tenho dúvidas de que, por exemplo, o cinema produzido há sessenta anos tenha muito mais qualidade, em todos os setores – exceto, claro, naqueles em que a computação mete o bedelho –, do que os filmes produzidos na última década. Refiro-me às atuações, ao roteiro, à trilha sonora e, evidentemente, ao desempenho de quem está por trás das câmeras. No caso, o diretor. Assisto a filmes criados no ventre dos anos 1950 – de qualquer nacionalidade, incluindo a brasileira – e não vislumbro nada que, atualmente, possa rivalizar com eles.

Incomoda-me ouvir um adolescente referir-se a filmes em preto e branco como matéria arqueológica, algo mesopotâmico, assírio. E quanto à música? Talvez isso seja mais evidente e menos questionável. Escolha o gênero: jazz, blues, erudita, rock, MPB, samba. Existe algo, produzido nos últimos trinta anos, que possa ombrear – rítmica, melódica e harmonicamente – com os grandes nomes do jazz ou da música erudita, do rock, da MPB, do blues? Duvido. E antes que me acusem, deixo claro que não falo de gosto musical, porque isso diz respeito à visão pessoal. Falo de técnica.

Faço um parágrafo para me dedicar a minha área: literatura. Não só a produzo como vivo dela, tentando mostrar a estudantes sua importância. J. L. Borges, o extraordinário escritor argentino, afirmava que somente os livros escritos há mais de cem anos deveriam ser lidos. Não discordo, embora isso pareça paradoxal – e é, afinal, a quem se destinará os livros que escrevo? Certifico-me, antes de tudo, e isso de certa forma funciona como álibi, que nada de novo nem de inovador foi escrito nos últimos trinta anos. É claro que, mesmo como álibi, essa afirmação não justifica a inferior qualidade dos textos atuais, quando comparados ao que foi escrito em séculos passados.

Sim, o que está registrado literariamente no passado é, sem mácula na afirmação, muito mais bem acabado e realizado do que o que se faz nos tempos atuais. Se alguém duvida, leia Balzac, Dostoievski, Twain, Eça, Verga, Machado, um de cada país. Há muitos, muitos outros, que me vêm, de imediato, ao pensamento como exemplos essenciais. De outra coisa estou certo: reconhecer-lhes a magnitude, e respeitá-la como base e subsídio, é o verdadeiro estímulo para que se continue a produzir aquilo que, um dia, a olhos pouco treinados, possa tornar-se saudosista.

Leitura para as férias (autopropaganda com sinopse)

Resultado de imagem para fama volat francisco grijóConhece FAMA VOLAT, romance policial cujo cenário é Vitória, ES?

Não? Pois você pode conhecer a partir DAQUI.

Ou DAQUI.

Sinopse? Aí vai: duas mulheres – uma delas, marchande – são assassinadas no apartamento em que passam férias, em Vitória. O detetive encarregado do caso encontra ligações entre o duplo homicídio e o tráfico internacional de obras de arte. Descobre também a possível existência da Fama Volat, uma organização internacional que comercializa itens únicos ligados a várias artes (da pintura à música, dos livros aos filmes raros etc.). Sim, uma organização internacional cujas ramificações estão nas grandes cidades – mas também nas pequenas, como Vitória. Há crimes, há empresários, advogados, colecionadores, detetives. E há você, leitor, para testemunhar tudo. Boa leitura!

Se você já leu e quiser deixar um comentário – seja elogio ou crítica -, será muito bem vindo. Agradeço!

Em breve, em E-BOOK, a versão em INGLÊS.

 

 

Chico, Rubem: os bons tempos não voltam

Chico e Rubem não são os mesmos. O Chico de quem falo é o Buarque, carioca e compositor, possivelmente o maior nome da MPB nos últimos 50 anos. Sem exagero. O Rubem a quem me refiro é o Fonseca, ás do conto e do romance, foi a referência desses gêneros, no Brasil, por 30 anos. Como eu disse, Chico e Rubem não são mais os mesmos. Perderam o fôlego, não são – hoje – nem sombra do que foram, embora se mantenham entre os melhores em suas áreas. Continuam grandes, mas não são mais os maiores. Antes que eu me esqueça: continuo consumindo o que produzem, exceto, devo admitir, os romances escritos pelo meu xará. Não consegui ler Estorvo. Benjamin deu trabalho, mas terminei – com a sensação de que não deveria ter lido. Leite Derramado é chato de doer. Em contrapartida: os textos para teatro – Ópera do Malandro, Gota D’Água e Calabar – são ótimos.

O que Chico Buarque produziu de melhor (na canção) concentra-se nos anos 1970. Construção, Meus Caros Amigos, Chico Buarque (o disco da samambaia) e Ópera do Malandro são álbuns irrefutáveis. E eu diria té que o disco de 1981 – Almanaque – rivaliza com os títulos citados. Depois disso, só se salva O Grande Circo Místico, mas aí já é obra em parceria – com Edu Lobo, outro gênio. Já li gente dizendo que os anos de chumbo ajudaram Chico a criar. Isso é bobagem. Chico não criou porque havia repressão e censura, mas apesar delas. A questão que se pode levantar é que o nível criativo já não é o mesmo há, pelo menos, 30 anos. Nenhum outro disco dele, entre 1983 e 2018, tem o vigor criativo dos discos setentistas, com suas canções inesquecíveis e essenciais. NESTA LISTA você pode entender o que digo. Claro: é opinião pessoal.

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E quanto a Rubem Fonseca? Para muitos, ele é melhor no conto, esse gênero que, segundo Cortázar, vence o leitor por nocaute. Para mim, foi romancista de primeiríssima linha, se considerar dois livros: A Grande Arte e Bufo & Spallanzani. Depois disso, as narrativas longas perderam o viço, a linguagem repetiu-se, bem como as obsessões, as imagens violentas e as perversões tornaram-se clichês. O Doente Moliére quase foi uma exceção, mas perdeu-se ao tentar reproduzir, com ironia, um ambiente que somente os europeus conseguem vislumbrar. Foi craque nos contos quando trouxe à superfície O Cobrador, A Coleira do Cão, Os Prisioneiros e Feliz Ano Novo. Sinceramente? Nem meus ídolos Dalton Trevisan e Murilo Rubião rivalizavam.

Fonseca trouxe a crueza da realidade para a literatura contemporânea, e arrisco dizer que nenhum outro autor brasileiro sabia retratar linguagens distintas tão bem: do mecânico ao médico, passando passando pelo traficante, pelo advogado, pelo empresário, pelo garçom, pela prostituta, pela modelo, pelos grã-finos, pélos executivos, pelos atletas. Acho que ninguém fez melhor – até os dias de hoje. É sempre bom lembrar que, como Chico Buarque, Rubem Fonseca teve seu ápice: da metade dos anos 1970 até a metade da década seguinte. Depois disso, escreveu livros irregulares, alguns até interessantes ( Diário de um Fescenino, Agosto e A Confraria dos Espadas), mas nada que causasse surpresa. Os livros recentes, entre 2011 e 2018 – cinco, ao todo -, revelam um autor que não se reinventa. Isso, entretanto, não é um problema. O problema é repetir-se, e um leitor-fã, como eu, percebe isso.

A Grande Arte - Rubem Fonseca | MercadoLivre

Que fique claro, ao final de tudo (e repetindo): continuo a ler os livros de Rubem Fonseca e a ouvir as canções de Chico Buarque. Sou devoto, mesmo que crítico.

12 anos sem Norman Mailer

Numa seara habitada por Truman Capote, Gay Talese, Lillian Ross, Tom Wolfe e Hunter Tompson, destacar-se não era fácil. Pois Norman Mailer não somente se destacou, como foi o melhor do grupo. É o craque máximo do new journalism e um ficcionista de primeira linha, capaz de escrever sobre a 2ª Guerra Mundial (Os Nus e Os Mortos, clássico) com o mesmo primor estilístico que concedeu à biografia romanceada de Marilyn Monroe. Ou ainda escrevendo sobre uma de suas poucas paixões: o boxe. O livro A Luta, que versa sobre o embate entre Muhammad Ali e George Foreman, no Zaire, é um primor textual: nada se acrescenta, nada se omite. Fez mais: transformou Picasso em personagem, assim como o fez com o assassino de Kennedy: Lee Harvey Oswald. Em tempo: a obra de Picasso estimulou Mailer a desenhar. AQUI você confirma isso (é só comprar o livro).

O que torna Mailer tão especial? Talvez porque ele consiga algo que muitos escritores tarimbados tentaram, sem êxito: escrever ficção e falar de política ao mesmo tempo. Que eu me lembre, Gore Vidal conseguiu – e só. Provavelmente, após esta postagem ter sido publicada, eu me lembre de outro nome (mas não vou fazer adendos). A Guerra do Vietnam, o feminismo, os conflitos raciais, a relação USA-Cuba, as bandidagens das primárias para presidente, tudo isso era seu assunto, e foi uma espécie de destroçador do american way of life, que ele considerava uma baboseira nociva que precisava sempre ser atacada.

Resultado de imagem para os nus e os mortosNorman não se ateve à literatura, aos livros – ou ao jornalismo. Foi roteirista de cinema, escreveu para teatro e para a televisão, foi ícone contracultural, e despertou o ódio das feministas (e de qualquer pessoa normal) quando uma de suas esposas o acusou de violência: ele a esfaqueou duas vezes (uma estocada no peito e outra nas costas), com uma pen-knife. A propósito: Norman Mailer se casou seis vezes. A esposa esfaqueada chamava-se Adele Morales, pintora de origem peruana, e que morreu 3 anos após o ex-marido.

Hoje faz 12 anos que Norman Mailer morreu. Sinceramente? Acho que ele fez falta como escritor e como jornalista, principalmente durante os anos Obama, com sua dialética refinada e cáustica. Quanto ao governo atual, de Donald Trump, bem, acho que Mailer estaria salivando, pronto para estraçalhar a Casa Branca, demolindo-a, como fez com tudo que merecia demolição.

Donald & Joaquim Maria

Resultado de imagem para barthelmeConsta que o notável escritor norte-americano Donald Barthelme leu Epitaph of a Small Winner, do não menos notável Machado de Assis. Para quem ignora, Epitaph of a Small Winner é conhecido por nós, brasileiros, como Memórias Póstumas de Brás Cubas, o mais ousado dos romances do autor carioca. Consta que a partir de então foi aos contos, e leu vários deles, envolvendo-se cada vez mais com a narrativa do brasileiro. Li vários livros de Barthelme, e identifico pouca coisa em comum com Machado de Assis. Exceto, claro, pelo que vou escrever.

Escrevi sobre Barthelme nos primórdios deste blogue, há dois anos. Falei sobre O Pai Morto, uma novela deliciosamente sarcástica sobre a função paterna e de como ela deve ser questionada. Não sei exatamente por que figuras como Barthelme, o mexicano Juan José Arreola e o hippie Richard Brautigan são solenemente ignorados pela editoras brasileiras. Já escrevi sobre isso também. Mas não é sobre eles que quero falar. Ontem, dia 23 de julho, fez 30 anos que Donald Barthelme deixou este mundo. Não, não é uma metáfora. Ele morreu mesmo. Mantém-se vivo, entretanto, para aqueles leitores que creem na estranha fusão entre autor e obra.

Barthelme nasceu 23 anos depois de Machado de Assis ter morrido. Conheceu sua obra em 1972, quando o autor carioca era um defunto de 64 anos, e Barthelme, já escritor maduro aos 41, tinha publicado Come Back, Dr. Calligari, Unspeakable Practices, Unnatural Acts, City Life e o ótimo romance Snow White. Em outras palavras: se há alguma influência machadiana em suas obras, ela aparece nos livros seguintes – e mais principalmente em O Pai Morto, afinal o dito cujo, sendo carregado pelos filhos para o próprio enterro, passa a questionar se deve ou não continuar neste mundo. Isso sem falar no inabalável poder de quem está morto.

Poder, eu disse? Sim, já que aos mortos tudo é possível. Pelo menos é o que nos aponta o narrador das próprias memórias, Brás Cubas – ou o Small Winner, que despertou a curiosidade de Barthelme e que, possivelmente, inspirou-lhe a história de O Pai Morto. Se não, tudo bem. Para efeito de postagem – a minha! -, afirmo que sim. E enquanto afirmo, vou rezando (gerúndio adequado) para que os outros livros de Donald sejam traduzidos para a língua de Joaquim Maria. Quem sabe o que será do futuro?

Bueno, Contracultura, Cassidy

Eduardo Bueno é um jornalista que sabe escrever, sabe ir além do texto jornalístico e de suas regras de como fazer o leitor entender – muitas vezes o óbvio.  Ir além do texto jornalístico, para mim, é aproximar-se da literatura. Não espere, claro, que eu o compare a Tom Wolfe, a Truman Capote ou ao meu preferido, Gay Talese, craques do new journalism. Se é para iniciar esta postagem com alguma comparação, aproxime Eduardo Bueno de Ruy Castro, de Fernando Moraes. Devo dizer que esse não é o propósito deste texto.

Li, há pouco mais de dois meses, Textos Contraculturais, Crônicas Anacrônicas & Outras Viagens, do dito cujo. Uma reunião de textos – quase todos ótimos – sobre um tema que me interessa: contracultura. Escrevi sobre isso na biografia Os Mamíferos…, mas não é sobre mim que quero falar. Contracultura não é tema explorado há pouco tempo. Contracultura é, evidentemente, algo tão antigo quanto a cultura per si. O Iluminismo foi contracultural, bem como o Modernismo, catapultado pelas vanguardas que a Europa gerou. Enfim! Eduardo Bueno reúne textos que publicou entre 1984 e 2010, e mais um texto inédito, intitulado Quatro Mil Dólares e uma Ponta.

A maioria dos leitores de Bueno – aos menos aqueles que conheço – tiveram contato com ele pelos livros publicados pela Estação Brasil. Livros de História escritos por um jornalista – quer algo mais contracultural? Ao contrário deles, cheguei a Bueno através do livro Alma Beat, no qual se encontravam textos de outros simpatizantes do movimento, como Claudio Willer (tradutor de Lautreamont) e Antonio Bivar. Todos bons de traço, mas Eduardo Bueno era mais rock and roll, mais ácido, e tão divertido quanto esclarecedor. Eu tinha 22 anos, já era professor e pude ver o quanto eu não sabia – e quanto era necessário aprender!

Voltando ao livro: de todos os textos (16, ao todo), sem contar as crônicas, o que mais me chamou a atenção foi Visões e Revisões de Jack & Neal, escrito e publicado há 10 anos, no qual Bueno apresenta o tom de beatitude que exsudava da figura de Neal Cassady, um dos heróis da geração beat. É nesse texto que Bueno parece se emocionar, parece entregar-se ao que o movimento tinha de mais verdadeiro e honesto, mais inquieto e pujante. Há muito mais a dizer, mas um blogue precisa economizar as palavras, ou não será lido. Ok, não precisa perder seu tempo, mas ganhe de outro lado: leia o livro de Eduardo Bueno. É uma viagem de ida da qual não é necessário voltar.